A GLOBALIZAÇÃO, O ANONIMATO E OS CRISTÃOS CONTEMPORÂNEOS.

O mundo contemporâneo se define pela maneira de viver e compartilhar referências comuns em um mesmo período de tempo. Ou  seja, contemporaneidade é pensar na condição humana como em  perpétua redefinição. Mas o indivíduo contemporâneo é, sem nenhuma dúvida, mal circunscrito, sempre à espera da sua legitimidade, sempre por detrás de um desejo, sempre alheio e ainda assim, exigente ator, criador… Observamos, em muitas situações um cidadão solitário, anônimo demais apesar de compartilhar referências comuns. Por isso, a decisão pela promoção do indivíduo e o seu desenvolvimento pessoal é o único progresso capaz de nos fazer alcançar um ideal de modernidade. É no cotidiano destes indivíduos que encontraremos elementos para distinguir sua verdade dos erros cometidos no passado e auxiliar os mesmos a progredirem neste mundo globalizado. [1]

Os recentes sucessos de “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite” além de propagarem modismos como a música funk e o linguajar dos guetos, nos mostra claramente a atual cena de glorificação da cultura urbana e de sua violência; fica muito óbvio o endeusamento dos soldados do tráfico e dos “capitães nascimento” das milícias legais e ilegais. Do antagonismo claro entre o morro e o asfalto, tão alardeado pela mídia televisiva e jornalística, o “glamour” da violência que cada dia mais assola nossas famílias. Da busca do anonimato, pois “quanto menos me envolvo menos preciso tomar uma decisão”, não preciso reagir. Nada é mais contemporâneo. As referências (cristãs) familiares, sociais, morais e éticas foram, a muito, banidas de nossa sociedade. Antes de ser uma mutação benéfica, isto é um verdadeiro carcoma global. Ninguém é poupado e a sociedade como um todo, perde indivíduos, estabilidade e sua qualidade de vida. A barbárie impera principalmente porque o método de combate da violência focado em nichos sociais e em determinados espaços e instituições, não diminui a criminalidade e não aprimora o relacionamento entre os indivíduos.

Penso que o foco deveria estar na reabilitação do ser humano em grau máximo, amplo e irrestrito. Quer seja reabilitar o indivíduo que está engajado no contexto de violência e de caos urbano, quer seja reabilitar as “células-tronco” da sociedade: as famílias.

O fortalecimento da família é o primeiro passo a ser dado para uma reconstituição da malha social; nós cristãos deveríamos ser os mais preocupados em disseminar e praticar os mandamentos de “amor ao próximo”, de perdão e de inclusão de quaisquer indivíduos.  Mas a ética de muitos cristãos é relativa e situacional, semelhante aos que não conhecem a palavra de Deus e sua verdade absoluta. O encorajamento das rotinas familiares de amor e cuidado mútuo se faz cada dia mais necessário. É nos lares que a igreja se aproxima das pessoas para evangelizá-las e assisti-las. Infelizmente, Como bem escreveu Aloísio de Abreu [2]:

“Vivemos a era do monólogo, do “eu” exarcebado, do “meu espaço”, da “minha individualidade”, do “meu momento”, enfim, da Umbigolândia. E é cada vez maior a população desta estranha terra, ocupada por um único habitante, rei e súdito ao mesmo tempo: o ego.”

Mas, lavar as mãos e esperar pelo pior é atitude de alienados, egoístas e derrotados. Vivemos em um mundo onde a intelectualidade tem aniquilado a inteligência e a sabedoria; um mundo embotado pela vaidade humana, pelos maus desígnios do coração do homem e pela necessidade que sente de ser um deus, desconsiderando que jamais teria sido capaz de criar tudo o que tem destruído.

Fica cada dia mais claro que, existe uma ruptura do vínculo de dependência, de submissão e temor a Deus em prol de uma liberdade arbitrária e falsa, uma pretensa vontade humanitária que nos faz escolher errado, aprisionando-nos em dúvidas, medos, inseguranças e superstições, que acabam sempre em uma visão individualista, segregadora, em uma auto-suficiência mentirosa.

Diante de tais fatos, pergunto: E a disciplina doméstica que é boa para fazer homens responsáveis? E até quando vamos viver alienados, confinados em um mundo ideal que já não existe, perdendo a oportunidade de escrever uma história realmente verdadeira, usando o maior ensino que dispomos, a Palavra de Deus que gera um aperfeiçoamento do ser humano à medida que o conduz a uma mudança comportamental?

O individualismo que gera uma multidão de anônimos não acontece só aqui. É uma tendência mundial e já se tornou assunto de estudo de antropologistas como o já citado Marc Augé:

Os espaços ideais para o anonimato, os mesmos que recebem a cada dia um número maior de indivíduos, são as instalações necessárias para a circulação acelerada das pessoas e dos bens (vias rápidas, coletoras, estações, aeroportos) como os meios de transporte propriamente ditos (autos, trens e aviões). Mas também as grandes cadeias hoteleiras com habitações intercambiáveis, os supermercados se incluem também; de outra maneira, os campos de trânsito prolongado onde permanecem  estacionados os refugiados do planeta. O não lugar é todo o contrário de uma casa, de uma residência, de um lugar no sentido comum do termo. Sozinho, mas parecido com os outros, o usuário do não lugar mantém com este uma relação contratual simbolizada pelo bilhete de trem, pela passagem apresentada ao cobrador… Nestes não lugares, conquistamos o anonimato somente portando a prova de nossa identidade: passaporte, cartão de crédito.[3]

Existe uma multidão de indivíduos sedentos por relacionamento, mas que forçosamente cedem aos apelos da mídia e da sociedade consumista e violenta, se fechando em um individualismo desenfreado. Somos seres sociais e deveríamos prezar o outro, que infelizmente, hoje não passa de uma mera circunstância. Esta violência urbana tão decantada é um grito desesperado de socorro. Escutar, encontrar, suprir, trocar impressões, autoconhecer e ajudar o outro a crescer também é tudo o que torna suportáveis problemas modernos como egolatria, hedonismo, consumo desenfreado, escassez de amor, depressão e solidão. Em vez disso, mais egoísmo, individualismo e a anomia que nos faz indiferentes ao outro, e a tudo a nossa volta. É o fim da gentileza, da comunhão e do amor prático.

Comunhão e relacionamento são a celebração do outro. Há uma ilustração propícia para comunhão: um certo pastor perguntou a sua igreja o que ela preferia, ser um saco cheio de batatas ou um prato de purê? Alguns responderam que queriam ser um saco de batatas, outros de purê… O pastor então disse: no saco de batatas há união, mas se ele se rasgar, as batatas caem e se espalham… Não estão totalmente unidas, pois cada um conserva a sua individualidade ao máximo. O purê é feito de batatas amassadas, se virarmos o prato, sua consistência não o deixará cair ou separar-se.  Porque abriram mão de si mesmos e doaram-se.

Uma aparente união está povoando as igrejas, mas quando as provações chegam e o saco rasga-se, a indiferença espalha-se e cada um toma o seu rumo indiferente àquele que estava tão perto! Mas o purê foi amassado, preparado para ficar consistente. A comunhão é a presença de Deus nos unindo de forma indistinta para termos um bom relacionamento uns com os outros, a fim de agradar o nosso Deus. Ele nos amassa ao quebrar nossas rebeldias e profundos desejos de independência; Aquele que era egoísta torna-se purê; o que era indiferente, purê; o prepotente, purê também! O que não conseguia viver com os outros, nosso Pai o amassa para entender que sua presença deve ser sentida em comunhão! Vamos vencer o desafio de nos relacionar uns com os outros em verdade e amor para que o mundo perceba que o povo de Deus está em comunhão por causa Dele e possamos alcançar os descrentes! Somos o sal que deve impedir o apodrecimento deste mundo até que Ele venha!

Que Deus nos abençoe em tudo.

[1] texto baseado em tradução feita pelo autor de No lugares: Introducción a una antropología de la sobremodernidad, Marc Augé (1992).

[2] REVISTA O GLOBO, 23 de março de 2008.

[3] Idem ao 1.

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Sobre lucaspinduca

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