VIRTUALIDADES…

Compartilhamento. “(…) O intuito de poder dividir alguma emoção que porventura possa estar trazendo angústia à pessoa, ou em busca de ajuda ou aconselhamento” (Internet). As fotos de viagem, dos filhos, dos animais de estimação. As interpretações são várias, e todo um léxico se cria para dar conta das novas realidades, práticas, sociabilidades. Fato é que a frieza, o congelamento da afetividade e da própria sociabilidade não se evidenciaram de forma alguma, como prevêem os “apocalípticos”(Costa, 1999). Ao contrário, estes apostam no resfriamento total da interação, num refinamento das formas de distribuição e de consumo de produtos que pode levar a um consumismo e uma diferenciação ainda maiores do que o que marca a relação da cultura objetiva e da cultura subjetiva de hoje (Simmel, 1950). Vende-se muito pela internet sim. Paga-se contas. Outro dia, num dos grupos que freqüento, uma pessoa esteve 15 dias numa “cadeia virtual”. Isso significou o silêncio. Adrienne Cobbs passou um certo tempo sem poder colocar qualquer coisa no mural virtual, nem receber mensagens. Poderia, é claro, dar continuidade a quaisquer outros grupos de que porventura participasse, assim como escrever aos seus amigos pessoais. O ostracismo era na lista. Enfim, pode-se fazer quase tudo virtualmente. Para Costa (Costa, 1999) os “integrados”, o outro lado da medalha seriam os que “vêem nas últimas mudanças uma panacéia universal”.[1]

Em termos de linguagem, o próprio termo “virtual” é uma ruptura com um significado oposto ao que a palavra teve anteriormente, quando “virtual” significava presente e verdadeiro. Falava-se de “presença virtual”, “testemunha virtual”, “fatos virtualmente narrados”, “texto virtual”, “citação virtual”, num sentido bem diverso do que tais conjuntos de palavras, que continuam sendo usados, assumem no mundo informatizado. Mais recentemente vê-se a novíssima e curiosa configuração temporal proporcionada pela virtualidade, que reverbera em tudo que se faz neste momento. Surgida nos estertores do século XX, a era virtual traz outra escala de tempo: a instantaneidade[2]. No contexto de um mundo cada vez mais globalizado e sem fronteiras, abrem-se, com certa democracia, as portas de um território não-físico, o ciberespaço. Criam-se novas formas de subjetividade, mais hedonistas, com os avatares (representações criadas pelo próprio representado, que assume assim a tarefa divina de criar os seres), e até mesmo uma vida paralela, a second life, que não despreza o consumismo, haja vista as negociações de obras de arte nesse ambiente. Nos dias atuais, vive-se uma valorização do presente, em interessante contraponto à antiguidade e sua glorificação do passado e ao futurismo e sua crença no progresso do porvir. Mas até que ponto isto é bom para nós cristãos, visto que, a instantaneidade faz o pensamento ser substituído pelo visual, pela realização virtual das minhas vontades reais, e pelo não aperfeiçoamento real do ser humano quando o aliena do convívio?

(…) Além disso, esta mesma sociedade mergulhada na tecnologia e na virtualidade acaba por se encastelar, não se permitindo mais o contato direto com o outro em sua alteridade, portanto se ausentando de enxergar a desordem social e fatalmente à ausência de solidariedade e respeito ao próximo.” [3]

A grande verdade é, quando somos expostos a uma gama variada de informações (e vivemos numa época de informação em tempo real), sempre preferimos àquelas que reforçam nossas opiniões, nossos pontos de vista e gostos; logo, é natural que busquemos um grupo ou formemos um que aceite os nossos valores ou nos ajude a impingi-los a outros. É uma forma do indivíduo se proteger quando o seu comportamento entra em choque com a sociedade. Esta idéia de individualismo moderno, inevitavelmente, idealiza a violência e cria o padrão para a marginalização do indivíduo. Algumas “gangues” e quadrilhas são geradas basicamente seguindo este princípio. O indivíduo estigmatizado busca então um lugar em que o aceitem junto com suas idéias, onde o seu comportamento é tolerado e às vezes até reproduzido. Nesse processo do novo que se ajusta ao tradicional e antigo, o nível de tolerância aumenta e alguns hábitos ruins e “pequenos pecados” são visto como uma causa natural, não existe malignidade em quase nada.

Um caso comum são de pais querendo acreditar no melhor a respeito de seu filho e vivem dizendo que o problema é que ele está andando com a turma errada; mas os outros pais pensam a mesma coisa, nenhum de nós admitimos ser a turma errada. Mas é possível que um sub-padrão pode ser criado a partir de um padrão não existente [4]? Claro que não. No caso de algo sair errado, o comportamento novo não será execrado e voltaremos ao padrão antigo? A rebelião contra Deus não parece tão ruim se nós não somos os únicos a fazê-la; podemos ver que a moderna sociedade civilizada e culta costuma usar idéias evolucionistas, senso comum e o moderno humanismo para manter seus padrões anticristãos e punir os “rebeldes” e seus novos modismos ou idéias. [5]

Neste ponto, percebo a capacidade do universo virtual. Levanto os olhos do papel e olho a tela do microcomputador, à minha disposição como um cão fiel. A Internet tem maior poder que os games porque satisfaz interesses mais variados. Facilita, além das viagens por todos os quadrantes da imaginação, os chats, blogs, scraps das redes sociais, lan houses etc… Que, pelas conversas virtuais e clicando o mouse, repassam idéias, músicas, jogos, piadas, ou seja, todo um mundo de atrações que preenche a vida dos navegadores da web, moços ou velhos. Mães e pais deixam-na como amiga do peito dos filhos enquanto trabalham, se divertem fora de casa ou, não raro, curtem em separado a Second Life onde mergulham, na fuga diária do nosso real opressor. Não há preocupações maiores com o que os monitores podem estar expondo nos quartos aos olhos e mentes curiosos (e muitas vezes despreparados) dos adolescentes e jovens. É aí que mora o perigo, sabido por todos, mas negligenciado por muitos: sabemos que todos os dias surgem alertas contra vírus novos que farão estragos nos sistemas operacionais dos milhares de computadores e que são imediatamente combatidos. Mas, os vírus sociais, que são muito mais danosos, passam despercebidos da grande maioria; a pedofilia, a prostituição, o racismo, o tráfico e a violência são hoje, por causa da via favorável que é a rede mundial de computadores, muito mais perigosos e terríveis em seus efeitos. E não preciso lembrar que, a maioria dos problemas entre casais, e entre pais e filhos seriam resolvidos apenas com o exercício da conversação, que, embora  necessite de uma quantidade maior de boa vontade e tempo (porque não é tão instantâneo assim), é muito mais saudável.

Estamos na época em que as pessoas vivem mais para si mesmas, é o “neo-egocentrismo”, o ego como centro de toda realização humana, só que em um sentido mais individual, hedonista, completamente independente do outro, virtual. Agora aflorando em um mundo sem limitação de tempo ou espaço, onde o ego humano sozinho cresce sem os limites da moralidade e do relacionamento entre iguais, o que faz com que este indivíduo tenha uma idéia errada de si, do outro e do próprio Deus que o criou. Para quem vive no mundo cibernético, pós-moderno, virtual, e freneticamente movido por imagens, o relacionamento frasal é algo ultrapassado e “desconectado”. Os ícones e pictogramas, que são simplificações visuais para uma comunicação rápida e intuitiva, somados a uma quantidade de imagens e vídeos diminuíram muito o “exercício físico e real” das relações; sem conversar os relacionamentos ficam comprometidos. Ficamos perdidos e existencialmente confusos.

Sabemos que uma informação é valiosa pela sua capacidade de ser usada (a informação em si não tem significado), e em um mundo virtual, segue-se apenas o fluxo de informação, compartilhando-a, não existindo uma preocupação em agregar valor à informação recebida através de conhecimento, tornando-a útil. Fica claro que ninguém mais possui, nessa espécie de mundo privado, um padrão para filtrar, identificar, selecionar, ignorar e aproveitar melhor as informações relevantes. Além de que, esquecemos do conselho Bíblico de examinar tudo e reter só o que é bom. Neste caso, identifico dois itens importantes para a consumação e valorização da existência virtual: a transformação da realidade em imagens e a fragmentação do tempo em uma série de presentes perpétuos.  E isto talvez não seja uma questão apenas “psicológica”: para Lacan, a experiência da temporalidade humana (passado, presente e memória), a persistência da identidade pessoal através de meses e anos; a própria sensação vivida e existencial do tempo, são também efeitos de linguagem. Porque a linguagem possui um passado e um futuro, porque a frase se instala no tempo, é que nós podemos adquirir aquilo que nos dá a impressão de uma experiência vivida e concreta do tempo. A existência virtual permite-nos apenas viver em um presente perpétuo, não existindo um relacionamento frasal, com o qual os diversos momentos de seu passado apresentam pouca conexão e no qual não se vislumbra nenhum futuro no horizonte [6]. Pois é fato que o mundo real que nos rodeia é feito de palavras. Não temos acesso a realidade sem a mediação das palavras; é falando que apreendemos o mundo. Aliás, Deus criou este mundo falando, como nos ensina a Bíblia no livro de Gênesis. E no livro de Êxodo, quando Ele se revela ao homem Ele diz uma palavra, que é o seu nome. Não temos acesso a imagem de Deus, mas nós o conhecemos pela Sua Palavra! E se isso fosse pouco, à vontade de Deus revelada a nós está em um livro, a Bíblia, onde estão suas palavras; o próprio Jesus Cristo é a encarnação do Verbo (Jo. 1.14) [7].

Em outras palavras, a experiência virtual é uma experiência da materialidade significante isolada, e às vezes até desconectada e descontínua do real. Embora quem vive no mundo virtual, vive mais do que nós e com nitidez maior, uma experiência muito mais intensa de um definido instante do mundo, pois nosso próprio presente é sempre parte de algum conjunto mais amplo de projetos (em termos bíblicos, o projeto de Deus é mais alto e elevado que o nosso e Ele nos fala deste projeto), o que nos obriga a focalizar e a selecionar nossas percepções. Em outras palavras, não compreendemos o mundo exterior globalmente como uma visão indiferenciada: estamos sempre empenhados em utilizá-lo, sempre enveredamos por ele, sempre atentamos neste ou naquele objeto ou pessoa que nele está. Contudo, nos tornamos “ninguém” por não ter uma identidade pessoal, onde nosso desempenho é nulo, pois ter projeto significa estar apto a se envolver com alguma continuidade futura o que muitas vezes não existe no parâmetro virtual.

1 Texto de Simone Carneiro Maldonado DCS, Universidade Federal da Paraíba, Brasil, Antropóloga, Grupo de Pesquisa RELIGARE.
2 Marco Aurélio Fiochi, em http://www.itaucultural.org.br/index.cfm?cd_pagina=2720&cd_materia=66
3 Extraído do Artigo de Ana Paula Guimarães, O SIGNIFICADO E O SENTIDO DO AMOR NA MODERNIDADE, para a Revista Científica das  Faculdades Maria Thereza – FAMATh, Niterói, v. 5, n. 1/2, p.23-24 Jan/Dez. 2006.
4 Sproul, R.C., Cada um na sua, p. 39-40, 47, Mundo Cristão, 2000.
5 THOMPSON, Joyce, Preservando uma Semente de Justiça, p. 100-101, Graça Editorial.
6 Fredric Jameson, Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, n.° 12, pp. 16-26, jun. 1985.
7 Luiz Sayão, Revista Enfoque Gospel, p. 73, maio de 2007.
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Sobre lucaspinduca

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