A CRISE DAS INSTITUIÇÕES

A crise das instituições dá liberdade para que cada um procure um caminho próprio.

“Dois rapazes bonitos, musculosos, tatuados. E um carrinho de bebê. Um deles cuidava do filho. Mostrou-o com orgulho para outro casal. Na calçada, um amigo que chegava fez “festinha” nele.” 1

Essas cenas demonstram que as instituições sociais mudaram. Hoje a família, a igreja e o casamento vivem a revolução das novas maneiras de pensar e viver. Elas encarnam o espírito de uma época e determinam as novas maneiras de sentir, pensar e agir. As pessoas não acreditam mais que haja só um ou dois jeitos certos de viver. Como cristão tenho que reconhecer que a banalização do evangelho, a famosa “teologia disto, teologia daquilo”, contribuiu muito para isso; além de causar muita confusão e perda de tempo, ajudou esta sociedade, que vive uma reformulação dos seus valores, a considerar vantajoso novas maneiras de pensar, sentir e agir. Ninguém mais diz “esta é a religião verdadeira” ou “esta é a verdade” sem ser tomado por um fanático. Hoje, cada indivíduo é o produtor da sua própria verdade. E quem melhor do que o amigo para validar as crenças destes indivíduos de hoje?

O declínio da religião, concebida como um sistema de crenças dogmáticas, e a necessidade desta sociedade por uma nova espiritualidade são cada dia mais evidentes. A ciência pode ajudar a prever as consequências das nossas ações, mas nenhuma ciência é capaz de nos dizer como nós devemos agir numa questão de natureza moral. Por isso que esta nova espiritualidade implica numa nova conduta (virtuosa ou não), que pode encontrar na conduta do amigo o seu modelo.

Neste processo do novo que se ajusta ao tradicional e antigo, o nível de tolerância aumenta e alguns hábitos ruins e “pequenos pecados” são visto como uma causa natural, não existe malignidade em quase nada. Os pais querendo acreditar no melhor a respeito de seu filho não dizem sempre que o problema é que ele está andando com a turma errada? Mas os outros pais pensam a mesma coisa, ou seja, nenhum de nós aceita ser a turma errada. Por quê? Será que um sub-padrão pode ser criado a partir de um padrão não existente 2 ? Claro que não. No caso de algo sair errado, o comportamento novo não será execrado e voltaremos ao padrão antigo? A rebelião contra Deus não parece tão ruim se nós não somos os únicos a fazê-la; podemos ver que a moderna sociedade civilizada e culta costuma usar idéias evolucionistas e o moderno humanismo para manter seus padrões anticristãos e punir os “rebeldes” e seus novos modismos ou idéias. 3 Quando alguém está livre de um padrão busca construir um novo a partir das antigas referências, é neste momento que pergunto, e os cristãos que deveriam cumprir a ordem de Jesus expressa em Mateus 28.19-20? O que estão fazendo quanto a isso?

“A missão da Igreja não é apenas batizar os crentes, mas torná-los em verdadeiros discípulos de Jesus. E como se faz um autêntico discípulo de Cristo? O caminho foi mostrado pelo próprio Senhor: “ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei.” (Mateus 28:20, parte a, Nova Versão Internacional).

O Senhor disse que todo discípulo bem treinado será como o seu mestre. Ora, nosso mestre é o próprio Cristo (Mateus 23:10). Portanto, concluímos que todos os discípulos deveriam ser como Jesus; mas, não é o que temos visto.” 4

“Porque me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos mando?”

“Vós sois meus amigos se fazeis o que vos mando;”

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que ama; e aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele.” 5

Se todo grupo social forma e molda os seus participantes para fortalecer seu comportamento ou modo de ação, baseado em um código próprio, um padrão já estabelecido, é responsabilidade deste mesmo grupo gerir e aprimorar o indivíduo para assegurar a sua sobrevivência; a família é responsável pelos seus membros; um clube por seus associados; uma igreja por seus fiéis e etc. Ao contrário do que podemos observar na sociedade atual, o cuidado pelos participantes de um mesmo grupo beira ao egoísmo, o materialismo, e ao mercantilismo; e esta prática que tem atingido toda a sociedade moderna já chegou a igreja, onde a koinonia, a comunhão espontânea entre os membros da igreja primitiva (vide o livro de Atos dos Apóstolos) é algo cada vez mais deturpado, raro e que quase sempre gera dificuldades de relacionamentos, produzindo grandes cismas na igreja moderna.

Mas a crença cristã é que no céu não teremos este comportamento, porque seremos aperfeiçoados por Deus (Hb. 12.23). Então, até chegar aos céus, necessitamos praticar o respeito, o amor mútuo e a inclusão cristã, que não faz acepção de ninguém e onde todos são valiosos para Deus.

Sabemos que há liberdade para se descobrir o próprio caminho; e a Bíblia diz que só existem dois. Jesus Cristo deixou claro que entre tantos atalhos aprazíveis, somente a sua maneira de viver seria a escolha certa. Porque? Ora, Ele sabe que existe uma desvantagem em procurar encontrar o próprio caminho: sem ajuda torna-se uma tarefa difícil, solitária e exaustiva, que na maioria das vezes redunda no andar em círculo vicioso que não leva ninguém a lugar nenhum. E sempre nos afasta de Deus, não do deus genérico e distante, mas do verdadeiro Senhor.

Além disso, sabemos também que o evangelho de Jesus Cristo não é exclusivista. Então, quem não cabe no modelo e se sente fracassado, envergonhado e culpado por não corresponder a esses ideais, quem não consegue se “encaixar”, que se sente inseguro, sem chão e sem rumo, quem acha sua existência vazia e sem sentido, precisa de um novo projeto de vida. Aqui deveria começar o trabalho da igreja, buscar atingir estas pessoas com um comportamento excelente, uma vivência real e acessível dos ensinos de Cristo. Porque incluir no Reino de Deus significa que é preciso abraçar, envolver e amar todos sem exceções. Ensinando-os a tomar o fardo leve de Jesus e seguir os seus passos. Precisamos nos relacionar e juntos obedecer aos seus mandamentos.

Para isso precisamos que as referências que constituem nossa identidade sejam claras e bem definidas, tornando-se um guia sólido e trazendo segurança. Infelizmente a igreja como a instituição deixada por Deus para propagar a verdade bíblica e seus valores capazes de moldar um estilo de vida santo, perdeu-se entre tantas teorias e práticas e encontra-se mergulhada no relativismo ético. Agora é a igreja que precisa reinventar-se o tempo todo. Cabe aqui uma pergunta: o comportamento cristão não deve ser baseado UNICAMENTE no padrão deixado por Jesus Cristo? E Ele não é o mesmo ontem, hoje e eternamente? Jesus Cristo não mudou e tão pouco o seu evangelho. O que mudou foi nossa atitude, já que a obediência a Cristo não é mais tão importante somente o reconhecimento de sua autoridade.

“(…) Quando as igrejas cristãs não se sentem mais de acordo com o mundo à sua volta, mudam remontando, elas também, às origens ou ao que elas acreditam serem as verdadeiras origens do cristianismo. A ideologia da Reforma protestante, por exemplo, não é uma ideologia da mudança, mas do retorno à pureza do passado; ela se recusa como “mutação” para se apresentar como “recuperação” e como fidelidade à memória coletiva. Trata-se, entretanto, apenas, de ideologias que escondem, sob a continuidade, rupturas e mudanças profundas – ou que dissimulam, com a ajuda de fatores tranqüilizantes, as verdadeiras causas das mutações religiosas.” 6

É um grande erro achar que por meio do tempo (e às vezes das circunstâncias), a sociedade esteja desenvolvendo-se e executando uma progressão contínua para adiante; na verdade os eventos passados possuem uma forte influência na progressão da sociedade, que avança lentamente (isto é o próprio processo histórico) e nunca para melhor. As mudanças ocasionadas pelo passar do tempo nem sempre são boas, algumas são meramente, um arremedo (cópia mal feita) das situações anteriores, quase sempre colidindo com as expectativas das gerações mais novas, sempre rejeitando a tradição e os velhos conceitos (e que também acabarão se tornando obsoletos a cada novo ciclo por que “toda mudança é boa”). Esta nova geração para ser bem aceita, segue o padrão antigo, evitando assim uma possível rejeição, mas que acaba por repetir os mesmos erros cometidos anteriormente. Alguém já disse:

“(…) qualquer padrão moral que eu tenha vem dos meus pais. É algo que se passa de pai para filho na família… porém mais cedo ou mais tarde eu começo a viver a vida sem eles.” 7

Podemos ver até aqui que, a rigidez moral (moralismo), que usa o cristianismo como código moral não é suficiente para anular os estigmas, pois em alguns casos é a própria origem deles; mas uma base ética sólida, profundamente alicerçada nos ensinos de Cristo faz com que o indivíduo tenha um caráter e comportamento mais digno, íntegro e reto, mais responsável, mais solidário e misericordioso, fugindo deste modelo social atual, com excesso de liberdade, egocentrismo e individualismo; um indivíduo compromissado com a verdade e a santidade, que busca não se envolver com o pecado nem o tolera ou incentiva, que tem uma maneira de viver diferente, um autêntico cristão, portanto, que influencia e transforma o mundo a sua volta.

Existe um embate não tão velado entre o cristianismo, que nos apresenta um novo modo de vida e de comportamento, baseado no amor consciente, inteligente e que interage com um Deus sobrenatural capaz de providenciar a solução para toda a humanidade, e a eterna busca de respostas humanas para a solução de problemas humanos (o princípio básico do humanismo) decorrentes da natureza humana corrompida pelos muitos pecados, sendo o maior deles a não aceitação da nossa completa incapacidade de nos aperfeiçoarmos longe do controle e submissão a Deus.

Como a sociedade moderna prefere não acatar/aceitar o padrão divino, a desobediência às regras e a autoridade estabelecida pelo ensino bíblico, que é o único meio de justificar o nosso egoísmo, torna-se a raiz da derrocada humana; a responsabilidade é do outro desde o Éden; Adão transferiu a culpa para Eva e esta para a serpente. A não aceitação desta culpa nos distancia de Deus e nos impede de organizarmos uma sociedade sadia, não violenta, com uma visão de inclusão real, baseada não neste humanismo aguado, construído em cima de teses pseudo-sócio-marxistas, e censos estatísticos de governos, mas na verdade eficaz expressa na Bíblia, que acaba com todas as diferenças sociais quando aponta um único padrão a ser seguido: o de Jesus Cristo. Logo, todos pecaram e destituídos estão de comunhão com Deus.

E o que acontece então? As pessoas estão vivendo mais para si mesmas, é o “neo-antropocentrismo”, o homem como centro de toda realização humana, só que em um sentido mais individual, hedonista, completamente independente do outro. O ego humano sozinho cresce sem os limites da moralidade e do relacionamento entre iguais, o que faz com que este indivíduo tenha uma idéia errada de si, do outro e do próprio Deus que o criou. 8 Como resultado imediato, a nossa volta percebemos que cada um se defende como pode. Muita gente confunde tédio e angústia com depressão e acabam tomando antidepressivos. Outros desenvolvem comportamentos compulsivos: consomem demais, comem demais, malham demais, fazem sexo demais e deturpado, drogam-se, ou passam horas nas redes sociais, na esperança de aliviar o sentimento crônico de desamparo e solidão.

Chegamos então até aqui:

“A sociedade na qual estamos imersos vem denunciando, não é de hoje, a crise que enfrentamos seja concernente aos dilemas sociais, seja na banalização/naturalização dos mesmos. Vivemos numa sociedade de mercado, marcada pela pluralidade de situações que desafiam a todos a reverem posturas já consolidadas e legitimadas diante da exclusão, da violência, do caos social. Além disso, esta mesma sociedade mergulhada na tecnologia e na virtualidade acaba por se encastelar, não se permitindo mais o contato direto com o outro em sua alteridade, portanto se ausentando de enxergar a desordem social e fatalmente a ausência de solidariedade e respeito ao próximo.

(…) O amor se constitui num processo que acompanha o ser humano desde a sua concepção, mas a sua compreensão depende das relações que mantemos com os outros e, consequentemente, das experiências que as pessoas podem ter frente ao fenômeno afetivo/amoroso. O processo de construção do amor pode favorecer a evolução particular no/do ser humano, entretanto é lento e gradual, pois está relacionado a uma série de aprendizados, ações e interpretações para a sua dotação de sentido que, invariavelmente, os seres humanos constroem conjuntamente”. 9

Concluímos que enquanto não voltarmos aos primeiros passos, ao amor bíblico ensinado por Jesus em João 13.34-35: “Um novo mandamento lhes dou: Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros”, não ofereceremos influência benéfica e adequada para esta sociedade que cada dia mais, fará o mesmo que este casal gay do restaurante: juntarão as coisas de acordo com suas escolhas, inverterão o que for preciso e criarão uma nova forma de agir, pensar e viver de acordo com o que julgam necessário e sob medida para eles, a revelia de Deus, com o apoio de instituições em crise e da aprovação/desaprovação de quem quer que seja. A crise das instituições dá liberdade para que cada um procure um caminho próprio.

O que parece ser uma vantagem é prejuízo tanto para eles tanto para O Reino de Deus, já que, talvez ou nunca ouviram esta sentença: O mundo jaz no maligno e aquele que não faz a vontade de Deus está condenado junto com o mundo.

1 – extraído do caderno equilíbrio, coluna COISAS LOUCAS,  Folha de S. Paulo, 31 de maio de 2011.

2 – Sproul, R.C., Cada um na sua, p. 39-40, 47, Mundo Cristão, 2000

3 – Thompson, Joyce, Preservando uma Semente de Justiça, p. 100-101, Graça Editorial.

4 – Revista para EBD, Igreja Bíblica Cristã, volume I, janeiro 2005.

5 – Respectivamente, Lucas 6:46, João 15:14, 14:21, Nova Versão Internacional.

6 – “A maioria apóia e usa essa desculpa para justificar “mutações“ sociais a partir de comportamento religioso”, Sociologie des Mutations Religieuses in: BASTIDE, Roger. Le Sacré Sauvage et autres essais Payot, Paris, 1975.

7 – Sproul, R.C., Cada um na sua, p. 39-40, 47, Mundo Cristão, 2000.

8 – lloyd-jones, D. M., Estudo do Salmo 73, Editora PES.

9 – Extraído do Artigo de Ana Paula Guimarães, O SIGNIFICADO E O SENTIDO DO AMOR NA MODERNIDADE, para a Revista Científica das  Faculdades Maria Thereza – FAMATh, Niterói, v. 5, n. 1/2, p.23-24 Jan/Dez. 2006.

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Sobre lucaspinduca

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4 respostas para A CRISE DAS INSTITUIÇÕES

  1. Clayton Rozza disse:

    Um dos seus textos mais recheados de preconceito que eu já li. Uma extensão de pensamento retrógrado seguido de outro. Não vou entrar a essa hora no mérito de debate ponto a ponto, mas quero um post resposta em meu blog em breve.

  2. Pingback: Estamos distantes daquilo que acreditamos e o que fazemos? | Oficina do Pinduca

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