Nós e os outros

Neil Gaiman, um escritor americano, escreveu um conto chamado “Os outros”, onde o inferno é retratado como um lugar de relacionamentos rápidos, frívolos e quase impessoais; onde cada indivíduo é encarado como um demônio que infringe ao outro uma tortura física e psicológica na busca resignada do próprio conforto físico, emocional e social:

(…)

_ O tempo é fluido por aqui.

Ele soube que era um demônio no momento em que o viu. Assim como soube que ali era o inferno. Não havia mais que um ou o outro pudessem ser.

(…)

_Agora _disse o demônio com uma voz que não demonstrava sofrimento nem deleite, somente uma horripilante e neutra resignação _você será torturado.

(…)

Quando acabou, ficou sentado ali, de olhos fechados, esperando que a voz dissesse “de novo”. Porém, nada foi dito. Ele abriu os olhos.

(…)

Estava sozinho.

(…)

Na outra ponta da sala havia uma porta, que, enquanto ele olhava, se abriu. Um homem entrou. Havia terror em seu rosto, e também arrogância e orgulho.

(…)

Ao ver o homem, ele entendeu.

_ O tempo é fluido por aqui _ disse ao recém-chegado. [1]

A anatomia da alma humana é facilmente compreendida como um relacionamento. E isto vai além de uma metáfora. Porque é a nossa maneira de conviver e/ou lidar com as atitudes das pessoas a nossa volta que nos mostra claramente o estado psicológico em que nos encontramos, se estamos em paz com os outros e consigo mesmo; e se estamos em paz com Deus.

Para viver com qualidade de vida hoje, a nossa sociedade diz que necessitamos de muitos investimentos nas mais diversas áreas, que precisamos acima de tudo, de conforto e de meio ambiente saudável, de segurança e lazer, de saúde e educação acessíveis. Mas se vivemos em sociedade, os relacionamentos não deveriam estar no topo da lista? A solidão não é um mal? E as relações frustrantes que causam desesperos nas pessoas? Não é o amor um artigo escasso na cesta básica da “qualidade de vida” da grande maioria?

Em todo o mundo os fracassos nos relacionamentos estão ligados diretamente à procura por relações sem riscos, que coloquem fim à solidão. Infelizmente, relações sem exigências, sem doações dolorosas e 100% afetuosas não existem. A grande maioria busca então, desesperadamente, acabar com a solidão e o sentimento de inadequação social mergulhando em “casos”, “ficadas” e “rolos” com os chamados “peguetes” e “namoridos”; ou para ser mais claro, entram e saem de relações passageiras, carregadas de idealizações, sonhos e fantasias que acabam por não suprirem as carências afetivas, e muitas vezes, nem as sexuais. Bem, nós cristãos podemos simplesmente aceitar e nos render a estas situações, apenas satisfazendo os desejos da nossa vontade, “satisfazendo a carne”; apenas agindo como todo mundo ou podemos viver uma vida de integridade evitando a promiscuidade, os “rolos” e “casos”, além (e principalmente) das ciladas da Internet. Porque nesta vida somos constantemente colocados frente a frente com decisões entre o real e a fantasia. E no mundo da fantasia, que também inclui os sonhos, tudo é possível. Você não tem de enfrentar nenhuma limitação. Se você quer ser um pássaro, você será um pássaro. O problema é que estamos sozinhos nesse momento de idealização e fantasia, e não podemos dividir a experiência com outros. Mas se você quiser dividi-lo com outras pessoas, terá de lidar com o mundo real, e nele, infelizmente, é muito difícil ser um pássaro. Em um relacionamento fantasioso, idealizado e virtual, você tem a possibilidade de combinar essas duas coisas. Você pode ter um mundo em que tudo é possível e agradável; e até dividi-lo com outras pessoas, mas saberá que não será real e no final, você estará sozinho.

E por que temos essa necessidade de criar outras realidades? Fantasiar situações? Entre os possíveis motivos, acredito que por causa das nossas limitações. Somos criaturas sociais e fomos criados por Deus para nos relacionarmos uns com os outros como partes que se encaixam e se completam e nunca para sermos o centro, agindo muitas vezes com egoísmo, como se necessitássemos apenas de conforto físico e psicológico, pois é só isso que queremos na maioria das vezes: nos relacionar não para fazermos parte de algo maior e melhor, e sim para nos completar e estar “encaixados” na parte que nos cabe em um grupo social, numa época em algum lugar previamente escolhido. Queremos ser contados no rebanho e não importa qual rebanho, e sim a reputação que vamos adquirir por estar inserido nele. Mas como os nossos meios para fazer isso são muito limitados, pois somos separa¬dos uns dos outros pelos nossos corpos, cultura e distâncias e crescemos com cérebros e corações diferentes, ainda que capazes de trocar palavras uns com os outros, tocar uns aos outros e fazer muitas outras coisas, acabamos por buscar as facilidades da idealização e sonhamos acordados, imaginando recursos para de alguma forma, estar mais ligados, mais íntimos; fazendo parte do outro e do grupo que escolhemos, mesmo que esta relação não seja muito verdadeira.

Observando o ir e vir de pessoas no trato diário da igreja, percebi que o fracasso nos relacionamentos é constantemente mascarado, e até amenizado, pela busca religiosa (por isto o dito “religião é o ópio do povo” não está totalmente errado ainda que reducionista e preconceituoso). Fica claro que a religião aqui abraçada nunca é a verdadeira, mas uma criação própria de ícones que substituam tanto a comunhão como o próprio Deus verdadeiro (que sempre exige de nós um relacionamento no mínimo sincero com Ele e com os outros). Por isso o desapontamento e a frustração crescem em proporções absurdas no meio evangélico e cada dia mais, situações descabidas e totalmente fora dos padrões bíblicos, se tornam comportamentos costumeiros.

O ensino cristão baseado nos evangelhos nos apresenta o relacionamento como uma renúncia consciente e amorável; onde é preciso ser flexível para poder amar todo o tempo, perdoando tudo e todos, rompendo com o comportamento de massa do rebanho quando este exclui e estigmatiza; e ás vezes, até deixando de lado o nosso próprio conforto e direitos para que haja um avanço das relações dentro do Evangelho. Afinal, o Reino de Deus não é comida ou bebida, mas como está escrito:

“Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo. Aquele que deste modo serve a Cristo é agradável a Deus e aprovado pelos homens. Assim, pois, seguimos as coisas da paz e também as da edificação de uns para com os outros.” (Romanos 14:17-19) [2]

Imagine estar na mesma casa, comer a mesma comida e até ter laços sanguíneos, mas viver esperando uma oportunidade de massacrar e lançar o seu próximo, o outro, na cova. Muitos relacionamentos estão vivendo desta espera, da oportunidade para “virar a mesa”; esquecemos que o evangelho de Cristo não é relativo e nos condena ou absolve com a mesma parcimônia. Não podemos clamar por justiça se estamos na posição de culpados, isto é mortal para nós. Precisamos nos edificar mutuamente, que é o que Paulo ensinava aos romanos, porque a sociedade romana estava impregnada de relações incestuosas, mentirosas e traiçoeiras. E não devemos esquecer que o ganho próprio, um dos grandes pilares do senso comum, não pode suplantar a fraternidade e a solidariedade.

Se permanecermos debaixo do espírito do mundo em vez do Espírito de Deus, nós viveremos apenas buscando aceitação, sucesso, reconhecimento e posição. Mas a aceitação na nossa sociedade é sempre condicional; varia conforme o seu desempenho. O reino desse mundo é o da rejeição. O reino de Deus, porém, é de amor infalível. Ele não falha conosco se erramos ou caímos. Deus não é vingativo com relação às nossas fraquezas, mas imparcial. Não é influenciado pela aparência ou personalidade. Ele nunca abandonará os seus filhos. É um Deus de proteção, provisão, calor, ternura, brandura, delicadeza amorosa e justiça. Ele é tardio em irar-se; um Pai perdoador que se deleita em ser misericordioso e quer estar intimamente envolvido com os detalhes da vida de cada indivíduo. Não é pão-duro, nem possessivo ou materialista. Deus é bondoso, mas pode ser também muito severo a fim de preservar a Sua justiça:

“Considera, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas para contigo, benignidade, se permaneceres na sua benignidade; de outra maneira também tu serás cortado.” Romanos 11.22.

A beleza da santidade de Deus se revela a nós como sua justiça. Se não formos justos com os outros não seremos santos; sem santidade ninguém verá a Deus. E é o próprio Deus que nos incita: “Sede santos como sou Santo”. E ser santo é estar preocupado e ocupado em servir ao outro e a Deus. A base de todo bom relacionamento é o amor, seja ele fraterno, materno, filial, eros ou ágape. Então, “Ame a Deus acima de todas as coisas e ao teu próximo como a ti mesmo” e seja feliz de verdade!

[1] http://www.lojaconrad.com.br/trecho/coisas_p1.asp

[2] http://www.bibliaonline.net/

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Sobre lucaspinduca

I like to think I'm part cultural voyeur mixed with a splash of aspiring behavioral scientist and wannabe motivational christian speaker.
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