Enredados

A Internet há muito deixou de ser apenas uma rede de computadores; ubiquamente1 ela permeia o tecido social e se torna invisível. Vai sendo incorporada ao nosso ecossistema social de modo tão eficiente, que hoje muitos de nós não saberíamos mais viver sem ela. A dicotomia real x virtual já não faz mais sentido; ela é apenas um instrumento metafórico que nós, imigrantes digitais, usamos para fazer a ponte com os “analógicos”, e para que possamos entender a revolução que vai se desenrolando a passos largos. Para os nativos digitais2 essa dicotomia simplesmente não existe, assim como muitos outros dogmas e valores do século XX, que começam a ser questionados no novo choque de gerações.

De acordo com especialistas, somos bombardeados com trinta e cinco mil mensagens por dia. Todos os lugares aonde vamos, todos os lugares para onde olhamos, alguém está tentando chamar nossa atenção. Todos os políticos, publicitários, jornalistas, membros da família e conhecidos têm algo para falar para nós. Todos os dias, deparamo-nos com e-mails, mensagens de texto, outdoors, televisão, filmes, rádio, twitter, Facebook e blogs. Acrescente aí jornais, revistas e livros. Nosso mundo é um amontoado de palavras. E cada vez mais estou convencido de que uma boa comunicação têm tudo a ver com conexão.

Se você pode se conectar com outros em todas as esferas – individual, em grupos e com uma platéia – seus relacionamentos são fortes, sua percepção de comunidade melhora, sua habilidade de criar um trabalho de equipe melhora, sua influência aumenta e sua produtividade vai à estratosfera. Mas o que quero dizer quando digo “conectar-se”? Conectar-se é a habilidade de se identificar com pessoas e se relacionar com elas de forma que aumente sua influência sobre elas. Conectar também é agregar valor as pessoas. Por que isso é importante? Porque a habilidade de se comunicar com outros é um fator que determina seu potencial. Para ter sucesso em qualquer área de ação humana, até mesmo dentro do Reino de Deus, é preciso trabalhar com o próximo. E para fazer isso da melhor forma possível, você deve aprender a se conectar fisicamente e virtualmente.

Ok.  Chegamos aqui: “Conectar-se é unir-se, mas para se ter uma conexão, tem-se que ter afinidade”3, e falando de internet, para isso as redes sociais proliferam e “arrastam” multidões. É um dos objetivos destas redes sociais: conectar o indivíduo e levá-lo para a fase da mudança cultural onde, consequentemente, serão construídas novas celebridades da internet. Podemos observar que o indivíduo conecta-se com um grupo virtual com as mesmas afinidades que ele e passa a transitar de um espaço de colaboração intensa com laços fortes – pessoas com quem nos relacionamos online e também offline – para um espaço de colaboração com laços fracos4 – pessoas com quem nos relacionamos apenas online. Ainda nesse processo, temos claramente a percepção da troca de uma relação de colaboratividade para uma relação de individualismo.

Se o objetivo é relacionar-se para se impor, agregar valor ao outro para se auto-realizar (o fazer discípulos só pode ocorrer no movimento de discípulos de Cristo rumo a todas as nações – Mt. 28.19-20), quero sugerir ao leitor cristão5, que ele integre o encantamento pela Internet à liberdade para refletir sobre aspectos problemáticos relacionados às mídias sociais em geral e, assim fazendo, deixar o papel de “devoto” e assumir a co-autoria do que está acontecendo e irá acontecer no mundo interconectado.

Tenho visto que algumas redes sociais falham miseravelmente quando superestimam as afinidades de seus usuários e banalizam a comunicação e os relacionamentos produzindo um conteúdo que apenas fortalece o “fazer parte da irmandade dos adoradores incondicionais”.  Penso que pode ser também interessante e útil desconfiar desse aspecto higienizado e dogmático, aceitar as contradições que a rede mundial de computadores produz, e criar um entendimento próprio sobre o que essa ferramenta significa a partir do acúmulo de experiências e reflexões. Porque se percebo uma característica comum aos enredados virtuais é “Jamais procuram estipular pontos reflexivos que os levem a um senso crítico sobre as informações que estão sendo assimiladas no momento”6. Ora, este comportamento é uma degeneração da ideia original de conexão, pois produz uma série de imposições pseudo-culturais, coletivas e completamente inúteis. Alguém já bem disse: “Passamos horas descansando na frente de televisões, horas de lazer criando fazendas, aquários, cidades virtuais que ninguém no mundo vai me convencer de algo diferente: é impossível que isso esteja acrescentando ao ser humano”7. Para piorar, ainda temos como regra padrão de funcionamento, que toda rede “pega” seus objetos ou indivíduos por um processo de arrasto, onde não é utilizado nenhum outro atrativo ou subterfúgio. Basta estar na hora e no local em que a rede está “ativa” e será capturado. O que faz necessário uma disponibilidade para ser “pego”; um desejo de ser arrebanhado; a partir daí, o que as redes sociais em sua maioria criam, é uma cultura de grupo onde indivíduos não se movem, mas são movidos por paixões; que não agem racionalmente e por sua conta, mas se alimentam de entusiasmos e ideias estáveis. E por isso mesmo acabam sempre escravos das influências instáveis da maioria, das modas e dos caprichos…8

Ser, pensar, agir, estar sempre, obrigatoriamente, “como os outros” é amoldar-se ao deus “todo mundo”. É renunciar a própria individualidade, trocando-a pelo amorfo e medíocre “eu coletivo” das redes sociais. Por isto, estar “aprisionado” nas redes sociais, procrastinando todo tempo, conformados com este mundo é um dos mais modernos e graves pecados. E mesmo que a Igreja Católica tenha relativizado e reduzido o conceito de pecado e suas consequências, e haja uma tentativa de uma maioria em circunscrever o pecado ao plano físico somente, do ponto de vista bíblico, pecado é um corte na relação entre Deus e o ser humano, ocorrendo aí uma negação da humanidade, portanto algo muito mais perigoso e profundo porque ultrapassa a ideia de religião, já que é uma questão moral também. Visto por esta ótica, José Saramago errou ao dizer: “Quando a igreja inventou o pecado, inventou um instrumento de controle. Não tanto das almas (…), um instrumento de controle dos corpos. Aquilo que perturba a igreja é o corpo. O corpo com sua liberdade, o corpo com seu apetite. O corpo com suas ansiedades.”.

Este pecado virtual de se deixar levar pelo senso comum e estar “aprisionado” a rede, se torna um pecado real, pois mesmo praticado sem muita percepção, acabará por nos levar a uma adaptação moral às regras estabelecidas pelo “eu coletivo”. E todo pecado cometido por nós cristãos, aficionados por redes de relacionamentos ou não, é um pecado contra Deus e seus mandamentos expressos na Bíblia Sagrada (vide os capítulos 2 e 3 da epístola aos Colossenses). E ainda que o pecado para a grande maioria das pessoas esteja apenas ligado a compromissos éticos, a “nossa” ética engloba a conduta cristã, seus costumes e princípios morais e deve nos ensinar a fazer uma auto avaliação honesta à luz da Palavra de Deus. Se esquecermos os motivos de Deus e da necessidade de andarmos neles, nosso relacionamento com Ele já não é mais como antes; a prática de todas estas coisas nos levará a inconstância, a inconstância nos levará a mais descaso por Deus e seus mandamentos; e como somos covardes demais, acomodados demais para admitirmos, acabaremos por praticar sem prazer e sem alegria uma liturgia fria, um relacionamento superficial (tal como o que vemos nas redes sociais?). Mas isso não é o pior: porque antes de chegar a não ser fiel a Deus e ao próximo, você já deixou de ser fiel a você mesmo, pois a inconstância produz preguiça moral (não obedecemos mais aos mandamentos, as regras de boa conduta que aprendemos em casa, na igreja, na escola…), o deus “todo mundo” já reina absoluto na sua vida.

Lembre-se que as afirmações que Jesus fez sobre a conduta correta diante de Deus e dos homens continuam tão valiosas quanto a dois mil anos atrás. O mundo e a igreja são diferentes (veja o quanto na carta aos Efésios cap. 5) e apesar de não podermos deixar de amar os que ainda não se separaram desta sociedade mundana (Jo.3.16; Mc.16.15; Jd.22-23), entendemos que devemos nos submeter a Deus primeiramente, “Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor; andai como filhos da luz”9 até o fim. E o bom uso das redes sociais começa pelo bom uso do livre-arbítrio, já que a “liberdade aliada à compreensão gera uma vida legal”.

 

 

1-Ubiquidade É o sinônimo de onipresente. A expressão ubiquidade foi adaptada do termo ubiquitous computing que é utilizado para referenciar a computação e conectividade a partir de dispositivos autônomos como chips, celulares, smartphones, pads, notebooks, e interfaces computacionais conectadas.

 

2-Nativos Digitais são aqueles nascidos após o surgimento da Internet comercial, como citado por Marc Prensky (http://bit.ly/5tr04) em seu artigo Digital Natives, Digital Immigrants.

 

3-Maxwell, John C., 1947- Todos se comunicam, poucos se conectam: desenvolva a comunicação eficaz e potencialize sua carreira na era da conectividade / John C. Maxwell; [tradução de Bárbara Coutinho e Leonardo Barroso], – Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2010.

 

4- Wikipedia Interpersonal ties – http://en.wikipedia.org/wiki/Weak_ties.

 

5-Como Charles Hodge expressou isso:“Um cristão é alguém que reconhece a Jesus como o Cristo, o Filho do Deus vivo, como Deus manifestado em carne, que nos amou e morreu por nossa redenção. É também uma pessoa afetada por um senso do amor deste Deus encarnado, a ponto de ser constrangida a fazer da vontade de Cristo a norma de sua obediência e da glória de Cristo o grande alvo em favor do qual ela vive” – Extraído de Uma Vida Voltada para Deus, Ed. Fiel, p. 51.

 

6-Fedeli, Orlando. Cultura popular e Cultura de Elite, Cultura de Massa. São Paulo: Associação Cultural Montfort, 2008, p. 1.

 

7-Elisa Mendes, Coluna “Crônico”,  revista RAGGA, outubro de 2011.

 

8-cf. conceito expresso na mensagem do papa Pio XII, no Natal de 1944.

 

9- Carta aos Efésios, 5.8-9 – Almeida Corrigida e Revisada.



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Sobre lucaspinduca

I like to think I'm part cultural voyeur mixed with a splash of aspiring behavioral scientist and wannabe motivational christian speaker.
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2 respostas para Enredados

  1. Clayton Rozza disse:

    Meu amigo, muito bem escrita e clara a sua explicação do amálgama entre a vida social (“analógica”) e a virtual. Mas na sequência, creio que não ficou muito claro o que você espera de seus pares cristãos como relação de atitude no tocante ao comportamento diante das redes sociais. Uma outra afirmação que posso fazer é que você coloca passagens bíblicas na sequência de frases, mas o que dificulta o entendimento é não citação da passagem. Fica parecendo que o conteúdo da sua frase é o conteúdo da passagem. =)

    • lucasmalaguet@ig.com.br disse:

      O que desejo dos cristãos é que não mergulhem tanto no mundo virtual a ponto de esquecerem quem são e das responsabilidades inerentes a um discípulo de Cristo. Algumas referências eu coloco no rodapé e outras é necessário estar em dia com a leitura bíblica anual! Abraços Clayton!

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