Fim de ano, fim de papo.

Acredito que existam bilhetes não respondidos, “post-its” indesejáveis, memorandos e até alguns boletos bancários não pagos no meio dos papéis picados que são lançados pelas janelas no último dia útil do ano. Mais do que o desejo de se livrar dos problemas deste ano que finda, existe a ideia de progressão, de que tudo vai dar certo no próximo ano desde que esqueçamos os problemas atuais ou os entreguemos a quem possa resolvê-los; a esperança de que se os empurrarmos para fora de nossas vidas, aguardando o milagre da auto resolução com fé, algo acontecerá. Claro que, para a pseudo felicidade estar garantida ou o “fiz tudo o que podia” me permitir um falso senso de dever cumprido, devo sem culpa nenhuma acreditar em quase tudo: que uvas são mágicas; nas romãs está o segredo do universo; roupas coloridas são amuletos poderosos; até vencer pequenas ondas torna-se “O” ritual mágico.

Que o povo brasileiro é supersticioso eu não tenho dúvidas; o que ainda me comove é a não aceitação que algumas pessoas manifestam diante das consequências derivadas das suas maneiras de viver. Se a nossa existência pode metaforicamente aludir a uma prática agrícola, “tudo que semeares, colhereis”1, não deveríamos ser mais cuidadosos com as nossas atitudes? Senão pelo caráter cristão, movido pela fé, que seja pelo comportamento de manada, o famoso dito “a ocasião faz o ladrão”, ou seja, já que esta é a maneira de agir nestes dias vamos imitá-los!

O problema é… Se durante todo o ano eu mantive uma posição individualista, egoísta mesmo, pouco amistosa, meu auxílio nunca alcançou ou não visitei ninguém, não demonstrei graça para com o meu próximo. Ou pior, fiz apenas o que me cabia, não tendo nenhum interesse em dar o melhor de mim. Como esperar o contrário agora? Porque achar que mereço mais do que dei? Sem dúvida, para cristãos de ocasião, a vida frenética os leva a pensar que não há nada para acreditar. Mas há quem chegue exatamente à conclusão contrária: num momento de profunda desesperança é que se volta a crer. Até como um mecanismo de sobrevivência.

Cabe aqui um parêntesis, cabe dizer que o silêncio usado como resposta para as indagações acima, muitas das vezes pode não revelar arrependimento ou respeito. Mas apenas desprezo; pois o fato de não imputar culpa a ninguém e tão pouco a Deus não significa que reconheço algum sinal de grandiosidade, senhorio ou inteireza; apenas demonstra que não faço menção de quem não tenho interesse nenhum em dar crédito ou reconhecimento. Talvez daí venha o sucesso do papai noel. Ele simplesmente não traz nada para quem não se comportou bem; é inócuo contra o comportamento imoral e amoral. Acredite você ou não.

Alguns cristãos mais leigos e ocasionais não sabem que a religião não é a única forma de explorar a fé, muito menos de dar significado à vida. Quem não se identifica com nenhum deles, por exemplo, costuma procurar outras crenças. E crer em algo não significa necessariamente ser em Deus. Um ateu convicto pode ter fé em seu próprio papel na história da humanidade, na justiça social, no desenvolvimento sustentável do planeta, na democracia. Ele pode acreditar no poder da física quântica ou até mesmo nas chamadas “verdades universais”, que se sabe lá de onde vieram, tais como “Beber 2 litros de água por dia”, “Não existe pecado ao sul do Equador”, “O inferno está cheio de boas intenções”.2 Como escreveu Weber:

“O destino da nossa época, com sua racionalização, intelectualização e, sobretudo, desencantamento do mundo, consiste justamente em que os valores últimos e mais sublimes desapareceram da vida pública e imergiram ou no reino trasmundano da vida mística, ou na fraternidade das relações imediatas dos indivíduos entre si”.3

Em parte, eu concordo com Weber. Tanto é que muita gente muda de religião, torna-se atéia ou passa a acreditar em qualquer outra coisa que não necessariamente esteja ligada a uma religiosidade específica, como extraterrestres, duendes, bruxas, cristais. Mas só a fé em Cristo é que é o ponto de partida para o cumprimento da Lei de Deus, gerando um relacionamento que não fica somente na obediência a Deus como Legislador soberano, indo mais além, até um relacionamento de filhos para com o pai:

“E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai. Assim que já não és mais servo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro de Deus por Cristo. Mas, quando não conhecíeis a Deus, servíeis aos que por natureza não são deuses. Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?”4

Ou seja, quando moldamos o nosso comportamento ao pensamento de Cristo toda a sociedade sofre influência ética e moral porque somos muitos influentes quando transformados (e cheios do Espírito Santo de Deus): “E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus”5.

Mas se a adoção divina ainda não aconteceu para você, então é possível que uma chuva de papel possa muito bem simbolizar a terra recebendo uma benção do “Alto”, de cima mesmo, ou estar sendo preparada para uma colheita. Salomão escreveu: Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu (livro do Eclesiastes 3.1).  Talvez, você pense, “ninguém tem nada a ver com a minha vida. Eu sou dono do meu destino”, ok, fim de papo. Vou apenas aguardar que você “volte” para casa qualquer dia neste novo ano.

1- http://www.bibliaonline.com.br/acf/mt/7 ênfase no versículo12.

2- http://www.itaucultural.org.br/impressao.cfm?materia=742 .

3- A CIÊNCIA COMO VOCAÇÃO, Max Weber, Editora Guanabara, 1982.

4- http://www.bibliaonline.com.br/acf/gl/4  ênfase nos versículos 6 até o 9.

5- http://www.bibliaonline.com.br/acf/rm/12/2

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Sobre lucaspinduca

I like to think I'm part cultural voyeur mixed with a splash of aspiring behavioral scientist and wannabe motivational christian speaker.
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2 respostas para Fim de ano, fim de papo.

  1. Clayton Rozza disse:

    Acho que o texto não se lembrou das pessoas que não fazem nenhum tipo de ritual na passagem do ano ou em qualquer outro momento de sua vida. Eu sou um exemplo disso. Além do mais, declarar como “superstição” – coisa que concordo – esses atos ou mesmo os rituais de passagem não cristãos, é tirar do cristianismo sua própria condição de crença baseada em nada a não ser a fé.

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