Filosofando a fé

“Assim, uma primeira resposta à pergunta “O que é Filosofia?” poderia ser: A decisão de não aceitar como óbvias e evidentes as coisas, as idéias, os fatos, as situações, os valores, os comportamentos de nossa existência cotidiana; jamais aceitá-los sem antes havê-los investigado e compreendido.

Perguntaram, certa vez, a um filósofo: “Para que Filosofia?”. E ele respondeu: “Para não darmos nossa aceitação imediata às coisas, sem maiores considerações”.1

 

Sob vários aspectos, podemos dizer que o cristianismo não precisa de uma filosofia:

– Sendo uma religião da salvação, seu interesse maior está na moral, na prática do ensino virtuoso deixado por Jesus, e não em uma teoria sobre a realidade;

– Sendo uma religião vinda do judaísmo, já possuía uma idéia muito clara do que era o Ser, pois Deus disse a Moisés: “EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós. E Deus disse mais a Moisés: Assim dirás aos filhos de Israel: O SENHOR Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó, me enviou a vós; este é meu nome eternamente, e este é meu memorial de geração em geração.”(Êxodo 2.14-15)

– Sendo uma religião, seu interesse maior estava na e não na razão teórica, na crença e não no conhecimento intelectual, na Revelação e não na reflexão. “Crer para compreender, e compreender para crer”. A filosofia então é o instrumento que auxilia o trabalho da teologia. 2

Mas se a Filosofia é uma “ferramenta” teológica, ela não deve ser usada para fundamentar o comportamento, mas sim para pensar e fazer pensar uma nova moral, uma ética nova, esta mais elevada, buscando mudar o pensamento comum (e suas regras) pela apresentação de um comportamento novo, que no caso cristão é o comportamento de Cristo. Ou seja, quando moldamos o nosso comportamento ao pensamento de Cristo toda a sociedade sofre influência ética e moral porque somos muitos influentes quando transformados (e cheios do Espírito Santo de Deus), Romanos 12.2.

Então, nosso alvo quando estudamos filosofia deve ser a filosofia da religião; E também a própria Bíblia, onde os evangelhos nos mostram que o ensino de Jesus é diferente de todos os outros que viveram antes ou depois dele, pois não é um sistema filosófico, teológico e ético comum, e sim, um pensamento divino muito diferente dos filósofos e pensadores como Durkheim, Agostinho, Tomás de Aquino, Kant e muitos outros, que apenas teorizavam sobre a religião. Pois além da qualidade do argumento, Jesus vivia o que ensinava e demonstrava poderosamente o seu didaché.

E quanto a Jesus Cristo não ter escrito nada, suas declarações estão, quase todas, expostas nos evangelhos, Jesus falava sem distinção com todos e seu ensino abrange todas as áreas da atividade humana, por isso os relatores dos evangelhos aproximaram o seu texto, anos depois, o mais fiel possível aos seus ensinamentos e declarações, pois entenderam que suas palavras são a própria revelação de Deus e seriam importantes, necessárias para que seu público alvo tivesse um retrato fiel de Jesus Cristo e da própria revelação divina. Enquanto a Filosofia, desde a antiguidade ela vem passando por transformações e acréscimos, vem sendo repensada. Vale lembrar que a Filosofia não era vista apenas como um corpo de idéias. Na antiguidade, Ela tinha um caráter de culto e adoração, ou seja, era vista como religião tanto entre os gregos como em muitos outros lugares. 3

Como uma religião o Cristianismo não é mera filosofia; é mais do que um sistema de idéias ou de bons conselhos. O Cristianismo diz aos homens não só o que eles devem fazer, mas também lhes fornece o poder de fazê-lo. Esse poder é salientado na vida dos crentes somente quando este confia em Cristo piamente (Hb. 11.1-6). Em Romanos 10.7 lemos: “De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus”. Não existe crença intelectual substituindo a fé aqui.

O conceito grego de fé, pistis, pisteuõ que é utilizado até hoje, pressupõe um entendimento da realidade, das causas e seus efeitos e do comportamento das coisas. Fé bíblica é algo que define o ser humano a respeito de sua interação com os outros e com Deus (Tg. 2.1; 2.24). Fé bíblica significa o abandono de toda a confiança nos próprios recursos; é um lançar-se sem reservas nas mãos misericordiosas de Deus; e apegar-se às promessas de Deus em Cristo, bem como do poder do Santo Espírito de Deus, que no crente habita, para dele receber fortalecimento diário. Fé implica em completa dependência de Deus e plena obediência ao Senhor.

Outra coisa a observar é que a maioria dos cristãos não tem dúvidas existenciais, porque não se agarram/conformam com filosofias e pensamentos mundanos, idéias de profanos ou doutrinas de demônios, e sim moldam suas mentes adquirindo a de Cristo! E se sabemos que fomos criados por Deus para Louvar o seu nome e glorificá-lo todo o tempo, sabemos de onde viemos e para onde vamos e que nossa existência está muito bem esclarecida na Bíblia e devemos crer nisso.

Entender que o homem precisa de Deus, mas o único caminho de volta para o lar é Jesus Cristo, que é poderoso para salvar e gerar uma nova criatura, uma criatura transformada em todas as suas dimensões: razão, coração, alma, corpo, espírito, emoções e relações; é um passo que deve ser dado por fé.

O fato de acreditar e ver acontecer o que acredito é algo só possível aos seres humanos. É um presente de Deus para nós e define o limiar de nossa racionalidade e intelectualidade; como interagimos com a natureza e as coisas inanimadas, com o outro e com o próprio Deus. Fé é compreensão de tudo e de todos e esta define a nossa maneira de existir e se relacionar com Deus. Fé então, não é Filosofia, ainda que positiva, mas não é. Filosofia “pensa” a fé e até ajuda você a apoiar a sua fé em algumas idéias e conceitos, mas Filosofia não é fé.

 

“Em outras palavras, Filosofia é um modo de pensar e exprimir os pensamentos que surgiu especificamente com os gregos e que, por razões históricas e políticas, tornou-se, depois, o modo de pensar e de se exprimir predominante da chamada cultura européia ocidental da qual, em decorrência da colonização portuguesa do Brasil, nós também participamos.” 4

 

 

1 Marilena Chauí,  Convite à Filosofia,Ed. Ática, São Paulo, 2000.

2 Aranha, Mª. Lúcia de Arruda, Martins, Mª. Helena Pires, Filosofando, Introdução à Filosofia, Ed. Moderna, 1990.

3 Flávio de Oliveira Pereira, Curso de Teologia à Distância, Cristologia e Antropologia, Alfalit Brasil, 2007.

4 Idem 1.

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Sobre lucaspinduca

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