A PERSISTÊNCIA DA MENSAGEM DIVINA AO LONGO DOS TEMPOS

Para os gregos, o humano é definido, por oposição ao ser vivo não humano, como um “ser vivo capaz de discurso” (zoon logon ekhon) e, como tal, capaz de ser um “ser vivo político” (zoon politikon).1
Quanto à natureza desse discurso, como diz Aristóteles, “[o]s sons emitidos pela voz são os símbolos dos estados da alma, e as palavras escritas são os símbolos das palavras emitidas pela voz”; embora as palavras faladas e escritas sejam variáveis de homem para homem (de povo para povo), os estados da alma são “idênticos em todos, como são idênticas também as coisas de que esses estados são imagens” 2 – o que abre, desde logo, a possibilidade de uma comunicação (tradução) universal.
Ora, aquilo que o humano é, o é em cada época definido por oposição/relação – àquilo que o humano não é, ao não humano. Nessa definição do humano, a comunicação sempre assumiu, ao longo da história, um papel essencial.
A fala, porém, acabaria por somar-se à força como instrumento de dominação do homem pelo homem. A fala dos mais velhos, a fala dos mais sábios, a fala dos mais brutos, a fala sutil do mais moço e mais fraco que aprendeu a contrapor a esperteza à sabedoria e à força bruta.
A essa fala, que se movia com o vento, somou-se depois outra: a fala dos signos perenes, as representações que dariam sentido gráfico à vida, nas paredes das cavernas, sobre as pedras, no couro dos animais, assumindo progressivamente a forma cada vez mais sofisticada da fala escrita.
O mundo, tanto da idade antiga quanto da idade média, era, para os homens e as mulheres daqueles tempos, um mundo pequeno, esse mundo, entretanto, logo se alargaria, movido por uma força que começava a brotar no homem, de estender para horizontes cada vez mais distantes as suas possibilidades de comerciar, esse modo novo de relação econômica, política e cultural que se estabelecia entre os homens e as mulheres da época; os novos mercados, de burgueses, passavam já a não mais caber nos limites estreitos do mundo conhecido daqueles tempos de antão. Assim, a cada passo que dava o homem em sua história, lá estava à comunicação como elemento determinante da sua essência mais vital.
Nos livros de história, a “invenção” da imprensa (fala escrita) é atribuída a Johann Gutenberg. O criativo tipógrafo alemão foi, entretanto, na realidade, apenas o inventor da prensa de tipos móveis, por volta de 1440, a qual possibilitaria a partir daí o aparecimento de uma literatura de “massa”, ou seja, a produção em um número cada vez maior, para um público cada vez maior, de obras impressas, a primeira delas sendo uma edição histórica da Bíblia, possivelmente em 1450.
Com o surgimento do primeiro grande meio de comunicação de base técnica, a imprensa, a burguesia em ascensão revolucionária começa a decidir seus próprios destinos.
Mais adiante, os efeitos da revolução industrial não poderiam ter sido mais radicais sobre a fala escrita. Os avanços da técnica permitiam que as velhas prensas manuais fossem sendo substituídas por prensas mecânicas a vapor, capazes de imprimir os exemplares dos jornais, em quantidades maiores a velocidades cada vez maiores. Acabou resultando na primeira grande amplificação da fala do homem na história, a imprensa de massa do fim do século XIX.
Mas, essa amplificação veio acompanhada de outros desenvolvimentos técnicos consideráveis no campo das comunicações.
Em 1844 ecoava na Inglaterra, como resultado dos trabalhos científicos de Samuel Morse e Sir Charles Wheatstone, a primeira mensagem telegráfica pública. É mais ou menos dessa época a invenção, por Thomas Edison, do gramofone, a possibilidade de reprodutibilidade técnica da voz. Antes, em 1839, um francês, de nome Daguèrre, inventara a reprodutibilidade técnica da imagem, pela fotogravura, ou fotografia. Já em 1857 circulavam mensagens entre a Europa e a América pelo primeiro cabo telegráfico submarino. Pouco depois, em 1876, Graham Bell emitia a primeira mensagem telefônica por fio; 19 anos depois, em 1895, Marconi e Popoff propagavam mensagens telefônicas sem fio.
Mas, é a partir de 1895, com o surgimento do cinema, da imagem em movimento; e de 1906, quando Fessender difunde a voz humana pelas ondas radio-elétricas, que a fala do homem iria passar talvez pela sua mais radical inflexão desde a invenção da escrita. Essas enormes transformações iriam encontrar o seu meio síntese a partir de 1923, com a invenção de um novo aparelho, nem bem rádio, nem bem cinema, mas potencializando os defeitos e as virtudes de ambas essas invenções. O surgimento da televisão, que começaria a ganhar os lares norte-americanos em 1947, é o grande momento de amplificação da fala humana no século XX.
A esta capacidade começaria a se juntar, nas décadas de 40 e 50, um outro fenômeno eletrônico, a computação, a possibilidade, primeiro, de realizarmos cálculos complicados em tempos extremamente curtos, e, segundo, a possibilidade de armazenarmos incríveis quantidades de informação, capazes de retornar a nós em frações de segundos. O homem criava o primeiro “cérebro eletrônico”, uma poderosa extensão das suas faculdade mais vitais. O computador, tal como o próprio rádio e a televisão, experimentaria, dos anos 60 em diante, enormes saltos tecnológicos, em intervalos de tempo cada vez menores, por conta de um outro tipo de revolução, a da microeletrônica, que permitiria a miniaturização de circuitos, peças e componentes, cuja primeira manifestação foram os minúsculos rádios de pilha japoneses e entre cujas manifestações atuais mais significativas estão os microcomputadores pessoais, como os desktops e laptops com a ajuda dos quais foi escrito este livro.
Com o computador, a digitalização progressiva de todos os tipos de informação, inicialmente para limpar ruídos e corrigir erros, melhorando a qualidade das transmissões; depois para melhor processar e distribuir as informações, juntando voz, dados, sons, imagens e textos em sequências numéricas, alternando 0s e 1s, consolidando uma nova e poderosa forma de comunicação.
A humanidade chega, enfim, ao limiar do século XXI, experimentando amostras do que se convencionou chamar de revolução das comunicações, fundada na convergência dessas três plataformas tecnológicas, suas aplicações e conteúdos: as telecomunicações, os meios de comunicação de massa (mass media) e a informática.
Internet, World Wide Web, correio eletrônico, sites e homepages, televisão digital, DVDs, áudio e vídeo digitais de alta definição. Mercados eletrônicos, dinheiros imateriais, consumidores concretos de realidades virtuais. Redes digitais de banda larga – de fibras ópticas, pelo espectro radioelétrico, na atmosfera – transportando sinais de multimídia – imagens, sons, voz, textos e dados – para terminais domésticos que são um pouco computador, um pouco televisão, um pouco máquina copiadora, um pouco telefonia, cada pouco desse potencializando a extensão da capacidade humana de trocar sentidos por meio da fala, agora também uma fala sentidamente eletrônica:

“Essa fala eletronicamente amplificada, para limites nunca dantes imaginados, não tem, entretanto, contribuído significativamente para a constituição de uma aldeia global sentidamente mais democrática.
Vivemos ainda sob as influências das revoluções burguesas, as ideias que transitam pelo mundo da política e da economia são ainda ideias gestadas em meio à luta contra o absolutismo, alimentadas pela fé iluminista, circunscritas aos limites da razão moderna. No entanto, ou talvez por isso, a troca de sentidos, por meio da fala, entre seres humanos, é ainda regida, em grande parte, pela lógica do símio que destrói o adversário com a força da arma.” 3

Mas, para que o homem não fique circunscrito exclusivamente, e apenas, as suas experiências sensoriais imediatas, ao seu pequeno mundo (‘Só reconheço o que vejo com esses meus olhos, o que posso tocar com minhas mãos, o que ouço com meus próprios ouvidos’), ele se move em direção a um valor apaixonante, e busca explicitá-lo pela razão. É a partir daí que ele não se sente mais à mercê das forças naturais e sobrenaturais, e passa a desempenhar o seu papel, convicto de que os acontecimentos a sua volta dependem, em parte, dos seus atos, de suas tendências e inclinações. Ou seja, o homem precisa de uma revelação que transcenda a sua existência; e se existe um Deus que criou o universo, como cremos, é razoável crer que Ele conceda as suas criaturas uma revelação pessoal de si mesmo:

“(…) Nem tampouco podemos imaginar um Deus que retivesse o conhecimento do seu ser e de sua vontade, ocultando-o às suas criaturas que ele criara à sua própria imagem.
Deus fez o homem capaz e desejoso de conhecer a realidade das coisas. Será que ele ocultaria uma revelação que satisfizesse este anelo? (…) Não é de crer que um Deus amoroso e sábio permita que o homem pereça por falta de conhecimento, perplexo diante do enigma do universo.” 4

Como parte deste desenvolvimento, a realidade passa a ser abordada pelo lado racional, e não mais pelo emocional; o divino deixa também de ser abordado simplesmente pelos poderes mágicos, pelas fórmulas cabalísticas, e passa a ser enfocado pelo poder de justiça. É pelo exercício do livre-arbítrio que o homem entra em contato com o sagrado, tornando-se um aliado da divindade, praticando seu dever religioso, por acreditar que a crença em um deus é uma adesão consciente e inteligente a um relacionamento com ele (embora a vontade e a sensibilidade sejam a maioria dos casos), que se apresenta como a verdade suprema.
Nesse sentido, a religião é um sistema de representações do mundo, de onde deriva inclusive a cosmologia da sociedade. Noções como tempo e espaço, compreendidas enquanto categorias de entendimento nascem do pensamento religioso. São representações coletivas, fundadas na prática religiosa. Durkheim afirma que:

“A religião é uma coisa eminentemente social. As representações religiosas são representações coletivas que exprimem realidades coletivas; os ritos são maneiras de agir que nascem no seio dos grupos reunidos e que são destinados a suscitar, a manter ou refazer certos estados mentais desses grupos. Mas então, se as categorias são de origem religiosa, elas devem participar da natureza comum a todos os fatos religiosos: elas também devem ser coisas sociais, produtos do pensamento coletivo”. 6

Logo, o existir como ser humano significa procurar; e, qualquer busca humana é, no fim de contas, uma busca de Deus: “Fé e razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de conhecer a Ele para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade sobre si próprio”. Deus é o objetivo da busca de cada ser humano, apesar deste estar marcado pelo pecado, que é como procurar uma coisa boa no lugar errado (cf. Agostinho in Confissões, X. 38). Pecamos quando procuramos Deus onde ele não pode ser encontrado.

A PALAVRA DE DEUS NA HISTÓRIA

Olhando o quadro acima, vemos que o profetismo era o modo mais frequente através do qual Deus di¬rigia o seu povo. Desde Moisés, homens e mulheres, guiaram e mantiveram a cultura religiosa durante as dispersões, cativeiros e exílios, foram agentes das Revelações e formaram o corpo doutrinal em torno de três grandes linhas:
– A primeira delas tratava do monoteísmo absoluto e exigente, num processo que passou da aceitação da existência de outros deuses, embora Iahweh fosse o único Deus de Israel até a afirmação da existência de um só Deus, absoluto e universal. Neste caso, não existia mais espaço para nenhum ou¬tro Deus e Iahweh transformou-se no Criador e Senhor de todo o universo e a religião da tradição monoteísta judaica adquiriu o seu caráter mais radical e ortodoxo. Esta divindade única exibiu muitas faces: vingativo, zeloso, ciumento e protetor dos seus eleitos, era uma divindade característica das sociedades arcaicas e guerreiras. Bondoso, terno e protetor de seu povo, foi uma divindade transcendente que os protegia nos momentos de sofrimento e destruição, mas também os repreendia, castigava, amaldiçoava. A fala divina variou de acordo com a situação histórica , o local e a época.
– Um segundo aspecto estava ligado à função moral das profecias. A partir de um contato direto com Iahweh, fosse pela visão, audição ou inspiração, os profetas falavam da revolta divina contra uma determinada situação estabelecida, contra a natureza humana e a natureza das coisas. Toda a fala profética apontava para a necessidade de transformação de hábitos, práticas e da unidade religiosa. Os profetas in¬vestiram contra as estruturas sociais, condenando o modo de vida, a idolatria, a ambição, o luxo, a hipocrisia, as mal¬dades e as injustiças, mas, acima de tudo, a desobediência às leis de Iahweh. A possibilidade de superar este estado calamitoso da existência estava na obediência à Iahweh, numa vida pautada pelos princípios religiosos e no cumprimento dos mandamentos. Assim, os profetas desempenharam um papel ético e moral pregando o combate ao pecado, garantindo a unidade cultural e religiosa do povo escolhido através de tantos séculos.
– O terceiro aspecto profético estava ligado à possi¬bilidade de Salvação. A idéia de salvação evoluiu dentro do pensamento religioso profético junto com a imagem de Deus. Não era mais apenas punição ou castigo. Após o julgamento final, o Senhor pouparia aos que se revelassem justos e fi¬éis cumpridores da Lei. A estes concederia a salvação e fe¬licidade eternas. O Reino de Deus e de seus eleitos seria de felicidade, num clima espiritual de prosperidade, justiça, santidade, perdão, conhecimento de Deus, paz e alegria. Este sonho esperançoso alimentou séculos de religião aguardando a vinda do Messias, o Julgamento Final, o reino de Deus e a salvação eterna.
O Profetismo judaico introduziu o tempo das esperan¬ças, o tempo de promessa e da Salvação. O destino do povo dependia de sua fidelidade à Aliança e a Lei de IAHWEH, para assim merecerem a vinda do Reino de Deus e a Vida Eterna. O profetismo afirmou que o futuro e a salvação dependiam da confiança nos valores divinos.
Uma das consequências importantes do profetismo foi o fato de que, ao combater a idolatria, o paganismo e os cultos aos diferentes deuses, terminou por promover uma pro¬funda dessacralização e desvalorização da Natureza, da reli¬giosidade cósmica, dos ritos agrários e de fertilidade que caracterizavam todas as crenças religiosas de então. Esta dessacrali¬zação da natureza foi sinal de uma nova visão religiosa: a valorização da história, os acontecimentos históricos como portadores de um valor próprio, a tradição, na medida que eram determinados pela vontade de Deus. Por causa disso, o judaísmo foi a re¬ligião que colocou mais fortemente a importância da vida, da ética, da moral, da conduta correta e da obediência a Iahweh, para chegar à paz, à lembrança e, nos últimos sécu¬los, à vida eterna, em detrimento de cultos e crenças fúne¬bres, dos mistérios iniciáticos das nações pagãs. A morte física era vista como natural e inevitável; o que preocupava era a morte es¬piritual, punitiva, que excluía a memória, a lembrança, re¬metia às sombras e aos subterrâneos do Sheol e, posterior¬mente, vedava a Vida eterna ou seja, a destruição e sofri¬mento irreversíveis. As ações dos homens para com o Senhor, a obediência aos Mandamentos, a fé irrestrita em Iahweh se¬riam a marca da tradição religiosa judaica através de todo o Antigo Testamento.
Através do tempo, nas incertezas, nos exílios, cati¬veiros, diásporas, nomadismo, em busca da Terra Prometida, nas desobediências e crenças paralelas contra as quais fala¬ram sacerdotes e profetas, não foram os monumentos funerá¬rios, os cultos aos mortos o elemento de união, e sim a fé que uniria mortos e vivos numa comunidade dos eleitos de Iahweh, em torno das Leis e Mandamentos. Em Isaías, a morte era simbolizada pelas trevas, ig¬norância e falta de fé. Aqueles que fossem elei¬tos, porém, tornariam a viver, ressurgiriam, passando das trevas à luz despertando e cantando. (Is 26, 14, 19).
Podemos entender também que, o elo divino de ligação entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento é o sentido da atividade divina na história. É a comunicação da informação divina que promove um encontro pessoal com Deus; mas Deus não revela somente informação acerca de si mesmo e do destino da humanidade, Ele revela a sua própria pessoa, e esta revelação tem acontecido em uma série de eventos históricos marcantes. O maior ato revelatório de Deus no Velho Testamento foi o livramento do povo da escravidão do Egito (Ex. 6.6-7); este ato divino em favor de Israel, é um ato histórico que revelou Deus ao mundo. Os eventos históricos no AT são únicos e estão relacionados com a libertação divina, e atingem o ponto máximo com a encarnação, expiação e ressurreição de Jesus Cristo no NT. Devemos lembrar que:

“Jesus falava de uma forma que o colocava acima da mais alta categoria permitida para os seres humanos(…),a de profeta, para não falar do ofício de rabino. O rabino podia dizer “recebi pela tradição do rabino A, que ouviu do rabino B”, legitimando assim (…) pela autoridade da tradição, cuja autoridade final remetia à Tora oral e a Moisés. O profeta fala mais diretamente de Deus, “Assim diz o Senhor: eu…”. Mas o profeta não passa também de um representante dele. Ele fala em nome de Deus, e não em seu próprio nome. Ele quer restaurar ou fortalecer o relacionamento das pessoas com Deus, e não o seu relacionamento com o profeta. A pessoa do profeta não é importante. Ele não tem a palavra de Deus em si mesmo, ela “vem a ele”; às vezes, é preciso esperar por ela.
Jesus, obviamente, jamais autenticou seu ensinamento da forma como os rabinos faziam. Ele nunca disse “recebi por tradição”, “Porque lhes ensinava como alguém que tem autoridade e não como os mestres da lei” (Mc. 1.22). Tampouco falava como profeta. Ele jamais se disse representante de deus valendo-se da fórmula empregada pelos mensageiros proféticos.
Ele falava a palavra de Deus, ele a comunicava em seu próprio nome. “Vocês ouviram o que foi dito [por Deus] aos seus antepassados [no Sinai] […] mas eu lhes digo”(Mt. 5.21, 22, 27, 31, 33, 38, etc.).” 7

Logo, a história de Israel é diferente de qualquer outro tipo de história porque Deus fez uma revelação de si mesmo que jamais fez em outro lugar; e não devemos esquecer que Deus é o Senhor da história. Os teólogos alemães criaram um termo próprio para designar este fluxo de história e revelação: Heilsgeschichte, que em bom português nós chamamos de “história da redenção” ou “história sagrada”. Deus agiu providencialmente na história da Pérsia, Babilônia, Assíria e Egito; mas é na história de Israel que Deus comunicou, revelou um conhecimento pessoal de sua própria existência. Ao estudarmos o AT e o NT vemos que a transcendência divina, ‘Ele é o senhor da história’, e sua imanência, ‘A palavra de Deus é o seu ato e o seu ato é a sua palavra’, podem ser facilmente compreendidos pela maneira como nos é comunicado na Bíblia.
O Cristianismo deu continuidade ao movimento profé¬tico e a mensagem de salvação pela fé, sob o signo da pro¬funda renovação religiosa, sobretudo de um novo preceito de amor que o distanciou da matriz do profetismo de Israel. En¬quanto uma tradição religiosa salvacionista manteve caracte¬rísticas básicas. Em primeiro lugar, não foi mais um culto de mistério de sua época, porém, uma religião atualizada, en¬carnada na imagem do Cristo ressuscitado para a eternidade e a vida eterna. Em segundo lugar, exprimiu com simplicidade e universalidade, o apelo à salvação e à imortalidade indivi¬dual, aberta a toda humanidade. A força mística do Cristianismo falou aos sentimen¬tos, desejos e sensibilidade de cada época, na busca da imortalidade dentro da condição mortal de cada homem:
“Mas um só e o mesmo (…) Porque, assim como o corpo é um, e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, embora muitos, formam um só corpo, assim também é Cristo. Pois em um só Espírito fomos todos nós batizados em um só corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos quer livres; e a todos nós foi dado beber de um só Espírito”. (I Cor 12, 11-13).
E mais:

“O núcleo central da mensagem que os Apóstolos anunciam é a crucificação e ressurreição de Jesus – a vida que triunfa sobre o pecado e a morte. Pedro diz ao centurião Cornélio e à sua família: “A Ele, que mataram, suspendendo-o de um madeiro, Deus ressuscitou-o, ao terceiro dia, e permitiu-lhe manifestar-se… E mandou-nos pregar ao povo e confirmar que Ele é que foi constituído por Deus Juiz dos vivos e dos mortos. É dele que todos os profetas dão testemunho: quem acredita Nele recebe, pelo Seu nome, a remissão dos pecados” (At. 10, 39-43).
É óbvio que as circunstâncias mudaram em dois mil anos. E, no entanto mantém-se a mesma necessidade de proclamar Cristo. O nosso dever de dar testemunho da morte e ressurreição de Jesus e da sua presença salvífica na nossa vida é tão real e urgente como no tempo dos primeiros discípulos. Devemos anunciar a Boa Nova a todos os que a desejam escutar.
É essencial uma proclamação direta, pessoal – alguém que partilha a fé no Senhor ressuscitado com outras pessoas –, mas são necessárias também as formas tradicionais de anúncio da Palavra de Deus. No entanto, paralelamente, a proclamação deve ser feita nos dias de hoje dentro e através dos meios de comunicação. “A Igreja viria a sentir-se culpável diante do seu Senhor, se ela não lançasse mão destes potentes meios” (Paulo VI, Evangelii nuntiandi, 45).
Dificilmente se poderá sobrevalorizar o impacto dos meios de comunicação no mundo de hoje. O advento da sociedade da informação é uma revolução cultural, que fez dos meios de comunicação o “primeiro areópago da idade moderna”, no qual fatos, ideias e valores estão constantemente a mudar. Através dos mass media, as pessoas entram em contacto com outras pessoas e acontecimentos, e formam as suas opiniões sobre o mundo em que vivem – na realidade, constroem a sua compreensão sobre o significado da vida. Para muitos, a experiência da vida é em grande medida uma experiência dos meios de comunicação. A proclamação de Cristo deve constituir uma parte desta experiência.7 ”

Concluímos que só o conhecimento racional não é suficiente para o aprimoramento do ser humano. É necessário uma intervenção divina no existir humano. É preciso que tenhamos uma interação, um relacionamento real com Deus. Este relacionamento só é possível mediante o conhecimento da realidade invisível das coisas espirituais, o que nos leva de volta a crença em um fenômeno religioso ou em um deus (a crença em um deus é uma adesão consciente e inteligente a um relacionamento com ele); esta crença (fé), é a faculdade de perceber a realidade do mundo invisível de Deus e fazê-lo o objetivo básico de nossa vida; não importando se a razão não consegue entender, já que o princípio da aceitação por fé é fundamentado na revelação divina e nas verdades da razão natural que não contradizem as verdades da fé cristã. Cremos com o coração e com a boca confessamos aquilo em que cremos Paulo faz a esse respeito um pronunciamento clássico na Carta aos Romanos 10.9-11:

“a saber: Se, com a tua boca, confessares ao Senhor Jesus e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido”.

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1 Cf. Aristóteles, Política, Livro I, 1253 a 5-15, Lisboa, Vega, 1998, p. 55.
2 Aristóteles, “De L’Interprétation”, 16 a 5-10, in Organon, Paris, Librairie Philosophique J. Vrin,1994, pp. 77-8.
3 Partes do texto utilizado por Murilo César Ramos como sua aula inicial da disciplina Comunicação Comparada, no Curso de Comunicação da Universidade de Brasília.
4 David S. Clarke, Conhecendo as Doutrinas da Bíblia, 2003, p. 19.
5 Emile Durkheim, 1983, p.212.
6 SKARSAUNE, Oskar, in À Sombra do Templo, p. 343, 323, Editora Vida, 2001.
7http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/messages/communications/documents/hf_jp-ii_mes_20000124_world-communications-day_po.html

BIBLIOGRAFIA
LADD, George Eldon, in Teologia do Novo Testamento, Juerp, 1985.
PEARLMAN, Myer, in Conhecendo as Doutrinas da Bíblia, Editora Vida, 2003.
RAMOS, Murilo César, in Às Margens da Estrada do Futuro – comunicações, políticas e tecnologias, – Coleção Livros Eletrônicos, editado pela Faculdade de Comunicação da UnB, jan/2000.
SKARSAUNE, Oskar, in À Sombra do Templo, Editora Vida, 2001.
UNGER, Merrill f. (1909-1981), in Manual Bíblico de Unger, Editorial Portavoz, 1997.

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