Para que o fruto permaneça.

Tornar-se maduro é tornar-se experiente com o passar do tempo, é tornar-se comedido, experimentado, pensar antes, meditar antes de decidir-se, antes de agir. Como as uvas que amadurecem no outono, quando o excesso de luz do verão não pode mais embriagar o corpo e os aromas e cores da primavera não entorpecem e aguçam demais os sentidos. É no outono que a melancolia, o auto-exame e a reflexão tomam o seu lugar, e podem finalmente nos fazer olhar para a direção certa; é quando os ramos da videira brindam o agricultor com seus frutos mais doces e agradáveis (João 15.1-8). O homem maduro faz o que é certo todo o tempo, e sobre fazer o que é certo conta-se que:

Havia uma cidadezinha que todo ano festejava sua colheita de uvas com uma festa do vinho; vinha gente de todas as cidades próximas e era o grande orgulho daquela região. Chegada à data tão esperada o prefeito fez o anúncio: “Este ano cada produtor trará uma garrafa do seu melhor vinho e o depositará no grande barril que está no meio da praça. No dia da festa, a meia-noite a torneira será aberta e todos poderão beber a vontade!”
Foi colocada então uma pequena escada para que cada um pudesse subir e derramar a sua contribuição para a festa. Mas, um espírito livre cujo único desejo é servir fielmente a sua própria vontade, fugindo de todas as regras de convívio e moralidade comum a todos, egoísta que é tem o mundo como sua propriedade particular, devendo este lhe proporcionar apenas prazer e deleite, teve a brilhante ideia de não levar vinho nenhum, pois dizia: “Ora, uma cidade inteira depositando vinho naquele barril, não será a falta da minha contribuição percebida”. Levou então uma garrafa de água e depositou no barril.
Chegou à hora mais esperada, e todos correram com suas canecas, copos, baldes, e toda sorte de vasilhames para poderem se embriagar do melhor vinho da região.
O prefeito se aproximou do barril e depois de um discurso curto, pegou seu grande caneco e ouviu-se um “Oh!” que ecoou por toda a praça. Ao abrir a torneira, o que começou a cair e encher o caneco do prefeito foi a mais pura e limpa… Água! Nenhuma gota de vinho, ficando evidente que nada foi depositado naquele barril durante toda a semana senão água. A vergonha estampada nos rostos era a única coisa rubra por ali. Infelizmente, todos tiveram a mesma atitude e pensamento: Esqueceram de doar e perdoar; querendo satisfação sem se preocupar com mais nada e ninguém, olharam apenas para seus umbigos visando apenas o seu “eu”.

A Modernidade se caracteriza pela colocação do indivíduo como medida e como fim. Tendo o ser humano, em sua individualidade e racionalidade, como “substituto” do centro anterior, Deus com seu sentido e norma, que davam a coesão social e cultural e que alocavam o centro de sentido para além do ser humano. A Modernidade, ao colocar o ser humano como medida de si, de suas relações e do universo (antropocentrismo), a partir de uma lógica cartesiana e de uma moral kantiana, já não tem mais o cimento da coesão cultural-social ditado pelo padrão moral divino, que daria o sentido ordenador da realidade e do social com suas mediações, agora, a própria racionalidade, o senso comum e a própria independência de escolha racional centrada no indivíduo autônomo é o novo padrão. E onde essa nova concepção ordenadora da realidade e do indivíduo impera, o Cristianismo e suas normas particularmente compreendidas em sua instituição oficial de representação (Igreja), perdem o poder de dar sentido e dar “as cartas” no mundo moderno. E onde o humanismo impera temos relativização ética (desagregação ao padrão anterior) e uma busca por novas motivações que afetam toda a sociedade, cristã ou não.
Pode parecer incrível que Deus tenha sido substituído pela simples realização do ego humano, cujo objetivo máximo é buscar, gerar e ter prazer e liberdade. Mas esta é a grande motivação da sociedade moderna hoje em dia: A felicidade a todo custo livre de restrições morais e culturais do passado. A ambição de sempre colocar um sorriso no rosto, de ter prazer prolongado porque ‘mereço e tenho dado um duro danado pra isso’, ou porque este é o supremo bem que todo ser humano almeja. Mal gradamente isto pode ter um efeito contrário e por isso mesmo Jesus ensinou que no mundo teríamos aflições e que seria necessário permanecer firme Nele, ou seja, não negligenciar o padrão moral divino. Ele sabia que esta pressão para ser feliz todo o tempo, sem espaço para melancolia, tristezas e as dificuldades comuns, se tornariam a ordem do dia para este mundo cada vez mais individualista, ‘ego centrado’ e orgulhoso, cujo resultado é o que temos visto e ouvido.
Eu suponho que haja na religião um elemento de dizer às pessoas como viver, mas não se trata de homens dizendo às pessoas como viver. É Deus dizendo às pessoas como se acertar com Ele. Só que o Cristianismo não é em primeiro lugar uma religião. É mais do que isto. É o anúncio de boas notícias vindo da parte de Deus para os homens através do evangelho, e este não é apenas uma sequência de passos, tão essenciais, mas o que torna o Evangelho “boas novas” é o fato de que ele conecta uma pessoa às “inescrutáveis riquezas de Cristo”. Portanto, crer no Evangelho não é apenas aceitar as maravilhosas verdades de que: 1) Deus é santo, 2) nós somos pecadores sem esperança, 3) Cristo morreu e ressuscitou para os pecadores, e 4) a grande salvação é vivenciada pela fé em Cristo, mas acreditar no evangelho é também apreciar e desejar um relacionamento com Jesus Cristo. O que faz do Evangelho a Boa Notícia é que ele transporta uma pessoa para a alegria eterna e cada vez maior de Jesus Cristo. Alegria que me faz ter um conhecimento profundo de quem é Cristo e o meu próximo, e como relacionar-me com ambos:

“é com total perplexidade que eu percebo o tamanho do desrespeito e da indelicadeza com que temos tratado uns aos outros. Em todas as esferas das nossas vidas: social ou privada, não importa. O outro não existe. O outro que se dane. E a gente anda tão costumado com isso que nem percebe mais, e vai achando outros nomes pra selvageria indiscriminada: piada, humor, intimidade, pressa… You pick one. It’s all bullshit.
Quando na verdade o que nos falta é delicadeza. Respeito, outra coisa raríssima, era pra vir ainda antes. Sumiram os dois. E o resultado é uma perda enorme para todos nós, que seguimos embrutecidos e anestesiados, achando tudo muito “normal”.”1

O “outro” deve ser seu (meu) limite, e seu (meu) referencial. O “outro” deve ser o critério de controle para o meu pensamento, como Jesus já teria dito, “dar ao outro aquilo que quero receber”, “fazer ao outro aquilo que quero seja feito comigo”, “tratar o outro como quero ser tratado”. 2

Também é sabido por todos os cristãos, praticantes ou não, que, independente de seu nível social, etnia, status, grupo, cada pessoa é um ser humano que precisa se sentir amado; e que se a razão humana (e sua vontade) não estiver submissa a Deus todo o tempo o nosso livre arbítrio estará sendo mau usado e o amor ao próximo não será exercido de modo a produzir algo bom e permanente, e isto é viver fora do amor de Cristo:

“Embora a esta altura já devessem ser mestres, vocês precisam de alguém que lhes ensine novamente os princípios elementares da palavra de Deus. Estão precisando de leite, e não de alimento sólido! Quem se alimenta de leite ainda é criança, e não tem experiência no ensino da justiça. Mas o alimento sólido é para os adultos, os quais, pelo exercício constante, tornaram-se aptos para discernir tanto o bem quanto o mal.” (Hebreus 5:12-14)3

A sociedade atual vive o contrário desta realidade e isto tem atrapalhado a caminhada de muita gente, inclusive de alguns crentes; nós deveríamos sempre reconhecer que a verdadeira felicidade e uma vida de beneficência dependem totalmente de Deus. O princípio pelo qual devemos viver deve ser “Se o Senhor quiser” (Carta de Tiago, 4.13-17). Mas a maioria não está pronta, não estão maduros ainda para ir de encontro à necessidade do outro, auxiliá-lo, ajudando-o assim, a produzir fruto, como bem explicado no Evangelho de João15, 9-17:

“Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:
Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor. Se guardares os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor. E eu vos disse isto, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena.
Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei.
Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos. Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando. Já não vos chamo servos, pois o servo não sabe o que faz o seu senhor. Eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai. Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi e vos designei para irdes e para que produzais fruto e o vosso fruto permaneça.
O que então pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo concederá. Isto é o que vos ordeno: amai-vos uns aos outros”.

Outra coisa importante de dizer é que a maximização da felicidade pode fazer um homem feliz mais não o faz melhor. Só porque uma coisa proporciona prazer a muitas pessoas, isso não significa que possa ser considerada correta. O simples fato de a maioria, por maior que seja, concordar com uma determinada lei, ainda que com convicção, não faz com que ela seja uma lei justa. Se somos capazes de ser livres, devemos ser capazes de agir não apenas de acordo com uma lei que nos tenha sido dada ou imposta, mas de acordo com uma lei que outorgamos a nós mesmos4.
Por que amadurecer? Por que fazer a coisa certa mesmo com prejuízo e nenhum lucro? Por amor a Deus e obediência? Também. Mas principalmente para que todos os que estão próximos ou sob nossa influencia tenham acesso ao amor de Deus e seu padrão moral de relacionamento. Porque quando o nível moral se deteriora, ou seja, o comportamento torna-se reprovável e inaceitável, todos olham a sua volta buscando um novo padrão a seguir, alguém ético que faça a coisa certa, que faça algo que traga ordem e paz. E para que o fruto permaneça, Paulo dá um conselho valioso aos Filipenses:

“Finalmente, irmãos, tudo o que for verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor, pensem nessas coisas.
Tudo o que vocês aprenderam, receberam, ouviram e viram em mim, ponham-no em prática. E o Deus da paz estará com vocês.” 5

Como seres morais que somos, precisamos de referências para nos organizar em sociedade, e ainda que a grande maioria repudie, diga que não é bem assim, precisamos ter dignidade e respeito, e para isso precisamos distinguir entre o certo e o errado. E ultimamente, percebo que está mais do que esclarecido que nossas vontades e nossos desejos não podem servir de base para a moralidade, o que resta então?

“O homem novo está, em outras palavras, em fase experimental. Ele olha, mas não contempla, vê, mas não pensa. Escapando do tempo, que é feito de pensamento, pode sentir apenas o seu tempo: o presente; e do seu tempo sente como ridículas e anacrônicas as expressões do sentimento individual. Ou decide voltar atrás (e é impossível), ou precisa correr mais, para ter o benefício de um entorpecimento aparente: o da ultravelocidade. Correr mais significa descarregar a bagagem da sua cultura, rompendo as suas ligações com o mundo antigo. Significa tornar-se um ser a respeito do qual não temos a mais vaga noção.”6

A sociedade atual busca saciedade ora no senso comum, humanista, ora nas ideias racionalistas, mas para nós cristãos, a autoridade divina é a possibilidade certa. E para isto se tornar prático e real em nosso cotidiano, é necessário encher então, o pensamento de sentimento, a razão, de afetividade, a mente, de coração, o raciocínio, de amor. É preciso uma mudança profunda que só começará quando crescermos na graça e no conhecimento como nos ensina o profeta Oséias e o apóstolo Pedro em sua segunda carta7. Henri Nouwen já perguntava e respondia:

“O que aconteceria se parássemos de nos preocupar? Se o impulso de nos divertirmos demais, viajarmos demais, comprarmos demais, nos armarmos demais não motivasse mais nosso comportamento, a nossa sociedade, como está hoje organizada, ainda poderia funcionar? A tragédia é que certamente fomos apanhados numa rede de falsas expectativas e necessidades idealizadas. Nossas ocupações e preocupações preenchem nossa vida interior e a exterior até a borda. Elas impedem o Espírito de Deus de soprar livremente em nós, renovando assim as nossas vidas.”

O que nossos adultos almejam é um infantil sem Outro – sem as leis e restrições dos pais. São crianças pirracentas – despreparadas para vida… Esses jovens adultos são neuróticos que ainda acreditam que a causa de sua incompletude é do Outro. Acreditam que com a morte de Deus, o gozo será pleno. Acreditam no poder, no dinheiro, no status social como instrumentos para atingir uma satisfação completa. Aqui vai uma noticia para vocês: o infantil é uma batalha pela sobrevivência, o gozo é parcial, sempre foi e sempre será. Sem o Outro, somos jogados nesse campo de guerra absolutamente desamparados. Recuperar o infantil é uma ilusão. Bom mesmo é conseguir virar adulto para aí então finalmente poder brincar.8

E apenas para complementar:

“Assim nascerá a ética. E já não sei se é necessário, mesmo, um pensamento de fundo para sua instalação, antes que um desejo honesto comprometido com o respeito, a civilidade, a paz. Bastante “humano” o pressuposto da ética: “fazer ao outro…”. Unir, sem confundir sentimento, isto é, desejo por paz e convivência ética, com a reflexão ética. Reflexão ética sem compromisso afetivo ético faz-se em salas de aula, lê-se em livros… ”9

“Como já comentei, a nossa visão é míope e tomamos decisões baseadas nessa imprevidência. Deus quer que nos concentremos em ideais maiores do que os existentes nesta vida. Amamos muito este mundo, e não reconhecemos que somos peregrinos e estrangeiros aqui. A nossa casa verdadeira e eterna está em outro lugar. É por isso que Paulo disse: ‘Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens’ (1 Coríntios 15.19).
Em muitos aspectos, é o que está englobado na soberba da vida. Ficamos tão arrogantemente presos ao que estamos fazendo, ao que nos empolga e nos interessa que perdemos de vista que é superior e muito maior. Não podemos amar o mundo e Deus ao mesmo tempo (Tiago 4.4; 1 João 2.15). Os sistemas e poderes corruptos e pecaminosos deste globo giratório estão se acabando. Não obstante, como cristãos que possuem as verdades eternas, nós pateticamente corremos atrás do mundo e seus ideais. Anelamos e ansiamos ter mais riqueza, maior poder e crescentes privilégios, e assim menosprezamos a cruz”.10

O cristão precisa amadurecer, ser ético, responsável por si e indiretamente pelo outro, sendo capaz de se relacionar intensamente com Deus. Desta forma seu fruto poderá permanecer e multiplicar.

_____________
1- Retirado de http://purplesofa.wordpress.com/2012/10/03/delicadeza-essa-bobagem/
2- Partes de “Pensar, querer, sentir” – http://www.ouviroevento.pro.br – Oswaldo Luiz Ribeiro.
3- Biblia Sagrada, Nova Versão Internacional®, NVI® Copyright © 1993, 2000 by – Biblica.
4- Michael J. Sandel, Justiça, p. 138 e 139 – Ed. Civilização Brasileira, 2012.
5- Filipenses 4:8-9 http://www.bibliaonline.com.br/nvi/fp/4/8-9
6- Eugenio Montale, Nel nostro tempo. Milano, Rizzoli Editore, 1972, p. 19-20, tradução Davi Pessoa.
7- Oséias 6:3 e 2 Pedro 3:18 respectivamente, Nova Versão Internacional®.
8- Trecho extraído de http://umbigodascoisas.com/2011/11/18/a-crianca-de-freud-e-os-kidults-de-hoje/
9- Idem ao 1.
10- Victor Kuligin, “Dez coisas que eu gostaria que Jesus nunca tivesse dito”. 1.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2008, p.99.

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