Pouca doutrina, muito desejo.

“Tantos ‘desejos’, mas nenhuma vontade de respirar. Nenhuma vontade de abrir os olhos. Parece que as pessoas são capazes de existir no sufoco e na escuridão.” (Dito por Ai Weiwei, artista chinês contemporâneo).

 

Antes de tudo, é preciso estabelecer um ponto, sem o qual estou só gastando meu tempo ao escrever e o seu ao ler: O ministério pastoral tem sido distorcido ao longo do tempo. E, descaracterizado, passou de um serviço para conduzir pessoas a viver o Evangelho (conforme Mateus 28:18-20) para uma mera atividade de palestrante e administrador.

Mas, como se faz discípulos de Jesus em qualquer tempo e lugar? A própria Bíblia nos responde ao dizer: “… ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado”. Para fazer discípulos é preciso ensinar alguém a guardar todas as coisas que Jesus ordenou.1

O que mais me incomoda hoje é a descrença que cerca os líderes. É tão grande a distância entre aquilo que pregam e o que vivem, que cada vez mais é necessário um comportamento “bereano” dos fiéis para acreditar que um pastor fala com seriedade, honestamente e que acredita tanto em seus métodos quanto em seus argumentos; é tal o comportamento destes pastores que exige um esforço extra dos discípulos e o porquê disso tudo?

 

…”porque não foram poucos na história aqueles que adotaram posições extremadas, sobretudo perante a mídia, com o intuito exclusivo de criar para si próprios uma imagem socialmente relevante. Hoje, não são poucos a pensar que pastores se encontram nesse grupo”.2

 

E há quem diga também:

 

…“Entretanto, é preciso dizer com clareza, que no cotidiano as decisões que tomo nem sempre são em consonância com a fé religiosa que professo ou da igreja à qual pertenço. Muitas vezes tomo decisões contra a minha consciência e contra aquilo que julgo ser minha convicção, pois preciso naquele instante “salvar” a minha vida. Aqui ‘minha vida’ parece valer mais do que posturas individuais de fé outrora assumidas, muito embora nem sempre seja possível ter clareza sobre esse delicado assunto. Tudo depende das pessoas e das situações. Tudo depende do momento, do sofrimento suportável ou não, da instabilidade psicológica, das pressões de todo tipo, dos medos que assolam minha existência naquele instante. As situações, as circunstâncias podem modificar o comportamento que eu imaginava ser uma aquisição tranquila, quase uma tradição ética em mim. Por isso, os princípios são linhas norteadoras, mas não funcionam necessariamente na prática onde o “salvar a vida” se impõe como preocupação primeira. Aqui, creio que é minha vida como realidade mais próxima de mim mesma, como eu mesma, que faz as regras imediatas do jogo”. 3

 

Fico em dúvida se esta pessoa leu a história de sofrimento de Jó ou se ouviu Jesus falando para os judeus “Porque aquele que quiser salvar a sua vida perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á. Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma? Ou que dará o homem em recompensa da sua alma?” (Mateus 16:25-26). O básico do comportamento cristão é: Se temos o mandamento bíblico guardado na alma, e amamos a Deus acima de qualquer coisa, nós retribuímos o amor de Deus por nós quando somos obedientes, quando não esquecemos de observar pela ótica bíblica e pela sua ética nossa maneira de viver. Como está escrito na primeira epístola de João 2:4: Se me amares, guardarei os meus mandamentos. Aquele que diz: Eu o conheço e não guarda os seus mandamentos é mentiroso, e nele não está à verdade. Logo minha obediência deve existir porque entendo que há um motivo para terem pedido que eu me comportasse da maneira acima. E o principal motivo é a salvação eterna da minha alma. O segundo motivo: Como vivemos em um mundo de outros valores esta verdade viva que desceu do céu precisa ser disseminada, compreendida e praticada. Por isso que a informação bíblica costuma ser importante: Se todos soubessem o que nos pode acontecer se desobedecêssemos, talvez mais pessoas me acompanhassem nesta obediência. No entanto, isso não acontece porque as pessoas curtem a experiência empírica. Fazem uma, duas, três vezes. Desobedecem, cedem ou relativizam e se não acontece nada visivelmente terrível, algo do tipo, não morri, não aconteceu nada extraordinário ou doloroso demais, então pensam que não precisam obedecer mais a qualquer norma. Para mudar isto uma liderança pastoral, sem equívocos, se faz necessária. Alguém que ensine renúncia pessoal ao rebanho; alguém que viva a questão nos moldes bíblicos: “Amados, peço-vos, como a peregrinos e forasteiros, que vos abstenhais das concupiscências carnais, que combatem contra a alma” (1 Pedro 2:11). Cuja fidelidade a Cristo possa ser tomada como padrão ou exemplo.

Porque sabemos que apenas ter informação não basta, justamente porque conheço muita gente que a tem, aos borbotões, e nem por isso consegue conter sua má educação e péssimo comportamento. O povo de Deus deve aprender a ética cristã e a verdadeira piedade, não somente pela Palavra de Deus, mas também pelo exemplo. É preciso ter uma vontade real de pôr em prática o que se aprendeu. É necessário usar a informação recebida, obedecendo-a para chancelar a autoridade da fonte em nosso cotidiano. E o exemplo pessoal é o meio mais fácil de pôr tudo isso em prática, já que para algumas pessoas a Bíblia, é sua única enciclopédia, Deus, o único autor possível. Mas que parece escrita numa língua estrangeira. Por isso todo pastor precisa praticar o discipulado nos moldes que recebeu de Deus e ser qualificado para tanto:

 

Esta é uma palavra fiel: Se alguém ama o episcopado, excelente obra deseja. Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar. 1 Timóteo3:1-2.

 

Ou veremos o humanismo com sua sociologia laicista apoiada na onda ateísta ganhar terreno e solapar o evangelho:

 

“Fala-se em retorno do sentimento religioso como uma reversão no processo de “desencantamento do mundo” de que falava Weber. O mundo foi se tornando mais e mais secular, num processo que teve seu ápice na segunda metade do último século. As igrejas começaram a se esvaziar e pareceu que todas as respostas seriam buscadas na pesquisa empírica, ou melhor, nas soluções de mercado, ou melhor, nas lutas políticas. Mas basta reler a frase anterior para perceber que essas respostas são animadas, ainda, pela mesma busca do transcendente que sempre alimentou o sentimento religioso. Seja o que for que foi embora, não foi um sentimento. Terá sido, antes, uma realidade física e palpável, uma forma de autoridade, portanto uma manifestação política, que dava solidez a esse sentimento. Ainda que se possa dizer que essa solidez, de tão sólida, era sufocante. Era a autoridade espiritual que Malafaia – mas não só ele; também o papa, por exemplo – não pode mais encarnar sem problemas. Uma autoridade que sustenta, entre tantas outras coisas, o impulso científico. Ou então, que se opõe a esse impulso, quando ele resolve escapar do recipiente que lhe é destinado. Mas que jamais se submete a ele.

(…)

Quando leio sobre a participação de religiosos nos debates em torno de casamento homoafetivo, aborto, eutanásia e assim por diante, sempre me vem à mente o célebre trecho de Mateus com o “a César o que é de César”. Belo preceito do cristianismo, que faz grande falta a outras religiões semelhantes. Mas muito difícil de cumprir. Tudo vai bem quando César e Deus estão, ou parecem estar, lado a lado, seja num Estado teocrático, seja a partir da crença, absolutamente majoritária até o século XVII, de que o poder do soberano emana diretamente de Deus. Em outras situações, o cumprimento é bem mais difícil, porque exige do fiel que tome atitudes que vão frontalmente de encontro a suas convicções. Ou, pelo menos, que ele aceite, e até apoie, legislação que contradiga suas crenças. Haja autonomia de pensamento para agir dessa forma! Mesmo o convívio pacífico entre religiões me parece menos a regra e mais a exceção. Depende de um certo equilíbrio de forças entre grupos de fiéis e a comunidade como um todo, algo que nem sempre se verifica.” 4

Como a objeção mais comum contra nós cristãos, líderes ou não, é que sempre estamos argumentando a partir de uma perspectiva religiosa e não laica, uma boa resposta seria “Eu não sou também um cidadão? Eu não deveria estar inserido neste debate, ou eu deveria simplesmente adotar graciosamente os valores civis laicos diferentes dos que eu já tenha recebido anteriormente?” Ora, somos todos responsáveis pelos valores que sustentamos, no modo público e privado de viver. Nenhum valor considerado particular deixa-nos quando somos uma pessoa pública. E mais ainda, como líderes, somos responsáveis por compreender aquilo em que acreditamos e comunicar o que nós acreditamos de uma maneira apropriada para um seguidor de Cristo. E é claro que os opositores vão sempre alegar que valores religiosos não têm lugar no espaço público laico; e ainda querer uma lei para impedir isso. O que não é apenas uma demonstração de mente fechada, mas de pura conveniência também. Como também a religião não pode se tornar a palmatória do mundo. Isso é intolerância. Só que cada seguimento religioso – seja ele qual for – tem o direito de manifestar as suas opiniões e princípios, sem que seja criminalizado por isso.

Não subestimo nunca a estupidez alheia. Conhecimento empírico também. Mas é preciso nos esforçar para dar o recado, porque ainda não chegamos a uma situação satisfatória. Ou será que já esquecemos que Cristo se fez homem e habitou no meio de nós para nos revelar um amor incomparável? Que a graça que desfrutamos é imerecida? Que há um comportamento amorável e excelente para ser praticado aqui e para sempre? Que não sou líder para meu bel prazer e sim para que todos sejam um e continuem Nele?

Um pequeno parágrafo sobre lei. Aristóteles diz: é a “razão sem paixão” (política III, 1287 a.32). Em uma linguagem de igualdade lei é paixão feita razão. Aqui não me refiro à paixão romântica, mas como “paixão” para Aristóteles, que significa meus próprios anseios, desejos pessoais e quereres. A igualdade então propõe que o seu desejo não é melhor ou pior do que o meu e a lei deveria tratar cada desejo ou noção igualmente. A Razão propõe que cada desejo seja tratado de acordo com seus méritos e daí seja decidido se eles estão certos ou não. Mas para nós cristãos, começa com a compreensão de que os meus desejos e a minha vontade não são autoridade máxima em nada.

Eu sei também que não basta agarrar-me simplesmente ao que a Igreja diz que é verdade, mas investigar seus ensinamentos com diligência e cuidado, tendo a coragem de ser corrigido e desafiado pela reflexão e sabedoria, submetendo-me ao mandamento bíblico e praticando com fé obras dignas Dele. E, finalmente, depois de aprender, ter a convicção para proclamar o ensino de Cristo como bom e praticá-lo por toda uma vida.

John Piper nos lembra ainda que o apóstolo Paulo fez uma lista de desejos que grassam pelo mundo moderno com um grau de aceitação e tolerância incompatíveis para um cristão sério e comprometido: “prostituição, impureza, paixão lasciva, desejo maligno e a avareza,” e diz que é “por conta destes que a ira de Deus está chegando” (Colossenses 3:5-6). E a ira de Deus é infinitamente mais temível do que a ira de todas as nações juntas, ou de grupos e minorias.

Há uma última coisa a ser dita: A soma dos saberes não altera a bússola que deveria apontar para a verdade5. Precisamos de convivência social ética e com afeição, coisa que não se faz em salas de aulas pois é preciso ter a mesma “mente” de Jesus naquele momento em que ele se esvazia de sua condição não-humana, para fazer-se condição humana. Vejo nele alguém que pensou e que sentiu, e que, pensando e sentindo, pensou e sentiu a liberdade do outro pensar e sentir. É necessário que os líderes submetam seus desejos aos limites do outro. Mas todos os cristãos já sabiam disso, não é mesmo? Afinal, Jesus é, e sempre será, O caminho mais honesto, A verdade que respeita e a Vida de paz que desejamos.

 

1-http://conexaoeclesia.com/2011/02/21/o-evangelho-e-os-pastores-ateus/

2-Parte extraída de “A batalha perdida do pastor”, Diego Viana publicado em 22/2/2013, Digestivo Cultural.

3-Cidadania e Estado Laico: reflexões em torno do momento atual brasileiro, Ivone Gebara, Adital, 19.07.13 – Brasil.

4-Idem ao 2.

5-http://www.ricardogondim.com.br/eclesiastes-em-minhas-palavras/tu-nao-passa-de-uma-gigante-vaidade-eclesiastes-1/

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Sobre lucaspinduca

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