EXPRESSE O SEU CARÁTER: SEJA LUZ

É sem dúvida o nosso tempo… prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser… Ele considera que a ilusão é sagrada, e a verdade é profana. E mais: a seus olhos o sagrado aumenta à medida que a verdade decresce e a ilusão cresce, a tal ponto que, para ele, o cúmulo da ilusão fica sendo o cúmulo do sagrado. Feuerbach (Prefácio da segunda edição de A essência do Cristianismo)

Ainda citando, agora um comentário sobre o filme “Gravidade”, para parecer um pouco mais ‘moderninho’ e chamar atenção para o assunto comportamento ético do cristão que é luz do mundo1:

“No princípio era o verbo”, diz o Gênesis. E é o verbo que emerge como uma primeira sensação do filme2. O silêncio absoluto do espaço vai sendo, aos poucos, ocupado pelas vozes longínquas dos protagonistas em seus comunicadores.

Sabemos desde o Gênesis/início que o Verbo e a luz são protagonistas na criação, os cristãos pelo menos; e também que Deus se revelou pela palavra profética, por meio de sonhos e visões, por meio de manifestações temporais. Sua voz que no início declarou a existência de todas as coisas “Haja”, “Façamos” (e por isso mesmo não pode ser igualada a nenhuma outra), hoje é cada vez mais difícil de ser ouvida. Abafada por causa da aridez das relações e das incertezas desses nossos tempos sombrios que fizeram o ser humano, ainda que conservando a sua fé, tornar-se cada vez mais cético e comunicar-se menos com o Criador. Mas este homem pós-moderno ainda deseja saber quem é Deus e para responder a ele o Verbo se fez carne. Ora, se a voz lá do início de tudo continua ativa e a luz tão esclarecedora e criadora como antes (não mais indiretamente, agora “Cristo vive em mim”, sua luz é refletida em nós e para o outro) a comunicação com Deus ainda pode ser reestabelecida. Afirmo isso porque os seres humanos, diferentemente dos animais que produzem apenas sons indicativos, possuem a faculdade da linguagem para expressarem o que é justo e injusto, distinguir o certo do errado, possuem para não viverem isolados mergulhados em uma falsa autossuficiência, e para desenvolver sua capacidade de deliberação moral somente alcançada no exercício do relacionamento3 com o próximo (e com o Verbo também!). Porque embora se veja uma pessoa e dela se tenha informações, não se conhecerá o bastante enquanto ela não falar.

“Mas o mundo fundado maciçamente na razão e na técnica mostrou-se finalmente árido, insuficiente; e é por essa brecha que entramos numa espécie de pós-modernidade onde a categoria “misticismo” volta a fazer parte do dicionário das religiões”. (…) “O ser humano de hoje busca ansiosamente experiências que possam dar sentido à sua vida, sinais de que ainda vale a pena viver neste planeta”. 4

Torres Queiruga, um teólogo e escritor galego, diz que o ateísmo moderno em seu âmago não busca a negação de Deus, mas de um discurso religioso que se tornou idolátrico. Ou seja: Este ser humano desejoso de se religar a divindade busca espaços em que não oprimam a sua autonomia, e por estar sob a influência desse “pós-misticismo” passa a consumir religião como qualquer outro produto mercadológico. 5 Este é o ponto: onde a ética consumista passa a valer mais que a cristã aparece logo um pluralismo religioso preocupado em suprir este desejo de uma experiência com Deus ou com o “sagrado”, e onde há desejo, há busca por prazer, por satisfação e fuga da culpa; um campo fértil para várias ideias, em especial uma filosofia, o Utilitarismo, cujo principal aspecto moral procura entender a natureza humana levando em conta o fato de que o indivíduo está sempre em busca do prazer, ao mesmo tempo em que tenta fugir da dor. Esta filosofia do Utilitarismo já invadiu a igreja e a transformou em uma mera organização religiosa, caracterizada por ser uma instituição com doutrinas, disciplinas, determinações éticas, ritos e cânones jurídicos, e cujo valor moral mais elevado é ser útil ao próximo. Esta igreja relativiza os ensinos éticos cristãos e ainda cai na tentação de se identificar como “A” mensagem de Jesus Cristo que é maior que qualquer organização religiosa. Por isso as igrejas estão em crise, pois a maioria se colocou como fim em si mesma e não como um caminho para Jesus Cristo. Algumas sequer buscam obedecer à ordem expressa no Evangelho de Mateus capítulo 28, versículo 18 ao 20.6 Antes buscam apenas proporcionar as pessoas o máximo de satisfação e alegria e impedir o seu sofrimento. É neste reino terrestre da prosperidade e do triunfalismo que acontece o conflito com o Reino de Deus:

Jesus disse: “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui” (João 18:36). O que significa “não é deste mundo”? “Interrogado pelos fariseus sobre quando viria o reino de Deus, Jesus lhes respondeu: Não vem o reino de Deus com visível aparência. Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Lá está! Porque o reino de Deus está dentro de vós” (Lucas 17:20-21). “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Romanos 14:17). 7

Sabemos que os seres humanos são seres relacionais e estão indissoluvelmente ligados uns aos outros, não à maneira dos organismos vivos, mas em virtude da sua participação comum num mundo composto por significados. Mundo onde as virtudes possuem valor moral genuíno e produzem um julgamento moral que o habilita a fazer a coisa certa. Contrariamente a qualquer organismo vivo, os homens têm uma vontade livre e têm um entendimento de si próprios e do mundo no qual se inserem. Simpatizamos e admiramos o outro pela qualidade de caráter, por sua disposição em compreender e aceitar as circunstâncias da vida como um ser reflexivo, resultado da história que determina sua vida, porém ciente de suas particularidades. Portanto, o ser humano habita um mundo composto por significados, sentimentos e crenças, mas acima de tudo, é um aprendiz porque os significados têm que ser aprendidos. Aristóteles diz que “A virtude moral resulta do hábito”, é o tipo de coisa que aprendemos com a prática, que o ser humano aprende ao longo de toda a vida e o mundo em que habita é o seu local de aprendizagem. Em tese, todo ser humano deveria ter como exemplo um cristão verdadeiro (luz do mundo); na maioria das vezes este que se apresenta como próximo é um “farol” vitimado pelo “utilitarismo gospel”, que deveria estar posicionado de maneira a enxergar aquilo que os neófitos, incrédulos, não são capazes de perceber, ensinando-os e alertando-os para possíveis problemas e perigos, mas ao contrário, foge disso, da posição de atalaia: porque essa posição, ao mesmo tempo em que é privilegiada (porque lhe permite a visão panorâmica de quem consegue ver o que os outros não veem), também é instigante, na medida em que lhe força a perguntar para o seu interior: até que ponto conheço o que se passa ao meu redor?8 Tenho amado de verdade o meu próximo como a mim mesmo? Ou tenho sucumbido à ideologia moderna do “Sagrado”, vivendo uma obsessão doutrinária, buscando os prazeres da intelectualidade e da afetividade, e tão somente fazendo apenas o que é necessário para alcançar a minha felicidade (que é para o utilitarismo e também para esta sociedade, o bem mais valioso da existência humana nesta era pós-moderna)?

Nesta busca, hoje as luzes parecem apontar apenas para o belo, a beleza, para a arte, buscam uma virtude estética que faz parecer ser o que não é, parecer ser a realidade do que representa. Este é o padrão que esta sociedade tem deturpado, procurado e vivido; alegram-se com a visão do aparentemente bom e mesmo que não passem de meras embalagens vazias, mesmo que nos tragam uma embaçada percepção do relacionamento humano em sociedade, habilmente mascarado pela composição de situações ingênuas em imagens irreverentes ou ternas, meras máscaras sociais que nos trazem uma imagem da humanidade supostamente como realmente é; uma síntese do homem-animal, prisioneiro em sua própria estupidez, cruel e divertido, incoerente e às vezes singularmente doce. Eis os sinais mundanos, que não remetem a alguma coisa virtuosa de fato; eles apenas a “substituem”, pretendendo valer por seu sentido. Antecipam ação e pensamento, anulam pensamento e ação, e se declaram suficientes. Ora, sentimentos, sensações, cargas emocionais tão somente ofuscam. Onde não há expressão de um caráter elevado (o de Jesus Cristo por exemplo), com sua linguagem própria, nada se cria, nada se ganha e não se ajuda ninguém. Daí seu aspecto estereotipado e seu nenhum valor moral.

Eu sei que é estranho abrir os olhos após o nada, e perceber que a existência cristã real, aquela que havia sido suspensa por estarmos praticando mera religiosidade, nos é proporcionada pela claridade intensa do evangelho da salvação; mas é para emergimos do grande vazio (legalista-hedonista-místico-egoísta e relativista) em que estávamos mergulhados que Jesus nos alerta dizendo, “Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês dão o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas têm negligenciado os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Vocês devem praticar estas coisas, sem omitir aquelas.”9 Ter caráter (ser luz) é ter consciência das exigências (por vezes conflitantes) que a vida nos impõe. Mas este comportamento só acontecerá realmente se examinarmos as escrituras, e obedecendo-a nos unirmos a Deus em oração contrita. A palavra do homem é a expressão de seu caráter e se vivermos o amor incondicional ao outro e a Deus, legitimamos o poder e autoridade que Ele nos tem feito portadores. O verbo poderá agir em nossas vidas e, assim como enviados de Deus a este mundo, testemunharemos e testificaremos da luz de Cristo para que todos creiam Nele. 10

1-http://www.bibliaonline.com.br/acf/mt/5 versículos 14 ao 15.

2-http://umbigodascoisas.com/2013/10/10/ja-ouviu-falar-sci-phi/

3-Aristóteles, The Politics, livro I, cap. ii [1253a].

4-Maria Clara, coluna de Luiz Paulo Horta, Caderno Prosa, O Globo, 20/07/2013.

5-https://oficinadopinduca.wordpress.com/2012/12/24/faca-o-caminho-de-volta/

6-http://www.bibliaonline.com.br/acf/mt/28

7-http://www.estudosdabiblia.net/a15_23.htm

8-Leonardo Boff, Cristianismo: o mínimo do mínimo, Editora Vozes, 2012.

9-http://www.bibliaonline.com.br/nvi/mt/23

10-http://www.bibliaonline.com.br/acf/jo/1

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Sobre lucaspinduca

I like to think I'm part cultural voyeur mixed with a splash of aspiring behavioral scientist and wannabe motivational christian speaker.
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