Resistir é arar o coração.

Todos nós temos um mundo interior formado de diferentes partes: coração, alma, mente, espírito, vontade, intelecto e emoções. É a vida que continua dentro de nós: pensamentos, sensações, atitudes, sentimentos e opiniões. É onde os sonhos são gerados e onde sofremos os fracassos, e vivemos a existência diária. A vida exterior está em contraste com este mundo interior, muitas vezes na maneira como falamos e agimos e no modo como queremos que as pessoas nos vejam. Esta projeção exterior do meu eu ganhou um grande impulso com as redes sociais, um lugar onde podemos criar um “perfil” perfeitamente idealizado e quase sempre inverossímil se comparado a realidade. Como temos a tendência de nos projetarmos da maneira que queremos, isso não fica só no plano virtual, muitas vezes se transfere também para a vida espiritual, e, se somos cristãos cercados por outros, logo nos projetaremos como “espirituais”. O apóstolo João observou isso muito bem ao seu redor:

 “Se afirmarmos que temos comunhão com ele, mas andamos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade.

Se, porém, andamos na luz, como ele está na luz, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado.

Se afirmarmos que estamos sem pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós.

Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça.

Se afirmarmos que não temos cometido pecado, fazemos de Deus um mentiroso, e a sua palavra não está em nós.” (1 João 1:6-10)

 Quando João escreveu essa epístola, ele se referiu a todos os cristãos. Porque todos nós temos algum grau de pecado e ninguém está isento de pecar. Fica claro que precisamos andar na luz, que precisamos reconhecer para nós mesmos ou para os outros, que o nosso pecado está presente, ele ainda existe, e Deus o vê. Não é suficiente apenas lutar contra as tentações, precisamos ir para a luz com os outros. As trevas são o domínio do diabo. Aqueles que se recusam a trazer seu pecado, sua fraqueza, suas tentações para a luz estão escolhendo permanecer nas trevas.1

Neotestamentariamente, as “tentações” são obra tanto de Deus como do diabo. São situações que testam o servo de Deus, que se vê frente a frente com novas possibilidades tanto de bem como de mal, e se vê induzido para que prefira o mal, porque, afinal, a carne é sempre fraca para estas coisas (Mateus 4:1, 6:13) e satanás testa o povo ao manipular as circunstâncias dentro dos limites que lhe são permitidos, na tentativa de fazê-los abandonar a vontade de Deus (vide o livro de Jó). Não é a toa que a bíblia o chama de tentador. Os cristãos precisam manter-se em vigilância constante: “Irmãos, se alguém for surpreendido em algum pecado, vocês, que são espirituais deverão restaurá-lo com mansidão. Cuide-se, porém, cada um para que também não seja tentado” (Gálatas 6:1). E ativos contra o diabo, pois ele está sempre agindo, procurando fazê-los cair (Efésios 6:10 em diante).

Claro que o desejo que nos impulsiona a pecar não vem de Deus, mas de nós mesmos; e por isso Cristo nos ensina a orar pedindo para que não entrássemos em tentação quando em qualquer ocasião Deus achasse por bem nos testar (Mateus 26:41). E seria muito bom que os crentes não se colocassem em situações tentadoras também. A tentação ainda que não seja pecado é uma possibilidade plausível demais de acontecer, e por isso precisamos estar atentos para não aceitar conselhos vãos e sugestões que contrariem o que já recebemos como ensino verdadeiro.

Na luta contra a tentação podemos cometer o erro de se concentrar nas ações e tentar eliminar somente o comportamento que leva ao erro. Podemos estar, inadvertidamente, alimentando uma falsa convicção ao invés de uma verdadeira convicção. Falsa convicção é uma reação reflexa causada por desgosto, uma tristeza sobre as consequências do pecado. A verdadeira convicção é uma tristeza permanente porque entendemos que uma vez que cedermos à tentação ofenderemos diretamente a Deus. Verdadeira convicção é seguida pelo verdadeiro arrependimento que muda o coração. Falsa convicção é seguida pelo arrependimento falsificado que só vê as consequências do pecado. Muitas vezes, isto leva a uma alteração temporária no comportamento sem uma mudança do coração. Portanto, deve haver transformação interior do nosso coração, porque ele é “enganoso acima de todas as coisas e desesperadamente corrupto”Jeremias 17:9).2 Precisamos nos submeter totalmente a Deus. A cruz não é um programa de recuperação, o lugar de melhorar, porque o que é bom já está lá. É um lugar para morrer. É uma questão de abrir mão de nossos direitos!

 “Mas, graças a Deus, porque, embora vocês tenham sido escravos do pecado, passaram a obedecer de coração à forma de ensino que lhes foi transmitida. Vocês foram libertados do pecado e tornaram-se escravos da justiça.” (Romanos 6:17-18).

 Antes como pecadores mortos, vivíamos “na paixão da nossa carne, realizando os desejos do corpo e da mente” (Efésios 2:3). Éramos tolos enganados pensando que podiam usar seus corpos como quisessem quando se está apaixonado, que andavam procurando qualquer prazer que fizesse de nós uma pessoa completa ou que alimentasse nosso bem-estar físico ou espiritual. O pecador verdadeiramente arrependido começa a entender, “Você não é seu, Porque fostes comprados por bom preço. Então, glorificai a Deus no vosso corpo” (1Coríntios 6:19-20).

O verdadeiro arrependimento é uma mudança radical de dentro para fora. “O significado básico de arrependimento é experimentar uma mudança de percepção, de disposição e propósitos” (O que Jesus exige). Arrependimento não é apenas tornar-se sexualmente puro ou abandonar um vício, mas uma mudança interior, “assim como andar de modo digno do Senhor, agradando-lhe, frutificando em toda boa obra e crescendo no conhecimento de Deus” (Colossenses 1:10). Mudança interna leva a pureza sexual, mental, espiritual e comportamental. O arrependimento acontece no interior, onde a mudança do coração inclui o desenvolvimento de uma atitude enraizada de fugir de todo e qualquer tipo de pecado.

 “Nossa primeira atividade deve ser ansiar por Deus em oração. Nossa atividade é chorar por nossos pecados (Tiago 4.9). Nossa atividade é prosseguir para o alvo para ganhar a santidade de Cristo e o prêmio do chamado soberano de Deus (Filipenses 3.14); esmurrar o corpo e o reduzir à escravidão para não sermos desqualificados (1Coríntios 9.27); negarmos a nós mesmos e tomarmos a cruz ensanguentada todos os dias (Lucas 9.23). Nós fomos crucificados com Cristo e vivemos pela fé naquele que nos amou e a si mesmo se deu por nós (Gl 2.20). Não devemos nos encher de vinho, mas do Espírito (Efésios 5.18). Nós somos os inebriados de Deus, loucos por Cristo. Então, maravilha das maravilhas, foi-nos concedido transportar o tesouro do evangelho em vasos de barro para que a excelência do poder seja de Deus (2Coríntios 4.7).”3

Por que alguém deveria resistir às tentações?

Primeiro não se deixe enganar:

 “Aquele que pratica o pecado é do diabo, porque o diabo vem pecando desde o princípio. Para isso o Filho de Deus se manifestou: para destruir as obras do diabo.

Todo aquele que é nascido de Deus não pratica o pecado, porque a semente de Deus permanece nele; ele não pode estar no pecado, porque é nascido de Deus.” (1 João 3:8-9)

 Quem pratica o pecado é do diabo. Ninguém nascido de Deus tem por prática pecar, ao contrário, permanece Nele e não pode continuar pecando, porque é nascido de Deus. Embora não seja totalmente livre do pecado, o coração do verdadeiro crente foi transformado, e ele não pode viver em pecado contínuo. A semente de justiça precisa germinar e produzir frutos. Precisamos “arar”, preparar, o nosso coração.

Em segundo lugar, o verdadeiro segredo de quem inicia uma nova vida não são apenas os fatores circunstanciais e externos. E sim um conjunto de atitudes internas, uma forma de pensar e agir que permite as pessoas alargarem a sua capacidade de fazer escolhas4, e uma boa escolha é fazer a vontade de Deus sempre. É ser capaz de superar influências más, desejos carnais e acontecimentos inoportunos e, grifo meu, “prosseguir para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus”. A nossa salvação. E por último, mas não menos importante:

 “Se, tendo escapado das contaminações do mundo por meio do conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, encontram-se novamente nelas enredados e por elas dominados, estão em pior estado do que no princípio.  Teria sido melhor que não tivessem conhecido o caminho da justiça, do que, depois de o terem conhecido, voltarem às costas para o santo mandamento que lhes foi transmitido. Confirma-se neles que é verdadeiro o provérbio: “O cão voltou ao seu vômito” e ainda: “A porca lavada voltou a revolver-se na lama”. (2Pedro 2:20-22)

 

 

 

1- Steve Gallagher, NO ALTAR DA IDOLATRIA SEXUAL, pág. 64-65, Graça Editorial, 2003.

2-Traduzido e colado de http://www.desiringgod.org/blog/posts/sexual-sin-in-the-ministry.

3- John Piper, IRMÃOS, NÓS NÃO SOMOS PROFISSIONAIS, pág. 16, Shedd Publicações, 2009.

4- César Souza, VOCÊ MERECE UMA SEGUNDA CHANCE, Agir, 2012.

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Sobre lucaspinduca

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