Saia do meio da multidão.

Cees Nooteboom nos adverte com um sermão a respeito da efemeridade da vida:

(…) O que não deixa de nos espantar é que vocês se espantem tão pouco. Somos apenas o acompanhamento, mas se fosse para nós mesmos vivermos direito, guardaríamos mais tempo para a meditação. Uma das coisas que não conseguimos entender é como vocês se ajustam tão mal a sua própria existência, sem pensar sobre o assunto. E que se instruam tão pouco sobre as infinitas possibilidades de que dispõem. (…) Vocês são mortais, não há dúvida, porém o fato de que possam refletir com esse minúsculo cérebro sobre a eternidade ou sobre o passado e que dessa maneira, com o espaço limitado e o tempo limitado que lhes é dado, possam abranger espaço e tempo tão imensos — aí reside o mistério.(…)

A raiz latina do verbo “inventar”, inuenire, significa encontrar ou descobrir. E inventar-se parece ser a ordem do dia nestes tempos atuais, onde somos forçados (e precisamos?) todo tempo a estar ocupados em ser ‘alguém’, a encontrar o ‘verdadeiro’ eu real em um mundo cada vez mais virtual; em descobrir o tal sentido da vida. Sei que há uma espécie de precoce maturidade e independência neste processo, mas ainda assim há algo de incapacitante neste homem moderno, que precisa sempre dar uma forma nova a tudo o que conhece, colocando em um novo contexto. O Apóstolo Paulo já nos alertava (grifo meu):

“Rogo-vos pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis a este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.” Romanos: 12. 1 – Bíblia JFA Offline

Penso que, em um mundo onde todos vivem um processo de formação que nunca termina e dentro dele lidam com dissipações de identidade, cultura, família e afetos, e onde se faz necessário uma superexposição de si para que o outro descubra, encontre, algo interessante ou avise-nos de nossa falta de novidade ou autenticidade, não sobra espaço e tempo para a busca interior, para o conhecimento da verdade e possível experimentação da vontade divina. Por isso nos ajustamos tão mal a nossa própria existência.

Pensemos numa ampla ideia de “formação”, este itinerário que todos percorrem rumo a um mesmo fim, qual seja, aquele que a todos é informado previamente como “morte”. É recorrente o imperativo “formativo” de que não se pode viver à deriva, sem saber aonde se quer chegar. Mas o fato é que, querendo ou não, já sabemos onde iremos chegar: sete palmos abaixo do chão. Ocorre que são muitos os que lançam mão de fórmulas ritualizadas para descobrirem um “sentido da vida” necessariamente já catalogado em algum projeto institucional (escola, família, Estado, classe profissional etc).1 A vida precisa de um propósito maior do que a mera realização de um papel social que produza alegria e contentamento quando supre os desejos humanos simplesmente. Por causa disso é que o culto racional descambou para religiosidade legalista e Deus um mero patrono de uma instituição.

Mas, neste nosso mundo global e amplo, somos esmagados pelo empreendedorismo, ativismo, desta cultura antropocêntrica de consumismo, hedonismo e narcisismo exacerbado onde os jovens muito bem inseridos e adaptados a tudo isso acabam por ditar o rumo comportamental da maioria. Daí ver tanta gente querendo evitar o envelhecimento, fugir do destino certo e fatídico, quando deveriam tomar um outro rumo. Você não é só o que aparenta, inventa, consome e vê. Você não é só o que quiser ser como dizem por aí. Você foi criado com um propósito maior, mas para entender isso, você precisa entender o Criador. Mas todos pecaram e para ouvir o Criador precisam ouvir uma verdade que não obedece a lógica humana, não se enquadra na retórica desta sociedade e, sequer, atende as reinvindicações da razão deste mundo. Por isso as pessoas cada dia mais preferem e seguem a ‘crowd’, a multidão, quando a desorientação impera. Não há unidade no indivíduo, só ajuntamento.

Que o indivíduo comum é irrelevante se não deixar um legado, um rastro por menor que seja na história é evidente. E se um homem sem fé é desagradável, sem obras e sem um legado ele assemelha-se a um não nascido, um aborto que vingou, entretanto, seu juízo próprio o impedirá de fugir de si mesmo quando adquirir este entendimento, restando à ele apenas sua própria consciência, que a priori, “não sabe nada da lei, e o senso comum não lhe é de interesse ou preocupação, cada consciência tem seu próprio sentido, e essa linha tênue é, (…) muitas vezes borrada e, uma vez desaparecida, não separa nada.”2

Pronto! Temos aí um indivíduo motivado a resignar-se. Mas a resignação não implica a fé, nem a humana, tãopouco a teológica, visto que se olharmos para toda certeza humana, veremos que não passa de leviandade quando comparada com a inquebrantável firmeza da fé bíblica.

Avançando um pouco veremos que um dos comportamentos típicos desta sociedade, é sempre considerar ‘outsider’ quem tem um motivo lógico para desejar o anonimato ou que não se desnuda totalmente nas redes sociais ou onde quer que se ajunte para socializar, preferindo ser ‘apenas’ uma pessoa sincera e autêntica; estes indivíduos soam ‘falsos’ e são suspeitos demais para a maioria e suas intenções recebem o mesmo peso moral que suas ações, simplesmente porque esta maioria não sabe renunciar à própria ambição. E tãopouco deseja. Os cristãos são entendidos desta maneira: se buscamos uma pureza “impossível” (para alguns), pureza esta que nos “afastam” do mundo cotidiano, rumo a uma anulação de si mesmos que é considerada “isoladora e perigosa”, somos anormais, com padrões anormais; somos acusados de nos comportar como “se você fosse a única pessoa no mundo com um diacho de um mínimo de bom senso”.3

Modernamente parece necessário apenas saber o que se quer, mas não saber o que não se quer; ora, o sujeito que age desta maneira resigna-se a viver zanzando sem um motivo claro, sem objetivos definidos, trombando em toda sorte de estranhos, cada um com suas idiossincrasias, suas piras esotéricas e ufológicas, escapes suicidas, puerilidades políticas, ambiguidades de gênero, tudo isso em mais uma sucessão de desencontros, e que acaba encurralado entre a indulgente busca de satisfação e a realização de um legado insignificante.

“Mas Deus lhe disse: Insensato, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?” – Lucas: 12. 20, Bíblia JFA Offline.

Pior é quando essa perspectiva sobre o mundo incorpora uma visão cética, onde tudo é provisório e oferece muitas versões alternativas, ambivalentes. Percebemos então que só a morte é certa, mas a identidade não; que as pessoas não são feitas só do que elas são, mas também do que não são, do que lhes falta, do que poderiam ter sido e assim por diante. Infelizmente, para a maioria torna-se mais confortável se adequar ao dito, “Ser humano é estar confuso […] Existir é um negócio bem opressivo”:

[…]Há apenas dois lugares possíveis para uma pessoa. A família é um deles. O outro é o mundo inteiro. Às vezes não é fácil saber em qual dos dois estamos.4

Para muitos a escolha é óbvia: estar misturado com a multidão que fervilha a qualquer hora do dia pelos centros das cidades. Pelos chats, pelas redes sociais, pelo crowdsourcing da vida, onde existe um falso alívio em estar entre iguais fazendo a mesma coisa ou “inventando moda”. Mas como todo ser humano, ainda precisará fazer escolhas todo o tempo, pois a multidão só entende o fluxo, o movimento, e no meio dela é impossível escapar de si mesmo, a não ser pela saída extrema da morte. Na verdade a multidão só reforça uma condição humana contemporânea: a angústia. Como está escrito:

“Uma geração vai-se, e outra geração vem, mas a terra permanece para sempre. O sol nasce, e o sol se põe, e corre de volta ao seu lugar donde nasce. […] Todas as coisas estão cheias de cansaço; ninguém o pode exprimir: os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos se enchem de ouvir.” – Eclesiastes: 1.4-5, 8, Bíblia JFA Offline.

O fato é que, a partir do momento em que começamos a perceber melhor como a vida funciona, também recebemos uma notícia fatídica: vamos morrer um dia. E sim, o mundo vai continuar, bem ou mal, sem a gente. A única diferença é que não sabemos quando. O que nos resta é descobrir o que fazer com essa novidade, como administrar o tempo restante:

Pois os vivos sabem que morrerão, mas os mortos não sabem coisa nenhuma, nem tampouco têm eles daí em diante recompensa; porque a sua memória ficou entregue ao esquecimento. Tanto o seu amor como o seu ódio e a sua inveja já pereceram; nem têm eles daí em diante parte para sempre em coisa alguma do que se faz debaixo do sol. – Eclesiastes: 9. 5-6, Bíblia JFA Offline.

A reflexão sobre estarmos mesmo ou não no caminho certo é mais do que necessária, porque precisamos saber se estamos dando valor às pessoas e as coisas certas, ou se estamos vivendo como ‘imortais’, como se o nosso tempo aqui na terra fosse infinito, pois tudo isso reflete nas nossas atitudes futuras e destino futuro. Como cristãos conhecedores dos mandamentos bíblicos, sabemos que após a morte ainda existiremos e prestaremos algumas contas:

“Um judeu, por exemplo, cercado de filhos, era empurrado, para as câmaras de gás em Auschwitz. Ele sabia que caminhava para o extermínio. Mesmo assim, ia recitando alto o salmo 23: “O Senhor é meu pastor…Ainda que eu ande pela sombra do  vale da morte, nenhum mal temerei, porque Tu estás comigo”. A morte não rompe a comunhão com Deus. É passagem, mesmo dolorosa, para o grande abraço infinito da paz eterna.”5

Finalizo parafraseando Russell Norman Champlin:

“É útil lembrar que a busca da verdade continua e que a verdade não morre com a morte de alguém. Também é impossível estagná-la dentro de um sistema qualquer que tolamente acha ter toda a verdade e ter resolvido todos os problemas. Erasmo certamente tinha razão quando insistia em que a linguagem humana não pode aprisionar o infinito“.

1- Extraído de http://filosofiadodesign.com/gestaltungsaufgabe/

2-Extraído de Os Enamoramentos, Javier Marías, Companhia das Letras, 2013

3- Extraído de Franny e Zooey, J. D. Salinger.

4- extraído de Barba ensopada de sangue, Daniel Galera, Cia. das Letras.

5- http://leonardoboff.wordpress.com/2014/02/03/os-salmos-a-anatomia-da-alma-humana/

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Sobre lucaspinduca

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