O estigma de Cristo

“Desde criança amo as casas grandes e avarandadas. Sempre imaginei que todas as pessoas que tinham casas com varandas eram felizes. Minha primeira grande ilusão, logo perdida. Na adolescência, pensava que as pessoas inteligentes não tinham preconceitos. Mais uma fantasia que não encontrou respaldo na realidade. Vivi mais um pouco e achei que a espécie humana era feita basicamente da mesma matéria. Logo, brancos, pretos, azuis e amarelos seriam todos iguais. Todos temos a mesma procedência. Mais um engano. Após um tempo de busca, deixei de lado as ilusões. Superando as fantasias, acabei descobrindo minhas verdadeiras raízes. Há um grupo, ao qual me orgulho de pertencer, que tem uma raiz comum que não é física, nem histórica, nem geográfica… Uma raiz espiritual, talvez. São pessoas de uma espécie que valoriza a humanidade verdadeiramente. Por isso, vivem aprimorando a visão para enxergar melhor a si mesmos e aos outros, unindo-se nas resistências positivas. Procuram vencer os preconceitos, em si mesmas e na sociedade e não se importam com o tamanho da sua luta. Como o beija-flor de uma história antiga, carregam água no bico para apagar o incêndio na floresta. Jamais se perguntam se estão fazendo pouco. Simplesmente fazem. Fazem sempre o que podem.” [1]

Soa familiar o texto grifado? Seriam os cristãos o grupo descrito acima? O estigma de Cristo diminui outros estigmas (samaritano, publicano, cego, coxo, leproso, prostituta, etc), porque promove o resgate do ser humano, fazendo-o buscar um relacionamento que diminui as diferenças (visto que estas diferenças são ao mesmo tempo a base da vida social e fonte permanente de tensão e conflito). Antropologicamente, todo homem existe, interage e interdepende de outros indivíduos; mas é a partir deste contato/convívio com o outro que compreendemos o mundo. Jesus Cristo sempre aparece nos evangelhos como um indivíduo cosmopolita, próximo, acessível e participante da vida cotidiana, ou seja, inserido no seu contexto social, cultural e temporal. Sua ordem: “Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens” (Mt. 5.16a) é um chamado a prática da obediência e dedicação ao mandamento bíblico, um comportamento próprio de quem foi “iluminado” por sua verdade e vive esta verdade. “A verdade consiste na conformidade de espírito com as coisas. A inteligência estando, por natureza, determinada a estar conforme ao ser, não existirá verdade a não ser na medida em que ela obedeça às exigências objetivas do ser, quer dizer, em que haja adequação de seus juízos com o real”.[2]

Os cristãos acreditam que em toda a existência humana são dirigidos para um encontro final com Aquele que os criou, ou seja, Deus; e para que isso aconteça é importante o reconhecimento da necessidade de conhecimento prévio da pessoa de Deus e que é preciso estar aliado a Ele, submetido ao seu “método de resgate da alma”, que é literalmente a salvação em Jesus Cristo, sem a qual estariam à mercê de seus próprios meios de alcançar a felicidade eterna, e com um parco conhecimento do que é imortalidade e o que os aguarda pela eternidade afora. Somente Deus conhece a eternidade e pode proporcionar uma vida eterna em paz e felicidade. Somente em Cristo os anseios da alma imortal se realizam completamente. Em João 14.16, Jesus disse: “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre”. Jesus conhecia as necessidades mais profundas dos homens que o seguiam. Ele conhecia suas debilidades, seus temperamentos e seu fervor mal orientado. Ele os havia observado por cerca de três anos. Sabia exatamente do que necessitavam. Ao eliminar a dúvida sobre a imortalidade e satisfazer os anseios da alma através da sua ressureição, a concepção de que Cristo é Salvador se estabelece como verdade. Cristo é estabelecido então, como único ser que pode possibilitar a integração eterna entre criador e criatura; fica evidente que não existe ninguém mais capacitado ou com conhecimento da profundidade do ser humano. Por isso ‘o justo viverá por fé’, por acreditar na justiça e no juízo divino, para tanto, moldando a sua existência ao padrão estigmativo de Cristo, visto que os juízos de Deus são adequados a realidade de uma existência eterna. [3] Parafraseando Yancey:

“Jesus declarou que deveríamos ter um sinal diferencial: não a correção política ou superioridade moral, mas o amor. Paulo acrescentou que sem amor nada do que fazemos – nenhum milagre da fé, nenhum brilho teológico, nenhuma chama de sacrifício pessoal – terá valor (1 Co. 13).” [4]

“Um governo pode fechar lojas e teatros aos domingos, mas não pode exigir adoração. Pode prender e punir os assassinos…, mas não pode curar o seu ódio, muito menos ensinar-lhes amor. Pode aprovar leis tornando o divórcio mais difícil, mas não pode obrigar os maridos a amar suas esposas e as esposas a amar seus maridos. Pode dar subsídios aos pobres, mas não pode forçar os ricos a demonstrar por eles compaixão e justiça. Pode banir o adultério, mas não a concupiscência; o roubo, mas não a cobiça; a fraude, mas não o orgulho. Pode encorajar a virtude, mas não a santidade.” [5]

O filósofo Glenn Tinder fez a seguinte pergunta:

“Podemos ser bons sem Deus? Sua conclusão: “ … Em uma só palavra foi: não. Os seres humanos, inevitavelmente, derivam para o hedonismo e egoísmo a não ser que alguma coisa transcendente – o amor ágape – os leve a se importar com alguém mais do que com eles mesmos…” [6]

No passado, o homem precisava ver para crer; atualmente desconfia de tudo e o que é pior, sem questionar quase nada. Historicamente, os saltos intelectuais que a humanidade deu e levou-a muitas descobertas foram motivados pelo egocentrismo, intolerância e arrogância, visivelmente herdados por muitas gerações, inclusive a atual. Porque não buscamos ensinar para formar um indivíduo livre e capaz, mas desejamos mantê-lo submisso e subjugado aos nossos padrões para explorá-lo das mais variadas formas? Porque é melhor que não se desenvolvam, ou teremos que admitir idéias contrárias as nossas… Vivemos em um mundo onde a intelectualidade tem aniquilado a inteligência e a sabedoria; um mundo embotado pela vaidade humana, pelos maus desígnios do coração do homem e pela necessidade que sente de ser um deus, desconsiderando que jamais teria sido capaz de criar tudo o que tem destruído. Fica cada dia mais claro que, existe uma ruptura do vínculo de dependência, de submissão e temor a Deus em prol de uma liberdade arbitrária e falsa, uma pretensa vontade humanitária que nos faz escolher errado, aprisionando-nos em dúvidas, medos, inseguranças e superstições, que acabam sempre em uma visão individualista, segregadora, em uma auto-suficiência mentirosa. Diante de tais fatos, pergunto: até quando vamos viver alienados, confinados em um mundo ideal que já não existe, perdendo a oportunidade de escrever uma história realmente verdadeira, usando o maior ensino que dispomos: a Palavra de Deus que gera um aperfeiçoamento do ser humano à medida que o conduz a uma mudança comportamental? [7]

“A doutrina do Relativismo diz que os conceitos de bem e mal variam de acordo com a época, a sociedade, a formação do indivíduo. Mas será que Deus sofre mudanças? Não. Entretanto, a nossa natureza frágil sofre. A Bíblia diz que “tudo o que o homem semear, isso também ceifará” (Gl. 6:7), o Relativismo Ético que chama mal de bem e bem de mal está jogando o homem moderno contra o padrão moral absoluto de Deus, mas nós como crentes, precisamos ter uma perspectiva das circunstâncias e fatos que nos rodeiam de acordo com os princípios divinos. Sem uma perspectiva correta das coisas, é impossível a formulação de um sistema de valores e uma ordem de prioridade capaz de estimular e facilitar o crescimento espiritual necessário para que possamos viver uma vida vitoriosa em Jesus Cristo (esse sistema de valores e prioridades pode ser chamado de Cristianismo). A solução para combater o Relativismo Ético está na Graça, é nela que encontramos o conteúdo para a formação do caráter cristão. O homem moderno está preso ao pecado e ao Relativismo Ético e suas envolventes teorias. O Deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos, para que não lhes resplandeça a luz do Evangelho de Cristo (II Co. 4:4). O Diabo cega; Deus revela e ilumina; a solução para as contradições diárias do homem não está no moralismo cristão ou no Relativismo Ético, Está na Ética de Cristo! Só um sistema que proceda de Deus e não do homem pode ser absoluto, satisfazendo as necessidades humanas em qualquer tempo ou situação, e só Jesus Cristo nos apresenta os princípios morais de Deus de uma maneira irrefutável e maravilhosa.” [8]

O cristão que quiser seguir a Cristo, “caminhar” por esta estrada, deverá não somente confessar sua fé em Cristo, mas também praticar uma ação dinâmica, visto que o arrependimento encontrado no NT é traduzido da palavra grega metanóia, e significa:

“mutação de inteligência, retorno do pensamento e, literalmente, “revolução cultural” pela qual os homens salvos pela palavra de Cristo entram numa inteligência nova do mundo, da história e da tarefa humana” [9] (I Co. 1.21).

Concluímos que só o conhecimento racional não é suficiente para o aprimoramento do ser humano. É necessária uma intervenção divina no existir humano. É preciso que tenhamos uma interação, um relacionamento real com Deus. Este relacionamento só é possível mediante o conhecimento da realidade invisível das coisas espirituais, o que nos leva de volta a crença em um fenômeno religioso ou em Deus (a crença em um deus é uma adesão consciente e inteligente a um relacionamento com ele); esta crença (fé), é a faculdade de perceber a realidade do mundo invisível de Deus e fazê-lo o objetivo básico de nossa vida; o que faz um enorme contraste com o caráter mau e transitório da nossa atual sociedade, onde o antropocentrismo e o relativismo ético não permite que o homem se volte para as verdades divinas; é dogmática demais. Além de que a fé foi reduzida a um processo místico e desprovida de importância em nossa sociedade cética e amoral. O senso comum suplantou o bom senso, que é a capacidade de distinguir entre o falso e verdadeiro. Hoje, existem aqueles que transformam a fé em Deus em fanatismo e aqueles que acreditam na ciência como em um Deus; Embora o façam porque busquem certezas, vivem o mito como realidade. Ora, sabemos que, onde a temática religiosa exerce forte influência acaba predominando, sempre, uma preocupação apologética (defesa da fé cristã) e o trabalho de conversão dos não-cristãos, cuja máxima predominante é sempre, “Crer para compreender, e compreender para crer”. Não importando se a razão não consegue entender, já que o princípio da aceitação por fé é fundamentado no ensino contido na Palavra de Deus, que é a revelação divina, e nas verdades da razão natural que não contradizem as verdades da fé cristã.

1- Texto de Amélia Nascimento, COLORS NOTEBOOK, Raízes Para Futuras Gerações, Julho 2006, P. 38, São Paulo, Brasil.

2- R. Jolivet, extraído de Curso de Filosofia, AGIR, Rio de Janeiro, p.232-240, 1979.

3- cf. R. Jolivet, Curso de Filosofia, AGIR, Rio de Janeiro, p.232-240, 1979.

4- Extraído de Yancey, Phillip, Maravilhosa Graça, São Paulo, 4ª Edição, P. 253, Ed. Vida, 2002.

5- Extraído de Yancey, Phillip, Maravilhosa Graça, São Paulo, 4ª Edição, P. 262, Ed. Vida, 2002.

6- Extraído de Yancey, Phillip, Maravilhosa Graça, São Paulo, 4ª Edição, P. 261, Ed. Vida, 2002.

7- Extraído do texto de Osíria Fernandes, Opinião, P. 5, Folha Universal, 20 de agosto de 2006.

8- cf. SOUZA, Ely Alves de, Ética Cristã, Edição do Autor.

9- Delteil, G. 1968:3-4.

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Sobre lucaspinduca

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