Estamos distantes daquilo que acreditamos e o que fazemos?

Trecho da letra de “One of us”, cantada por Joan Osborn:

“Se Deus tivesse um nome, qual seria? Como você o chamaria se o visse na sua frente? Se você se encontrasse com ele, em toda sua glória, o que você perguntaria se tivesse apenas uma pergunta? É, Deus é maravilhoso, Deus é bom. Mas e se Deus fosse um de nós? Apenas um coitado como um de nós. Apenas um estranho no ônibus tentando voltar para casa?” 1

Para algumas das perguntas acima só um relacionamento pessoal poderia gerar respostas cabíveis. Entretanto, a hostilidade humana começa na rejeição do criador, em sua divindade pessoal. Para em seguida esquecer que foi criado para representar Deus em seu maior atributo: O amor. Por isso a falta, no ser humano em geral, da boa vontade para com o outro, é o que tem impedido de ser mais humano, generoso, gentil, e de manifestar uma real empatia. Ou seja, o problema social pós-moderno consiste na distância exata entre a doação generosa e desprendida e a autossuficiência egoísta-legalista. Muito popularmente conhecida como politicamente correto e ou tolerância (Ou relativismo moral laicista em minha humilde opinião).
Aos cristãos em geral, a época atual mostra-nos que a verdadeira Igreja precisará refletir sobre o amor prático, a caridade e o cuidado, e começar de maneira intensa a praticá-lo, exercendo uma renúncia sobre a liberdade, conforto e bens que tem adquirido para que o outro também se beneficie e viva bem. Entretanto, não se trata, aqui, de qualquer forma de amor, mas, sim, daquela que melhor retrata a doação de um ser humano rumo ao outro, o amor cristão – ágape. É o amor da disponibilidade, da preocupação, como já foi dito, da doação. O amor manifestado por Cristo, que sacrificialmente se entregou por toda a humanidade. Amor este que outrora foi a mola impulsionadora que moveu os primeiros cristãos a se doarem sem medida, muitos pagando com a própria vida. Todos com a mesma finalidade: implantar o Reino do amor. E se realmente cremos nesse Reino, podemos começar com a pergunta “Temos realmente amado o próximo como a nós mesmos”? Uma resposta adequada pode ser encontrada no texto bíblico do evangelho de Mateus, uma fala de Cristo, que nos mostra o porquê da importância e urgência de escolhermos obedecer ao mandamento de amar:

E quando o Filho do homem vier em sua glória, e todos os santos anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória; E todas as nações serão reunidas diante dele, e apartará uns dos outros, como o pastor aparta dos bodes as ovelhas; E porá as ovelhas à sua direita, mas os bodes à esquerda.
Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me;Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver.
Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber?
E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? Ou nu, e te vestimos?
E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te?
E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.
Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos; Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; Sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me vestistes; e enfermo, e na prisão, não me visitastes.
Então eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos?
Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim.
E irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna. 2

Também na primeira epístola de João, encontramos um discurso de exaltação ao amor cristão. Nela percebemos a profunda dimensão do amor em seu aspecto de relação com o outro. “Conhecemos o amor nisto: que ele deu a sua vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos irmãos” (I João 3.16). A doação ao outro é a maneira segura do amor. A exigência de Cristo move os cristãos rumo aos outros, fazendo-se oblação em prol de seu crescimento. Isso é amor, caridade. O cristão que se identificar plenamente com esse amor tornar-se-á um ser-com-amor na medida em que se reconhece dotado da capacidade de amar sem limites; pois a vocação do cristão nada mais é do que amar.

É evidente que as adversidades se levantarão por parte daqueles que são inimigos e invejam a paz e o respeito advindos de um comportamento cristão que também almeja o sucesso e prosperidade do outro. A sociedade moderna não compreende um ser que age sem ganho próprio, que não se utiliza de utilitarismo moral; o homem laico e humanista não pode perceber que o segredo de um Daniel 3, por exemplo, consistia no propósito divino a seu respeito e na obediência e confiança encontrada no servo de Deus. Desse modo, sua devoção fazia toda diferença a ponto de se dizer que neste homem, agora já perto dos seus noventa anos, ainda havia nele um espírito excelente. Do mesmo modo, é importante que a Igreja também se predisponha a ser diferente em meio a este contexto corrompido em que está inserida. Não estamos aqui por acaso, a Igreja possui um papel relevante de influenciar a sociedade com os valores da Palavra de Deus e isso será manifesto a partir da integridade e honestidade observada na vida daqueles que servem a Deus, assim como fazia Daniel.

Além disso, sabemos que o evangelho de Jesus Cristo não é exclusivista. Então, quem não cabe no modelo e se sente fracassado, envergonhado e culpado por não corresponder a esses ideais, quem não consegue se “encaixar”, que se sente inseguro, sem chão e sem rumo, quem acha sua existência vazia e sem sentido, precisa de um novo projeto de vida. Aqui deveria começar o trabalho da Igreja, buscar atingir estas pessoas com um comportamento excelente, uma vivência real e acessível dos ensinos de Cristo, levando esperança e paz. Porque incluir no Reino de Deus significa que é preciso abraçar, envolver e amar todos sem exceções. Ensinando-os a tomar o fardo leve de Jesus e seguir os seus passos. Precisamos nos relacionar e juntos obedecer aos seus mandamentos.4

Ora, todo homem é um ser de necessidades e, por isso, busca a relação, tendo em vista a possibilidade de supri-las. Essa semelhança entre as necessidades dos entes no mundo colaboram para o estabelecimento de suas relações. Assim, Vale lembrar que o cuidado só pode ser exercido sobre outro ente, por isso cuidar é se preocupar com o outro. Essa preocupação pode ser expressa de diversas maneiras. Portanto,

ocupar-se da alimentação e vestuário, tratar do corpo doente é também preocupação. Numa simetria com a ocupação, entendemos essa expressão como termo de um existencial. A preocupação, no sentido de instituição social fática, por exemplo, funda-se na constituição de ser da presença enquanto ser-com.5

Quando sonhamos e desejamos alcançar e realizar grandes coisas dentro da obediência ao evangelho, não podemos nos esquecer que não vamos buscar o proveito próprio, mas sim a plenitude do outro; porque comunhão é a celebração do outro. Esta atitude talvez exija de alguns de nós mais do que estamos dispostos a dar. A relação então estabelecida coloca o outro como direcionamento para o amor do eu. “O outro é o meu amor, com tanta razão quanto é minha representação” 6. A relação fundada pelo amor é relação que exige o encontro com o outro. Toda relação de amor pressupõe a existência de três termos integrantes. Em primeiro lugar, faz-se necessária a existência do ser que ama, o amante. Ele se despoja de sua singularidade e se propõe ao encontro do outro, projetando-se para uma relação de doação. Em segundo lugar, mas não menos importante nessa elaboração, encontra-se o amado, aquele para quem a doação é dispensada. É o outro que vem ao encontro do eu unindo-se a ele e colaborando para que esse elo se estabeleça de maneira cada vez mais intrínseca. Por fim, encontra-se nesse impasse, como terceiro integrante relacional, a figura do próprio amor, o ágape. Esse, por sua vez, é a força propulsora que leva o homem ao encontro do outro, o caracterizando como um ser com capacidade de doação e cuidado. Deus é este amor, o qual nos amou e ama de tal maneira, que por sua própria iniciativa nos capacitou a representá-lo neste quesito.

Amor é um ato de fé. Ou você doa de graça, de bom grado, de coração e alma lavados para o outro ou, com o perdão da palavra, você não tem merecimento para viver o sentimento de forma plena. Feliz é quem aceita que o amor começa dentro da gente. Sem criar expectativas, sem cobrar desnecessariamente, sem fazer “mimimi” por um mero ponto equivocado dentro de um parágrafo recheado de pequenas delicadezas. (Danielle Daian)

Que fique claro: “O amor é um investimento da alma”. Na doação e na preocupação com o outro “nosso eu chega à instância realmente produtiva e autônoma” para qual sua essencialidade se volta, ser-com-amor.

1 – Trecho extraído de http://www.ideafixa.com/o-retorno-de-cristo-sao-paulo-atual/
2 – Conforme https://www.bibliaonline.com.br/acf/mt/25
3 – Conforme https://www.bibliaonline.com.br/acf/dn/6
4 – Trecho extraído de https://oficinadopinduca.wordpress.com/2011/07/07/a-crise-das-instituicoes/
5 – HEIDEGGER, Martiné. Ser e tempo (Sein und Zeit). Trad. revisada e apresentação de Márcia Sá Cavalcante Schuback; Posfácio de Emmanuel Carneiro Leão. Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2006.
6 – SIMMEL, Georg. Filosofia do amor. Trad. de Eduardo Brandão, p. 124, São Paulo: Martins Fontes, 2006.
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Sobre lucaspinduca

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