O culto da indiferença.

“Pelo amor de Deus” é uma das expressões mais idiossincráticas que conheço.

A questão é. Por quem? Que tipo de Amor? Que Deus temos invocado no nosso dia a dia?

(…), desde quando o Amor (de Deus, se ele for real pra você) se tornou uma expressão ridícula sambando na nossa língua frente a grande revolução que ele poderia trazer no mundo de caos que vivemos/criamos?

Triste perceber que o cinismo se tornou nossa fantasia cotidiana. Evita a dor. Evita o amor. 1

Deus não está longe nem do mundo nem de mulheres e homens. Quando falamos da pessoa humana, logo vêm em mente alguns elementos que se tornam sagrados, como: liberdade, dignidade, verdade, direitos humanos, liberdade religiosa…

No Evangelho de Mateus cap. 25, 31-46, lemos “[…] Pois eu estava com fome, e vocês me deram de comer; eu estava com sede, e me deram de beber…”. Deus se fez corpo, que se identifica na pessoa dos pobres e oprimidos, marginalizados por uma sociedade injusta, baseada no poder, no consumo e no dinheiro. Faz-se presente nesta citação bíblica, a importância do corpo para o ser humano, um corpo que necessita de atenção de cuidados básicos para sobrevivência, fica evidente o não desprezo pelo corpo e sua sacralidade. 2

Certa vez, Jesus estava ensinando algumas pessoas quando lhe trouxeram uma mulher que havia sido flagrada em adultério. Seus acusadores queriam que a mulher fosse apedrejada, mas Jesus se recusou a emitir qualquer palavra de condenação contra ela. O que Jesus fez foi levá-los a olhar para si próprios e ver que em nada eram melhores que aquela mulher. Jesus lhes disse: “Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar pedra nela” (cf. Evangelho de João cap. 8.7). Não houve ali um só homem inocente, e todos, um a um, se foram, deixando aquela mulher sozinha com Jesus, que lhe disse: “Eu também não a condeno. Agora vá e abandone sua vida de pecado” (cf. Evangelho de João cap. 8.11). O exemplo de Jesus deveria servir de modelo para a sociedade: ele não concentrou seu olhar na mulher acusada, mas fez que a sociedade presente naquele episódio olhasse para si própria e reconhecesse também sua culpa. Afinal, desde Adão, todos pecaram.

O que há de errado? Nós escolhemos viver de modo autônomo, por roteiros de nossa própria criação. Nós trocamos a adoração do Criador pela adoração de coisas criadas (Livro do Gênesis cap. 3; Carta aos Romanos cap. 1.25).

Cada vez que você grita com seus filhos, ou presume o pior acerca de alguém ou “corta” alguém no trânsito em sua corrida ao escritório ou foge para a pornografia na internet, você mostra para o que você está vivendo naquele momento. Você mostra o enredo de autoabsorção que o capturou. 3

Quando, pela fé, nos tornamos cristãos, Deus nos declara justos. Mas também somos chamados a praticar a justiça. Uma pessoa que continua a viver alegremente na injustiça faz-nos duvidar se ela realmente possui a justiça de Cristo (cf. Carta aos Romanos cap. 6.1-18; 8.5-14; Epístola de Tiago cap. 2.14-15). Esse princípio também se aplica àqueles que se recusam a comprometer-se com uma igreja local. Se você não tem qualquer interesse em se comprometer verdadeiramente com um grupo de cristãos que ensinam a Bíblia e oram juntos, deve perguntar a si mesmo se pertence ao corpo de Cristo!

Segundo Cassavetes4, o homem moderno em geral usa uma máscara para viver as convenções diárias, e quando precisa expressar suas emoções, torna-se artificial, indiferente. Entrar neste círculo de indiferentismo é perigoso porque somos levados pelo orgulho até nos fazer egoístas, cínicos, mascarados. Afinal, precisamos uns dos outros. Sem ajuda falharemos todos. Fechar os olhos seria muito cínico de nossa parte:

Há quatro razões de por que os “cínicos” são assim chamados. Primeiro por causa da indiferença de seu modo de vida, pois fazem um culto à indiferença e, assim como os cães, comem e fazem amor em público, andam descalços e dormem em barris nas encruzilhadas. A segunda razão é que o cão é um animal sem pudor, e os cínicos fazem um culto á falta de pudor, não como sendo falta de modéstia, mas como sendo superior a ela. A terceira razão é que o cão é um bom guarda e eles guardam os princípios de sua filosofia. A quarta razão é que o cão é um animal exigente que pode distinguir entre os seus amigos e inimigos. Portanto, eles reconhecem como amigos aqueles que são adequados à filosofia, e os recebem gentilmente, enquanto os inaptos são afugentados por ele, como os cães fazem, ladrando contra eles.5

É preciso lembrar que os cínicos (cães) ficarão de fora do Reino? Quando nos reunimos para adorar a Deus, exercitar o amor e praticar boas obras uns para com os outros, demonstramos na vida real o fato de que Deus nos reconciliou consigo mesmo e uns com os outros. Demonstramos ao mundo que fomos mudados, não primariamente porque memorizamos versículos bíblicos, oramos antes das refeições, damos o dízimo de nosso salário e ouvimos estações de rádio evangélicas, e sim porque mostramos de maneira crescente uma disposição de suportar, perdoar e amar um grupo de pecadores semelhantes a nós.

Você e eu não podemos demonstrar amor, alegria, paz, paciência ou bondade vivendo isoladamente.

E nós sabemos também que só podemos reconhecer nossa dívida moral quando nos relacionamos com outros seres morais. Fomos criados com inteligência e racionalidade para que pudessemos nos reconhecer uns nos outros e saber distinguir quem é Deus. Daí entendemos a importância da Igreja na vida das pessoas como um lugar de comunhão e aprendizado. Lembre-se que a primeira coisa que acontece após a expulsao de Adão e Eva do paraíso é o homicídio de Abel pelo seu irmão Caim. Por quê?  Ao ler o livro do Genêsis ficamos sabendo que o homem depois da queda passa a viver exclusivamente para si. E se foi capaz de tentar assumir o lugar de Deus buscando uma ilusória autonomia, logo ele também será capaz de não permitir que outro homem assuma um lugar muito próximo de Deus. É para corrigir o rumo da humanidade que Deus nos ensina seu amoroso padrão moral, sua justiça, principalmente através da sua palavra. 6

Por isso não deve nos surpreender o fato de que Jesus disse: “Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento e o teu próximo como a ti mesmo” (cf. Evangelho de Mateus cap. 22.34-40). Os dois mandamentos andam juntos. O primeiro produz o segundo, e este comprova o primeiro.

Ser reconciliado com Deus por meio de Cristo significa ser reconciliado com todos aqueles que estão reconciliados com Deus. Paulo explica o que essa grande salvação significa nos relacionamentos entre judeus e gentios e, por extensão, entre todos os que estão em Cristo:

Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos fez um; e, tendo derribado a parede da separação que estava no meio, a inimizade… Para que dos dois criasse, em si mesmo, um novo homem, fazendo a paz, e reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por intermédio da cruz, destruindo por ela a inimizade (cf. Carta aos Efésios cap. 2.14-16).

Apenas guarde este último conselho:

“Cuidado com os que tentam deslumbrar vocês com belos discursos e linguagem pseudointelectual. Eles querem envolver vocês em discussões intermináveis, que não servem para nada. Divulgam suas ideias por meio de tradições vazias de seres humanos e superstições vazias de seres espirituais. Não é esse o caminho de Cristo. Tudo que é de Deus tem expressão nele, de modo que vocês podem vê-lo e ouvi-lo claramente. Não precisam de telescópio, de microscópio nem de horóscopo para compreender a plenitude de Cristo e o vazio do Universo sem ele. Se vocês o buscam, a plenitude dele os alcança. Seu poder abrange todas as coisas”. (Carta aos Colossenses cap. 2.8-10 – versão A mensagem)

1-https://rodsilva.wordpress.com/2015/02/09/pelo-amor-de-deus/
2- CORPO: ESPAÇO DE SACRIFÍCIOS AOS DEUSES E AO MERCADO, Celmo Antônio de Araujo, Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião, da Universidade Católica de Goiás, para obtenção do grau de Mestre.
3-http://voltemosaoevangelho.com/blog/2015/02/4-respostas-de-aconselhamento-dadas-pela-teologia-biblica/
4-http://pt.m.wikipedia.org/wiki/John_Cassavetes
5- Luis E. Navia. Antisthenes of Athens: Setting the World Aright. Greenwood Press; 2001. ISBN 978-0-313-31672-2. p. 99.
6-Mark Dever. O que é uma Igreja saudável?Editora Fiel, 2013.
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Sobre lucaspinduca

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