A ilusão de sermos bons

De acordo com Patricia Ramírez1, existem padrões e regras que boas pessoas colocam em prática sem esperar por resultados auto compensadores, algo como praticar a gratidão. Eles se lembram da coisa boa que tem recebido e a devolvem ao seu ambiente. Oferecem-se para ajudar. Eles têm boas intenções. Eles emprestam seu apoio para o próximo, mesmo que sejam estranhos. Eles se perguntam, “que boa ação já fiz hoje?” e compartilham deixando-se copiar. Ensinam o que fazer e deixam as pessoas aprenderem com sua experiência. Eles esperam coisas boas dos outros, mas se não receberem não fazem queixas por que também sabem colocar limites. Pessoas boas sabem diferenciar a empatia de masoquismo. Compreendem tudo, não se sentem presos. Suas críticas não são para machucar, são para estar sempre melhorando. Eles não praticam a conveniência. Eles compartilham com base na sua escala de valores. Semeiam não para colher, semeiam pelo prazer do plantio. Não usam da agressão ou passam sua raiva para os outros. Eles não investem seu tempo para falar da vida dos outros. Não permitem ou participam de críticas aqueles que não estão presentes. Não ridicularizam. Eles sabem que para parar as conversas onde fofocas e críticas são as protagonistas eles simplesmente não devem ir, não devem participar. Eles são transparentes em suas ações. Eles não esperam benefícios futuros. Sua boa ação é aqui e agora. Eles falam bem dos outros. Eles promovem a unidade nas relações pessoais e conexões positivas entre as pessoas sinceras.2 Ao leitor deve parecer que estamos falando de seres humanos com um alto grau de transcendência, elevadíssimos e moralmente ilibados. Na verdade deveriamos, como cristãos, ser assim e manifestar este tipo de comportamento. Porque pessoas que já experimentaram a boa, perfeita e agradável vontade de Deus, e se deixaram transformar3, são boas, estão maduras, são capazes de suportar as falhas alheias e ajudarem a consertá-las. Ou deveriam. Entretanto, sabemos que o mundo real como o virtual exige das pessoas um posicionamento de quem participa, um exercício de livre arbítrio, mas que as pessoas querem que outra pessoa assuma por elas. O aspecto mais grave disso tudo é que todo o sistema está moldado para que as pessoas não queiram assumir responsabilidades, e assim esta sociedade contemporânea precisará cada vez mais de mediadores. E bons mediadores seriam por acaso pessoas razoáveis, pessoas com alguma relevância e talento acima da média? As pessoas veneram os gênios, querem ser geniais, mas na realidade não sabem lidar nem com pessoas que têm apenas uma inteligência acima da média. De alguma forma isso costuma ser um incômodo, e talvez nem seja uma questão de incompreensão, mas de dificuldade pra lidar com diferenças mesmo. Nada mais humano diriam os sociólogos e teólogos antropocentristas atuais.

Todo mundo está cansado de saber que com o advento do Iluminismo, a razão foi colocada acima da moral e fé cristãs desde então. É por esta causa que o homem moderno decidiu traçar a sua origem o mais longe possível de Deus. Neste equívoco traçou a sua origem como um evento ocorrido milhões e milhões de anos atrás e ainda, a vida originou-se por acaso e de forma diferente da sua forma atual e com propriedades distintas. Este foi um meio de estabelecer uma espécie de passado livre, não atribuído a um Criador, a quem haveremos de dar contas. Foi igualmente apagada a compreensão do pecado original, de modo que não temos que trazer qualquer culpa conosco em nossa existência. Por outro lado, o homem fez desaparecer o seu destino final dos horizontes, de forma que ele não precisa carregar a culpa e levar a responsabilidade de um dia comparecer diante do seu Criador, a quem deverá dar contas de todas as suas obras.4

Gramaticalmente, um substantivo é qualquer palavra que nomeia tudo que existe. É tudo que dá nome aos seres, a tudo que você vê, ouve, sente ou imagina. E  no evangelho de João lemos que o Verbo era Deus e se fez carne habitando no meio de nós, ser um substantivo neste caso é dar sentido à ação deste Ser.

O teólogo Charles Hodge expressou muito bem o contrário deste equívoco: “Um cristão é alguém que reconhece a Jesus como o Cristo, o Filho do Deus vivo, como Deus manifestado em carne, que nos amou e morreu por nossa redenção. É também uma pessoa afetada por um senso do amor deste Deus encarnado, a ponto de ser constrangida a fazer da vontade de Cristo a norma de sua obediência e da glória de Cristo o grande alvo em favor do qual ela vive” 5

A que ponto chegamos! Iludimo-nos com um arremedo de cristandade onde não se suporta ou sequer almeja qualquer condição de estar submisso ao Criador, mas que ainda assim deseja manter o status de boa criatura. Do ponto de vista psicológico, esta ilusão é a percepção deformada de um objeto real e presente, que muitas vezes inclui a visão e entendimento do outro e do próprio Deus. Como criatura não posso determinar nada da minha jornada, e como cristão não posso determinar Deus. Porque falta-nos o atributo da soberania, teologicamente falando. Resumindo: expectativa em excesso mais desejo desordenado mais alienação de realidade, é igual ilusão. Logo, a culpa é sua.

Oscar Wilde disse que, se você sabe o que você quer ser, você inevitavelmente tornar-se-á – o que é seu castigo, mas se você nunca sabe então você pode ser qualquer coisa. Há uma verdade nisso. Nós não somos substantivos, somos verbos. Eu não sou uma coisa – um ator, escritor – eu sou uma pessoa que faz as coisas – eu escrevo, eu ajo – e eu nunca sei o que vou fazer a seguir. Acho que você pode ficar aprisionado se pensar em si como um substantivo. – Stephen Fry

É a partir dessa perspectiva que todas as narrativas modernas têm uma abordagem politeísta sobre o folclore contemporâneo, como as questões do progresso e da experiência da narrativa humana em face às mudanças ocorridas, e a grande luta para encontrar sentido em um mundo equilibrado entre a expansão e decadência. Mundo onde tudo é transitório, inclusive as conquistas, sejam elas quais forem, mesmo que algumas durem mais tempo que outras. Onde ser rebelde, inovador, não signifique ser irresponsável e obter fama e riqueza, a qualquer custo, não necessariamente deve ser o desejo de alguém genial. Para isso busca-se um tipo de “louco” moderno que não é o psicopata, o não-saudável, mas é justamente aquele que consegue compreender a essência mais íntima da razão humana, o que muitas vezes redunda em dor e sofrimento, uma vez que a razão humana é a justificativa para várias atitudes não-humanas, ou irracionais.  O “louco”, então, é o autoconsciente, em oposição ao são, que, ironicamente, é o grande responsável pela loucura e pelo caos do mundo.

Tenho certeza que qualquer pessoa que goste de uma boa novela, cheia de tramóias e dramas interpessoais, adoraria ler Os Irmãos Karamázovi. No entanto, é preciso encarar um tijolaço de centenas de páginas, sem um final definido, cujas conclusões dependem unicamente da interpretação do leitor; quem quer ler Dostoiévski agora?6

Isso me lembra que as pessoas comuns precisam de algo familiar para aceitar uma ideia nova. E quem vai produzir essa “familiaridade” são os mediadores, que sempre são “pessoas boas”.  E sem a norma antiga ditada por Deus, sem um passado e sem destino definidos, o homem torna-se uma corda solta no universo, sem qualquer vínculo que o prenda ao passado ou ao futuro. Por isso que as ideias do materialismo, do relativismo e do humanismo, tão em moda hoje, são tão alardeadas, expandidas e empurradas pelos nossos olhos e ouvidos desde sempre: para causar um grande indiferentismo religioso sobre a sociedade, invertendo valores e estabelecendo um novo padrão de normalidade alicerçado no hedonismo e secularismo. Porque é assim que os seres humanos estruturam suas vidas, como se fossem viver na terra para todo o sempre, de forma que o acúmulo, a desonestidade, a injustiça e a mentira tornaram-se meios de subsistência, sem se darem conta de que isto é igualmente um equívoco. 7

É!

A gente quer valer o nosso amor

A gente quer valer nosso suor

A gente quer valer o nosso humor

A gente quer do bom e do melhor…

A gente quer carinho e atenção

A gente quer calor no coração

A gente quer suar, mas de prazer

A gente quer é ter muita saúde

A gente quer viver a liberdade

A gente quer viver felicidade…8

Esquecemos que o querer e o efetuar perfeito é o de Deus? Apesar de tudo isto nós todos acreditamos merecer coisas boas porque somos bons, boas pessoas. Mesmo que secretamente você saiba que em mais de uma vez você fez algo errado com ou para alguém. Mas você pensa que se fez isso foi porque ou estava ferido, ou porque a outra pessoa era ruim. Parece que ninguém é ruim aos seus próprios olhos. Apesar de ainda existir uma inesperada virtude no homem que examina a si mesmo.

Sempre que somos acuados, todos nós dizemos que queremos impactar o nosso redor e nosso mundo. Mas quanto é suficiente? E o que estamos dispostos a sacrificar para chegar lá? A morte no meio do caminho entre o futuro que não comporta mais planos e as lembranças saudosistas dos tempos idos, nos obriga a sentir o peso do passado e das escolhas que todos somos obrigados a fazer. Escolhas que uma vez feitas não há como fugir, por mais resiliente que seja o espírito. Praticamente tudo está feito e o futuro não reserva maiores epifanias. Tentar é ser tal qual o palhaço que, a cada vez que tenta pegar a bola que, presa a sua cintura por um fio, cai sobre seu pé, chuta-a para mais longe. Resta-nos algum brio para seguir avante?9 De fato muitas vezes temos problemas na vida que não podemos resolver, e tudo parece ir mal, o mau humor e o pessimismo tomam conta de nossos pensamentos e empacamos, são situações em que nosso brio está esgotado.

Pessoas nas plataformas

Esperando pelo trem

Eu posso ouvir seu coração batendo

Como pêndulos balançando nas correntes

Quando você pensa que perdeu tudo

Descobre que sempre pode perder um pouco mais

Eu estou apenas descendo pelo caminho, me sentindo mal

Tentando chegar ao céu, antes que eles fechem sua porta10

Escrevo muitas vezes que a paixão pode ser uma forma de insanidade e disfunção porque torna as pessoas egoístas e emocionais demais. Não surpreendentemente, muitos jovens se assustam quando leem isto. Mas sou um mediador, um tutor, e devo isto a alguém, e o objeto desta dívida é o amor. Lembrando que o amor não se conduz de maneira incoveniente. Ou não deveria. Por isso ainda escrevo e falo, bradando contra a surdez desta geração: Não tente chegar aos céus, deixe que aquele que conhece o caminho te guie; em tudo. Porque não somos bons, senão o que é perfeito já teria se manifestado novamente. Típica insanidade das pessoas que se acham boas é ficar vergonhosamente bêbado em um evento porque você está nervoso. Estar escondendo um erro porque você está com medo. É desistir por você te ficado para trás ou não se sentir encorajado, capaz. É pensar que você é o melhor, que você é tão especial que está discutindo como se possuísse toda a verdade. Essas emoções fracas são luxuosas. Se você quer entregar-se a elas, então, você não tem nenhum direito de ocupar por um minuto quem quer que seja.

Sua vida pessoal é irrelevante. Suas desculpas não vão livrá-lo. Se lhe pediram para fazer algo honesto, direito, solidário, que demonstre cuidado e respeito pelo outro, faça do melhor jeito que puder. Se isso significa ficar acordado toda a noite para fazê-lo, ok (mas isso é para permanecer apenas como seu segredinho). Ninguém se importa com o que está acontecendo com você, ou pelo menos, não precisam. As pessoas boas sabem disso e ainda assim fazem o bem que precisa ser feito. Afinal,

Os passos de um homem bom são confirmados pelo Senhor, e deleita-se no seu caminho. Ainda que caia, não ficará prostrado, pois o Senhor o sustém com a sua mão. (Salmos 37:23,24).

1- https://twitter.com/ParaTodosLa2
2- partes traduzidas de https://medium.com/espanol/eres-una-buena-persona-f5f810d40501
3- “E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.” https://www.bibliaonline.com.br/acf/rm/12
4- https://verdadenapratica.wordpress.com/2015/03/20/equivocos/
5- Extraído de Uma Vida Voltada para Deus, Ed. Fiel, p. 51.
6- RAFAEL TRABASSO (DEDOS) – artista visual / web designer / escritor / tatuador iniciante rafaeltrabasso.com / dedos.info
7- Idem ao 4.
8- http://letras.mus.br/gonzaguinha/16456/
9- Segundo Pirsign, o Brio é o trigo mental (brioche), que mantém a pessoa desperta e entusiasmada pelo mundo (entusiasmo = cheio de Theos). Extraído de: https://www.google.com.br/search?q=Robert+M.+Pirsig&oq=Robert+M.+Pirsig&aqs=chrome..69i57&sourceid=chrome&es_sm=0&ie=UTF-8
10-http://www.vagalume.com.br/bob-dylan/tryin-to-get-to-heaven-traducao.html#ixzz3S0HMPgJp
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Sobre lucaspinduca

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