Só o reino interessa?

Muitas vezes as pessoas supõem que a apologética é o domínio exclusivo dos eruditos e teólogos. Não é assim! A defesa da fé não é opcional. Deve ser a formação básica de cada cristão. a apologética é necessária para a relevância cultural da igreja. Em uma sociedade pós-cristã em que o ensino e prática do evangelho não está mais em voga e onde a crença na possibilidade de milagres é vista como superstição simplória, apologética cria espaço intelectual para a aceitação do evangelho. No lugar de simplesmente pontificar afirmações dogmáticas, apologistas cristãos são ordenados a fornecer argumentos defensáveis “com mansidão e respeito” ( 1 Pedro 3:15 ). É o que busco fazer aqui.*

* Para um estudo mais aprofundado, ver J. P. Moreland, Love Your God with All Your Mind: The Role of Reason in the Life of the Soul (Colorado Springs: NavPress, 2007)

 

“O reino de Deus é o alcance de sua vontade eficiente: ou seja, é o domínio no qual aquilo que ele prefere é o que de fato acontece”. Todas as pessoas que já têm o reino dentro de si mesmas, são parcerias de Deus para que o reino de Deus se manifeste na sociedade onde vivem e sobre todos os ambientes onde têm influência. [Dallas Willard]

O comportamento dos cristãos atuais parece mostrar ao mundo que a religião cristã, além de ser realmente perigosa, está longe de ser a religião do sacrifício, da renúncia aos prazeres terrenos (em contraste com a afirmação pagã de uma vida de paixões), e que a ideologia do Cristianismo apenas oferece uma estratégia desonesta para satisfazer nossos desejos sem termos que pagar um preço por eles, nos apresentando um meio mais fácil e irresponsável de aproveitar a vida sem o medo da decadência moral e espiritual, ou da debilitante dor que nos espera no final de tudo. Se formos ao cerne dessa errônea idéia, é possível acreditar que a mensagem final do sacrifício de Cristo é: você pode realizar todos os seus desejos e aproveitar; Eu paguei o preço para isso levando a cruz sobre mim!1 Esta é a face perversa do Cristianismo atual: Para muitos só o reino interessa. Pra que serviria o Rei?

A maioria de nós cresceu em lares (e igrejas) onde ficávamos animados em sermos cristãos até o ponto em que pensávamos que Deus estava animado conosco, não ao ponto de ficarmos animados com um Deus teocêntrico.

É muito fácil em um mundo antropocêntrico, onde a autoestima é o maior bem de todos, ser um cristão enquanto isso dá suporte àquilo que você já faz sem Deus. Quem não aceitaria ser cristão? Bom, você não é verdadeiramente um cristão nascido de novo se você só ama aquilo que você já teria amado sem ser confrontado com a beleza de um Deus teocêntrico. Se Deus é apenas um meio para sua autopromoção e exaltação, em vez de você vê-lo como algo infinitamente glorioso, como um Deus que dá total atenção à manifestação da sua Glória, então você precisa verificar a sua conversão. Esse é um grande teste de realidade: Deus nos escolheu para a sua Glória.2

“Venha o teu reino / Faça a tua vontade / Seja assim na Terra / Como é no Céu”3

Se é preciso fazer aqui o que é feito lá, como é feita a vontade de Deus no céu? Jesus está no céu com Deus (Atos 1:11; Hebreus 4:14) e ele faz a vontade de Deus perfeitamente (Lucas 22:42; 2 Coríntios 5:21). O Espírito Santo faz a vontade de Deus perfeitamente (João 16:13; 1 Coríntios 2:9-13). Os anjos do céu fazem a vontade de Deus perfeitamente, porque se não a fizerem serão lançados fora (2 Pedro 2:4). As quatro criaturas vivas cantam: “Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso, aquele que era, que é e que há de vir” (Apocalipse 4:8). Os 24 anciãos adoram-no e depõem suas coroas diante dele (versículo 10). A vontade de Deus é cumprida plenamente, sem mácula ou defeito, no céu.

Como então podemos nós que estamos na terra fazer a vontade de Deus até este ponto? A resposta é: deixando seu reino reinar em nossas vidas enquanto nos submetemos a sua soberania, poder real, e domínio. Sendo seus filhos, podemos pedir seu perdão e ser puros e santificados diante de seus olhos. “Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna” (Hebreus 4:16). 4

Está claro que, se existe um reino, existem as regras para o bom funcionamento deste reino. Quando Jesus invadiu a história anunciando o reino de Deus foi como se tivesse dito “mudem completamente seu jeito de viver e fazer as coisas, creiam que os recursos de Deus estão disponíveis e que o mundo pode ser diferente”. Os profetas afirmaram que Deus é tanto um rei quanto aquele que se tornará rei. Deus já é rei sobre tudo e todos por direito de criação e redenção, mas ainda não é rei de fato, pois a igreja deve anunciar esta notícia até os confins da terra, exercendo por onde passar a autoridade do Rei. O reino de Deus já está inaugurado na história, na pessoa de Jesus, e já dá os seus sinais. Mas será consumado na eternidade, no futuro escatológico.

Quando Jesus chamou Pedro e André para serem apóstolos, eles estavam literalmente lançando uma rede no mar, e ele lhes disse: “Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens” (Mateus 4:18-19). O arrastão final da rede para a praia representa o dia do julgamento, quando todos aqueles que não obedeceram a palavra serão separados dos justos e lançados “na fornalha acesa” (Mateus 13:48-49).

Esta “rede” foi “lançada ao mar”, em Atos capítulo 2, e aqueles que “aceitaram a palavra foram batizados… acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos”. Assim foi o reino do céu estabelecido na terra e veio com poder, como havia sido previsto em Marcos 9:1. É neste sentido que J.B. Coffman afirma: “Se alguém limita estas palavras (venha o teu reino) ao seu significado óbvio, primário e original, elas não fazem parte de uma oração atualmente”. Ele vai adiante, dizendo: “Contudo, uma palavra de precaução deve ser observada. Estas palavras podem ser, e sem dúvida são, capazes de outro significado”. Consideremos este outro significado.

“Então, acrescentou: Eis aqui estou para fazer, ó Deus, a tua vontade” (Hebreus 10:9). “Não seja, pois, vituperado o vosso bem. Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Romanos 14:16-17). Justiça, paz e alegria são frutos do Espírito, um resultado da fé e da obediência à vontade de Deus. Permitimos ao reino do céu entrar em nossos corações e vidas quando nos submetemos humildemente em obediência à vontade de Deus. Quando obedecemos ao evangelho, somos transportados “para o reino do Filho do seu amor” (Colossenses 1:13).5

Vivemos hoje a tensão entre o que já experimentamos da redenção em Cristo mediante a atuação do espírito Santo, e o que ainda aguardamos, pois “em esperança somos salvos”. Vivemos hoje as primícias do reino: salvação, libertação, santificação, atuação do Espírito Santo que habita em nós, e os favores da graça de Deus. Mas há dimensões que ainda não vivemos, pois os espíritos das trevas ainda atuam, nosso corpo físico ainda se corrompe, o pecado ainda nos é possível, e a morte somente será vencida quando Jesus entregar o reino ao seu Pai. C.S. Lewis disse que esse mundo é um território ocupado pelo inimigo, sendo que o rei justo e verdadeiro desembarcou disfarçado e nos convida a todos a uma grande campanha de sabotagem. Todos os que crêem oram: “Venha o teu reino”. Mas de acordo com o pensamento perverso do cristianismo atual, a religião é, em efeito, evocada apenas como salvaguarda, permitindo-nos desfrutar a vida com impunidade. A impressão de que não temos um preço a pagar, ou responsabilidade por aquilo que fazemos é, claro, enganosa: com efeito, o preço que pagamos é a corrupção do desejo em si, que significa dizer que, ao sucumbir a este apelo perverso, comprometemos nosso desejo no todo.

E todos nós, sem exceção, conhecemos o sentimento de grande alívio quando, após um longo período de tensão ou abstenção, finalmente podemos “ir”, podemos entrar nos prazeres até então proibidos, e este alívio, quando finalmente podemos “fazer o que se quer”, faz passar despercebido o total comprometimento do nosso desejo.

Agora, olhe para o que João 17 nos mostra sobre a Glória de Deus. Ele diz que esta Glória é compartilhável e que inclui tanto a expressão da perfeição de Deus como o seu reflexo em nossas vidas. Quando Jesus ora para que possamos ver e desfrutar de sua glória, ele pede que o amor do Pai para com Ele também esteja em nós, para que o nosso amor por Jesus seja uma reflexão e participação no próprio prazer de Deus. Em outras palavras, porque somos feitos para refletir a Glória de Deus, ou nós vamos amar o que Deus ama ou vamos amar o que as outras pessoas amam. Vamos aceitar os desejos que Deus nos apresenta, ou vamos tomar nossas sugestões dos desejos daqueles que nos rodeiam. Isto significa que devemos nos perguntar não apenas o que é fundamental para realizar o nosso desejo, mas qual é o modelo fundamental para o nosso desejo. Desejos de quem estamos imitando? Estes desejos estão refletindo para os outros? Porque isso é tão importante?

Bem neste ponto é preciso explicar que o desejo pode ser chamado de mimético e que esta é uma maneira elegante de falar sobre um fenômeno que todos nós já testemunhamos ou experimentamos:

A palavra mimética vem da palavra grega mimesis, que significa “imitação”. Desejo mimético, então, significa querer algo porque alguém quer ele primeiro. Nosso desejo é iniciado e/ou aumentado pela nossa reflexão sobre o desejo de outra pessoa. Desejo mimético é muitas vezes chamado desejo triangular porque há três partes envolvidas: o sujeito, o objeto, e o modelo que faz com que o objeto seja valioso para o sujeito. Ou ainda, há a pessoa que deseja, a coisa desejada, e o modelo que faz a coisa mais desejável por desejá-la. Quando o objeto que tanto desejo pode ser compartilhado entre nós, o desejo mimético produz amizade e camaradagem. Amigos amam e desfrutam as mesmas coisas, e sua alegria é maior na partilha. Quando só um de nós pode possuir o objeto, o desejo mimético inevitavelmente produz inveja, rivalidade e conflito.6

Mas com seus desejos ancorados pelos desejos de Deus e aprovados em Cristo, você entra em seu mundo, em seu Reino, e pela sua presença e graça busca reorientar seus desejos. Isto, naturalmente, inclui a correção, redirecionamento e disciplina, mas tudo isso decorre da mudança que você está trazendo para a sua vida. Você está respirando evangelho e vivendo do evangelho e soprando-o para fora, na esperança de que outros serão atraídos pela mesma Glória que conquistou você! Para o mundo, liberdade é não ter restrições nenhuma; é a condição de ser isento ou não estar sujeito a certas coisas. Mas Deus criou o homem e colocou limites no seu ir e vir, Deus estabeleceu regras desde o princípio para sabermos como Ele é e como gostaria que agíssemos (Rm. 11.32). Parafraseando Lacan: viver de desejos não traz a felicidade. É preciso viver a vontade divina na prática para mitigarmos o nosso sofrimento e o alheio. Experimentemos, então, o tempo futuro do Reino: venha o teu Reino. Seja feita tua vontade, assim na terra como no céu. Aqueles que conhecem a Deus e têm sido transformados de dentro para fora, podem descobrir a alegria profunda sobrepondo-se às circunstâncias, apenas vivendo neste mundo como dependentes do Deus silencioso e invisível7. Apenas vivendo por fé e não por vista.

1- Partes extraídas e traduzidas de “The Puppet and the Dwarf: The Perverse Core of Christianity”, Slavoj Žiže.

2- Extraído de “Uma Paixão Consumidora por Jesus”, John Piper, Editora Fiel, 2014.

3- http://www.vagalume.com.br/davi-sacer/venha-o-teu-reino.html

4- Partes extraídas de http://www.estudosdabiblia.net/200224.htm

5- Idem ao 4.

6- Partes extraídas e traduzidas de http://www.desiringgod.org/articles/the-cravings-beneath-your-conflict

7- https://oficinadopinduca.wordpress.com/2011/04/02/por-que-sofremos-se-deus-existe-e-e-bom/

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Sobre lucaspinduca

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