A conveniência do arco-íris

“Como imagem de Deus, somos responsáveis pela mordomia da razão dada pelo Criador. Como cristãos, não somos racionalistas, mas entendemos que a razão reflete a imagem de Deus e é fundamental para compreender não só a Palavra de Deus, mas, também, o mundo por ele criado” (Sayão – Cabeças Feitas).

Apesar de muito bem explicado no texto bíblico, onde o arco-íris é um sinal de aliança entre Deus e a humanidade quanto a sua preservação, os homens porém, preferiram abdicar da razão ao decidirem fazer do arco-íris um símbolo daquilo que ele nunca significou: liberdade para uma autorredefinição de gênero a partir de uma moral humanista, relativista, laica e antropocêntrica, ou em outras palavras, rebelião declarada contra a vontade e a ordem criada por Deus.

 Neste novo século, é evidente que qualquer herança do passado serão expostas à luz da crítica e, de fato, muitas crenças entraram em colapso diante deste teste exigente. Além disso, qualquer dependência de uma instituição em crenças do passado é muitas vezes interpretada como uma presunção injustificada que milita contra, e não em favor da mesma. Os homens tiveram de desistir de tantas convicções que chegaram a acreditar que nenhuma convicção deveria existir.1

Em 1845 Karl Marx escreveu suas famosas 11 teses sobre Feurbach. Na sexta tese Marx afirma algo verdadeiro, mas reducionista: “A essência humana é o conjunto das relações sociais”. Efetivamente não se pode pensar a essência humana fora das relações sociais. Mas ela é muito mais que isso, pois resulta do conjunto de suas relações totais. Mas a aceitação atual da indicação de Marx mostra que a maior parte da construção do homem moderno se realiza, efetivamente, apenas em sociedade. Daí a supervalorização da formação social que melhor cria as condições para ele poder desabrochar mais plenamente nas mais variadas relações. Os argumentos mais utilizados são os seguintes:

O primeiro é a participação: o ser humano, inteligente e livre, não quer ser apenas beneficiário de um processo, mas ator e participante. Só assim se faz sujeito e cidadão. Esta participação deve vir de baixo para não excluir ninguém. 2

 Modernamente parece necessário apenas saber o que se quer, mas não saber o que não se quer; ora, o sujeito que age desta maneira resigna-se a viver zanzando sem um motivo claro, sem objetivos definidos, trombando em toda sorte de estranhos, cada um com suas idiossincrasias, suas piras esotéricas e ufológicas, escapes suicidas, puerilidades políticas, ambiguidades de gênero, tudo isso em mais uma sucessão de desencontros, e que acaba encurralado entre a indulgente busca de satisfação e a realização de um legado insignificante. 3

 O segundo consiste na igualdade. Vivemos num mundo de desigualdades de toda ordem. Cada um é singular e diferente. Uma participação crescente em tudo impede que a diferença se transforme em desigualdade e permite a igualdade crescer. É a igualdade no reconhecimento da dignidade de cada pessoa e no respeito a seus direitos que sustenta a justiça social. Mas será que junto com a igualdade vem à equidade? A proporção adequada que cada um deve receber por sua colaboração na construção do todo social? Se sim, não é o que temos visto. Porque em uma linguagem de igualdade ninguém está errado, supostamente, porque a linguagem da igualdade é uma linguagem sem valores. Não há certo ou errado, apenas a igualdade.

A igualdade então propõe que o seu desejo não é melhor ou pior do que o meu e a lei deveria tratar cada desejo ou noção igualmente. A Razão propõe que cada desejo seja tratado de acordo com seus méritos e daí seja decidido se eles estão certos ou não. Mas para nós cristãos, começa com a compreensão de que os meus desejos e a minha vontade não são autoridade máxima em nada. 4

 A terceira é a diferença. Ela é dada pela natureza. Cada ser, especialmente, o ser humano, homem e mulher, são diferentes (Este é o item mais combatido no quesito gênero). Esta deve ser acolhida e respeitada como manifestação das potencialidades próprias das pessoas, dos grupos e das culturas. São as diferenças que nos revelam que podemos ser humanos de muitas formas, todas elas, humanas e por isso merecedoras de respeito e de acolhida.

 Para muitos a escolha é óbvia: estar misturado com a multidão que fervilha a qualquer hora do dia pelos centros das cidades. Pelos chats, pelas redes sociais, pelo crowdsourcing da vida, onde existe um falso alívio em estar entre iguais fazendo a mesma coisa ou “inventando moda”. Mas como todo ser humano, ainda precisará fazer escolhas todo o tempo, pois a multidão só entende o fluxo, o movimento, e no meio dela é impossível escapar de si mesmo, a não ser pela saída extrema da morte. Na verdade a multidão só reforça uma condição humana contemporânea: a angústia.5

Pode parecer incrível, mas esta é a grande motivação da sociedade moderna hoje em dia: A realização da minha vontade (quero felicidade agora!) a todo custo livre de restrições morais e culturais do passado. A ambição de sempre colocar um sorriso no rosto, de ter prazer prolongado porque ‘mereço e tenho dado um duro danado pra isso’, ou porque este é o supremo bem que todo ser humano almeja. Tal atitude pode vir a ter efeitos contrários, e, por isso mesmo, Jesus ensinou aos seus seguidores que no mundo teríamos aflições e que seria necessário permanecer firme Nele, ou seja, não negligenciar o padrão moral divino. Ele sabia que esta pressão para ser feliz todo o tempo, sem espaço para melancolia, tristezas e as dificuldades comuns, se tornariam a ordem do dia para este mundo cada vez mais individualista, ‘ego centrado’ e orgulhoso.6 Quem quer permanecer debaixo do guarda-chuva do status quo? Ninguém. Todos preferem a cobertura do arco-íris da nova norma para garantir seu direito inalienável de “ser feliz do meu jeito”. Perceba também caro leitor, que são os simpatizantes que apoiam, toleram e validam as novas práticas fornecendo força e garantias ao comportamento novo, quando dão a ele um lugar destacado na sociedade.

As pessoas estão vivendo mais para si mesmas, é o “neo-antropocentrismo”, o homem como centro de toda realização humana, só que em um sentido mais individual, hedonista, completamente independente do outro. O ego humano sozinho cresce sem os limites da moralidade e do relacionamento entre iguais, o que faz com que este indivíduo tenha uma idéia errada de si, do outro e do próprio Deus que o criou. Como resultado imediato, a nossa volta percebemos que cada um se defende como pode. Muita gente confunde tédio e angústia com depressão e acabam tomando antidepressivos. Outros desenvolvem comportamentos compulsivos: consomem demais, comem demais, malham demais, fazem sexo demais e deturpado, drogam-se, ou passam horas nas redes sociais, na esperança de aliviar o sentimento crônico de desamparo e solidão. 8

 Por isso a linguagem ou o argumento da igualdade presta-se a um raciocínio mais conveniente do que a posição cristã, porque potencializa o desejo ao dizer que ninguém deve discriminar os desejos das pessoas autônomas, além disso, eles dizem que negar algo a alguém é errado se alguém pode fazê-lo. É errado porque é um direito, ou seja, algo que está em dívida ou é devido. Pergunto, não seria melhor aplicar o argumento da igualdade depois de investigar os motivos e as razões de ambos os lados, achando aqueles elementos que falam mais precisamente e verdadeiramente, mesmo que sejam de muito tempo, mas ainda assim, bem adequados a toda condição humana?

No entanto, este é o lugar onde muitas pessoas encontram-se: em uma encruzilhada frustrante onde as definições e limites estão borrados ou apagados por uma norma nova que redefine, ou quer redefinir, o mal como bem, a escuridão como a luz, e o amargo como doce (Leia o livro de Isaías 5.20). Lembrando que esta norma, tão conveniente, não é tão nova assim. A cultura ocidental e a sociedade deram lugar ao ateísmo prático e ao relativismo moral ao longo do último século. Isto acelerou nos últimos anos e chegamos ao estado de declínio atual. A moralidade desta sociedade nunca vai ser mais alta que a dos seus cidadãos, e sabemos que a maioria das pessoas não tem uma cosmovisão bíblica. Apesar disso, Deus não foi derrotado e todos serão julgados de acordo com fundamentos bíblicos no último dia. Nada irá prevalecer contra Ele (Provérbios 21.30) e nada vai impedir o avanço de Seu Reino (Daniel 4.35).

1- Texto traduzido pelo autor de J. Gresham Machen, Em The Princeton Review, vol. Xx, 1922, pp. 93-117, sob o título “CRISTIANISMO Y LIBERALISMO.”
2- Parte extraída de https://leonardoboff.wordpress.com/2013/06/16/o-ser-humano-como-no-de-relacoes-totais/2/2
3- Extraído de https://oficinadopinduca.wordpress.com/2014/03/01/saia-do-meio-da-multidao/
4- Extraído de https://oficinadopinduca.wordpress.com/2013/09/01/pouca-doutrina-muito-desejo/
5- Idem ao 3.
6- Extraído de https://oficinadopinduca.wordpress.com/2012/10/10/para-que-o-fruto-permaneca/
7- Conforme Lloyd-jones, D. M., Estudo do Salmo 73, Editora PES.
8- Extraído de https://oficinadopinduca.wordpress.com/2011/07/07/a-crise-das-instituicoes/
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Sobre lucaspinduca

I like to think I'm part cultural voyeur mixed with a splash of aspiring behavioral scientist and wannabe motivational christian speaker.
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