MORALIDADE SOCIAL

Este é um texto antigo que foi usado em aulas de ética cristã (2005). Mas o assunto continua com uma relevância tal que achei por bem publicá-lo.

A primeira coisa que devemos esclarecer a respeito da moralidade cristã1, na relação de um ser humano com o outro, é que nesse departamento Cristo não veio pregar nenhuma nova moral. A Regra Áurea do Novo Testamento (faça aos outros o que gostaria que fizessem para você, Mateus 7:12) é o resumo do que todos nós sempre reconhecemos como correto. É claro que podemos ser levados a crer que Deus quer simplesmente a obediência a uma lista de regras, ao invés do que ele realmente quer, que são pessoas dotadas de um determinado caráter. De qualquer modo, é assim que o Cristianismo funciona. Quando nos manda alimentar os famintos, não nos dá aulas de culinária. Quando nos exorta a ler as Escrituras, não ministra aulas de hebraico ou de grego, nem mesmo de gramática. Nunca teve a intenção de substituir ou destituir as artes e ciências seculares: antes, as destina às suas funções corretas e lhes infunde a energia de uma vida nova na medida em que elas se colocam à sua disposição. Logo, um homem que persevere na prática de atos justos terminará por obter uma certa qualidade de caráter.

Hoje é comum as pessoas dizerem: “A Igreja deve tomar a dianteira.” Isso é verdade se for entendido da maneira correta, mas, caso contrário, não. Por “Igreja” deve-se entender todo o corpo de cristãos praticantes do mandamento divino. E, quando dizem que a Igreja deve tomar a dianteira, devem querer dizer com isso que alguns cristãos – os que possuem o talento apropriado – devem se tornar economistas ou estadistas, e que todos os estadistas e economistas devem ser cristãos e esforçar-se na política ou na economia para pôr em prática o “faça aos outros o que gostaria que fizessem para você”. Se isso se tornasse realidade, e se nós, estivéssemos dispostos a aceitar o fato, encontraríamos soluções cristãs para nossos problemas sociais com bastante rapidez.

“A missão da Igreja não é apenas batizar os crentes, mas torná-los em verdadeiros discípulos de Jesus. E como se faz um autêntico discípulo de Cristo? O caminho foi mostrado pelo próprio Senhor: “ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei.” (Mateus 28:20, parte a). O Senhor disse que todo discípulo bem treinado será como o seu mestre. Ora, nosso mestre é o próprio Cristo (Mateus 23:10). Portanto, concluímos que todos os discípulos deveriam ser como Jesus; mas, não é o que temos visto.”2

“Porque me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos mando?”

“Vós sois meus amigos se fazeis o que vos mando;”

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que ama; e aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele.”3

A aplicação de princípios cristãos aos sindicatos ou às escolas, por exemplo, deve vir de sindicalistas e educadores cristãos, do mesmo modo que a literatura cristã deve ser feita por romancistas e dramaturgos cristãos, e não por um concílio de bispos ou pastores, reunidos para escrever peças e romances no seu tempo livre.

Do mesmo modo, o Novo Testamento, sem entrar em detalhes, nos pinta um quadro bastante claro do que seria uma sociedade plenamente cristã. Talvez exija de nós mais do que estamos dispostos a dar. Informa-nos que, nessa sociedade, não há lugar para parasitas ou passageiros clandestinos: aquele que não trabalhar não deve comer. Cada qual deve trabalhar com suas próprias mãos e, mais ainda, o trabalho de cada qual deve dar frutos bons: não se devem produzir artigos tolos e supérfluos, nem, muito menos, uma publicidade ainda mais tola para nos persuadir a adquiri-los. Não há lugar para a ostentação, para a fanfarronice nem para quem queira empinar o nariz. Nesse sentido, uma sociedade cristã seria o que se chama hoje em dia “de esquerda”. Por outro lado, ela insiste na obediência – na obediência (acompanhada de sinais exteriores de reverência) de todos nós para com os magistrados legitimamente constituídos, dos filhos para com os pais e (acho que esta parte não será muito popular) das esposas para com os maridos (cristãos de verdade). Em terceiro lugar, essa é uma sociedade alegre: uma sociedade repleta de canto e de regozijo, que não dá valor nem à preocupação nem à ansiedade. A cortesia é uma das virtudes cristãs, e o Novo Testamento abomina as pessoas abelhudas, que vivem fiscalizando os outros.

Se existisse uma sociedade assim e nós a visitássemos, creio que sairíamos de lá com uma impressão curiosa. Teríamos a sensação de que sua vida econômica seria bastante socialista e, nesse sentido, “avançada”, mas sua vida familiar e seu código de boas maneiras seriam, ao contrário, bastante antiquados – talvez até cerimoniosos e aristocráticos. Cada um de nós apreciaria um aspecto dela, mas poucos a apreciariam por inteiro. Isso é o que se deve esperar de um Cristianismo como projeto integral para o mecanismo da sociedade humana. Cada um de nós se desviou desse projeto integral de forma diferente, e pretende que as modificações nele inseridas substituam o próprio projeto. Você vai sempre encontrar a mesma situação em tudo o que é verdadeiramente cristão: todos se sentem atraídos por um aspecto disso e querem pegar só esse aspecto, deixando de lado o resto. Esse é o motivo pelo qual não conseguimos avançar, e também explica por que pessoas que lutam por coisas opostas dizem estar lutando pelo Cristianismo.

Mas muitos não examinam o Evangelho para descobrir como o Cristianismo realmente é: sondam-no na esperança de encontrar nele apoio para os seus própios pontos de vista, para o seu partido. Buscamos um aliado quando nos é oferecido um Mestre – ou um Juiz. Não sou exceção a essa regra. Há trechos deste texto que eu gostaria de ter omitido, o que não deixa de ser uma demonstração de que nada de bom pode nascer se não nos decidirmos a trilhar o caminho mais comprido, ou seja, o trajeto feito pelo próprio Cristo quando esteve por aqui.

“A sociedade na qual estamos imersos vem denunciando, não é de hoje, a crise que enfrentamos seja concernente aos dilemas sociais, seja na banalização/naturalização dos mesmos. Vivemos numa sociedade de mercado, marcada pela pluralidade de situações que desafiam a todos a reverem posturas já consolidadas e legitimadas diante da exclusão, da violência, do caos social. Além disso, esta mesma sociedade mergulhada na tecnologia e na virtualidade acaba por se encastelar, não se permitindo mais o contato direto com o outro em sua alteridade, portanto se ausentando de enxergar a desordem social e fatalmente a ausência de solidariedade e respeito ao próximo.

(…) O amor se constitui num processo que acompanha o ser humano desde a sua concepção, mas a sua compreensão depende das relações que mantemos com os outros e, conseqüentemente, das experiências que as pessoas podem ter frente ao fenômeno afetivo/amoroso. O processo de construção do amor pode favorecer a evolução particular no/do ser humano, entretanto é lento e gradual, pois está relacionado a uma série de aprendizados, ações e interpretações para a sua dotação de sentido que, invariavelmente, os seres humanos constroem conjuntamente”.4

A sociedade cristã só virá quando a maioria das pessoas a quiser, e ninguém pode querê-la se não for plenamente cristão, posso repetir “faça aos outros o que gostaria que fizessem para você” até cansar, mas não conseguirei viver assim se não amar ao próximo como a mim mesmo; só poderei aprender esse amor quando aprender a amar a Deus; e só aprenderei a amá-lo quando aprender a obedecê-lo. E assim, somos conduzidos a um aspecto mais interior da questão: saímos da problemática social e entramos na problemática religiosa. O caminho mais longo é o mais curto para chegar em casa.

1 Partes extraídas de C. S. Lewis, Comportamento Cristão, Martins Fontes, São Paulo, 2005.
2 Revista para EBD, Igreja Bíblica Cristã, volume I, janeiro 2005.
3 Respectivamente, Lucas 6:46, João 15:14, 14:21, Nova Versão Internacional.
4 Extraído do Artigo de Ana Paula Guimarães, O Significado e o Sentido do Amor na Modernidade, para a Revista Científica das Faculdades Maria Thereza – FAMATH, Niterói, v. 5, n. 1/2, p.23-24 Jan/Dez. 2006.
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Sobre lucaspinduca

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