Citações que não são obrigações não deveriam valer?

Na vida de uma forma ou de outra sabemos o que devemos ou o que temos que dizer e fazer? Penso que, em um mundo onde todos vivem um processo de formação que nunca termina e dentro dele lidam com dissipações de identidade, cultura, família e afetos, e onde se faz necessário uma superexposição de si para que o outro descubra, encontre, algo interessante ou avise-nos de nossa falta de novidade ou autenticidade, não sobra espaço e tempo para a busca interior, para o conhecimento da verdade e possível experimentação da vontade divina. Por isso nos ajustamos tão mal a nossa própria existência.1 Claro que nos baseamos muitas vezes naquilo que nos diz o senso comum, naquilo que nossa herança cultural admite e, as vezes, até ouvimos aquilo que chamamos consciência (porque todo ser humano possui uma conforme a Carta aos Romanos cap. 2.14-15). Mas isto não impede que subestimamos e procrastinamos o processo de tomada de decisão. Saber, ter a informação é diferente de decidir; sem dúvida, não é algo fácil ou simples, porque o ato de escolher implica automaticamente a exclusão da outra opção e é exatamente isso que nos dói, que nos assusta. Será que vale mudar de direção? Tomar um outro rumo? buscar uma outra solução? A ordem para estes dias não é “Não busque “amar o que faz”. Busque fazer valer a pena”2? E a sociedade em coro nos diz:  “tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Errare humanum est

De um modo geral temos uma dificuldade inerente em abrir mão das coisas, em desapegar. Em todas as esferas: dos relacionamentos, das dores, dos amores e das possibilidades perdidas. Essa última é que nos trás uma indecisão e dúvida, as chances que desperdiçamos pelo caminho. A premissa ‘E se?’ levada a última potência pode nos atormentar.

Por isso, escolher, às vezes, nos paralisa, nos causa tensão e hesitação. Não lidamos bem com o fracasso, com a falha, com as possibilidades que deixamos para trás, com a vida que poderíamos ter se escolhêssemos diferente, se agíssemos de outra forma. Temos um altar particular no qual cultuamos tudo o que podíamos ser.3

Ora, onde os parâmetros podem ser mudados para criar um outro apenas mais adequado a minha atual posição, além de uma rejeição ao anterior, cria também uma relação de valor entre os mesmos, e o uso dessa relação para inibir uma escolha visando privilegiar uma posição particular em detrimento da coletiva é relativismo. Moralmente, temos valores e regras que desde muito tempo vem sendo praticadas visando a sustentação das relações humanas, miná-las usando de um novo valor apenas para benefício de um contingente particular de indivíduos em detrimento de outros, depreciando e deteriorando a prática social e rebaixando-a à níveis irracionais e instintivos, fazendo da sociedade e suas relações um lugar onde só imperam o ceticismo, o medo, a indiferença e a imoralidade é relativismo ético da pior espécie. Este relativismo como prática é uma cobertura que não atende, é como usar uma peneira para tapar o sol, não normatiza, não normaliza a relação entre os indivíduos e entre estes e a divindade, porque banaliza o valor real de suas existências, cuja causa mais comum em nossos dias são os limites entre o que é legal e o que é moral e certo estarem cada dia mais imperceptíveis.

O filósofo [Schopenhauer] acredita que as relações humanas nos permitem identificar o valor da moralidade, reconhecendo a compaixão como o único sentimento realmente moral, pois está acima de qualquer interesse, visto que quando o indivíduo se reconhece no outro por meio do sofrimento. Quando ambos compartilham o sofrimento e a dor podemos enxergar o nascimento da compaixão que seria reconhecer o outro como um igual, de acordo com Schopenhauer, o sofrimento do outro nos atinge de tal forma que podemos sentir piedade e enfim compaixão, é um fato inegável da consciência e esta não repousa sobre pressupostos, religiões ou classe social, mas se apresenta, enraizada na própria natureza humana.4

Discordo do filósofo quanto  a compaixão ser o sentimento ideal para catalisar dor e sofrimento. Acredito no verdadeiro amor cristão que nos faz atentar para o outro. Neste ponto a conversa sempre volta ao mesmo lugar: Nós estamos tão presos aos rótulos que, muitas vezes, não percebemos a existência deles, apenas aceitamos como algo natural e, assim, perpetuamos essa cultura de estereótipos. Mas quando leio os Evangelhos percebo uma mensagem original que traz uma ideia simples e eficaz: O outro não deve ser rotulado, encaixado em um parâmetro apenas para satisfazer minha visão de mundo em meu egocentrismo. Devo sim preocupar-me com o estado alheio e ajudar a melhorá-lo como indivíduo e consequentemente, o meio social em que está. Saber escolher a boa parte e auxiliar outros a fazê-la é fundamental para influenciar a sociedade de maneira benéfica. E nós cristãos quando olhamos para o texto bíblico, entendemos que devemos erigir um altar não a nós mesmos, glorificando uma auto realização, e sim um altar feito de obediência ao Deus único e verdadeiro. Mas costuma ser difícil fazer esta escolha porque o objeto do sacrifício é a nossa própria vontade e somente quando obedecemos de maneira incomum manifestamos uma confiança na aliança incomum que tem sido proposta por Deus aos homens através de seu filho Jesus Cristo (O Filho de Deus encarnado que sacrificou-se por nós). E quando o sacrifício faz parte da vida; quando somos chamados ao sacrifício todo tempo e infelizmente queremos, buscamos, apenas nos beneficiar, fugindo das nossas responsabilidades das mais variadas formas e maneiras. No entanto todo trabalho humano é vão se a confiança e o sucesso não estão depositados na esperança de que Deus é nosso maior ajudador, e melhor guia, aquele que edificou e edifica tudo primeiro.

Olhe a sua volta. As pessoas adquirem informações, conhecimento, aprendem as palavras apenas para estarem conforme um sistema, para terem uma razão comum, quer seja este comportamento baseado no status quo ou não. Além de um excesso de conexão e pouca ou nenhuma comunicação. Fazem tudo para sustentar um comportamento tolerante, busca-se idéias e vieses variados além de uma sã doutrina; honra-se muito com os lábios, com postagens e declarações em redes sociais embora esteja cheio de desdém o coração; isto é algo feito principalmente com grandes citações que não são obrigações práticas e cujo valor máximo é permanecer adequado ao melhor rótulo. Seria realmente necessário saber o que fazer com aquilo que falo? Sim. O homem é um ser social e como tal precisa se comunicar para conseguir viver em sociedade. Os problemas de comunicação impedem o homem de usufruir uma vida satisfatória. Quando emito sinais, ou seja falo, escrevo ou posto, estou buscando interação para alinhar um pensamento a uma prática, minha crença a um comportamento. Prometer e não cumprir, ensinar e não viver o ensino, falar e não agir conforme os sinais emitidos é hipocrisia, cinismo e mau caratismo. Ou seja, alimentar a ignorância é por si só um defeito de caráter gritante, mas encondê-la por trás de qualquer rótulo ou justificativa histórica e social a fim de persuadir e beneficiar-se do desinformado é um crime5. E porque a força das palavras podem tanto curar como ferir é que antes de pronunciá-las bom é pensar em seus efeitos. É necessário também sempre ouvir atentamente para só depois falar, e principalmente, permanecer calado quando não tiver nada útil para falar. Além disso, falar algumas vezes não adianta, é preciso tomar a iniciativa em procurar os outros para resolver problemas e em muitos casos, pedir desculpas mesmo tendo razão – sempre em nome da paz. Esta atitude mental se mostrou a chave para melhorar meus relacionamentos e resolver conflitos.

O filósofo francês Dominique Wolton no livro chamado “Informar Não é Comunicar”, diz:

A revolução do século XXI não é da informação, mas a da comunicação. Não é a da mensagem, mas a da relação. Não é a da produção e da distribuição da informação por meio de tecnologias sofisticadas, mas a das condições de sua aceitação ou de sua recusa pelos milhões de receptores” 

Porque este ainda parece ser o ideal desta geração, um ideal contrário ao comportamento que nos é pedido: seja cheio de graça e de verdade fazendo discípulos (cumprindo a disciplina ensinada pelo Mestre) e comunicando as verdades divinas.

“Raça de víboras! Como podeis falar coisas boas, sendo maus? Pois a boca fala do que está cheio o coração. Uma boa pessoa tira do seu bom tesouro coisas boas; mas a pessoa má, tira do seu tesouro mau, coisas más. Por isso, vos afirmo que de toda a palavra fútil que as pessoas disserem, dela deverão prestar conta no Dia do Juízo. Porque pelas tuas palavras serás absolvido e pelas tuas palavras serás condenado”. (Mateus: 12. 34-37)

O livro de Provérbios nos ensina que o homem só faz o que a mente deseja. Então é possível construir com suas declarações/citações, um roteiro a ser seguido. Busque encontrar um significado naquilo que planeja fazer e fazer algo que faça sentido é exatamente isso: se faz sentido, se acredito em algo, o sacrifício fará sentido também.

Não saia da vossa boca nenhuma palavra que cause destruição, mas somente a que seja útil para a edificação, de acordo com a necessidade, a fim de que comunique graça aos que a ouvem.  (Efésios: 4.29)

Devo abrir um parêntesis aqui para um breve adendo:

Tanto Sócrates quanto Platão ensinaram, cinco séculos antes de Cristo, que este presente mundo temporal dos sentidos é apenas uma sombra do mundo real em que os ideais supremos são ao mesmo tempo abstrações intelectuais, o bem, a beleza e a verdade. Insistiam que a realidade não era temporal e material, mas espiritual e eterna. Sua busca da verdade jamais lhes conduziram a um Deus pessoal, mas evidenciou que o melhor que o homem deve fazer é buscar a Deus através do intelecto. O Cristianismo ofereceu a este povo que aceitava a filosofia de Sócrates e Platão, a revelação histórica do Bem, da Beleza e da Verdade na pessoa do Deus-homem, Cristo. Os gregos aceitavam a imortalidade da alma. mas não tinham lugar para a ressurreição do corpo.6

Bem, o Cristianismo está, entre tantos outros modelos sociais, atrelado a história expansionista da igreja. O que faz dele um rótulo.  Entretanto, se formos além disso, perceberemos um grupo de cristãos conservadores, ortodoxos, tão identificados com a declaração de Cristo “para que todos sejam um”, que andam buscando adquirir e praticar uma base ideológica e filosófica amplamente influenciada pelas lições de Jesus e pelas idéias teocêntricas herdadas do judaísmo, numa tentativa de, em cada época, poderem exprimir e criar uma identidade que, em tese, conduza a uma transcendência de momento histórico, fazendo-se relevante para as próximas gerações. Isto porque etiquetas e rótulos apenas facilitam uma categorização, permitindo apenas uma soldagem social ou isolando os elementos segundo as normas e necessidades dos grupos nos quais estão inseridos os indivíduos. Teleologicamente não produzem nada senão um comportamento frio e calculista, uma moralidade de favorecimentos e reducionista. Para que o Cristianismo não seja apenas uma categoria a mais, Agostinho7 sugere que sua abrangência alcance todo o curso histórico da raça humana a partir da Cruz, o que na prática faz de cada cristão submetido a graça de Cristo parte do seu corpo visível, a Igreja, e os não cristãos, alvos da sua atenção e catequese, onde Deus então é visto como criador de tudo e sua força divina o que nos capacita na luta contra o mal até que a história alcance a sua consumação no retorno de Cristo:

De um só homem fez Deus todas as raças humanas, a fim de que povoassem a terra, havendo determinado previamente as épocas e os lugares exatos onde deveriam habitar.  Deus assim procedeu para que a humanidade o buscasse e provavelmente, como que tateando, o pudesse encontrar, ainda que, de fato, não esteja distante de cada um de nós:  ‘Pois nele vivemos, nos movimentamos e existimos’, como declararam alguns de vossos poetas: ‘Porquanto dele também somos descendentes’.  Portanto, considerando que somos geração de Deus, não devemos acreditar que a Divindade possa ser semelhante a uma imagem de ouro, prata ou pedra, esculpida pela arte e idealização humana. Em épocas passadas, Deus não levou em conta essa falta de sabedoria, mas agora ordena que todas as pessoas, em todos os lugares, cheguem ao arrependimento. Porque determinou um dia em que julgará o mundo com o rigor de sua justiça, por meio do homem que para isso estabeleceu. E, quanto a isso, Ele deu provas a todos, ao ressuscitá-lo dentre os mortos!”  – (Atos dos Apóstolos: 17. 26-31)

Esta é a Fé que move montanhas, que transforma o caráter humano: Se cremos nos entregamos ao esforço coletivo de manifestar publicamente ações que correspondam diretamente as declarações (citações) que fazemos virtualmente ou a plenos pulmões. Indo além de meros bordões cristãos-humanistas-pseudo-catequistas lançados aos quilos nas redes sociais, que afagam o ego, que somente transmitem um falsa sensação de coisa feita, obra realizada, mas cujo produto final é esmorecimento e acomodação, pois não há aprimoramento se somente causam controvérsias e nenhum esclarecimento. E se não induzem a uma mudança real de atitude e não  provocam uma entrega de vontade no receptor da mensagem, nenhum valor deveria ter para nós. Que possamos viver e nos comportar como o velho apóstolo Paulo:

A verdade é que jamais nos utilizamos de linguagem bajuladora, como bem sabeis, nem de artimanhas gananciosas. Deus é testemunha desta verdade. Da mesma forma, nunca nos dedicamos a buscar honrarias, quer da vossa parte ou mesmo de outros. Muito embora, como apóstolos de Cristo, pudéssemos ter solicitado de vós, o nosso sustento, todavia, agimos entre vós com todo o desprendimento, como a mãe que acarinha os próprios filhos. Assim, por causa do grande afeto por vós, decidimos dar-lhes não somente o Evangelho de Deus, mas igualmente a nossa própria vida, tendo em vista que vos tornastes muito amados por nós. Porque, certamente, vos recordais, caros irmãos, do nosso dedicado e extenuante ministério; e de como, noite e dia, trabalhamos para não vivermos à custa de nenhum de vós, enquanto vos comunicávamos o Evangelho de Deus. Vós e Deus sois testemunhas de como nos portamos de maneira santa, justa e irrepreensível entre vós, os que credes; E sabeis, ainda, que tratávamos a cada um de vós com a mesma deferência que um pai trata seus filhos, suplicando-vos, consolando-vos e oferecendo nosso testemunho, a fim de que possais viver de modo digno de Deus, que os convocou para o seu Reino e glória. – (1 Tessalonicenses 2.5-12)

 

1- https://medium.com/@lucaspinduca/saia-do-meio-da-multid%C3%A3o-dbef8e586fe5
2-https://medium.com/@raydan/n%C3%A3o-busque-amar-o-que-faz-busque-fazer-valer-a-pena-870b6ed9e48f
3-http://lounge.obviousmag.org/caleidoscopio_cultural/2015/09/todo-o-resto-e-so-barulho.html#ixzz3ligJrvDS
4-http://obviousmag.org/nova_onda/2015/eu-sou-mais-que-seu-rotulo.html#ixzz3mvyARSHK
5- http://pensador.uol.com.br/autor/pamela_martini/
6- Cf. Robert J. Hutchinson, UMA HISTORIA POLITICAMENTE INCORRETA DA BÍBLIA, Agir, 2012.
7- Cf. Earle E. Cairns, O CRISTIANISMO ATRAVÉS DOS SÉCULOS UMA HISTÓRIA DA IGREJA CRISTÃ , Vida Nova, 1998.
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Sobre lucaspinduca

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