A VIDA DOS OUTROS

Por que é que a vida dos outros são sempre muito mais interessantes do que a nossa? Parece que uma vez por ano, muitas pessoas vivem a vida dos outros por um certo tempo. Ou mais de uma vez.

A vida de outras pessoas, como tem chegado até nós na chamada realidade, não é cinema, mas uma fotografia, que é o mesmo que dizer que não podemos compreender a ação apenas os fragmentos elipticamente aparados. Não há mais nada do que os momentos em que estamos com esse outro cuja vida pensamos que entendemos, ou quando falam dele, ou quando ele nos conta o que tem acontecido e projeta diante de nós o que pretende fazer. No final é um álbum de fotos, de momentos fixos; Nunca uma evolução em curso diante de nós, a transição de ontem para hoje, a primeira agulha de esquecimento na memória…1

Em paralelo a vida real há uma sociedade virtual, movida por meio das novas tecnologias, vigiando, pesquisando, stalkeando as vidas alheias. E nunca estivemos rodeados de tantas testemunhas! Esta sociedade de vigias online ou não, infelizmente, está tão mergulhada numa existência dita hoje líquida, que a ideia de ”espionar” o que se passa nas ”redes sociais” é o último pensamento da maioria antes de ir dormir e quando acordam é o primeiro a se manifestar; assim como a última luz que veem antes de adormecer é da tela que encontram assim que acabam de acordar! E em função disso, as pessoas estão vivendo vidas paralelas: uma real e uma virtual. O problema é que muitos agem como se tivessem de fato duas personalidades, o que na verdade é uma ilusão. Existe um segundo motivo também:

(…) falar de si mesmo gera prazer. Nas conversas normais uma pessoa usa em torno de 30% do tempo para falar de si próprio. Nas redes sociais este indicador sobe para 90%, com possibilidade de um feedback instantâneo, pois muitas pessoas curtem ou comentam a foto ou a mensagem publicada. (…) No Facebook e Instagram não existe crise financeira nem problemas conjugais, todos tem dinheiro, o emprego dos sonhos, o casamento perfeito, viagens maravilhosas, etc. 2

E juntamos a esses outro comportamento, muito comum, de quem tem uma segunda personalidade virtual: O cultivo de uma mera aparência da sabedoria em vez da coisa real, simplesmente porque gostamos de ser reconhecidos como alguém que possui relevantes conselhos, ou uma palavra que anima e resolve os problemas de todo mundo.  Nunca citamos tanto e tão equivocadamente escritores, atores, diretores, compositores e filósofos. Parece que estamos todos em um grande esforço diário para ratificar o pensamento individualista moderno que diz “sou o que eu mesmo escolhi ser.” Entretanto, para manter este comportamento individualista e virtual, precisamos refletir moralmente de uma maneira que possamos deixar de lado ou que tornemos abstratas nossas identidades e heranças sociais. Mas segundo MacIntyre isso é errado pois “minha história de vida estará sempre entretecida na história das comunidades das quais advém minha identidade. Nasci com um passado; tentar romper com esse passado, de forma individualista, é deturpar meus relacionamentos atuais”.3

Acredito que este é um princípio filosófico (teleológico) que deve ser aplicado para nos fazer crer que não adianta buscar na utopia de uma vida virtual idealizada a resolução de problemas de relacionamentos, psicológicos ou espirituais.

Eu percebi que o que faço e penso é importante e tem relevância para as pessoas nos meus círculos de relacionamentos, mas hoje com a velocidade da comunicação, a internet e as redes sociais, não importando muito se estou no mundo virtual ou real, a minha opinião facilmente será amplificada e isso aumentará a possibilidade da minha experiência pessoal e minhas ideias tomarem a forma de um discurso autoritativo. E vice-versa; porque dá mesma maneira que olho e investigo a vida do outro, sou pesquisado, stalkeado e lido também. E as vezes isso é tudo o que queremos mesmo quando agimos levianamente.

A maneira como organizamos a nossa vida ou como deixamos que os outros a organizem pode nos levar a perder o essencial. O que na prática deveria me fazer mais responsável com a qualidade do conteúdo que coloco a disposição nas redes sociais, com o que estou absorvendo e consumindo, até mesmo, com a maneira de exercer minha individualidade no caso de comportamento cristão. Daí a importância de desenvolvermos um estilo gracioso de viver. Onde o foco está naquilo que fazemos e não no significado que as pessoas poderiam atribuir ao que faço. “não devemos nos cansar de fazer pequenas coisas por amor a Deus. Ele não se importa com a grandeza do trabalho, mas com o amor com que é realizado”. É preciso então apontar para uma espiritualidade apoiada nas coisas simples, na fuga da obsessão pela evidência, pelo reconhecimento. O ato de olhar não é algo puramente espontâneo. Se quisermos ir além e interpretar o que enxergamos, necessário se faz treinar o olhar e começar a educar a próxima geração, os jovens cristãos ou não, a fim de perceberem a presença de Deus, para que compreendam a diferença entre as imagens, declarações e vídeos que se engajam com a humanidade, espiritualidade e com a inteligência e as que só estão tentando nos vender algo ou distrair, que tentam nos levar a uma emotividade barata cuja finalidade são ações indefinidas ou aleatórias. É preciso assimilar que só poderemos entender a narrativa da nossa vida se pudermos conectá-la como parte das histórias de outras pessoas e a vontade de Deus.

Foi neste ponto que o meu problema com a suposta emotividade alheia começou a clarear. A emoção em sua versão kitsch, extravasada por meio de chavões inautênticos, não me parece transformadora. Não me emociona. No Facebook, me soa como má literatura. Até porque já não é mais a emoção que está ali, e sim a tentativa (mal sucedida) de sua representação, que talvez esconda apenas o exibicionismo de sempre.

 

Filosoficamente a emoção é um movimento que nos coloca fora de nós mesmos (Huberman), e uma forma de transformação ativa do nosso mundo (Merleau-Ponty), ela torna-se ato quando nos extravasa e, então, podemos fazer uso dela na sociedade, engendrando transformações naqueles que se emocionam. 4

Se você não tem paz sobre o que está fazendo ou do jeito que você está se comportando, então não faça. E apesar de lidar com este tipo de pessoas todos os dias, não acho saudável olhar a própria vida, trajetória ou como você queira classificar a sua jornada pessoal neste mundo, através de um autorroteiro supereditado e canhestramente preparado para satisfazer sua autopiedade, egoísmo, egocentrismo; ou apenas para corresponder ao status quo da prática social em alta no momento, de forma artificial e pré-formatada, e ainda achar que está incluído no fluxo normal da vida, acreditando que pertence de verdade ao outro que você acaba de enganar postando um acontecimento irreal ou imaginário sobre si mesmo.

(…) Nossa cultura ensina que é preciso produzir sempre mais como indicador de sucesso ou felicidade. Dentro deste contexto, precisamos postar e compartilhar numa tentativa de gritar ao mundo o desejo de pertencimento e alimentar a satisfação do próprio ego. Nos casos mais graves, as redes sociais passam a ser um palco sombrio de fuga ou idealização em uma peça de teatro inventada, mas que sempre terá plateia cheia. 5

Não posso deixar de lembrar que “Liberdade com certeza não é de graça”… Este é o motivo de um comportamento social baseado em relações virtuais. Podemos ver que nele a tal “felicidade” também é baseada em coisas que não precisamos e regida por entidades que não controlamos, mas e daí? Sente-se e vá ver como estão vivendo os seus vizinhos! Tudo que servir para o propósito de criar um ambiente homogêneo em que somos definidos por aquilo que temos ou somos virtualmente, será sempre realmente válido nesta presente era.* Seja por motivos para suportar a vida (secular) quando nos falta paixão e propósito, ou apenas para dar contornos de vida real aos nossos desejos arbitrários.

É por isso que perdemos tempo demais olhando os bastidores da vida alheia quando deveríamos estar protagonizando a própria (e tão efêmera!) existência. Quando deveríamos viver uma vida real plena de excelência estamos existindo apenas em conformidade com as “necessidades” de ajustamento ao senso comum e midiático desses tempos pós-modernos, e, pior ainda, estamos moldando nossos jardins de maneira a ter o tom da grama do vizinho, que como todos sabem, é sempre mais verde! Parece que existimos para estar sempre em busca de um sentido, sentido este que na prática seria ordenador, entretanto não o queremos assim, pois gostamos mesmo é de olhar o mundo através de telas e janelas eletrônicas, onde preferimos curtir sem realizar, podemos julgar sem experimentar ou entender, onde a maior janela esta diante de nós oferecendo ação in loco e uma oportunidade de exercermos nossa personalidade, de manifestarmos um caráter capaz de influenciar, buscar o bem, praticar uma virtude, ser aprimorado, que é ignorado e rejeitado por uma causa simples: Não queremos perder tempo de jeito nenhum. Nem mesmo para pensar. Fazer escolhas? Muito menos. Queremos o gabarito da vida porque não queremos ficar de fora e um clique não custa nada. Então viva os layouts prontos! Copiemos o modelo social de sucesso! Somos todo default. Não se preocupe com sua essência foque na aparência, naquilo que é mais confortável. Mas como seria viver se parássemos um pouco para pensar sobre o assunto?

No final do último século ficou claro que começou uma nova era na história da humanidade, que até pode trazer um pesar, um desgosto, mas não pode ser ignorada nem mesmo pelo conservadorismo mais teimoso. Não é uma mudança que permanece abaixo da superfície, visível apenas para aqueles com um maior discernimento; pelo contrário, é claramente visível para as pessoas comuns. Invenções modernas, industrialismo, virtualidade excessiva, baixíssimo nível moral, tudo construído sobre uma premissa de pós-modernidade. Temos, em muitos aspectos, um novo mundo. Como é impossível sair da atmosfera em que respiramos, também é impossível sair deste mundo novo. E estas mudanças nas condições materiais de vida não são as únicas; Elas são produzidas por alterações na mente do homem, que vêm como resultado de mudanças em sua espiritualidade. Este novo mundo não mudou pelas forças cegas da natureza, mas sim pela ação e atividade do espírito humano.

Bem, o educador Eugenio Mussak diz: “Nesse momento de reflexão, você tem que se fazer perguntas, mas não procurar respostas. Porque o que mais falta na nossa vida são questionamentos, e a resposta só aparece quando fazemos a pergunta certa”. Para Eugenio, deveríamos fazer as seguintes questões, sempre: quem sou eu?; quem eu gostaria de ser?; o que vou fazer para vir a ser a pessoa que eu gostaria de ser? “Na tentativa de responder a isso, você vai chegar a um vestígio do que é o sentido da vida”.

Sempre quis saber o que ou quem estava por trás das paredes? Todos já fizemos isso uma vez na nossa vida, como uma criança, ou mesmo como adultos. Mas até que ponto isto é bom para nós cristãos, visto que, esta maneira instantânea de viver faz o pensamento ser substituído pelo visual, pela realização virtual das minhas vontades reais, e pelo não aperfeiçoamento real do ser humano quando o aliena de um convívio gracioso?6 A uns, a justiça humana é aplicada de uma forma; a outros, de outra forma, mesmo que as circunstâncias das transgressões sejam idênticas. Mas a justiça de Cristo, no crente, faz com que ele viva de maneira justa, em consonância com a Lei de Deus (ver Salmos 23.3, Provérbios 12.28). Viver piamente significa viver de acordo com a piedade (gr. eusebeia) cristã, é viver em santidade e respeito à palavra de Deus, em santificação. Todo esse cuidado com o comportamento cristão não é sem finalidade, mas tem um propósito muito elevado, face à vinda de Cristo: “aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do grande Deus e nosso Senhor Jesus Cristo”.

“Agora, irmãos, quero que lembrem do evangelho que eu anunciei a vocês, o qual vocês aceitaram e no qual continuam firmes. A mensagem que anunciei a vocês é o evangelho, por meio do qual vocês são salvos, se continuarem firmes nele. A não ser que não tenha adiantado nada vocês crerem nele” (1 Coríntios 15, versículos 1 e 2- NTLH).

1- Traduzido pelo autor. Julio Cortázar, “Capítulo 109”, Rayuela, Cátedra, Madrid, 2008 (1984).
2- Extraído de OFLU Revista, coluna Espaço Aberto, de 27 de setembro de 2015, Niterói.
3- Michael J. Sandel, Justiça, O que é fazer a coisa certa, 6ª Ed., Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2012.
4-http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=4136&titulo=Contra_a_breguice_no_Facebook
5- Idem ao 2.
6- Conforme https://oficinadopinduca.wordpress.com/2011/06/05/virtualidades/
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Sobre lucaspinduca

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