Que maravilhoso mundo filosófico cheio de miseráveis dúvidas!

Aqui temos o suporte da atual crise da civilização: o conflito entre conhecer e ser, entre a inteligência e a existência. Mas isto nada tem de novo. Na primeira metade do séc. XIX esta verdade antiga, já conhecida de um Nicolau de Cusa, é novamente tomada por Kierkegaard, cuja filosofia tem o seu centro na antítese do “existir” e do “pensar” e dela se aproveitou para assentar a sua fé em alicerces mais firmes ainda. Só muito mais tarde é que outros pensadores forçaram este pensamento a seguir caminhos alheios a Deus para o deixarem cair no nihilismo e no desespero, ou na adoração da vida mundana.

Mas, quando a religião pessoal (até os ateus possuem suas “divindades”) falha, todos procuram algo novo para acreditar – um novo modelo de negócio, um novo governante, uma via filantrópica, uma nova filosofia – mas encontram apenas falsos salvadores. E todos começam a questionar suas razões e crenças e abraçam um mundo de incertezas. Infelizmente, a sociedade atual, a humanidade, não percebe esse fato. Continuam a viver como se não houvesse propósito maior do que um mero existir. Olhem esta história de Nietzsche sobre um louco que sai procurando Deus, e como as pessoas que não acreditam em Deus começam a zombar dele, até que o louco para no meio deles e resume a existência deles até ali:

“Onde está Deus?”… “Eu lhes direi. Nós o matamos – Vocês e eu. Todos nós somos seus assassinos. E como fizemos isso? Como pudemos beber o mar? Quem nos deu a esponja para apagar todo o horizonte? O que fizemos quando desamarramos esta terra do seu sol? Para onde ela está se movendo agora? Para longe de todos os sóis? Não estamos caindo sem parar? Para trás, para os lados, para frente, em todas as direções? Restou alguma coisa em cima ou embaixo? Não estamos vagando como que por um nada infinito? Não estamos sentindo a respiração do espaço vazio? Não ficou mais frio? Não está chegando cada vez mais à noite? Não estamos tendo de acender lampiões de manhã? Não ouvimos apenas o barulho dos coveiros que estão sepultando a Deus? […] Deus está morto […]. E nós o matamos. Como nós, os maiores assassinos, iremos consolar a nós mesmos?” [a multidão fica perplexa e calada, o louco lança o lampião no chão…] “Cheguei muito cedo, esse acontecimento incrível ainda está a caminho – ainda não atingiu os ouvidos do ser humano”. [1]

Acredito que este acontecimento está chegando aos nossos ouvidos hoje. Nietzsche escreveu que o fim do Cristianismo significava o advento do niilismo – a destruição de todo significado e valor da vida. “Toda nossa cultura europeia está há algum tempo em movimento, numa tensão torturante que está crescendo a cada década, como na iminência de uma catástrofe: sem descanso, com violência, precipitado, como um rio que quer chegar ao fim, que não reflete mais, que tem medo de refletir.”

Lembrando… Em um mundo no qual a filosofia de Friedrich Nietzsche fosse amplamente aplicada seria aquele que a esmagadora maioria das pessoas acharia totalmente miserável, um mundo que em minha opinião dificilmente seria digno de se viver. Sobre este mundo e seus habitantes, Henry Louis Mencken diz:

“No fundo de toda a filosofia, de toda ciência e de todo o pensamento, você irá encontrar uma pergunta que inclui tudo: quem é o homem para dizer a verdade do erro? O homem ignorante resolve este problema de forma muito simples: ele sustenta que tudo o que ele acredita, ele sabe; e que tudo o que ele sabe é a verdade. Esta é a atitude de todos os teólogos amadores e profissionais, políticos e outros idiotas desse tipo… opor-se a esta teoria infantil do conhecimento é a dúvida crônica do homem instruído. Ele vê provas diárias que muitas coisas realizadas para serem verdadeiras por nove décimos de todos os homens são, na realidade, falsas, e ele está, assim, apto a adquirir uma dúvida sobre tudo, inclusive suas próprias crenças.”

Perceba caro leitor que o pensamento pós moderno não se dá por satisfeito em formular uma determinada crença sobre o homem, mas procura impô-la, fazendo uma sondagem nas profundidades do homem para obrigá-lo a tomar consciência de suas potencialidades inimagináveis; induz o homem à crença de poder ser um deus antes mesmo de atingir a dignidade que o faça humano; quer dirigir, como um farol seguro, o desenvolvimento, a realização do homem em seu caminho pelo mundo. Tudo isso não é alguma coisa que os humanistas murmuram debilmente e oferecem como opção; é um urgente “imperativo categórico” que brada dos lábios dos seus “pregadores”. O humanismo se propõe transformar o homem no centro do universo, em torno do qual tudo gravita. Como pode uma filosofia arrogar-se um império sobre o homem? Como pode pretender ter prerrogativas que incidem sobre toda a dimensão humana, cujo santuário não se abria a não ser para a potestade da religião e da fé? A resposta é a seguinte: O humanismo é uma religião, uma religião do homem pós moderno. E Johan Huizinga nos diz o porquê ela deve ser ferrenhamente combatida:

“O pensamento “condicionado pela existência”, na sua luta pela expressão, deixa que o fantasioso da alegoria, sem o freio do raciocínio crítico, penetre no argumento lógico. Se a vida não pode se exprimir em termos de lógica, o que todos têm de admitir, então chega à vez ao poeta de fazer a sua aparição onde falha a aproximação lógica. Assim tem sido desde que o mundo conheceu a arte da poesia. No processo do desenvolvimento cultural, porém, pensador e poeta puderam ser bem diferenciados e a cada um foi concedido o seu domínio próprio. Ultimamente a nova “filosofia da vida” tem revelado certa tendência para reincidir numa confusão desnorteante de meios de expressão lógicos e poéticos”. [2]

 “(…) há também uma superprodução intelectual, um excesso permanente da palavra escrita e “radiodifundida”, e uma divergência de pensamento quase irremediável. A arte foi apanhada no círculo vicioso que agrilhoa o artista à publicidade e por meio desta, à moda, qualquer delas, por sua vez depende dos interesses comerciais. Ao longo de toda a série, desde a vida do Estado à vida da família, parece estar em curso um desconjuntamento como o mundo jamais conheceu”. [3]

Porque simplesmente não é verdade dizer que vivemos em uma época de descrença – não, nós acreditamos que hoje, tanto quanto qualquer momento que veio antes, alguns de nós podemos acreditar na profecia de Brene Brown ou Tony Robbins. Podemos acreditar na bíblia da The New Yorker ou da Harvard Business Review. (…) Falamos a língua dos líderes carismáticos que prometem resolver todos os nossos problemas. Nós vemos o sofrimento como um ato necessário do capitalismo, que é um deus neste século; tomamos o texto do progresso tecnológico como a infalível verdade. E nós quase não percebemos o preço humano que pagamos quando deixamos de questionar um tijolo, porque tememos que pudesse abalar toda a nossa fundação. [4]

“O que muitas vezes parece é que o homem, abusando da liberdade obtida pelo seu controle da natureza física, se recusa a dominar-se a si próprio, sempre pronto a repelir todos os valores que o espírito para ele conquistara. Os direitos e as pretensões da natureza humana são invocados em toda parte para se oporem à autoridade de leis éticas absolutas. A condição de domínio da natureza fica assim apenas a meio do caminho”. [5]

Fyodor Dostoyevsky mostrou em seus livros que o ser humano não pode viver dessa maneira, como se não houvesse problema algum nas guerras que obrigam crianças a nascerem com a condição de apátridas ou nos regimes ditatoriais que desrespeitam leis, tratados e os direitos humanos; como se não houvesse problema nos caprichos megalomaníacos dos “King Jong-Un” da vida. Todo ser humano com suas faculdades mentais normais vai gritar e dizer que esses atos são errados. E qual a única maneira de impedir ou consertar isto? Seria com o domínio da natureza humana? Afinal, não podemos nos contentar somente com os triunfos da psiquiatria, da assistência social ou da guerra ao crime. O domínio da natureza humana só poderá significar domínio de todo indivíduo sobre si mesmo. Aí sim, este indivíduo poderá apontar a verdade do erro. Mas quem conseguiu isso? Portanto, o dilema do homem pós-moderno, que já percebeu a falência da modernidade, está entre a negação da cosmovisão cristã (e a existência de Deus) e a cosmovisão ateísta (que não tem valores objetivos, relativismo), esta que é insuficiente para proporcionar uma vida coerente e feliz ao ser humano porque hoje se constata que a realização pessoal e a coerência social andam independentemente por causa do relativismo, que fez com que cada pessoa pudesse escolher seu próprio caminho, valores e um conjunto de significado, e o intelectualismo que somente gera mais dúvidas.  Entretanto o ser humano para viver feliz e coerente precisa de sentido, valor e propósito objetivos, que, acima de tudo, integre em sua vida cosmovisão e moralidade.

Se você está perturbado pelas coisas impensadas que tem vindo a aceitar, então deve ser a hora de questionar. Então, eu não tenho um evangelho de perturbação ou de inovação ou de um ‘triple bottom line’. Eu tenho um evangelho de fé para compartilhar com você hoje, na verdade eu tenho e eu ofereço um evangelho de esperança. Porque o evangelho da dúvida não pede que você pare de acreditar, ele pede que você acredite em uma coisa nova: que é possível não acreditar, é possível que as respostas obtidas estejam erradas, é possível que às questões em si sejam erradas. Sim, o evangelho de dúvida significa que é possível que, nesta fase, neste tempo e lugar, tudo está errado. Porque ele levanta a pergunta: “por quê?”, mas não oferece a resposta para “Com todo o poder que temos em nossas mãos, por que as pessoas ainda sofrem tanto”? Fyodor Dostoyevsky responderia afirmativamente que o sofrimento do inocente pode aperfeiçoar o caráter e levar a pessoa a um relacionamento mais íntimo com Deus. Do lado da negação, ele diria que quem nega a existência de Deus desce no mais completo relativismo moral, de modo que um ateu não pode condenar nenhum ato, por mais assustador ou hediondo que seja. Então eu acho que é melhor parar de acreditar na filosofia humanista… Jesus disse: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8:32). Mas o problema é que muita gente não sabe a verdade quando a veem, e se contentam com uma mistura de verdade e falsidade, que é muito mais mortal do que o material servido por alguém que é realmente incorreto ou inadequado. Além de tudo isso, as manifestações contemporâneas que nos rodeiam parecem excluir toda ideia de um autêntico equilíbrio, pondo em movimento forças que ninguém precisa; que para ninguém trazem vantagens, que a sociedade teme e que muitos ridicularizam por serem inúteis, absurdas e prejudiciais. Ou seja, todo mundo esta procurando saídas a qualquer custo, seguindo QUALQUER caminho. Ainda não perceberam que estão em uma rotatória? Precisam de um guia?

Karl Marx escreveu um comentário devocional sobre permanecer em Cristo, que foi baseado no Capítulo 15 do Evangelho de João. Ele escreveu-o em 17 de agosto de 1835, quando ele tinha dezessete anos. A certa altura do seu curso ginasial, respondendo à prova: “Sobre a União dos Crentes com Cristo”, escreveu: “… o zelo pela virtude é abafado pela voz tentadora do pecado, e se transforma em escárnio, assim que sentimos o pleno impacto da vida. A luta pelo entendimento é posta de lado por uma vulgar concupiscência pelos bens terrenos. O anseio pela verdade é amortecido pela força doce e lisonjeadora da mentira. E assim o homem permanece como a única criatura, em toda a natureza, que não cumpre o seu propósito, o único membro do Universo que é indigno do Deus que o fez. Todavia, o gracioso Criador é incapaz de odiar a obra de suas mãos. Deseja erguê-la até onde Ele mesmo está, e, assim sendo, enviou o seu Filho, e agora nos chama através destas palavras: ‘Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado; permanecei em mim, e eu permanecerei em vós… ‘ (Jo 15.3,4).” E onde Cristo expressa com maior clareza a necessidade de união com Ele do que na bela parábola da vinha e seus ramos, na qual Ele se compara com a vinha e a nós com os ramos? Os nossos corações, a razão, a história, a Palavra de Deus, tudo nos faz apelos em altas vozes, convincentemente, dizendo-nos que a união com Ele é absolutamente necessária; que sem Ele seríamos rejeitados por Deus; que somente Ele é capaz de libertar-nos…” Uma vez que um homem tenha atingido essa virtude, essa união com Cristo esperará calma e tranquilamente os golpes da desventura. Opor-se-á bravamente às tempestades da paixão e resistirá impavidamente aos rugidos dos iníquos; pois quem poderia arrebatá-lo de seu Redentor”? [6]

A história mostra que Marx não permaneceu firme na sua fé. Para finalizar, só me restaram essas palavras:

“A gente pode reprimir ideias, fantasias e pensamentos – por reprimir, quero dizer fechar num canto da mente e esquecer. Mas, com os afetos dos quais queremos nos livrar, fazemos diferente: nós os projetamos nos outros”. [7]

1 – Nietzsche, Friedrich. The gay science, in The portable Nietzsche, By W. Kaufmann. New York, Viking, 1954, p. 108, 125.
2- HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã: diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo. São Paulo, Saraiva, 1946, p. 90-91. Capítulo O culto da vida.
3- HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã: diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo. São Paulo, Saraiva, 1946, p. 37-39. Capítulo Condições básicas da cultura.
4- http://www.ted.com/talks/casey_gerald_the_gospel_of_doubt
5- Idem ao 2.
6- http://www.christiantreasury.org/content/karl-marx-union-faithful-christ
7- CALLIGARIS, Contardo. Caderno Ilustrada da Folha de São Paulo, 07 de janeiro de 2016.
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Sobre lucaspinduca

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