Onde os modernos ‘selvagens’ vão?

Palavras de Santo Agostinho: “Vós dizeis: os tempos são difíceis, são tempos duros, tempos de desgraças. Vivei bem e, com uma vida boa, mudai os tempos. O tempo não prejudicou ninguém. Os que são prejudicados são os homens e aqueles de quem recebem os danos são homens. Portanto, mudai o homem e mudarão os tempos”.

As coisas que fazemos, incluindo nossas histórias, refletem, servem e muitas vezes moldam nossas necessidades e desejos. Vemos isso em todos os contos de fadas em relação a um infantil acesso ao mito; de “Cinderela” para “Alice no país das maravilhas” para o Super-homem; desde a construção de um forte, quando criança, para a construção de cidades ideais, planejadas como sociedades inteiras. Fantasia, de uma forma divertida e prática, serve as nossas persistentes necessidades e desejos iluminando a mente humana. Fantasia exprime de muitas maneiras, desde o conforto que sentimos nos poderes divinos de uma fada madrinha até o sedutor desconforto que sentimos confrontando o Drácula. Do ponto de vista prático, de todas as formas de ficção que a fantasia induz, a ficção científica (de Frankenstein ao Avatar) é a mais importante em nosso mundo moderno porque é o único tipo que reconhece explicitamente as profundas maneiras em que a ciência e tecnologia, os principais produtos da mente humana, moldam não só o nosso mundo, mas nossas esperanças e medos.

Mas não podemos viver totalmente mergulhados na fantasia ou envolvidos apenas pela utopia. Por isso podemos ver hoje uma realidade conflitante fundamentada em uma crise de sentido e de valores que se apresenta na vida pessoal e nas relações sociais das pessoas. A partir desse contexto percebe-se uma inquietação acerca do sentido da vida e do papel do “ser no mundo”, vindo assim a reaparecer com mais força o interesse pelo tema da ética, enquanto coluna vertebral da reflexão sobre a conduta do ser humano e seus valores. Não é suficiente para o homem comum e contemporâneo superar a crise da ética atual conhecendo o outro e suas necessidades para se chegar a sua convivência harmônica. Não há como superar esta crise sem um modelo de ética voltada para uma comunidade, como na polis grega. Hoje se aposta no individualismo, na competição, na sociedade do espetáculo e do consumo. [1]

Continuamos a pensar que apesar de todos os recursos disponíveis, hoje as pessoas vivem fechadas em um mundo virtualmente infantil, cuja insensibilidade altera sua constituição, tornando-os cada dia mais embrutecidos em suas relações e vivências; são preguiçosos, não criam nada, não empreendem nada, são materialistas, com uma concepção de mundo que não vai além do que veem. Aquilo que seria útil a eles e a sociedade, o exercício pleno de sua racionalidade, lhes faltam ou é totalmente desinteressante. A metáfora sugerida aqui é sobre o ‘selvagem moderno’; um selvagem é um sujeito fora do eixo cultural, alienado do fluxo histórico, não se identificando com a moral e a conduta civilizatória de seu tempo, eis o ponto em que chegamos, melhor dizendo, regressamos. A vida moderna obriga a ir cada vez mais rápido enquanto nossa racionalidade tem limites.

Antigamente se dizia “o que os olhos não veem o coração não sente”. Isto foi substituído pelo “what the heart thinks, the brain does not feel” [2]. Hoje esta inversão das posições entre o coração e o cérebro aparece como uma ego-distônica concepção ideal de vida moderna. Parece também que esqueceram que “o sentimento não é um canal de comunicação em si, ele passa por um filtro psicológico muito mais emblemático que mistura pensamentos e sensações. Ele é por natureza irracional, mas passa por filtros racionais. A visão de mundo que nutrimos e assumimos como real determina a forma como vamos sentir a realidade.

Se você acha que a vida é uma batalha, está numa selva e é mimado o mais provável é que o sentimento de raiva predomine em sua vida.

Se acha que as regras são padrões fixos e imutáveis, a justiça e a retidão são ordens implacáveis será sempre mobilizado pela culpa e o medo.

Se vê cada oportunidade como uma chance de se dar bem, obter vantagem e controle a ansiedade será seu prato predileto. Portanto, não existem emoções descoladas das ideias que fazemos sobre as coisas.”[3]

E, de fato há uma continuidade entre os nossos gostos elementares para as coisas e nossos amores para as pessoas. Uma vez que o “mais alto não se sustenta sem o menor” É melhor começar na parte inferior, com meros gostos; e uma vez que “gostar” nada significa sem tirar algum tipo de prazer nisso, temos de começar com prazer.

A primeira vez que você encontra alguém, o seu primeiro pensamento não é “Como ele funciona?” É “Como é que ele me faz sentir?” E quando você for perguntado sobre essa pessoa mais tarde, você descreve a sua personalidade: “Ela é relaxada, inteligente, espirituosa. Ela me faz rir”.

Pode parecer estranho aplicar os mesmos atributos para objetos inanimados, mas se tomarmos um momento para pensar sobre nossos pertences, todos nós temos um punhado de itens que não são particularmente úteis ou agradáveis aos olhos. Por que ainda os conservamos? Porque nós temos formado uma conexão, e eles são significativos, de alguma forma: o presente de aniversário do nosso melhor amigo, um ingresso do filme de um primeiro encontro com a pessoa especial. Essas conexões afetam-nos inconscientemente, dando vida a objetos inanimados de outra forma.

Sobre esta continuidade e lugar-comum podemos dizer que, juntos, produzem estereótipos que validam, em longo prazo, um estigma interpessoal e social quando o individual passa a caracterizar o coletivo. Isto acontece porque a atual visão de mundo reforça alguns valores que sustentados pelo senso comum acabam por produzir os mitos ideológicos modernos quase incontestáveis. Por isso o hábito de compreender o sucesso de um indivíduo como mérito unicamente pessoal em nossa época, tem sido moldado de maneira crescente como valor de prestígio na sociedade contemporânea. No centro dessa ideia incluem-se perspicácia, inteligência e determinação. Assim, o sujeito vitorioso é colocado num patamar de destaque para que o resultado do desenvolvimento de suas potencialidades seja, reiteradas vezes, celebrado. Este triunfo individual reconhecido socialmente se apresenta então como condição indispensável para que alguém se sinta realizado e fortaleça seus valores na sociedade. Quanto mais uma pessoa descobrir e aprimorar em si o talento que a promoveu e adequá-lo mais rápido às necessidades e regras sociais, maior será sua consagração. E isto, algumas vezes, parece não depender tanto de conhecimento ou virtudes, e sim da capacidade humana de se despir da racionalidade, do pensamento e reflexão, para se tornar apenas mais um animal em busca de sobrevivência e vingança na selva urbana e midiática atual. Como já foi dito:

[…] Como consequência, despontaram, não só em alguns filósofos, mas no homem contemporâneo em geral, atitudes de desconfiança generalizada quanto aos grandes recursos cognoscitivos do ser humano. Com falsa modéstia, contentam-se de verdades parciais e provisórias, deixando de tentar pôr as perguntas radicais sobre o sentido e o fundamento último da vida humana, pessoal e social. Em suma, esmoreceu a esperança de se poder receber da filosofia respostas definitivas a tais questões (PAULO II, 1998).

E o dilema moderno permanece o mesmo: Pense em todas as escolhas feitas que trouxeram você até aqui. Pergunte-se porque você optou por elas, será que em nenhum momento você foi capaz de ver esse furacão, ou será que você viu, mas preferiu acreditar que tudo se acalmaria?! Faça ainda esta outra pergunta: como seria se você tivesse a chance de fazer novas escolhas, se você não tivesse optado por entrar nesse furacão?[4]

Esta é uma das características distintivas da vida moderna: ela fornece inúmeras oportunidades para considerar (à distância, por meio de fotografia, vídeos) todas as coisas que estão acontecendo ao nosso redor. Imagens e acontecimentos (quer sejam atrocidades ou não) tornaram-se, através das pequenas telas da televisão, dos celulares e do computador, uma espécie de lugar-comum. Ou então: “vive num mundo de fantasia”:

“O principal personagem da história é Deus, que fez a Terra e outras coisas. Em primeiro lugar, todos os anjos lhe obedecem, mas um fica de saco cheio e desiste. Ele é punido com o inferno (é um lugar real, não uma palavra feia) e se transforma em Satanás, que é uma parte bem legal. Deus após cria Adão & Eva (que têm um catálogo nomeado por eles agora. É incrível). Eles vivem em um jardim e estão todos felizes e tal até Eva estragar e eles são expulsos. O mesmo tipo de coisa aconteceu com meu irmão e sua namorada”.[5]

Parafraseando Platão, quem são os seguidores da sabedoria, se pelo exposto acima, não são nem os sábios nem os ignorantes (porque a sabedoria deste tempo é capaz de pensamentos fantásticos como este sobre o Genesis e a criação)?

Tudo bem. Bêbados existem em todos os lugares. Aliás, a embriaguez habitual é geralmente o resultado da incapacidade de acomodar-se inteiramente à realidade, dizem os psicólogos.

As pessoas anseiam vagamente por algo diferente do mundo que elas conhecem, mas elas não têm a capacidade de aproximar este mundo ao desejo dos seus corações. Ainda mais, eles não têm a capacidade de atingir uma visão abrangente da beleza emanada neste mundo. Nem a arte da fuga, nem a arte de revelação são possíveis para eles. No entanto, eles têm percepções que não podem usar e impulsos que nunca chegarão a ser concretizados. Logo, a bebida, ou alguma outra droga, aliviam o seu sentimento de impotência e borram os contornos hostis do mundo real trazendo consolo e acabam por isso se tornando uma necessidade.[6] Quem procura este tipo de alívio rápido (os modernos selvagens?) experimentará com certeza algum tipo de vergonha. A vergonha é uma sensação humana de conhecimento consciente de desonra, desgraça, ou condenação. Seu sinônimo, ignomínia, dá a entender o efeito de uma ação desonrosa ou injusta. A ação ignominiosa está relacionada com o descaramento e a desonra de um indivíduo a quem as considerações morais lhe são indiferentes e que é, consequentemente, objeto do descrédito geral (cf. Wikipédia).

Então onde está o limite? Esta é uma pergunta importante para que se saiba até onde ir nas buscas, conquistas e realizações. Contudo, uma pergunta sem resposta. Muitos limites estão estabelecidos pelas leis, mas estas não conseguem abranger a infinita variedade que envolve a ação humana e os detalhes da vida. E mesmo nas situações previstas em lei, a variação de aspectos é tão grande e frequente que justificam a presença dos intérpretes para definir a correta aplicação dos dispositivos legais. Desse modo, a sabedoria é superior à lei pois se aplica a toda e qualquer situação. Em cada instante, em cada caso específico, só a sabedoria poderá definir com precisão o limite para as ações humanas.

E “Um deles é saber a diferença entre moral e sabedoria. A moralidade é temporária, Sabedoria é permanente…” – Hunter S. Thompson.

Recordemos que, se o corpo clássico (do conhecimento) é ordenado, então deve também em termos metafóricos ser saudável. ‘A ordem é a mais antiga preocupação da filosofia política,’ Susan Sontag escreve em ‘Doença como metáfora’, e se é plausível comparar a polis com um organismo, então é plausível comparar a desordem civil com uma doença’. Qualquer sinal da doença é uma ameaça para a ordem e como Sontag torna tudo muito claro, a ‘pior’ doença de todas é o câncer. Ela mostra como uma doença, e em particular o câncer, é frequentemente usado como uma metáfora para descrever o mal-estar da sociedade. ‘Nenhuma visão política específica parece ter um monopólio desta metáfora. Trotsky chamou o estalinismo de câncer do marxismo’, o Gang of Four eram chamados de ‘o câncer da China’ e ‘a metáfora padrão das polêmicas árabes […] é que Israel é “um câncer no coração do mundo árabe.”‘ Para a pessoa com câncer, esta metáfora tem o efeito de separá-los como um intocável; câncer é visto como uma espécie de punição. Para a sociedade, a metáfora cancerosa exige tratamento agressivo para que a cura seja devidamente efetuada. O câncer deve ser retirado para que o corpo saudável seja restabelecido e então a ordem possa ser reconstruída.

Joseph Campbell afirma que “Metáforas nos carregam de um lugar para outro; nos capacitam a cruzar fronteiras que, de outra maneira, estariam fechadas para nós”. Ou seja, é inevitável que tenhamos que construir nosso próprio caminho em lugar de trilhar o de outra pessoa, sendo necessário conhecer o significado dos símbolos e signos, para colocá-los dentro de um contexto cultural e de época. Numa mitologia tradicional ou, se prefere, sistema religioso tradicional, as imagens e os rituais por meio dos quais estas imagens são integradas na vida de uma pessoa são apresentados oficial e impositivamente pelos pais ou pela evangelização religiosa, e se espera que o indivíduo experimente os significados e os sentimentos visados.

Se, como aconteceu no mundo contemporâneo, todos os fundos das imagens de nossa herança religiosa se transformam, como ocorre quando encontramos a nós mesmos num mundo de máquinas em lugar de um mundo de vida pastoral, essas imagens alteradas realmente não podem e não comunicam os sentimentos, as emoções e os significados que comunicaram às pessoas que viveram no mundo em que essas imagens foram desenvolvidas.

Porém, há um perigo real quando as instituições sociais inculcam nas pessoas estruturas mitológicas que não combinam mais com sua experiência humana. Por exemplo, quando se insiste em certas interpretações religiosas ou políticas da vida humana, pode ocorrer dissociação mítica. Pela dissociação mítica, pessoas rejeitam ou são separadas de efetivas noções explicativas a respeito da ordem de suas vidas.[7]

Finalizando, a questão cristã a ser resolvida é esta: Será que as pessoas estão tentando desenvolver-se, melhorando a si mesmas e às circunstâncias em que vivem, sem tocar na raiz do problema? Será que o amor a si próprio está escondido sob os mais benevolentes gestos e por trás das orações mais fervorosas? Que tipo de crescimento pessoal às pessoas estão procurando? O crescimento pessoal que vai aumentar sua autoestima, ou o crescimento pessoal que envolve negar a si mesmo e tomar a sua cruz? O crescimento pessoal que vai confirmar o valor de seus próprios egos, ou o que as tornará semelhantes à imagem de Cristo?

Ambas as formas de crescimento, tanto a que se inclina para o amor a si mesmo quanto a que se inclina para amar a Deus, têm um custo elevado. Amar a si mesmo mais do que amar a Deus leva a uma perda espiritual, mas amar a Deus com todo o seu ser leva a negar o “eu” e faz com que o efeito mortal da cruz se faça sentir contra o velho homem (aquele “eu” ao qual muitos de nós ainda estão agarrados e amam), que deve ser considerado morto (cf. Carta aos Romanos cap. 6).

Os homens são infelizes e sofrem com os problemas da vida porque se tornaram “amantes de si mesmos” e “mais amigos dos prazeres que amigos de Deus”. A inclinação pecaminosa do ser humano é amar a si mesmo mais do que a Deus e às outras pessoas. O egoísmo se agarra à natureza humana e produz inveja, luxúria, orgulho, arrogância, desrespeito por Deus, desobediência aos pais, falta de gratidão, engano, provocando tanto a paixão pelos seus próprios caminhos quanto à contenda por causa deles. Ele leva também a falsas acusações, que são exageradas, já que as pessoas têm sido encorajadas a culpar seus pais, as circunstâncias, e a qualquer outra coisa, menos a si mesmas, pela sua condição de vida.[8]

Sabe, porém, isto: que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos.

Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons, traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus, tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te.

Porque deste número são os que se introduzem pelas casas, e levam cativas mulheres néscias carregadas de pecados, levadas de várias concupiscências; Que aprendem sempre, e nunca podem chegar ao conhecimento da verdade.

Não irão, porém, avante; porque a todos será manifesto o seu desvario, como também o foi o daqueles – 2 Timóteo 3:1-7, 9.

[1] http://www.portalconscienciapolitica.com.br/products/filosofia-etica-e-sociedade/
[2] https://www.flickr.com/photos/19728372@N03/26004473653/
[3] http://www.sobreavida.com.br/2012/01/23/o-que-os-olhos-nao-veem-o-coracao-nao-sente/
[4] https://aboutabove.wordpress.com/2011/12/18/um-ceu-cinza/
[5] https://br.pinterest.com/pin/28921622581331053/
[6] http://www.goodreads.com/book/show/967553.Beethoven.
[7]https://books.google.com.br/books?id=1Kw5OWibZ0oC&pg=PA21&lpg=PA21&dq=THOU+ART+THAT+TRANS%E2%80%A6&source=bl&ots=jbNHdLgFwA&sig=_yEUePZf8cai2vrq1b8acUqQJKQ&redir_esc=y#v=onepage&q=THOU%20ART%20THAT%20TRANS%E2%80%A6&f=false
[8] http://www.apaz.com.br/mensagens/tempos_dificeis.html
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Sobre lucaspinduca

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