E a moral cristã tornou-se líquida.

Em nossa moderna sociedade fragmentada e individualista, Zygmunt Bauman critica veementemente o consumismo e a liquidez das nossas relações. Hoje tudo é feito para ser usado e descartado, desde objetos até empregos, relações de amizade e relações conjugais. Vivemos a Era do descarte. Costumo dizer que (…) Tudo passa pelo Marketing porque tudo virou produto, objeto de desejo.1 Por causa das grandes transformações morais e sociais que estão na raiz dos inúmeros problemas com que nos defrontamos na época atual, a existência humana moderna é uma constante busca e prática de uma suspensão teleológica da moral para o fim que queremos.

Desta maneira a grande dúvida moral de Raskólnikov em Crime e Castigo é também a da maioria das pessoas hoje: se podemos ou não ser um “homem extraordinário”, fiel não à moral comum, mas sim a uma moralidade especial, com direitos especiais, indiferente à “moral de bestas” (rebanho) que ele atribui aos homens comuns: “eu sou um piolho, como todos, ou um homem? Eu posso ultrapassar ou não! Eu ouso inclinar-me e tomar ou não! Sou uma besta trêmula ou tenho o direito de…” 2 Segue a esta outras dúvidas cruciais, qual o limite do ser humano? É possível libertar-se da má consciência? A liberdade está ao alcance do humano? Qual o papel da religião e da religiosidade na vida humana?

E a moral cristã tornou-se líquida partindo deste princípio antropocêntrico. Porque esta é a maneira que estamos vivendo, no âmbito do epicurismo (de redes sociais) cujo ideal de vida é a celebração daquilo que é pseudo, do quase, do salto oportunista para minimizar nossas responsabilidades. Bem, estas atitudes não ajudam na transformação das pessoas, apenas cobrem suas fraquezas, amenizando os sintomas de angústia, fazendo as pessoas se sentirem bem. Enfim, uma ideologia que se recusa a fazer julgamentos e a debater seriamente questões relativas a modos de vida viciosos e virtuosos, pois, no limite, acredita que não há nada a ser debatido. Isso é pós-modernismo.

O Cristianismo ensina que, Deus criou Adão e Eva, e o primeiro mandamento foi que desenvolvessem uma cultura que permitisse à raça humana sobreviver e cumprir seus outros mandamentos (Está no livro do Gênesis 1.28-30) e após a Queda, todas as culturas foram (e são) corrompidas pela natureza pecaminosa da humanidade. Por isso encontramos em nossos dias pessoas que não podem ser caracterizadas, que vivem continuamente em um círculo de ambiguidades, cheias de dúvidas, que dizem: “não quero esperança. Esperança está me matando. Meu sonho é tornar-me um caso perdido”.

Bem, nós humanos, precisamos de algo que nos faça sentido. Por exemplo, a morte tem de ter um significado para nós. Acho que a função mais antiga das histórias é essa: entender porque é que as coisas acontecem, dar resposta àquelas velhas questões – Porque nascemos? Porque morremos? De onde vimos? Para onde vamos? É assim que me vejo: um contador de histórias. Além disso, a quantidade de informação que temos à nossa volta seria muito confusa se a olhássemos isoladamente. Necessitamos de uma estrutura para assimilar toda a informação que nos rodeia e as histórias dão-nos essa estrutura de que precisamos. Através dessas histórias vemos que o homem torna-se homem apenas nos relacionamentos sociais, uma vez que seu desenvolvimento é influenciado pela cultura em que é criado. Esse conceito de solidariedade social nos permite ver como a igreja poderia estar contextualizada em seu meio e, ainda assim, não ficar atrelada à sociedade na qual está inserida. Ao lidar com os homens, o propósito de Deus é torná-los livres, isto é, sujeitos da própria vida. Em outras palavras, o propósito é torná-los capazes de resistir à determinação cultural do seu meio social. Obviamente, isso só é possível no contexto de uma comunidade cristã, mas isso muitas vezes não passa de uma mera possibilidade. Embora Cristo ordene que nos livremos de ideologias humanas (Rm. 12.2), esse alvo raramente é atingido.3

As condições sociais, no entanto, não são estáticas nem imutáveis, pois são o resultado de um processo histórico, cultural e social. Tendo em vista que o homem não reage simplesmente a estímulos do meio, mas atribui um sentido às suas ações e, graças à linguagem, é capaz de comunicar percepções e desejos, intenções, expectativas e pensamentos, por isso Habermas vislumbra a possibilidade de que, através do diálogo, o homem possa retomar o seu papel de sujeito. Bem, as comunicações que os sujeitos estabelecem entre si, mediadas por atos de fala, dizem respeito sempre a três mundos: o mundo objetivo das coisas, o mundo social das normas e instituições e o mundo subjetivo das vivências e dos sentimentos. As relações com esses três mundos estão presentes, ainda que não na mesma medida, em todas as interações sociais. A cada um desses mundos correspondem diferentes pretensões de validade. Ao mundo objetivo correspondem pretensões de validade referentes à verdade das afirmações feitas pelos participantes no processo comunicativo. Ao mundo social correspondem pretensões de validade referentes à correção e à adequação das normas, e ao mundo subjetivo – das vivências e sentimentos – correspondem pretensões de veracidade, o que significa que os participantes do diálogo estejam sendo sinceros na expressão dos seus sentimentos.4

E uma das diferenças entre uma ideia e uma emoção ou sentimento é que você não tem controle imediato sobre seus sentimentos ou suas emoções. Você não pode estalar os dedos e decidir sentir alguma coisa. Por exemplo, digamos que você está indo acampar. Você acorda, e há uma silhueta gigantesca de um urso fora de sua tenda, um urso pardo. Ele parece com fome. Você não diz: “Agora, deixe-me pensar sobre isso. Há um urso. Os ursos são grandes. Os ursos são perigosos. Conclusão: Eu deveria sentir medo agora, por isso vou decidir ter medo agora”, as emoções não funcionam assim. Pensamos coisas como essas, mas não nos sentimos assim. Isso acontece com você, com todo mundo, o que significa que a Bíblia está cheia de comandos para fazermos coisas que estão imediatamente fora do nosso controle de fazer – comandos para alegrar-se, para o temer, para ser grato, para ser compassivo.

Utilizando os argumentos de Freud, o homem civilizado, não é o homem feliz, tem que abdicar de seus instintos para viver em sociedade, é um homem atravessado pela angústia, pelo olhar ferino do outro, pelo seu superego. O homem civilizado escolheu viver em segurança, não em liberdade. A solução para este mal-estar na consciência seria regressar a natureza e romper com a cultura, com a civilização? Ou seria criar um outro tipo de cultura, onde Deus está morto e tudo é permitido?5

Uma das razões pelas quais eu sou o tipo de cristão que sou, com a teologia que eu tenho, é que eu sei que a Bíblia exige de mim coisas que eu não posso produzir imediatamente pelo meu próprio poder. Eu estou caído. Eu sou pecador. E ainda assim eu sei que eu deveria estar sentindo as emoções que a Bíblia diz para sentir. Eu me julgo culpado.6 Pois “A medida do homem não é exterior. O homem não se mede a palmos, nem a côvados, nem a metros. Sua realidade última, sua essência, a porção indestrutível de seu ser, não é matéria, nem propriedade da matéria, não é eletricidade e magnetismo nem propriedade ou manifestação da eletricidade e do magnetismo. O Homem é espírito, é razão, e liberdade”.7

Para  Lydio (autor do texto acima) o ser humano, por ser totalmente livre e independer de forças sobrenaturais do céu ou do inferno, pode construir livremente seu mundo espiritual na Terra, pois teve livre-arbítrio até para escolher a queda (que eu discordo). Lydio é bem medieval ao defender isso, entendendo por medieval o sentido limitado de dizer com sinceridade e franqueza: “Se o homem (ente limitado, por não ser Deus) tivesse sido criado perfeito (isto é: imutável e definitivo), ou seja, com todas as perfeições possíveis, não lhe sendo dada a perfectibilidade, por inútil: não teria o livre arbítrio, não era, nem seria pelo esforço próprio e pelo próprio mérito; não teria satisfação moral e alegria consigo mesmo e não seria verdadeiramente feliz”.8

Mas o que faz você… você? Psicólogos falam sobre nossos traços, ou características definidas que nos fazem quem somos. Mas há momentos em que transcendemos essas características – às vezes porque nossa cultura exige isso de nós e, por vezes, porque nós exigimos isso de nós mesmos.

Zygmunt Bauman diz “Tudo é temporário. É por isso que sugeri a metáfora da “liquidez” para caracterizar o estado da sociedade moderna, que, como os líquidos, se caracteriza por uma incapacidade de manter a forma. Nossas instituições, quadros de referência, estilos de vida, crenças e convicções mudam antes que tenham tempo de se solidificar em costumes, hábitos e verdades “auto-evidentes”. É verdade que a vida moderna foi desde o início “desenraizadora” e “derretia os sólidos e profanava os sagrados”, como os jovens Marx e Engels notaram. Mas, enquanto no passado isso se fazia para ser novamente “reenraizado”, agora as coisas todas, empregos, relacionamentos, know-hows etc., tendem a permanecer em fluxo, voláteis, desreguladas, flexíveis”. 9

Também é facilmente percebido o fato de nós gastarmos muito tempo de nossas vidas trancados em locais sempre com as mesmas pessoas, com os mesmos objetos, a mesma comida, a mesma rotina. Sempre com a mesma aparência, vivendo em uma pequena sala que limita a nossa existência. Chega um dia em que nos tornamos aquilo que consumimos, o dia em que objetos do cotidiano acabam dizendo mais sobre quem somos; mais do que nós mesmos. No entanto, os pequenos detalhes de todos os dias são o que nos fazem sentir vivos. Ao ouvir música voamos em outro lugar, um cafezinho nos faz que fiquemos acordados, a rua nos abraça e há momentos em que a única maneira de ver além do nosso nariz é ver através dos outros. Essa é a nossa história a cada dia.10 Infelizmente o que se ouve agora diz Zygmunt Bauman, como homilias insistentes, é que devemos buscar soluções individuais para problemas produzidos socialmente e sofridos coletivamente.11

Lembrando que hoje a “coisa mais importante que é preciso desenvolver para aprender é a capacidade de escutar. O mundo carece demais de pessoas que sabem escutar (e que querem escutar), e tem de sobra pessoas que falam, falam, falam, viciados em emissão. As redes sociais são prova incontestável dessa verdade. Todos falam, e falam para ninguém, porque ninguém escuta. Na minha vida há só um pequeno punhado de pessoas que considero serem capazes de escutar. Escutar presente, inteiro não só com ouvidos, mas com corpo e alma. E para mim, muitas vezes, tudo o que me faz bem é simplesmente saber que essas pessoas existem na minha vida, ainda que tão poucas. Atente, disse que simplesmente saber que elas podem me escutar me faz bem. Porque na maioria das vezes eu sequer quero falar”. 12

Na trama de Crime e Castigo, Sónia, uma prostituta com um coração puro, apaixonada por Raskólnikov, leva para seu amado a bíblia e ele de joelhos com o livro sagrado nas mãos, sai do tormento horizontal dos inúmeros labirintos que sua razão construiu, ergue-se e na verticalidade encontra o sagrado, Deus ou o mundo? Cabe ao leitor dar essa resposta.13

Uma outra verdade cristã: O homem decaiu por escolha e se peca, pode escolher também não pecar. Mas não tem o direito de subir por si aos céus. Precisará sempre de ajuda divina. Bom que a medida da graça e misericórdia baseia-se na necessidade do homem mais indigno. Isso faz superabundar o perdão onde abundou as ofensas.

  1 http://obviousmag.org/cinema_pensante/2015/05/post.html#ixzz4G8PEfQuK
2 Fiódor Dostoiévski, Crime e Castigo, Tradução de Paulo Bezerra, Editora 34, 2002.
3 Richard J. Sturz, Teologia Sistemática, Vida Nova, 2012.
4 http://www.scielo.br/pdf/es/v20n66/v20n66a6.pdf
5 http://www.krisis.uevora.pt/edicao/actas_vol2.pdf
6 http://www.desiringgod.org/articles/how-do-you-define-joy
7 http://www.direito.ufmg.br/revista/index.php/revista/article/viewFile/P.0304-2340.2012v60p547/179
8 Lydio M. Bandeira de Mello, A conquista do Reino de Deus, Belo Horizonte, ed. do autor, 1975, p.213
9 http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1910200305.htm
10  http://hennkim.tumblr.com/
11 idem ao 9
12 https://medium.com/@andrekano/convivendo-com-depressivos-5102a5e135dc#.k82q7xhh6
13 idem ao 2
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Sobre lucaspinduca

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