Você também só vê as nuvens?

Phillipe K. Dick escreveu uma vez:

Realidade é aquilo que, quando se deixa de acreditar em sua existência, não desaparece.

O grande esforço que a modernidade cumpriu para submeter o mundo a uma ordem racional, criada pelo homem e, portanto, conhecida em seus princípios e em sua dinâmica, viu a ciência como o referencial principal. Porém, são os filósofos modernos que afirmam a idéia de que é a razão que deve descobrir a ordem escondida por trás do aparente caos do mundo, só ela pode apontar os estáveis princípios universais nos quais se fundam o ser e a existência, transcendendo o senso comum, constituído de meras opiniões e crenças (Bauman, 1999, p. 29–35).

Bem, o mundo contemporâneo se define pela maneira de viver e compartilhar referências comuns em um mesmo período de tempo. Ou seja, contemporaneidade é pensar na condição humana como em perpétua redefinição. Mas o indivíduo contemporâneo é, sem nenhuma dúvida, mal circunscrito, sempre à espera da sua legitimidade, sempre por detrás de um desejo, sempre alheio e ainda assim, exigente ator, criador… Observamos, em muitas situações um cidadão solitário, anônimo demais apesar de compartilhar referências comuns. Por isso, a decisão pela promoção do indivíduo e o seu desenvolvimento pessoal é o único progresso capaz de nos fazer alcançar um ideal de modernidade. É no cotidiano destes indivíduos que encontraremos elementos para distinguir sua verdade dos erros cometidos no passado e auxiliar os mesmos a progredirem neste mundo globalizado1, onde vivemos, segundo Bauman, numa época líquida “vigiada” pelo Big Brother das redes sociais. Onde a vida é líquida. Desperdiçada. Sem referências sólidas. E nosso futuro se dissolve em água, em dinheiro, em estratégias interesseiras. Olhamos para este mundo como um mercado de tudo, inclusive de afetos. É nesta sociedade pós moderna onde o conceito de self foi banalizado por rostos posados ensaiadamente que percebemos algo do vazio e do consumismo da nossa era: é o aparecer pelo prazer de aparecer, o exibicionismo descontextualizado e esvaziado de qualquer essência.

Se, por um lado, o homem contemporâneo se vê numa situação angustiante, por outro lado ele ignora a solução para sua angústia, pois não consegue ver além do instante presente. Em sociedade, o homem contemporâneo vive em um círculo vicioso de medo e insegurança que é alimentado através de práticas que “reafirmam e contribuem a produzir a sensação de desordem” como, por exemplo, a compra desenfreada de carros blindados e câmeras de vigilância. Essa sociedade contemporânea exclui “a possibilidade de uma segurança existencial coletivamente garantida e, em consequência, não oferece incentivos para as ações solidárias; no seu lugar, motivam seus destinatários a centrarem-se na própria proteção pessoal ao estilo do ‘cada um por si’”. Bauman aponta ainda que o empenho em concentrar a atenção na criminalidade e nos perigos que ameaçam a segurança física dos indivíduos e de suas propriedades está intimamente relacionado com a ‘sensação de precariedade’, e segue muito de perto o ritmo da liberalização econômica e da consequente substituição da solidariedade social pela responsabilidade individual.2
Infelizmente, pela quebra violenta da tessitura que antes envolvia a família e o longo período em que filhos ficavam sob a tutela dos pais e da família extensa, os que precisam receber educação não têm à sua disposição o reforço do exemplo, a presença dos guardiães, enfim, há uma desestruturação da família e as comunidades foram perdendo a sua característica educadora por excelência porque os controles face-a-face passaram a se tornar praticamente impossíveis. Há todo um arcabouço sócio-cultural modificado pelas mudanças profundas porque passam todas as instituições sociais que têm a seu encargo o cuidado com os “neófitos” e as organizações que visam lucros imediatos como as gangs e todo tipo de grupo contraventor se tornam rapidamente capazes de usar o dinamismo do ser infanto-juvenil para obterem rapidamente os seus objetivos.
Quando a gente estuda socialização nos capítulos iniciais de sociologia da educação, percebe que a socialização também pode ser usada para preparar novos membros de gangs, os sistemas de lealdade estão profundamente modificados na sociedade de massas. Veja-os no Oriente Médio nas pessoas-bombas se imolando, os jovenzinhos usados em guerras e bem próximo de nós, nas Farc e no tráfico.
Há toda uma discussão filosófica e sociológica que tem de ser trazida constantemente a primeiro plano, para discutir toda a problemática da educação das novas gerações numa sociedade profundamente conflitada em seus valores básicos. O problema do relacionamento do homem com a sociedade está em um mundo onde ninguém ou quase ninguém acredita que mudar a vida dos outros seja importante para a própria vida […] Os vínculos humanos se afrouxaram, razão pela qual se tornaram pouco confiáveis, o que torna difícil o praticar a solidariedade, do mesmo modo que é difícil compreender suas vantagens e, mais ainda, suas virtudes morais.3
Unido a esse problema está a sensação de incapacidade do homem atual em alcançar a solução almejada, conforme demonstra Bauman:

“A insegurança e a incerteza nascem, por sua vez, da sensação de impotência: parece que temos deixado de ter o controle como indivíduos, grupos e coletividade”.4

E ainda acrescento o que Kierkegaard dizia:

“A decepção mais comum é não podermos ser nós próprios, mas a forma mais profunda de decepção é escolhermos ser outro antes de nós próprios.”

E sobre alienação, Kierkegaard aborda o tema como sendo uma falta de consciência por parte do ser humano de que ele possui responsabilidade para ditar sua história, ou moldar sua existência. A alienação retrata o mistério de ser ou não ser. Uma pessoa alienada carece de si mesmo, evita, tornando-se sua própria negação. Os exemplos mais evidentes de alienação são encontrados nos meios de comunicação em massa (casas, escolas, universidades, igrejas, partidos políticos, mídias monopolísticas, etc).
Os meios de comunicação em massa costumam distorcer e comprometer a veracidade dos fatos, pois segundo Kierkegaard, as verdades são encontradas junto à minoria. Se usarmos o último resultado das eleições americanas (2016) como ilustração para esta declaração teremos que concordar unânimes. Em oposição à maioria, o geral, o aceito e o não abstrato, Søren Kierkegaard transferia para o indivíduo a função de refletir e questionar sobre o que lhe é concreto.5
Ora, a partir da ideia que tudo tem um significado escondido, esbarra-se fatalmente na concepção de uma intenção. Quando a vida é encarada como um desenho, logo se chega a vê-la também como uma execução de um plano, questionando quem seria o responsável por seu traçado. Essa intuição que nos acomete a todos de maneira mais ou menos vergonhosa atinge sua medida plena em dois sistemas de pensamento: o primeiro era a fé religiosa (“Agora estamos nos vendo num espelho sombrio, mas um dia chegaremos a ver e seremos vistos face a face…”) e o segundo, a paranóia (“Estaremos noutro ponto da floresta, onde sempre haverá uma criança com seu urso.”), tinha chegado a hora de fazer as pazes com a áspera sabedoria de Lucrécio: “Não sentiremos mais nada porque não sentiremos mais”; não existirá mais ninguém para ser visto frente a frente à luz plena, e aquilo que agora se acredita estar vendo num espelho sombrio não passa de nosso reflexo deformado pelo medo de morrer e de ter sofrido sem razão. Por mais que, nas sociedades agnósticas modernas, esse materialismo faça as vezes de expressão oficial do bom senso, poucos eram os homens que, no fundo do coração, se resignavam verdadeiramente a isso de tanto que seus desejos tinham sido feridos. Apesar de tudo, queremos acreditar em algo, encontrar um sentido.6

Os existencialistas como Kierkegaard também explicam porque algumas pessoas se sentem atraídas à passividade moral evitando-se no desafio de tomar as próprias decisões. Seguir ordens é fácil; consentir também, pois isso requer pouco esforço emocional em fazer o que é mandado.
Ou seja, se a ordem não for lógica, não cabe ao mandatário questionar. Deste modo, os existencialistas podem explicar as motivações históricas de guerra, genocídios em massa são melhor compreendidos e lavagens cerebrais podem ser facilmente percebidas. As pessoas, nesses casos sucumbidas à submissão de uma força maior, estavam apenas fazendo o que lhe foi dito.7

Os genocídios do século XX, “os casos mais documentados de engenharia social global na história moderna (aqueles presididos por Hitler e Stalin)”, não foram aberrações extemporâneas ou “explosões de barbarismo ainda não plenamente extintas pela nova ordem racional da civilização”, mas foram “um produto legítimo do espírito moderno”. Seus ideais não foram “utopias alheias ao espírito da modernidade”, mas atuações coerentes, até suas últimas conseqüências, com os planejamentos da ciência e da política modernas.8

A visão nazista de uma sociedade harmoniosa, ordeira, sem desvios extraía sua legitimidade e atração dessas visões e crenças já firmemente arraigadas na mente do público ao longo do século e meio de história pós-iluminista, repleta de propaganda cientista e exibição visual da assombrosa potência da tecnologia moderna (Bauman, 1999, p. 38).

Fato é que vivemos num mundo de surdos sem deficiência auditiva. É um mundo de faladores compulsivos o nosso. Compulsivos e auto-referentes. Não conheço estatísticas sobre isso, mas eu chutaria, por baixo, que mais da metade das pessoas só falam sobre si mesmas. Seu mundo torna-se, portanto, muito restrito. E muito chato. Por mais fascinantes que possamos ser, não é o suficiente para preencher o assunto de uma vida inteira.9 E quando não escutamos o mundo do outro, não aprendemos nada. Acontece com o chefe que não consegue escutar de verdade o que seu subordinado tem a dizer. A priori ele já sabe — e já sabe mais. Assim como acontece com a mulher que não consegue escutar o companheiro. Ou o amigo que não é capaz de escutar você. E vice-versa.10

Por isso a grande maioria dos indivíduos só conseguem ver nuvens, ou seja às circunstâncias momentâneas, porque suas vidas estão fechadas em bolhas que tornam a sua visão de mundo distorcida. Em sua presunção, julgam tudo só pela aparência das coisas, são estas circunstâncias que impedem uma correta visão da realidade. E a realidade de suas vidas já foi expressa no texto bíblico do Novo Testamento:

“De onde vêm as guerras e contendas que há entre vós? Não vêm das paixões que guerreiam dentro de vocês” (Tiago 4.1, NVI)?

Por isso a pergunta cristã “que é a vossa vida?” além de ser uma reprimenda, também é uma resposta dura e inflexível. A vida, na melhor das hipóteses, vista à luz da eternidade, é apenas como neblina que aparece por instante e logo se dissipa. É como o vapor que sai de nossas bocas num dia frio. A vida é breve e imprevisível, mas as pessoas cheias de presunção não refletem sobre isto. Não conseguem enxergar o mundo a não ser por “uma certeza insolente e vazia, arrogância, que confia em seu próprio poder e recursos, que despreza o governo divino”.

Já o cristão sábio considera atentamente a futilidade de toda e qualquer presunção humana, e por isso mesmo submete seus desejos e planos ao Senhor. O humanismo é uma filosofia que coloca o homem no centro do palco: o homem torna-se o senhor da própria história. Em resumo, é a fé no homem com todo o seu potencial interior, pois a interferência de Deus não existe. O humanismo exclui Deus porque crê que os seres humanos são suficientes em si mesmos. Esta filosofia está muito ligada com a ideia em moda atualmente: “eu quero, eu posso, eu consigo”. As grandes corporações, midiáticas ou não, propagam e incentivam a independência e a autonomia humana, para realizar tudo sem depender de ninguém. O humanista faz seus planos numa redoma de auto-suficiência. O humanista é alguém dominado pela arrogância e por isso desconsidera a brevidade da vida. Apesar de não saber o que vai acontecer amanhã, ele vive como se soubesse.11 Ou seja, as pretensões humanas são carregadas de presunção, egoísmo e alienação.

Bem, sozinhos ou não, precisamos começar a raciocinar e perceber correlações e fatos. Sermos mais solidários. E, principalmente, começar argumentar no dia-a-dia, porque quase nunca fazemos isso. Geralmente, tomamos um partido e passamos a defendê-lo de forma passional, enxergando só o que nos interessa. Somos bons de discutir, mas ruins para argumentar. Piores ainda para mudar de ideia. O que parece ser uma estratégia não muito inteligente para encarar essa nova sociedade em que conversamos com muito mais gente, sobre muito mais coisas, todo santo dia. Efetivamente, é difícil tentar entender algo ao meio de tantas informações prontas, de tantas vozes, mesmo que falando em nome de tão poucas pessoas. É mais fácil, então, reproduzir. E se esse discurso não atrapalhar o meu conforto, mais fácil ainda. E acabamos por não perceber, ou não queremos enxergar, que tudo isto está nos levando cada dia mais a buscar segurança e estabilidade no anonimato, pois “quanto menos me envolvo menos preciso tomar uma decisão”, não preciso reagir. Nada é mais contemporâneo. As referências (cristãs) familiares, sociais, morais e éticas foram, a muito, banidas de nossa sociedade. Antes de ser uma mutação benéfica, isto é um verdadeiro carcoma global. Ninguém é poupado e a sociedade como um todo, perde indivíduos, estabilidade e sua qualidade de vida. A barbárie impera principalmente porque o método de combate da violência focado em nichos sociais e em determinados espaços e instituições, não diminui a criminalidade e não aprimora o relacionamento entre os indivíduos. Penso que o foco deveria estar na reabilitação do ser humano em grau máximo, amplo e irrestrito. Quer seja reabilitar o indivíduo que está engajado no contexto de violência e de caos urbano, quer seja reabilitar as “células-tronco” da sociedade: as famílias.12

Tudo isso tem nos apontado uma verdade paradoxal da humanidade ocidental: o cristianismo está em toda parte, o cristianismo não está em parte alguma. Todos, crentes, fanáticos ou homens de pouca fé, e não crentes conhecem Jesus, mas, vistos os pensamentos e palavras, atos e omissões desses homens, poucos praticam o cristianismo e, se o fazem, não se sabe se de coração.13 Por outro lado, é significativo e arrebatador o número daqueles que, mesmo não sabendo quem foi, reagem positivamente, de corpo e alma, as ideias dos mais variados pensadores, antigos e modernos, gurus ou loucos.

Comecei este texto com Philip K. Dick e finalizo com ele:

Não tenho como garantir que você esteja errado ao não acreditar em mim, mas posso garantir que você também não teria acreditado em São Paulo. Você teria dado de ombros, falado em epilepsia ou num acesso de um doidivanas, assim como um bando de judeus devotos e gregos cultivados. OK, não tenho nada a dizer contra isso. Também não tenho nada a dizer contra os ecologistas ferrenhos que, por mais que eu ache uma extravagância conceder às árvores e aos animais os mesmos direitos jurídicos que têm os homens, alegam que um tempo atrás não achávamos menos extravagante a possibilidade de conceder este mesmo direito às mulheres e aos negros. Não tenho nada a dizer contra as pessoas que, depois de admitir que aos olhos de nossos ancestrais as tecnologias modernas pareceriam magia, obrigam-me a admitir que as coisas que agora nos parecem ser inexplicáveis e perturbadoras, como você colocou muito bem, e as quais eu escondo embaixo do tapete com uma vassoura, um dia virão a integrar o campo da ciência: aqueles que hoje negam a percepção extra-sensorial teriam condenado Galileu no passado. Pessoalmente, eu desconfio disso.14

1- Texto baseado em tradução feita pelo autor de No lugares: Introducción a una antropología de la sobremodernidad, Marc Augé (1992).
2- BAUMAN, Zygmunt. Vida Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007, p. 22–42.
3- Idem ao 2.
4- Idem ao 2.
5- http://www.laparola.com.br/soren-kierkegaard-e-o-existencialismo
6- http://nanquin.blogspot.com/2016/09/jorge-xerxes-versus-philip-k-dick.html#ixzz4XBDNDaPS (grifos do autor).
7- Idem ao 5.
8- BAUMAN, Z. 1999. Modernidade e ambivalência. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 334 p.
9- http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI94063-15230,00-POR+QUE+AS+PESSOAS+FALAM+TANTO.html#
10 — https://www.youtube.com/watch?v=tyvKlN2Cj1M
11- http://pt.slideshare.net/marckmel/sermo-em-tiago-41317
12- https://oficinadopinduca.wordpress.com/2011/04/16/a-globalizacao-o-anonimato-e-os-cristaos-contemporaneos/
13- http://cultura.estadao.com.br/blogs/estado-da-arte/hai-capito-mio-san-benedito-nunca-lhe-vi-sempre-lhe-admei/
14- Idem ao 6.
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Sobre lucaspinduca

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