Nós enxergamos o que temos vontade?

Nós vivemos em uma época onde o comportamento das pessoas está sendo orientado totalmente para aquilo que é visual, onde os valores, para dizerem algo ou valerem a pena, deverão ser os estéticos e apenas estes. Somos treinados e domesticados para buscarmos tudo que é belo e visualmente impactante.

Hoje a nossa cultura depende de escritores, diretores, atores e outros artistas para sonhar. Podemos ver, por exemplo, que os filmes veiculam, em nível simbólico, as angústias, ansiedades e esperanças próprias aos nossos tempos. São uma trilha simbólica segura para compreender, em profundidade, a época em que acontecem. E mais que um sonho, trata-se, portanto, de um pesadelo coletivo[1].
Ou, melhor dizendo, tem valor apenas o que encanta, deixa extasiado ou prende e apreende o meu olhar. Mas o que tem atraído as pessoas é apenas fumaça. Algo que se esvai com o alvorecer do dia, feito neblina; pois a vida real é muito mais profunda do que estamos sendo acostumados a acreditar ou ver. Por isso desconfio que estão diluindo a nossa realidade com arte e entretenimento full time, com ativismos meramente desviantes, com o altruísmo de  ocasião para dar visibilidade apenas ao ego, e cada dia um pouco mais. E por não percebermos isso, que somos doutrinados desde cedo, que chegamos à maturidade sem condições de auto norteio, somos incapazes de reconhecermos valores reais e de manifestar um caráter seguro e bem formado. Parafraseando  Jonas Madureira[2], estamos aprisionados confortavelmente em nossa caverna platônica, olhando as sombras através das nossas telas touch screen, incapazes de abrir mão do nosso conforto. Por isso voltamos para o fundo de nossas existências admirando a beleza das sombras que nos chegam através do wi-fi; onde vivenciamos uma geração extremamente teórica, sem muita prática e/ou real interesse pela mesma. Acredito que a atual inversão de valores, em que o parecer é decididamente mais importante do que “Ser“, em todos os possíveis sentidos, acaba por nos criar a estranha mania de apenas testemunhar e relatar o que nos cerca. E isso se transforma em uma deplorável dificuldade quando é necessário agir[3].

Além disso nossa sociedade acredita que apenas relacionando intuição e razão construiremos um caminho livre para uma vida produtiva, centralizada na forma e baseada em experiências individuais. Onde é importante assumir a própria subjetividade e não ceder aos padrões impostos pela sociedade dita arcaica. Isto é um claro incentivo para as pessoas resistirem aos padrões estéticos e de comportamento moral anteriores, dados pela sociedade para apenas viverem do seu próprio jeito. Em longo prazo este subjetivismo individualista relativizado, esta liquidez moral e autofagia intelectual produzirão bordas limítrofes sociais tão borradas que um caos pior do que houve em Sodoma e Gomorra será a mais triste e diária realidade deste mundo.
Mas se as virtudes e os valores morais são muito mais necessários que adornos e coisas atraentes, mais do que o prazer de realizar os meus desejos unicamente, porque não seguimos orientados por estes valores morais reais?

Porquê o valor estético, que tem permeado quase todo o pensamento moderno, nos tem feito dependentes da liberdade provocada pelas sensações e emoções despertadas em nós; esta sociedade pós moderna não tem outro propósito senão tornar a vida mais fácil para poetas, artistas, intelectuais e revolucionários, enquanto eles a tornam mais difícil para os outros. E porque somos indivíduos diferentes em nossos desejos e vontades, observamos tudo sob perspectivas diferentes, percebendo valores diferentes em tudo também. Logo, nesta disputa velada, a vitória caberá a quem possuir a maior habilidade retórica e poder político, ao mais adequado ou ao mais esperto; tudo engolfado pela interpretação pragmática, individualista pós modernista. Nas palavras de Roger Lundin[4]:

“Em vez de apelar à autoridade alheia a nós, podemos somente procurar pôr em ordem nossas habilidades retóricas para promovermos as batalhas políticas necessárias para proteger nossas próprias preferências e proibir expressões de preferências que nos ameacem ou incomodem”.

Isto porque a sociedade pós moderna é uma sociedade de pragmatistas, onde a verdade será sempre aquilo que funciona, ou mudada, para promover as preferências pessoais e corporativistas, os prazeres privados tão somente. Por isso onde uma imagem religiosa puder despertar um sentimento do sagrado em uns, para outros poderá ser uma obra de arte menor ou ainda, um mero artesanato, enfeite. Ou como temos visto ultimamente, uma manifestação pode ser artística para uns e profundamente vexatória, desrespeitosa ou intimidatória para outros[5].

Seguindo este raciocínio, podemos perceber que apesar de todos precisarem de luz, poucos podem discernir entre a luz real e aquela produzida artificialmente. Uns por medo, outros por ignorância, e ainda outros por preguiça ou acomodação. Por isso mesmo a depressão das relações e o individualismo passam por uma relativização dos valores, pela desconstrução do ser na existência moral e social.

E sem fé em si ou em algo verdadeiro fica impossível acreditar que vale a pena seguir em frente.

No caso cristão, quando o cenário da vida humana afasta-se do contexto bíblico, do propósito de Deus, cria-se um ambiente de ausência de sentido, para nada mais definitivo do que os sistemas sempre mutáveis e relativos da própria iniciativa humana, onde a sociedade pós moderna quer ser criadora de seu próprio destino, para poder viver a vida sem restrições divinas ou dirigida por quaisquer regras sagradas; onde seus membros agem apenas para tornar real as causas profanas, contingentes e cegas que produzem, e os artefatos e instituições que criaram para si mesmos. A verdade, nestes casos, é meramente uma convenção linguística e cultural, onde os valores e virtudes tornam-se relativos e dependentes dos sentimentos envolvidos. Por isso Lutero dizia “sentimentos vem e vão. Sentimentos são enganosos”.

Ora, as emoções são estados do ser, enquanto os sentimentos são expressões individuais e pessoais dessas emoções. Mas o que determina os sentimentos das pessoas? Isso leva-nos a outra pergunta: As pessoas falam sobre o que elas acreditam? Eu percebi que na maioria dos casos, não. Na verdade, a maioria das pessoas não tem certeza do que elas realmente acreditam além do que lhes foi ensinado, ou seja, do que estão programados para acreditar. Ora, o que você percebe é o que você acredita[6] (Ou seja, nós só enxergamos o que temos vontade!). Sua percepção pessoal da realidade é determinada pelas crenças que você possui. Isso não vai necessariamente torná-las reais, apesar de você acreditar que elas são. Suas crenças criarão e ditarão quais são suas atitudes. Suas atitudes criarão e ditarão suas respostas, em outras palavras, ditarão seus sentimentos. E são os sentimentos que determinam em grande parte como você se comporta. O problema de uma vida voltada exclusivamente para o belo, para a beleza e o que é bonito está nisto: o prazer (é a ligação principal que Kant faz com o belo), por ser subjetivo, é desprovido do sentido de conhecimento, não está vinculado à realidade de um objeto ou fenômeno, o prazer que o belo proporciona vem apenas das representações sensivelmente apreendidas[7]. São os sentimentos oriundos das sensações agradáveis que emite o juízo do belo, induzindo o desejo de permanecer usufruindo tais sensações. O interesse imediato diante das sensações prazerosas é de continuar sentindo prazer (posso dizer que isso é a base filosófica para o hedonismo através dos tempos?). Ora, se vivemos buscando só o que é belo e bonito, segundo Hegel, isto seria uma tentativa de transpor a realidade dura e cruel da vida cotidiana e ao mesmo tempo projetar para si mesmo exemplos a serem seguidos. Por isso hoje falamos muito em ter empatia, ser altruísta. Criar modelos que personifiquem estes desejos.

Vou te contar: Se existe um lugar onde pode se refugiar em segurança, este lugar é na verdade. Não negue seus afetos, suas alegrias, suas vitórias e desejos, mas principalmente, não negue sua dor. A gente só sai da tristeza quando se permite vivenciá-la. Pode ser que um dia você sinta que seus olhos enxergam melhor quando estão úmidos. Isso acontece porque a lágrima lubrifica a visão, enquanto a tristeza nos reconecta ao que de mais verdadeiro existe em nós. Então chore, chore, e não disfarce seu abandono, sua decepção, raiva e frustração.[8]

A moderna religião portanto parece basear-se apenas em sentir-se bem com suas ações e comportamentos, produzindo bem-estar para si e o outro. Buscar e produzir qualidade de vida significa buscar embelezar e fazer tudo mais bonito, neste caso, criar um ambiente confortável e agradável, real ou não, em que o eu pudesse existir, apaziguando os sentimentos e equilibrando as emoções das pessoas. Algo que pode ser produzido rapidamente e construído com recursos estéticos. Infelizmente isto não basta para vivermos bem. Parafraseando Charles Chaplin[9]:

(…) Nosso conhecimento nos fez críticos, nossa sabedoria, duros e rudes. Nós pensamos muito e sentimos pouco. Mais que maquinário, nós precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de bondade e ternura. Sem essas qualidades, a vida será violenta e tudo estará perdido. (…)

Antes dele, Jesus já nos ensinava que “onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mateus 6.21), ou seja, quase sempre a busca do homem e por alguma coisa que lhe traga benefício, que lhe dê prazer. É quase uma troca de favores. Faz-me isso que eu te dou aquilo. Jesus ensinou que o valor dado às coisas está relacionada com os benefícios à nosso coração. Por isso digo: “Vivam pelo Espírito, e de modo nenhum satisfarão os desejos da carne” (Gálatas 5:16).

1-http://obviousmag.org/andre_camargo/2015/05/como-nao-virar-um-zumbi—vivendo-em-tempos-liquidos.html#ixzz4qpSm903f

2-https://www.youtube.com/watch?v=IDiPzCEUR7Y

3-http://obviousmag.org/oeduardocabraldigitou/2015/04/a-geracao-t-e-seus-estranhos-valores.html#ixzz4puUB7rIp

4-Christopher A. Hall, Lendo as Escrituras com os pais da Igreja – tradução Rubens Castilho, Viçosa: Ultimato, 2000, pág 35.

5-https://jornalivre.com/2017/10/08/rede-globo1-defende-exposicao-do-mam-com-crianca-e-revolta-a-internet/

6- https://www.psychologytoday.com/blog/in-flux/201211/you-are-what-you-believe

7- http://sheilaestetica.blogspot.com.br/2012/06/o-que-e-estetica-na-teoria.html

8-http://lounge.obviousmag.org/fabiola_simoes/2015/04/carta-para-coraline.html#ixzz4m6J4woRt

9-https://youtu.be/gmMVrAC1Acc

Anúncios

Sobre lucaspinduca

I like to think I'm part cultural voyeur mixed with a splash of aspiring behavioral scientist and wannabe motivational christian speaker.
Esse post foi publicado em Sem categoria. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s