O homem pós-moderno angustiado precisa de salvação

Segundo a Wikipedia, podemos chamar de angústia a forte sensação psicológica, caracterizada por “abafamento”, insegurança, falta de humor, ressentimento e dor. Na moderna psiquiatria é considerada uma doença que pode produzir problemas psicossomáticos. A angústia é também uma emoção que precede algo (um acontecimento, uma ocasião, circunstância), também pode-se chegar a angústia através de lembranças traumáticas que dilaceraram ou fragmentaram o ego. Diferentemente do medo ou da ansiedade, que são experimentados pela maioria das pessoas, a angústia acomete menos de 50% da população. À luz do filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard (1813-1855), a psicóloga Marília Dantas, da Universidade Estácio de Sá, em Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro, traduz o mal-estar: “O ser humano sente desamparo, incerteza, falta de controle diante da liberdade de decidir. Optar por um caminho significa correr riscos, abrir mão das alternativas. Isso é angustiante”.1

Angústia pode causar um sentimento de vazio. Fazer sentir conflitos diante das inúmeras possibilidades de escolhas no dia a dia e questiona o sentido de existir. Em casos extremos, essas pessoas são dominadas pela introversão. Elas perdem a capacidade de análise, de lidar com o cotidiano, de interagir socialmente. Podendo ficar paralisadas. Recentemente, a série americana “13 Reasons Why”2 levantou polêmica parecida porque dissecava os motivos do suicídio de uma jovem adolescente que se mata após uma sequência de episódios de bullying e frustrações.3

Cláudio Naranjo4 diz que “É normal não encontrar sentido na vida quando se está muito condicionado pelo mundo”.

E Shelley Prevost explica porque:

“Nossa sociedade reduziu o sucesso a uma lista de itens a serem preenchidos: formar-se no colégio, conseguir um(a) companheiro(a), ter filhos, sossegar num caminho profissional bem definido e ficar ali até que  os cheques da aposentadoria comecem a chegar. Esse caminho bem costurado coloca as pessoas na direção do conformismo, não do propósito. Estamos tão ocupados evitando medos auto-impostos de não sermos suficientemente (preencha aqui alguma qualidade) –  espertos o suficiente, criativos o suficiente, bonitos o suficiente – que raramente paramos e nos perguntamos “ estou feliz e satisfeito? E se não, o que eu deveria mudar?”5

Olhemos para este angustiado pós-moderno (um suicida em potencial?), apesar da sua não preocupação com a salvação, como todos os homens e mulheres do presente sofre as dificuldades da vida do Mal-Estar da Pós-Modernidade6, com suas incertezas existenciais, pois tudo ao redor parece mudar incessantemente, não lhe permitindo ter um projeto de vida, mas vivendo apenas o instante, com o medo de ser enviado ao depósito de lixo, buscando proteção no fechamento em si mesmo. Pode-se inferir que o fechamento do indivíduo em si mesmo, longe de protegê-lo, apenas faz com que aumente sua insegurança e medo. Ver-se-á adiante que a solução para esse e outros problemas do homem presente se dá na abertura para Deus e para o próximo, único modo de, ainda em vida, poder obter a salvação que muitas vezes se ignora precisar.

O homem pós-moderno, nos diz Bauman, vivendo apenas para o instante, “não deixa espaço para inquietações sobre qualquer outra coisa senão o que pode ser, ao menos em princípio, consumido e saboreado instantaneamente, aqui e agora. A eternidade é o óbvio rejeitado”. E prossegue dizendo: “A vida líquida é uma vida de consumo […]. O lixo é o principal e, comprovadamente, mais abundante produto da sociedade líquido-moderna de consumo”; desse modo, “para os que vivem na líquida sociedade moderna, a perspectiva de ‘viver-para-o-depósito-de-lixo’ pode ser a preocupação mais imediata”, e assim “a vida na sociedade líquido-moderna é uma versão perniciosa da dança das cadeiras, jogada para valer. O verdadeiro prêmio nessa competição é a garantia (temporária) de ser excluído das fileiras dos destruídos e evitar ser jogado no lixo”. Consequentemente, a sociedade líquida “milita contra o sacrifício das satisfações imediatas em função de objetivos distantes e, portanto, contra a aceitação de um sofrimento prolongado tendo em vista a salvação na vida após a morte”.
Se, por um lado, o homem líquido se vê numa situação angustiante, por outro lado ele ignora a solução para sua angústia, pois não consegue ver além do instante presente.
Essa sociedade líquida exclui “a possibilidade de uma segurança existencial coletivamente garantida e, em consequência, não oferece incentivos para as ações solidárias; no seu lugar, motivam seus destinatários a centrarem-se na própria proteção pessoal ao estilo do ‘cada um por si’”. Bauman aponta ainda que o empenho em concentrar a atenção na criminalidade e nos perigos que ameaçam a segurança física dos indivíduos e de suas propriedades está intimamente relacionado com a ‘sensação de precariedade’, e segue muito de perto o ritmo da liberalização econômica e da consequente substituição da solidariedade social pela responsabilidade individual.
Lembrando que a pós modernidade considera a comunidade cristã, a igreja, um mero apoio a sua verdade individual. Ou seja, o homem torna-se homem apenas nos relacionamentos sociais, uma vez que seu desenvolvimento é influenciado pela cultura em que é criado.

Mas o  problema começa quando você estende esse processo, imaginar como deve agir em relação aos outros, e inclui algo tão pessoal quanto o propósito da sua vida. Algumas pessoas tem nossa confiança e a capacidade de nos ajudar a encontrar nosso real propósito. Mas a maioria das pessoas, mesmo as bem intencionadas, escolhem muitas vezes nos colocar dentro de compartimentos que fazem mais sentido para elas. Para ganhar a aprovação delas, nós nos dispomos a entrar dentro do compartimento. Para manter a aprovação delas, você aprende a negar seguidamente quem você é. Não sem angústia ou um forte sentimento de não realização pessoal, frustração mesmo, porque estou vivendo o roteiro de outra pessoa.7

Logo, o problema do relacionamento do homem com a sociedade está em um mundo onde ninguém ou quase ninguém acredita que mudar a vida dos outros seja importante para a própria vida […] os vínculos humanos se afrouxaram, razão pela qual se tornaram pouco confiáveis, o que torna difícil o praticar a solidariedade, do mesmo modo que é difícil compreender suas vantagens e, mais ainda, suas virtudes morais.
Unida a esse problema está a sensação de incapacidade do homem atual em alcançar a solução almejada, conforme demonstra Bauman: “A insegurança e a incerteza nascem, por sua vez, da sensação de impotência: parece que temos deixado de ter o controle como indivíduos, grupos e coletividade”.8
Está claro que o homem pós-moderno, angustiado, precisa de salvação? De si mesmo, do mundo, dos outros. Uma salvação além da ruína espiritual em que toda a humanidade se encontra.

No mundo grego antigo, o termo salvar implica tirar algo ou alguém de um grave perigo. Também pode significar o curar de uma doença ou proteger algo de sua destruição. No uso religioso, o termo salvar pode apresentar tanto a noção de resgate dos perigos da vida, quanto a de preservar as coisas de perecer.
No Antigo Testamento, segundo a versão da Septuaginta, o termo grego σῴζω aparece no lugar do termo hebraico ישע (salvar, ajudar, libertar) e o termo σωτηρία é usado para os derivados do mesmo termo hebraico. O verbo ישע, no Antigo Testamento, significa em primeiro lugar ter espaço, pois ser levado a um lugar mais espaçoso remete à ideia de libertação. Os substantivos advindos desse termo hebraico compreendem tanto a libertação quanto o estado de salvação que se segue. No livro de Juízes, há um ser superior que traz libertação a um inferior através de uma intervenção: “quando os sidônios, Amalec e Midiã vos oprimiam, e vós clamastes por mim [Deus], não vos salvei das suas mãos?” (Juízes 10, 12). Em Isaías, toda salvação que não provém de Deus é limitada e por isso o povo de Israel deve esperar a salvação de Deus e não de outra coisa qualquer. Deus aparece como o verdadeiro herói e juiz que salva seu povo, enquanto que os ídolos e astrólogos não são capazes de salvar (cf. Isaías 45, 20; 47, 13 e Deuteronômio 33, 29). Por isso o povo de Israel deve pedir a Deus que o salve dos males da injustiça, da violência, das enfermidades, das prisões, dos ataques jurídicos e dos ataques externos. Também se frisa a ideia de que para ser salvo por Deus é preciso confiar em Deus (cf. Salmos 22, 5; 37, 40). Se há alguma salvação humana, ela passa antes por Deus, fonte de toda a salvação.
No Novo Testamento, a salvação também é usada no contexto de cura de uma enfermidade (cf. Atos 4, 9; 14, 9), porém se estende a algo além do âmbito físico, como quando Jesus diz à pecadora que a sua fé (dela) a salvou (cf. Lucas 7, 50). Cabe notar aqui que o próprio nome de Jesus é ligado à salvação, como aparece no Evangelho de Mateus: “Tu o chamarás com o nome de Jesus, pois ele salvará o seu povo dos seus pecados” (Mateus 1, 21). O termo σωτήρ, por sua vez, remete ao Messias, como consta na Boa Notícia anunciada pelos anjos aos pastores de Belém em Lucas 2, 11.27 No Evangelho de Marcos, vemos a menção de uma salvação escatológica além da simples vida terrestre: “Pois aquele que quiser salvar a sua vida, irá perdê-la; mas, o que perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, irá salvá-la” (Marcos 8, 35). Nas epístolas de Paulo há uma clara preocupação pela salvação (cf. Romanos 10, 1) e se transmite a ideia de que homens, dentre os quais o próprio Paulo, podem colaborar na salvação de outras pessoas (cf. Romanos 11, 14; I Coríntios 9, 22). Enfim, temos o termo σωτήριος o qual aparece na carta a Tito (cf. Tito 2, 11) em que a salvação não é vista de modo restritivo, e sim aberta a todos os homens. Além disso, o livro do Apocalipse retoma o tom veterotestamentário de vitória ligado ao conceito de salvação, no qual os vencedores confessam que a salvação provém de Deus (cf. Apocalipse 7, 10).9
Vemos até aqui que o homem, de qualquer época, tem, em algum momento da vida, alguma relação com a noção de religião, seja ela favorável ou não. Se por um lado, como investiga Pascal Boyer, ter um cérebro normal humano não implica que alguém tenha uma religião, mas apenas que pode adquirir uma10, por outro lado, essa capacidade de aderir a uma religião faz com que todo homem, e não apenas o religioso, se depare com a noção de religião e salvação, mesmo que, às vezes, somente de modo implícito, isto é, sem pensar de modo claro e distinto nas palavras salvação ou religião. Assim, temos que “a religiosidade, portanto, é inerente ao ser humano enquanto crer que a vida tem um sentido, e quem o busca, já é de algum modo ‘religioso’, mesmo sem religião”.
O livro dos Atos dos Apóstolos descreve a preocupação deste homem religioso com sua salvação individual quando o carcereiro pergunta a Paulo e Silas:
“Senhores, que preciso fazer para ser salvo?” (Atos 16, 30), ao passo que eles respondem:
“Crê no Senhor e serás salvo, tu e a tua casa” (Atos 16, 31), mostrando que a salvação não deve ficar restrita apenas ao carcereiro, mas que ela atinge ainda outras pessoas. Além disso, pode-se supor nessa passagem um movimento no carcereiro de “uma noção puramente física de salvação ou cura para o conceito de salvação tornado possível através da morte e ressurreição de Jesus Cristo”.
Do ponto de vista antropológico, o homem, desde longa data, percebe-se aquém da felicidade plena que deseja, depara-se com o mal no mundo e constata que precisa de uma salvação para sair dessa situação e alcançar seu fim adequadamente. Todavia, ele também percebe que não é capaz de se salvar sozinho, pois se percebe limitado. Tal situação é captada pela frase de Agostinho no seu livro Confissões: “porque [Deus] nos criastes para Vós e o nosso coração vive inquieto, enquanto não repousa em Vós”11. A tradição teológica ocidental também expõe essa visão acerca da salvação, como se pode ver no livro dirigido por Sesboüé:

“Mas em que consiste a salvação? Comporta, sem a ela se reduzir, à libertação de uma situação global de pecado que afeta a humanidade, situação vinculada à falta de Adão”12.

Disso decorre uma necessidade de salvação para todo e qualquer homem vinculado à falta de Adão: O homem pecador está numa situação de necessidade radical de salvação. O homem criado, de algum modo, já estava nessa situação, pois não podia realizar seu fim, a comunhão com Deus, por suas próprias forças. Ele tinha necessidade da iniciativa gratuita pela qual Deus lhe daria essa comunhão de vida e de amor. Temos assim, sob essa ótica antropológica, o homem que precisa de salvação. Do ponto de vista teológico, como já vimos na análise do conceito salvação nas Escrituras, temos Deus como fonte de toda salvação. Desse modo, o homem que se afasta de Deus, se afasta justamente da própria salvação, mantendo-se no estado de inquietude sem os meios de sanar seu problema. Para sair desse estado, o homem precisa do arrependimento de suas faltas que é, segundo Deus, o que leva à salvação estável (cf. 2 Coríntios 7, 10).
E, sobre a angústia humana e como curá-la, até que ponto a rica simbologia de celebrações da fé cristã, a confiança no amor gratuito de Deus, a abertura ao dom da sua misericórdia etc., não têm influência favorável na saúde psíquica? E de maneira mais geral, a religião tem uma função terapêutica? Penso que as respostas a estas perguntas merecem um aprofundamento maior. Não deveriam ser deixadas de lado por uma teologia preocupada com a libertação do ser humano inteiro, em todas as suas dimensões.
E uma pergunta que deve ser feita aqui é: a fé cristã ajuda o angustiado homem pós-moderno a viver melhor? A fé cristã ajuda a superar a angústia existencial das pessoas próximas de nós? Não há dúvida de que precisamos nos situar em sintonia com a sensibilidade do homem e da mulher na pós-modernidade. Ou teremos que dar razão aos críticos da racionalidade moderna, unilateral e objetivista, que denunciam, constantemente, a dureza da investigação exegética que tem tornado a Palavra de Deus algo árido, frio, desprovido de amor e cuidado com o próximo, o que a faz inassimilável existencialmente. Claro que não estou pedindo para sufocar o texto bíblico com psicologia e filosofia humanista, mas para continuar no mesmo espírito pelo qual nos foi dada a revelação: para que todos sejam um em Cristo Jesus, saudáveis e completos. Salvos, na melhor acepção da palavra.

 

1-https://saude.abril.com.br/bem-estar/angustia-e-doenca-e-tem-cura/
2-https://pt.wikipedia.org/wiki/13_Reasons_Why
3-https://noticias.r7.com/prisma/coluna-do-fraga/alerta-para-risco-de-suicidio-lesao-autoprovocada-atinge-82-mulheres-por-dia-no-brasil-e-avanca-200-na-decada-27122017
4-https://pt.wikipedia.org/wiki/Claudio_Naranjo
5-Sobre a Shelley – https://www.linkedin.com/in/shelley-prevost-a8521428/
6-Livro de Bauman escrito em 1997.
7-Idem ao 4
8-http://revistas.pucsp.br/index.php/reveleteo – Revista Eletrônica Espaço Teológico ISSN 2177-952X. Vol. 9, n. 16, jul/dez, 2015, p. 75-90.
9-idem ao 8.
10-Cf. BOYER, Pascal. Religion explained: the evolutionary origins of religious thought. New York: Basic Books, 2001, p. 4.
11-AGOSTINHO. Confissões. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1999, parte 1, livro 1, capítulo 1, p. 37.
12-SESBOÜÉ, B. (org.). História dos dogmas: tomo 2. O homem e sua salvação. São Paulo: Loyola, 2003, p. 168.

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Sobre lucaspinduca

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