Para viver pleno e sem crises morais, minha felicidade e minha verdade não bastam?

Muitos pensadores discutem temas bem difíceis de serem abordados mostrando com sinceridade o lado oculto da vida moderna e fazendo com que os observadores pensem e olhem para os problemas a partir de diferentes ângulos. A maioria destas obras nos dão uma sensação surreal, mostrando muito do que poderia se esconder por trás da realidade. Ou seja, é possível entender muito sobre o mundo que vivemos hoje em dia apenas lançando uma luz sobre a situação em que grande parte da humanidade se encontra, fazendo-os repensar sobre suas (nossas) escolhas futuras. Esta deveria ser a atitude de todos,  cristãos ou não.

Quando olhamos para a ética da virtude percebemos que está incluído nela um relato do objetivo da vida humana ou o sentido da vida. Para Platão e Aristóteles, o objetivo era viver em harmonia com os outros e para isso as quatro virtudes cardeais foram definidas como a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança. A noção grega das virtudes foi posteriormente incorporada na teologia moral cristã. Os proponentes da teoria da virtude defendem que uma característica central de uma virtude é ser universalmente aplicável. É por isso que a minha verdade pessoal não pode me impedir de alcançar ou realizar um objetivo maior e mais importante. Ser ainda é maior do que existir. Alguém já não disse que o essencial ainda é invisível aos olhos? Se você começar a agir de acordo com o seu coração baseando-se em sua intuição e seguindo somente aquilo que você sente ser a direção correta, a sua vida fluirá naturalmente para algo que, sem julgamento de bom ou mau, será com certeza uma jornada ou missão mais confortável por ser mais individualista. Porque todos nós temos um propósito existencial sim, mas buscamos todo tempo realizar aquele que é mais agradável ou confortável.

A filosofia moral moderna gira cada vez mais em torno de uma ética baseada em reivindicações ou direitos, que são teorias éticas que se baseiam no Princípio Fundamental dos Direitos Humanos e outros direitos ou reivindicações do indivíduo. As teorias baseadas em direitos defendem que as pessoas têm direito a determinadas liberdades e são teorias liberais que se centram nos direitos das pessoas a certas liberdades, como a liberdade de expressão, de associação religiosa, etc.1

Estes direitos buscam, como têm sido definidos por vários pensadores, a felicidade ou o prazer (por oposição a tristeza ou dor) como finalidade última que também tem sido definida como a satisfação de preferências, podendo ser descrita como uma forma de encarar a vida onde a felicidade e o prazer assumem uma importância fundamental. Na prática utilizamos aqui o termo utilitário para referir­‑se frequentemente a um ponto de vista econômico ou pragmático, algo limitado. No entanto, o utilitarismo filosófico é muito mais amplo do que isto, por exemplo, algumas abordagens ao utilitarismo também tomam em consideração os direitos dos animais e das plantas para além das pessoas.

Entretanto, o Kantianismo afirma que os atos verdadeiramente morais ou éticos não se baseiam no interesse próprio ou na maior utilidade, mas num sentido do “dever” e num sentido daquilo que é certo e justo a um nível mais amplo (não obstante as consequências possíveis para o indivíduo e a sua utilidade para outrem). As Teorias Kantianas baseiam­‑se no trabalho do filósofo alemão Immanuel Kant (1724­‑1804), para quem o “imperativo categórico” é um elemento nuclear. Kant era da opinião que o ser humano ocupa um lugar especial no mundo e que a moralidade pode ser resumida a um mandamento fundamental da razão, ou imperativo, do qual todos os deveres e obrigações derivam. Um imperativo categórico denota uma exigência absoluta e incondicional que exerce a sua autoridade em todas as circunstâncias, tanto necessário como justificado enquanto fim por si só. Kant argumentou contra o utilitarismo e contra outras filosofias morais do seu tempo, porque, por exemplo, um utilitarista diria que o assassinato é aceitável se maximizar o bem para o maior número de pessoas; e aquele que se preocupa com a maximização do resultado positivo para si próprio, encararia o assassinato como aceitável ou como irrelevante. Portanto, Kant defendeu que estes sistemas morais não podem induzir uma ação moral ou ser vistos como a base para os juízos morais, pois baseiam­‑se em considerações subjectivas. Um sistema moral baseado no dever foi a sua alternativa. Mas seria isso o suficiente para uma vida sem crises morais e felicidade plena?

Vamos olhar para uma passagem bem conhecida de todos os leitores da Bíblia: um jovem rico aborda Jesus e pergunta­ qual a coisa boa que tem de fazer para adquirir a vida eterna. Jesus respondeu, “Por que me chamas bom? Não há bom senão um só, que é Deus. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos”. Quando o jovem responde que observa todos os mandamentos, incluindo “ama o teu próximo como a ti mesmo”, Jesus responde que “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me”. Nesta altura o jovem retira­‑se, o que leva Jesus a observar que “é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus”. Ouvindo isso, os discípulos ficam confundidos e pressionam Jesus, “Quem poderá pois salvar-se?”. Pedro até se lamenta, “Eis que nós deixamos tudo, e te seguimos; que receberemos?”.2

Como muitos de nós, o homem rico quer uma garantia de que terá vida eterna desde que faça a coisa certa, conformando-se com as tradições sociais e evitando o roubo, o adultério e o assassinato. Dado que o homem não pretende uma vida permanentemente miserável, a “vida eterna” significa aqui qualquer coisa como “uma vida duradouramente satisfatória”. Ele apega­‑se aos seus bens materiais como um indicador de que tem feito todas as coisas certas, ele pensa que teve sucesso junto da sociedade porque é virtuoso. E entretanto o homem não é feliz. Esta é a razão por que ele segue Jesus esperando compreender a sua desdita. Jesus indica que o seu questionador está morto e devia preocupar­‑se menos com a vida eterna e mais com a qualidade da sua vida neste momento. Jesus diz que o homem rico pode “começar a viver” (Mateus 19:17) se e apenas se cumprir os mandamentos, incluindo o mandamento crucial de amar o seu vizinho como a si próprio. Dado que o homem rico é obcecado com uma garantia da primazia – ele acredita que merece a vida eterna mais do que qualquer outro porque tem sido especialmente virtuoso – é difícil ver como pode ele amar o seu vizinho como a si próprio. A sua vida tem sido devotada a ultrapassar os outros, batendo­‑os na corrida para a aquisição de marcas sociais de virtude e para ser feliz. Não admira, pois, que os discípulos estejam agitados: desistiram de tudo para serem preferidos, aos olhos do céu, por causa da sua especial virtude! Eles compartilharam a sua sorte com Jesus precisamente porque esperam que ele lhes garanta toda a espécie de coisas boas. Não é por acidente que, imediatamente após este encontro, vemos a mãe dos discípulos Tiago e João pedir a Jesus que sente os seus filhos à sua direita e à sua esquerda no Reino dos Céus. Ainda aqui, nós vemos Jesus dizer ao homem rico para não o apelidar de “bom” e para não olhar para ele como quem concede vida eterna. Nem mesmo Jesus pode tornar fácil que um camelo passe pelo buraco de uma agulha ou que um rico entre no Reino dos Céus. Apenas depois de sermos aperfeiçoados, desistindo de acreditar na primazia social, podemos experimentar uma satisfação duradoura. Os discípulos mentiram a si próprios. Eles não desistiram de tudo, estão tão agarrados como o homem rico ao sistema social de primazia e à crença de que a conformidade com a Lei Moral garante felicidade. Apenas querem inverter esse sistema, de forma que humildes pescadores como eles próprios apareçam no topo. Neste aspecto, estão ainda mais decepcionados que o homem rico. O homem rico pelo menos reconhece a força da sua prisão, partindo “triste” porque, embora não esteja disposto a desistir da sua grande riqueza, sente que há mais na vida que a sua existência passada e presente. Os discípulos, em contraste, partilham do vínculo do homem rico mas não o admitem. Estão convencidos de que seguem um caminho diferente e mais virtuoso rumo à felicidade.

A suma de tudo é: todo homem é confrontado na sua vida em sociedade com dilemas de ordem ética, umas de maior e outras de menor complexidade. A escolha entre o “certo” e o “errado” é uma constante na vida das pessoas. Mesmo para aquelas que se decidem entre o “permitido” e o “interdito”. Os comportamentos são pois determinados por uma ideia ética subjacente. A ética é de grande importância para a vida das pessoas e das sociedades, sendo um traço característico daquelas sociedades que são mais fortes, coesas e solidárias. O declínio da religião, concebida como um sistema de crenças dogmáticas, e a necessidade desta sociedade por uma nova espiritualidade são cada dia mais evidentes. A ciência pode ajudar a prever as consequências das nossas ações, mas nenhuma ciência é capaz de nos dizer como nós devemos agir numa questão de natureza moral. Por isso uma nova espiritualidade implica numa nova conduta (virtuosa), que pode encontrar na atitude de amar ao próximo o seu modelo.3

Para tanto, dever­‑se-ia: dizer a verdade; corrigir os males que se causaram a outrem; agir com justiça; ajudar os outros, respeitando a virtude, a inteligência e a felicidade; dar graças a Deus; e evitar prejudicar outrem. E são estas coisas que um caráter que não foi tratado não pode fazer sem uma metamorfose profunda das suas escolhas, simplesmente porque mudar caráter é mudar algo essencial. E onde o confronto entre a minha verdade e a universal poderia revelar as minhas fraquezas,  inadequações ou falta de virtudes (aquelas que sempre achamos ter) eu o evito, o máximo possível, impedindo um crescimento moral e espiritual necessário e valioso.

Aumentar nossa compreensão pessoal de que a maior de todas as virtudes é corresponder ao imperativo de Jesus, amar a Deus e ao teu próximo, isso não diminui de nenhuma forma a possível paz de alma de outra. É por isso que os discípulos não deviam estar preocupados em saber se o homem rico entra no Reino dos Céus: o seu destino não afeta nem um pouco a sua perspectiva de felicidade. Mas o contrário é verdadeiro. Preocupar-se sobre se temos mais ou menos virtude que a pessoa ao lado e se a sociedade nos deu o que merecemos, impede a nossa capacidade de prosperar em tudo. Em vez de gastar o seu dia preocupando­‑se sobre se é moralmente superior e merecedor da sua riqueza, melhor teria sido que o jovem rico tivesse pensado porque é que os seus esforços de obediência moral o foram deixando estranhamente vazio. Bem, penso que percebemos melhor algumas coisas quando a nossa perspectiva muda. É sempre no deserto onde a sede ganha um significado mais forte e acredito que autenticidade não pode significar apenas subjetividade egoísta ou mero hedonismo disfarçado de empatia. Nas palavras de Kant: “Agir de modo a tratar os outros como fins e não apenas como meios”.4

1-http://www.ceic-ucan.org/wp-content/uploads/2017/02/COMPENDIO_ETICA.pdf

2-https://www.bibliaonline.com.br/acf/mt/19/16-27

3-https://oficinadopinduca.wordpress.com/2011/07/07/a-crise-das-instituicoes/

4-https://meuartigo.brasilescola.uol.com.br/filosofia/a-moral-dever-kant.htm

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Sobre lucaspinduca

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