Devocionais para não devotos (VI)

Mas, o que é renunciar a si mesmo (baseado em Lucas 9.23)?
Certa vez alguém me disse: “Penso que renunciar a mim mesmo é algo mais difícil do que carregar a cruz. Renunciar a si mesmo é querer, de coração, deixar de fazer, ser, crer, o que queremos para nós, para nossa vida…e por amor a Deus, fazer o que Ele nos pede. Talvez com uma resignação mais intensa que a dos pais pelos filhos. É saber ser humilde, desprendido, é crer com o coração que Deus nos basta”. É uma boa reflexão.
Porque tudo o que temos visto e ouvido hoje em dia parece, e algumas vezes é, apenas produto do antropocentrismo, do ensino secular baseado na centralidade do homem. Do amor às riquezas, à honra, à fama, ao estilismo, elitismo, culturalismo, tudo nos desvia dos ensinos de Cristo. Não passa um dia em que não precisamos desconstruir algo que a modernidade tenta nos impingir como aceitável e valioso, mas que no fundo é apenas arrogância, autossuficiência e autopromoção.

A exigência de Jesus tem uma profunda razão: o pecado original “tirou os nossos olhos do Criador e os voltou para as criaturas”. Nos fez egoístas, egocêntricos, de certa forma ególatras, adoradores de nós mesmos. A queda original estragou a natureza humana; então, devemos abandonar as nossas preferências e, de novo, com a graça de Deus, buscar as de Deus. Aquilo que foi estragado deve ser abandonado; não é assim que fazemos com as comidas azedas?

Ainda bem que Deus, em Cristo, nos confronta e coloca, pelas escrituras, em nosso devido lugar. Claro que precisamos estar quebrantados, arrependidos e bem conscientes das nossas fraquezas, das nossas profundas limitações humanas.

Paulo nos ensina que devemos ter o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus (Filipenses 2.5-8). Ou seja, devemos abrir mão daquilo que queremos mas não agrada a Deus, pois não produz nenhum acréscimo ao nosso relacionamento com Ele, e aprender Dele mansidão e humildade (Mateus 11.28-30), uma clara referência ao compromisso e lealdade que exige e oferece aos seus discípulos. Fazer a vontade de Deus é, em primeiro lugar, fugir de todo pecado; é uma luta contra nós mesmos; por isso Jesus disse que “o Reino dos céus é arrebatado à força e são os violentos que o conquistam”. (Mt 11, 12). Os violentos consigo mesmos; não com os outros. E isso é possível, com a graça de Deus, basta olhar a vida de todos os homens e mulheres na Bíblia que venceram pela sua fé. E fé é o oposto de auto-suficiência; Porque nós não somos suficientes para nós mesmos. É difícil renunciar a si mesmo; mas se Jesus manda isso, então, não pode nos negar a graça necessária.

Enquanto tantos buscam construir um edifício, uma nova vida, segundo a maneira antiga de viver, a nossa nova vida em Cristo pressupõe a superação do domínio da velha vida (II Coríntios 5.17). Precisamos ser reconstruídos pelo Evangelho de Cristo, sendo desconstruídos do velho caráter adâmico  e adquirindo uma nova maneira de viver. Só um caráter novo nos levará a escolhas novas e corretas, só um coração segundo o coração de Cristo nos fará entender que, vivendo, a vontade a ser respeitada, obedecida e desejada não será a minha.
Se Jesus manda que renunciemos a nós mesmos, isto é, a nossa vontade, trocar os nossos planos e desejos pelos Dele, é porque há algo de errado em nossas preferências, e que não nos faz felizes. É como se dissesse: “foge disso, lhe faz mal!”.
Renunciar a si mesmo não é jogar fora as nossas qualidades e muito menos enterrar os talentos; ao contrário, é desenvolvê-los para usar segundo a vontade de Deus para a nossa vida. O pecado original nos fez ficar “brigando com Deus”, disputando entre fazer a vontade Dele e a nossa. Quando fazemos a nossa ao invés da Dele, estamos pecando. É o mesmo que Adão e Eva fizeram no Paraíso e depois ficaram com medo de Deus e se esconderam do Criador.

A nossa desconstrução aponta para a nossa edificação no caráter de Cristo. A natureza dominada pelo pecado e pela morte é substituída pela natureza da santidade e da vida. A obra da cruz é a da nossa crucificação, morte e ressurreição com Cristo (Romanos 6.1-11; Gálatas 2.20). Não se trata de uma simples opinião e sim de que o crente reconheça que, pela sua união com Cristo, está realmente morto para o pecado, mas vivo para Deus.
Não há vontade melhor para a nossa vida do que a de Deus. Ora, será que existe alguém que seja mais sábio, douto e santo que Deus? Será que alguém nos ama mais do que Ele? Então, por que temer Sua vontade? Por que não abrir mão de algo que não produz uma melhora, um aprimoramento para esta vida incluindo também a póstuma?

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Sobre lucaspinduca

I like to think I'm part cultural voyeur mixed with a splash of aspiring behavioral scientist and wannabe motivational christian speaker.
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