Devocionais para não devotos (VII)

Não é o Natal que está errado, nossas atitudes sim.

Sobre esta época do ano que gosto muito (sim gosto do Natal e de todo este clima de renovação e esperança de fim de ano): posso estar equivocado, mas o clima festivo não está muito em evidência este ano não é mesmo? Até as propagandas natalinas estão discretas e melancolicamente opacas. Temos um termo bem brasileiro para isto: borocoxô.

Não deveria ser assim mas… A história do nascimento de Jesus costuma ficar esquecida na estante durante a maior parte do ano. Todo fim de ano nós a recuperamos, tiramos o pó e a deixamos brilhar por algumas semanas. Mas, logo depois do Natal, nós a devolvemos à estante e ali a deixamos por mais onze meses sem nos darmos conta de que o Natal tem significado para todos os dias de nossa vida, pois ele estabelece um marco na história de nossa redenção. É uma mensagem de esperança que ratifica a verdade de que Deus sempre cumpre suas promessas, em seu tempo perfeito.

Qual a grande importância disso? Não está mais do que claro? Nós estamos vivendo na era do ódio. Estamos nos definindo muito mais pelo que rejeitamos do que pelo que adoramos. A extrema polarização tem permitido que quase 50% do país odeie os outros quase 50% do país – e o sentimento é mútuo. E nós sabemos: emoções intensas para um ser humano geralmente significam ódio ao invés de amor, embora não devesse. Talvez por isso tenho visto algumas pessoas, principalmente cristãos, rejeitando comemorar o Natal e usando vários argumentos para justificar suas atitudes como por exemplo, o The Christian Book of Why (O Livro Cristão dos Porquês) que diz: “os primeiros cristãos se recusaram a escolher uma data que indicasse o nascimento de Jesus”, pois queriam “se separar de todos os costumes pagãos”; ou as observações do The Externals of the Catholic Church (Os Costumes da Igreja Católica): “Ao dar ou receber presentes de Natal ou colocar guirlandas nas casas e igrejas, quem de nós poderia imaginar estar seguindo costumes pagãos?” e temos ainda o The Battle for Christmas (A Batalha pelo Natal), onde Stephen Nissenbaum diz que “o Natal não passava de uma festa pagã sob um manto de cristianismo”.

Por isso tudo a verdade precisa ser repetida (2Ts 2.1-15). Recordar as verdades sobre Cristo e o evangelho é importante para que a nossa sociedade não deturpe, com mitos e consumismo, nesta época do ano o ato sacrificial de Jesus em prol da humanidade. A repetição é pedagógica.

Ok, ok. Tudo bem pesquisar e estudar, buscar informações é importante. Mas “Não temos outra escolha: ama- se ou adoece-se.” (Freud); e não podemos esquecer, para nós cristãos Jesus é o Natal. Sabemos infelizmente que a tradição da festa natalina tem sido marcada por coisas estranhas ao verdadeiro Natal: egoísmo, consumismo, o engano da comunhão forçada e da solidariedade que só acontece uma vez no ano. No fim das contas, o clima “natalino”, as luzes, escondem as trevas que encobrem os corações. Natal é para ser o anúncio da verdadeira alegria. Da salvação que vem a todos através de Cristo*. Para nós cristãos essa é uma realidade duradoura e não apenas uma festa de fim de ano. As atitudes e comportamento gerados pela celebração natalina não precisam acontecer apenas uma vez ao ano, o amor implícito deve desde agora seguir em frente e para toda a vida. Quando criança, minhas listas de Natal preenchiam uma página, inspiradas por comerciais, catálogos e idas a loja de brinquedos. Hoje, minha lista de Natal é muito menor porque é composta das coisas que não podem ser compradas. Um pouco mais crescido, lembro que meus amigos e eu já cometemos este erro, de rebelar-se contra a comemoração natalina. Íamos para a pequena cozinha sentar-nos de costas para aqueles que estavam reunidos para celebrar mais um encontro entre amigos e familiares. Nós tínhamos as interações natalinas como uma cerca de arame. Trago a memória como foi desagradável comer o panetone seco do exílio, a maionese pegajosa na boca. As ameixas e passas da autoexclusão faziam nossas atitudes mais mesquinhas também. Na sala mais próxima, as garrafas de champanhe brilhavam imponentes como castelos georgianos pertencentes a aristocratas obesos. Os morangos com creme pareciam divinos e odiosos tanto quanto a risadaria solta na sala. Amadureci. Que possamos amar bem, buscar a paz e viver como Cristo nesta época natalícia.

O Natal moderno deve continuar a ser uma festa cristã cheia de simbolismo, apontando para Jesus. Mas isso não tem acontecido com grande intensidade! As luzes, os enfeites, falam da festa de Natal, mas não do verdadeiro Natal, que começa com o nascimento de Cristo, que vem ao mundo salvá-lo. A essência foi perdida. Não sem motivo as coisas parecem cada vez mais artificiais e vazias nessa época. Perguntas são inevitáveis: Onde você irá todos os dias, o que você fará, quem ou o que você irá encontrar, o que você dirá, o que acontecerá com você – tudo isso pode ser previsto para o próximo ano? As pessoas não podem prever todos esses eventos, muito menos controlar como eles se desenvolvem. Na vida, esses eventos imprevisíveis ocorrem o tempo todo e são eventos diários. Essas vicissitudes diárias e o modo como se desdobram, ou seus modos operacionais, são constantes lembretes à humanidade de que nada acontece ao acaso, que as ramificações dessas coisas e sua inevitabilidade não podem ser mudadas pela vontade. humana. Cada evento transmite uma advertência do Criador para a humanidade, e também carrega a mensagem de que os seres humanos não podem controlar seu próprio destino; ao mesmo tempo Cada evento é uma refutação da ambição selvagem e fútil e do desejo da humanidade de tomar seu destino em suas próprias mãos. Eles são como poderosos tapinhas nos ouvidos da humanidade, um após o outro, forçando as pessoas a reconsiderar quem, afinal, governa e controla seu destino. E como suas ambições e desejos são repetidamente frustrados e destruídos, os humanos naturalmente chegam à aceitação inconsciente do que o destino tem em reserva, uma aceitação da realidade, a vontade do Céu e a soberania. do Criador. Dessas vicissitudes diárias do destino de todas as vidas humanas, não há nada que não revele os planos e a soberania do Criador**. O advento do Natal trata de esclarecer tudo isso de uma maneira amorosa e simples: O salvador nasceu. Paz na terra aos homens de boa vontade.

Percebemos a necessidade de uma reflexão sobre tudo isso? Um auto exame físico nos ajuda a descobrir certas doenças, por sua vez, a reflexão sobre a nossa vida nos ajuda a pensarmos sobre a qualidade com que vivemos a nossa cristandade. Como anda a nossa vida com Deus e com o próximo? Como foi para você o ano que passou? Quais foram seus erros e acertos? Aonde você precisa melhorar? As perguntas podem se multiplicar! E como já nos alertava Eduardo Galeano, vivemos em plena cultura da aparência: o contrato de casamento importa mais que o amor, o funeral mais que o morto, as roupas mais do que o corpo e o culto mais do que Deus. Precisamos resgatar a capacidade de achar bênçãos no meio do caos, uma busca que deve ser segundo a Carta aos Romanos 8:28: “Todas as coisas contribuem para o bem daqueles que amam a Deus.” Isto significa que mesmo no meio de muita coisa má, há sempre algo digno de ser aproveitado. Encher a mente de coisas boas não significa viver em negação. Antes significa que é sempre possível encontrar algo bom. A alegria andará sempre a par com a tristeza e com as dificuldades, pelo menos nesta vida. Quando encontrarmos Cristo, aí sim: tudo será alegre. Até lá, devemos procurar o que é certo, as bênçãos. E achando as bênçãos mesmo no meio de um cenário triste, vamos encontrar a alegria. Aquela alegria que invade o nosso coração de paz. A paz de Cristo.
Creio que datas como esta são momentos para pararmos e avaliarmos o que passou e projetarmos aquilo que virá. Projetarmos de forma sempre dependente de Deus sem arrogância, sem uma autoconfiança exacerbada, mas ciente que sem Deus nada podemos fazer. Então façamos um autoexame e comecemos um ano novo buscando a sabedoria de Deus, pois Ele dá liberalmente, aplicando-a em sua vida e praticando a prudência, a singeleza e a fé diariamente em todos os seus passos.


Não é o Natal que está errado, nossas atitudes sim. E se ainda posso desejar algo, desejo o melhor Natal a todos. E um ano novo também. Em Cristo Jesus.

* http://igrejadaabolicao.com.br/site/sermao/natal-fake

** https://www.kingdomsalvation.org/fr/gospel/fate-inseparable-from-Creator-s-sovereignty.html

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Sobre lucaspinduca

I like to think I'm part cultural voyeur mixed with a splash of aspiring behavioral scientist and wannabe motivational christian speaker.
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