Não escolha ser enganado por você mesmo

Se uma orla dá contornos a água, a água modela a orla. Embora sejam forças iguais são opostas, mas se combinam para formar um ambiente. Assim o ser humano também, como as ondas e a orla, está sempre forçando os próprios limites afim de ampliar suas adjacências (para tornar-se mais relevante talvez) e ao mesmo tempo sendo forçado a permanecer no status quo determinado pelas circunstâncias. 

Esta junção de forças funciona adequadamente para explicar a busca por realização do ser humano. O conhecimento atual diz que estamos dentro de limites aproximados, nascidos pela natureza e solidificados pela criação e ainda assim amorfos e maleáveis, onde toda onda imperceptivelmente nos altera a cada encontro acidental e sucessivo. Onde cada “erro” é uma real possibilidade para o ser humano criar consciência de como está no mundo, e ter a exata noção do seu ser e das consequências do que faz.

Algo que é muito real para os cristãos obrigados por uma ética bíblica, isto é, crentes que lutam por corações, mentes e corpos puros, mas confiam na graça de Deus nas (muitas) ocasiões em que as coisas dão errado. Sinto dor, sofro, passo por dificuldades, mas aprendo a me conduzir dependentemente da graça divina e sem me tornar um peso para ninguém e tentar viver harmonicamente.

A vida é uma jornada onde os privilegiados nem sempre são os mais fortes, mas àqueles que arriscam superar seus próprios limites. ˗ Misael Bass Teixeira

Pensemos em um homem que perdeu tudo o que conseguiu conquistar a duras penas e outro que perdeu tudo que reconquistou depois de uma grande luta. Em comum o fato da perda e de estarem a bordo de uma jornada que vai levar a um ponto ou lugar sem data definida. O consolo é a chegada? Viver é apenas existir? Nunca deveria existir um tempo chamado cedo demais? Ter conhecimento da realidade e percebê-la não é mais importante que a realização de algo em busca da verdadeira felicidade. Mas o homem cotidiano não gosta de demorar, tudo o apressa e ao mesmo tempo, nada lhe interessa além de si mesmo como já dito por Albert Camus.

E se as coisas durassem para sempre saberíamos dar o valor que elas têm? Não. Porque queremos tudo perfeito justamente para não dar valor a nada. Agora, se você já escolheu sua maneira de viver aceite isso. Há uma grande diferença entre aceitação e escolha caso não tenha percebido.

Em 1845 Karl Marx escreveu suas famosas 11 teses sobre Feurbach. Na sexta tese Marx afirma algo verdadeiro, mas reducionista: “A essência humana é o conjunto das relações sociais”. Efetivamente não se pode pensar a essência humana fora das relações sociais. Mas ela é muito mais que isso, pois resulta do conjunto de suas relações totais. Mas a aceitação atual da indicação de Marx mostra que a maior parte da construção do homem moderno se realiza, efetivamente, apenas em sociedade. Daí a supervalorização da formação social que melhor cria as condições para ele poder desabrochar mais plenamente nas mais variadas relações.1

Alguns de nós já sentimos essa tensão em nossas próprias vidas. Percebemos as maneiras pelas quais amigos, colegas de trabalho e até mesmo membros da família olham para nós com olhos arregalados e perturbados quando percebem nosso compromisso de honrar a Deus com nossos corpos, mentes e almas. Podemos não ter tido nossas vidas destruídas ou estragadas pelo caminho, mas sabemos o que é ser questionados, provocados ou ridicularizados como resultado de expressarmos e praticarmos nossa fé. E para muitos, esta tem sido uma experiência dolorosa. Ser incompreendido sempre é. Mas muitos de nós ainda gostariam de saber a verdade.

No livro de Jó, a experiência existencial do personagem se dá em um contexto de perdas, sofrimento e marginalização que transcende as explicações mais razoáveis. Somos convidados então a nos libertar da prisão ideológica de nossos dias, das narrativas construídas através das tradições culturais conseguidas graças à acumulação de conhecimentos baseados em um senso comum que especula e apenas arranha a superfície da existência humana, e acabam por produzir um ser humano incapaz de construir uma vida nova, um mundo novo, uma história de fato. Além de cada vez mais se distanciarem de Deus. Porque quando acreditamos que somos senhores de nós mesmos, nos conformamos com uma falsidade dada a nós pelo “pai da mentira” (João 8:44). Quanto mais acreditamos em nós mesmos, menos capacidade temos para discernir a verdade. Como Paulo nos lembra, “você não é seu, mas foi comprado por um preço” (1 Coríntios 6:19). Agora, como sempre, as mentiras do diabo se escondem como verdade, em lemas comuns de nossa cultura que soam atraentes, inspiradores e desejáveis. Queremos estar no comando de nós mesmos, no controle do nosso futuro e capazes de nos tornarmos melhores. Isso parece muito bom e razoável. Mas quando “você faz você”, você se torna o eu supremo. “Se formos longe demais, a busca por um ‘Ser Supremo’ pode se confundir com a mais antiga tentação humana”, escreve Ross Douthat em Bad Religion, “o sussurro no Éden de que ‘sereis como deuses’”.2

Na nossa vida diária, usamos nossa percepção continuamente para nos movermos dentro de casa, na rua, no trabalho etc. Nessa movimentação elegemos sempre um alvo, para agirmos em direção a ele e realizarmos algo importante para nós. Após esta realização partimos para outra onde tudo se repete. Se quero sair de uma vila onde moro, preciso necessariamente intencionar que quero sair. 

Isso significa que minha consciência esteja ligada ao que elegi. E quando elejo, aponto um alvo, isto é, uma figura. Nesse instante em que realizo esta necessidade, tudo que intento a posteriori fazer, fica no que o Gestaltismo chama de fundo. Pois bem, se quisermos viver contrariando essa lei que está em nós, viveríamos sem consciência, pois ter consciência é ter, como disse Husserl (1959) 3, consciência de algo, de alguma coisa, sob pena de não se ter consciência na espécie humana. Se tiro o algo, isto é, a figura, minha consciência, se é que ainda posso falar de sua existência, ficaria somente como um fundo amorfo, desorganizado.

Por isso que é importante não permanecer totalmente fascinado e absorto por tantas narrativas que acontecem ao nosso redor o tempo todo; porque se as coisas derem errado será preciso não seguir o fluxo delas. O mundo pode tentar nos esmagar e provavelmente o fará. Mas toda vez que o ser humano quiser sobreviver a isto, só será vitorioso se a sua fé puder ser embainhada na Verdade.4 

Bem, ao ler Os Irmãos Karamazov percebe-se que os personagens sucumbiram ao orgulho e, portanto, à influência do demoníaco e viveram de acordo com falsas narrativas sobre sua identidade. Um chama a si mesmo de bufão. Outro se apresenta como um intelectual. Ainda outro está dividido entre ser um herói romântico ou um sensualista. A figura sagrada do romance, o padre Zosima, adverte esses personagens: “Acima de tudo, não minta para si mesmo. Um homem que mente para si mesmo e ouve sua própria mentira chega a um ponto em que ele não percebe qualquer verdade”.

Para os crentes, essa luta entre o bem e o mal, entre Deus e Satanás, se resume à nossa visão de autoridade. Nós, protestantes, frequentemente nos encolhemos com essa palavra, em parte porque nos lembramos de abusos de poder e excessos autoritários. No entanto, a palavra também deve evocar aquele que nos criou. Se rejeitarmos toda autoridade para “pensar por nós mesmos” e “sermos nosso próprio guia” no mundo seremos inconscientemente presos à autoridade demoníaca. Mas Deus é a autoridade final para nós cristãos.

Eu queria fazer parceria com Dostoiévski e O’Connor para lembrar os leitores do verdadeiro demônio, cujo contágio de mentiras e violência atrai todo coração humano. Este demônio atormenta cada um de nós. Através da nossa cultura e da mídia, em particular, ele mente docemente e constantemente. Olhe para cada filme ou desenho infantil que parece retratar um herói olhando para sua imagem em um espelho ou uma piscina de água e descobrindo que o segredo da vida é acreditar em si mesmo ou confiar em si mesmo. Mas “o coração é enganoso acima de todas as coisas”, Jeremias nos adverte nas Escrituras (Jr 17: 9). O diabo deve ser desmascarado para que cada um possa se ver pelo que realmente somos: almas necessitadas de um salvador. 5

E mais: nós fazemos questão de mostrar que está tudo bem sempre porque não gostamos da ideia de admitir que erramos ou não temos o controle. Que somos limitados e não entendemos perfeitamente o mundo que nos cerca. Por isso é difícil compreender que apesar de tudo e dessa realidade estar mutilada, ainda estamos em uma constante jornada em busca da parte que falta, e mesmo dizendo que não posso me auto guiar, disciplinar e viver sem algum tipo de autoridade, preciso admitir que nossos sonhos podem se tornar realidade apesar das tristezas e precariedades da vida. Como nem mesmo a ciência pode conhecer as profundezas de sua alma, enquanto seu consciente não sentir nenhum problema em particular, é você quem finalmente escolherá, porque somente sua consciência decidirá o que é bom ou melhor para si mesmo! Por estarmos corrompidos pelo pecado nós cristãos acreditamos que a nossa alma precisa de um guia para fazer a escolha certa, nos ajudar a enxergar na montanha de circunstâncias uma que nos ajude a corrigir a nossa falta. Porque a vida é assim também. Às vezes, de algo horrível, algo maravilhoso acontece. Os milagres são ainda mais prováveis e possíveis em nossa realidade fragmentada.

1 https://oficinadopinduca.wordpress.com/2015/07/09/a-conveniencia-do-arco-iris/

2 Jessica Hooten Wilson é professora associada de humanidades na John Brown University, em Siloam Springs, Arkansas, e autora de três livros, Dando ao Diabo a Sua Vinda: Autoridade Demoníaca na Ficção de Flannery O’Connor e The Brothers Karamazov (que recebeu CT’s Prêmio de livro de 2018 em cultura e artes), Walker Percy, Fyodor Dostoevsky, e a busca por influência e leitura de Novelas de Walker Percy . Atualmente, ela está preparando o romance inacabado de O’Connor para publicação.

3 HUSSERL, E. Recherches logiques. Tome 1: Prolégomènes à la logique pure. Collection Epimethée. Paris: PUF, ([1900] 1959).

4 https://medium.com/@robertovargasjr/rei-arthur-e-os-cavaleiros-da-t%C3%A1vola-redonda-12dd1acbd94f

5 Ibid. ao 1.

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Sobre lucaspinduca

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