Quem machucou você?

“I hurt myself today

To see if I still feel”

O trecho acima é da música Hurt1. Ela começa dizendo: “Me machuquei hoje para descobrir se ainda consigo sentir”. Isso acontece porque ele jogou fora quase tudo que o fazia humano. Então ele precisa saber se ainda sente pelo menos a coisa humana mais básica: a dor. Ele usa uma analogia de drogas para simbolizar o método de autodestruição que usou para se desumanizar. Esse método pode ser interpretado como drogas literais, como religião, como uma amante… A partir disso ele faz uma pergunta: “O que eu me tornei?” Olhando para a sua vida ele percebe que se tornou algo diferente, algo desumano. Ele percebe como suas ações eram inúteis. Então o próximo verso fala sobre como ele “matou” Deus, ou pelo menos o removeu de sua vida e assumiu o Seu lugar, sem conhecer as conseqüências de suas ações. Finalmente, no final da música, ele lamenta suas ações e diz que se tivesse outra chance de começar de novo faria tudo diferente para manter sua alma. Mas como cristão sei que uma segunda chance não deve ser usada para manter a posse dela (Marcos 8:36). Você não pode ganhar o mundo e rejeitar a Deus (nem que seja temporariamente) sem perder sua alma, quem agir assim vai perdê-la, e a melancolia o invadirá e quando perceber, suas escolhas não poderão perpetuar sua existência, tão pouco produzir um estado em que possa “sorrir para o mundo e dar-se bem com tudo”. Isto o faz perceber que se não há ninguém ou nada que tenha algum tipo de valor em sua vida, você está sozinho e é um governante de uma vida vazia? E outra coisa, o maior inimigo das almas humanas é o espírito hipócrita que faz os homens olharem para si mesmos buscando auto salvar-se. Ou você é o salvador ou precisa ser salvo.

O autor da música também percebe que não é capaz de mudar sozinho porque não é mais tão humano do que os outros. E que sempre deixará as outras pessoas para baixo e as machucará. Ele machucará qualquer um que tentar se aproximar dele. Como se machucou tanto, machucar é tudo o que sabe. Ele como todos nós, está em busca de uma saída. E o refúgio mais próximo para quem está sofrendo de angústia é a solidão. E hoje é muito comum percebermos todo mundo vivendo como usuários da solidão mais do que lutando contra ela, apesar do assunto não ser falado abertamente. Isso acontece porque a solidão pode nos desprender do próprio solo da História produzindo um tipo de suspensão ás vezes, levando-nos a uma atitude livre de referências, marcas ideológicas ou clichês. O que obrigatoriamente nos faz buscar novos horizontes e, paradoxalmente, deixar a caverna das certezas. Entretanto, ninguém muda, torna-se uma pessoa diferente, enquanto ainda sente os sentimentos da pessoa que deixou de ser. Eis um motivo do porque não podermos, na visão de Husserl[2], extrair evidências plenas de nossa percepção empírica do mundo, pois, a julgar pelo o que a experiência sensível nos revela do mundo, nós jamais poderíamos eliminar por completo a possibilidade de duvidar da posição de existência das coisas que se nos apresentam e, neste sentido, estaríamos sempre prontos a corrigir as nossas percepções do que havia sido estabelecido com base na experiência sensível. Ou traduzindo do ‘filosofês’: viver nestes termos seria um eterno “eu quero dizer agora o oposto do que eu disse antes”. E daí viria a necessidade de se metamorfosear continuamente para poder experimentar as tantas percepções, e criar sensações que ressignifiquem aquilo que a existência em si não é capaz de mostrar com clareza. Tudo seria relativo demais,  líquido demais. Os encaixes mudariam e os pinos também, constantemente.

Segundo Eugene Ionesco, na história da humanidade não há civilizações ou culturas que não manifestem, de uma ou mil maneiras, essa necessidade de um absoluto que se chama céu, liberdade, milagre, paraíso perdido, paz, ir além história; não existe uma era que não expresse a necessidade do homem ser transfigurado ou que não expresse o desejo de revolução, a busca pela Cidade Ideal, isto é, o desejo de purificar o mundo, de modificá-lo, de salvá-lo, reintegrá-lo metafisicamente ao divino. A humanidade nunca ficou satisfeita somente com a “realidade tal como é”. Na Grécia pagã, onde a harmonia mais perfeita parecia existir entre a moralidade e a alegria, entre a natureza e a sociedade, os platônicos, embora vivessem sob o céu mais luminoso do mundo, pensavam que este mundo e este céu não eram capazes de contemplar a única luz essencial, aquela das idéias eternas. Os próprios estóicos aceitavam passivamente viver uma vida cotidiana absurda e cinzenta porque sua metafísica prometia que os homens sábios após a morte contemplariam os movimentos das estrelas, isto é, a beleza absoluta e não-terrestre. Não há religião em que a vida cotidiana não seja considerada uma prisão; não há filosofia ou ideologia que não pense que vivemos na alienação; de um modo ou de outro, e mesmo nas ideologias que negam os mitos de que se alimentam apesar de si mesmos, a humanidade sempre teve uma nostalgia pela liberdade que é apenas beleza, que é apenas vida real, plenitude, luz.

Bem, na vida ordinária do dia a dia lidamos com pessoas e suas atividades, com toda a sorte de eventos complexos, e com relacionamentos sociais como o Estado, a igreja, o sindicato e a família. A realidade temporal também inclui animais, plantas, minerais, dentre outras coisas, sejam elas formadas pela natureza ou pela cultura como, por exemplo, o caso de homens em linhas de produção, em lojas, ou em laboratórios. Mesmo uma descrição primária como essa nos envolve num processo não de construção, mas de observação de todos os tipos de distinções salientes presentes na vida humana. Isso pode parecer uma verdade incontestável num primeiro momento, mas a história da filosofia nos oferece muitos exemplos de homens que sobrepuseram suas ideias brilhantes à realidade antes mesmo de começarem a examiná-la. Por isso precisamos nos guardar contra este perigo e investigar acuradamente a estrutura que a realidade temporal revela por si mesma.3

E sendo um pouco mais sincero e franco aqui, investigar também é deixar-se investigar, e dar a alguém a minha solidão seria, falando poeticamente, construir uma janela para a minha alma e deixar o outro espiar. De certo modo ficaria esclarecido que há entre a essência e a existência uma expressão particular de cada individuo, sua consciência, e que seria esse também o elo faltante para nos fazer passar de uma visão ingênua do mundo para um modo de consideração das coisas, no qual o mundo se revela em sua totalidade como “fenômeno”. Ou como Kant dizia: “Das ding an sich”. A coisa (ou mundo) como ela é realmente, não o que parece ser ou eu acho que é. Sabe quando as coisas dão errado e logo assumimos que as pessoas querem nos prejudicar e geralmente há uma explicação mais lógica? Então, por isso não devemos atribuir à malícia o que pode ser somente o produto da nossa estupidez. A razão é sempre “razão” de alguma realidade, e a realidade “é”. Tudo que é, é ser. Ser racional é ser inteligível por uma racionalidade, uma razão. Nunca podemos separar totalmente SER e RAZÃO.

Uma coisa precisa ser explicada aos cristãos: Crer em Cristo é permanecer em seus ensinos. Permanecer nos ensinos de Cristo é resistir à forma de agir e de pensar do mundo. Essa resistência não se trata, portanto, de uma ação reativa, mas uma atitude intencional de não ser como o mundo é. Ou seja, além de seguir os ensinos de Cristo a qualquer custo, o cristão decide conscientemente não seguir o modelo de vida proposto pelo sistema de valores do mundo. Ou vamos pouco a pouco, por exemplo, deixar de aceitar a tristeza como nosso acessório de fábrica e, portanto, negaremos um sentimento intrínseco ao ser humano.

Eu sei, às vezes, nem agimos de forma voluntária. Estamos descansando calmamente, assistindo a um documentário, lendo um livro ou conversando com alguém no whatsapp e, de repente, aquele “alguém” chega, alguém que sabe tudo por sua própria experiência e nos conta sobre sua vida. Você começa a se divertir e para, começa a ouvir e imaginar como deveria ter sido crescer naqueles anos, até perceber que a conversa se tornou uma emboscada da qual você não pode escapar. Todos nós sabemos como que é, são momentos inesquecíveis da nossa vida, momentos inestimáveis, mas devemos reconhecê-lo: somos sempre surpreendidos e enquanto escutamos, parte do tempo passamos procurando uma maneira de fugir.

E aí seguimos sendo um eterno aprendiz, acreditando que a vida pode ser bem melhor nesta atormentada busca pela felicidade que nos é negada por esta sociedade que nos impõe ritmos frenéticos e objetivos falsos que acabam eclipsando as coisas realmente importantes da vida.

1- https://www.youtube.com/watch?v=gSS2IgnnBo8

2- www.revispsi.uerj.br/v12n3/artigos/html/v12n3a08.html

3- Contornos da filosofia cristã / L. Kalsbeek; traduzido por Rodrigo Amorim de Souza. _

São Paulo: Cultura Cristã, 2015

Sobre lucaspinduca

I like to think I'm part cultural voyeur mixed with a splash of aspiring behavioral scientist and wannabe motivational christian speaker.
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