Devocionais para não devotos XIII

Deus te livre, leitor, de uma ideia fixa. Ideias fixas borram as fronteiras entre a vida e a imaginação, confundem sonho e delírio, onde metade pode ser precisão rigorosa e a outra metade delírio e festa.

Agora imagine se é uma ideia fixa ruim…

Por isso é preciso tomar muito cuidado com aquilo que a gente encasqueta. Porque podemos ser vítimas da má informação, da distorção, da mentira, da ilusão, do romantismo e até da insinuação malévola. Porque uma vez dentro da mente, estas coisas alteram a sensibilidade, provocam decisões nem sempre oportunas e acertadas, mexem com o nosso comportamento e desgastam nossas energias. E estes mesmos ingredientes podem ser encontrados nas várias tentativas de colar os cacos restantes das velhas catedrais de nossas vaidades autorais, isso acontece com todo mundo, mas principalmente entre quem é culto e quem é popular.

Há também aquelas pessoas que fixaram pensamentos que impedem a si mesmas e aos outros de se entenderem. De buscarem o desenvolvimento pessoal, afetivo, profissional, enfim, em todos os segmentos de suas vidas, pois estão estagnadas na idéia fixa que se propuseram, não se permitindo nenhum tipo de reflexão

Hoje, na era da internet, existe um lugar-comum para aqueles que encasquetam com alguma coisa e depois sangram e estrebucham sob o flagelo das feridas sociais. Em comum, todos estão sentados em algum lugar com wifi, arranhando uma tela e se perguntando “quantas ideias precisamos renegar para se refundar na cova das escolhas descartadas”?

Até mesmo o imperativo moderno “Produzir novas idéias, originais e adaptadas ao seu contexto” – definição de criatividade – tornou-se uma liminar fixa. No momento em que a inteligência artificial está interferindo em um número crescente de processos, pede-se que as inteligências humanas sejam ainda mais surpreendentes, seja no mundo econômico ou em laboratórios científicos, privados ou públicos, somos solicitados a encontrar (e publicar) “inovações revolucionárias” justificando os orçamentos e esforços alocados a elas.

Bem, moralmente redefinir sua doutrina já é se preparar melhor para responder efetivamente às problemáticas deste século. Agora pare e pense. Imagine um dia qualquer no início do século 21, se aparecesse uma tecnologia que, ao longo de uma década, mudasse vários parâmetros fundamentais da vida social e política? E se essa tecnologia aumentasse bastante a quantidade de “animosidade mútua” e a velocidade com que a indignação se espalha sobre qualquer assunto ou acontecimento?

Sabemos que pacificação é aquele trabalho do qual muitos preferem correr, particularmente aqueles de nós que são beneficiados como as coisas estão. Vozes privilegiadas são rápidas em pintar manifestantes, críticos e corpos marginalizados como perturbadores de uma paz que ainda não existe. É um jogo complicado, com vencedores e perdedores claros, sendo a Paz o último. Mas não podemos esperar participar do conserto do que está quebrado, se recusarmos reconhecer as profundezas do que está errado, e isso requer ir às margens e sentar aos pés das pessoas que a maioria está mais acostumada a demonizar e anular. Fico pensando se este mundo ainda pode ser um lugar sério, sóbrio e desconectado? Aparentemente não com uma interação humana cada vez menos genuína, significativa e com mais razões para você permanecer conectado a coisas que não o servem emocionalmente, criativa e mentalmente. Mas o secularismo que estamos vivendo não é a gestão apenas de comportamentos ou roupas no espaço público/eclesiástico e social, ainda que englobe isso! É o recall do laicismo em toda a nossa moderna sociedade! 

Há alguns anos, fiquei impressionado com o número de coisas falsas em que acreditei e com dúvidas sobre a estrutura de crenças que eu baseava nelas. Pessoas agarram-se às suas pretensas verdades por várias razões. Uma delas é o grande medo de admitir que alguma vez interpretou errado sua vida e agora, se aceitar isso, perceberá que viveu, então, uma grande mentira, apenas sobre erros. Se a verdade de cada um depende do seu modo particular de encarar a realidade, do seu ponto de vista, mudando a perspectiva relativizamos a verdade. Ora, segundo Aristóteles, Deus está imóvel e é a realidade que gira em torno Dele (eu diria abaixo Dele). Ou seja, se a perspectiva divina não muda, sua verdade permanece inalterada. Por isso diz uma doutrina cristã central: aquilo que é visto é temporário e o que não é visto, eterno; e que o que é eterno é mais importante do que o que é temporal.

Apesar de ser uma proposição aristotélica clássica, inteligente, considero que é muito fria, distante e pouco imanente. Prefiro a metáfora do Pastor supremo. Onde Deus quer nos ajudar a viver de maneira a abençoar outras vidas. O pastor que anda no meio do seu rebanho invertendo algumas vezes a lógica em prol da humanidade, nos guiando às águas tranquilas.

O Salmo 23 nos fala desse supremo Pastor capaz de suprir todas as nossas necessidades e providenciar recursos em meio a escassez. Porque Ele conhece a ovelha e o pasto tanto quanto um oleiro conhece a sua obra. Deus também sabe que viver na dificuldade nos faz duros e causadores da dificuldade alheia. Por isso Ele nos ajuda e supre, preparando algo bom no lugar mais inóspito ou em uma situação bem difícil, para quando chegar a oportunidade nós podermos agir com bondade e misericórdia também. Acreditando que cada pessoa é um ser individual e que semelhanças não querem dizer igualdades, fazendo com que tratemos as pessoas com respeito e consideração.

A idéia fixa então, é ação madrasta de pré-julgamentos e fator limitador de uma relação feliz e por isso mesmo deve ser deixada. Deve ficar claro também que não estamos simplesmente trabalhando para descansar, estamos trabalhando com um senso de descanso, satisfação e prazer na bondade de Deus. É isso que nos ensina o Salmo 23, nos impedindo de sermos frenéticos, nos impedindo de viciar no trabalho, porque nosso trabalho não é feito de maneira a lutar para que possamos chegar ao feriado. É feito a partir de um descanso que já foi alcançado.

Sobre lucaspinduca

I'm part cultural voyeur mixed with a splash of aspiring behavioral scientist and wannabe motivational Christian speaker.
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