Devocionais para não devotos XIV.

Sim, ainda estamos em uma pandemia. E ainda mantenho o meu otimismo. Sempre que mudanças importantes precisam acontecer, coisas drásticas acontecem também! Talvez você esteja perguntando: qual mudança importante ainda precisa acontecer? Bem, precisamos aprender a viver mais para o outro. Sermos mais solidários. Esta crise veio nos mostrar que estávamos tão fechados em torno do nosso ego, tão ensimesmados… Agora todas as pessoas parecem ter um vislumbre daquilo que realmente importa e era tratado por nós como banalidade.

E o que recai sobre nós é muito mais metafísico do que pensamos. É “o incômodo da existência”. Flaubert, brilhantemente, diz em poucas palavras o que os Modernos pensavam: o homem é um animal entediado. Experimentando sua solidão, descobrindo-se jogado em um mundo sem significado ou instruções de uso, ele descobre no coração do tédio, entre consternação e vertigem, a tragédia de sua condição. Um mundo que vive uma era de relativização de tudo, e da verdade como norma, onde você consegue ser a favor ou contra qualquer coisa e ter um estudo científico pra usar de pretexto pra defender suas convicções pessoais. Penso, é muito ruim esta métrica onde as pessoas precisam morrer para que as coisas mudem. Até entendo o ponto de vista dos pessimistas, embora não consiga validar mudanças favoráveis a partir de desgraças, sei que as pessoas estavam (e ainda estão) brigando por ninharias, tentando empurrar no outro a sua melhor forma de achismo.

Poucos percebem querido leitor, que o essencial além de ser invisível também é gratuito e compartilhável. Olhemos a nossa volta: ninguém dialoga, apenas empurram na goela do outro o que pretensamente acreditam ser um direito seu. E vão continuar assim por um tempo ainda (o grau de egocentrismo e xenofobia está alto demais), pois uma lição só não vai ser tão didática quanto queremos acreditar. Mas tal qual nos mostrou o personagem Wilson do filme Náufrago, em toda grande crise precisamos olhar para o outro e tê-lo como uma âncora que nos prende a realidade. Mesmo com mortes acontecendo e destruindo sonhos e famílias aos milhares, devemos continuar acreditando e dando suporte ao ser humano mais próximo. Concordo que não precisamos morrer para ter ajustes bons. Na prática, morte é o fim da ação humana. Falamos tanto de empatia, mas deixamos chegar ao ponto em que estamos por mero egoísmo. Agora precisaremos ir além da empatia, precisaremos exercitar a misericórdia.

Acredito na capacidade do ser humano para impedir a morte prematura em qualquer nível, de qualquer ser, desde que, como indivíduos pensantes de uma mesma raça e dividindo um mesmo lugar, aceitemos fazer um bom uso otimizado da razão e sermos mais comedidos com as nossas emoções. Afinal, todos nós somos responsáveis pelo outro e por este planeta também. Jane Austen, quando ninguém havia entendido o Sermão do Monte, deixou um lembrete:

“Não é o que dizemos ou pensamos que nos define, mas o que fazemos.”

Sobre lucaspinduca

I'm part cultural voyeur mixed with a splash of aspiring behavioral scientist and wannabe motivational Christian speaker.
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