E aí, como estão as coisas?

É comum dizer que “o amor é a linguagem universal”, uma forma de comunicação compreendida por todos. Isto é verdade: a maioria dos humanos são capazes de uma conexão emocional significativa e um profundo afeto em relação aos outros.

“O fato é que toda relação humana é, a um certo grau, uma relação de poder. Nós evoluímos em um mundo de relações estratégicas perpétuas.”

Estas palavras de Foucault demonstram tal como é a realidade dos relacionamentos hoje em dia.  É por isto que o mais importante deveria ser a nossa capacidade de criar conexões e olhar para o outro de maneira empática, pois isto possibilita que a gente se construa de um jeito mais bonito. Amar é isso também. Parar de privilegiar as relações líquidas atuais, e ao mesmo tempo, parar de formatar (deformar) o nosso ego sem uma verdadeira referência do “outro”; porque estamos perdendo a noção de que o mundo é maior do que aquilo que representa os nossos filtros-bolhas e nos apequenando em egocentrismo.

Pior ainda. Criamos um fetiche que nos faz pensar o quanto nosso clique, like ou unfollow é importante. O indivíduo que possui esta deformação se apresenta com uma autoimagem malformada, possivelmente por causa das experiências de reconhecimento, interpretação e projeção pessoal equivocadas, uma vez que, como afirmou Freud,

“o ego é antes de tudo a projeção de uma superfície (forma) corporal”.

E isto talvez não seja apenas uma questão “psicológica”: para Lacan, a experiência da temporalidade humana (passado, presente e memória), a persistência da identidade pessoal através de meses e anos; a própria sensação vivida e existencial do tempo, são também efeitos de linguagem, pois os ícones e pictogramas somados a uma quantidade de imagens e vídeos diminuem o “exercício físico e real” das relações; sem conversar, os relacionamentos ficam comprometidos, ficamos perdidos e existencialmente confusos, cada vez menos dispostos a demonstrar nossas vulnerabilidades. 

A maioria de nós nunca precisou pensar muito para se definir, mas agora a questão tem sido forçada: identifique-se ou peça a alguém que o rotule, projete sua história ou seja projetado. Parece que você precisa ter uma etiqueta e estar disponível em uma prateleira para ser consumido ou descartado. O que acaba criando muitos dos comportamentos e sofrimentos que supomos serem uma parte “normal” do amor (da inveja à infidelidade e ao coração partido) mas que podem ser evitados. Porque simplesmente eles não são uma parte inata do amor maduro e saudável.

Para a maioria dos cristãos, pelo menos os leitores assíduos dos evangelhos, amar ao próximo, seja ele quem for, é servi-lo em amor. Contudo, amamos o próximo ou amamos como nos sentimos quando estamos amando alguém? Na prática cristã diária somos altruístas ou egoístas? Já podemos sofrer o dano para que tudo vá bem ao outro primeiro, abrindo mão daquilo que é nosso? É. Estamos impregnados com as ideias e comportamentos laicos.

Quando duas pessoas se encontram por um certo período de tempo e ficam muito próximas, os sentidos de um registram as referências do outro em sua história. Algo importante com tanta coisa rolando por aí é poder trazer à tona a verdade que se sente, porque falar nem sempre é fácil, decodificar o que o corpo nos diz já é um grande desafio, principalmente quando se está longe, mas tudo fica mais fácil quando nos dão abertura.

Então, focar nossa existência no virtual permite-nos apenas viver em um presente perpétuo, não existindo um relacionamento frasal com o qual os diversos momentos do nosso passado apresentam uma conexão, e dessa maneira não se vislumbra nenhum futuro no horizonte. É por causa dessa linguagem digital (e as redes sociais em particular) que nos “viciamos” tão facilmente na experiência virtual, uma experiência da materialidade isolada, e às vezes até desconectada e descontínua do real.

É nas redes sociais principalmente, que temos a sensação que o outro está lá nos oferecendo meios para reduzir o tamanho do mundo, criar muros de invisibilidade, agregar massas de identidades semelhantes, projetar inimigos de ocasião, criar idealizações massivas sobre como são as vidas alheias.

“O oposto do amor é a indiferença, e o oposto da felicidade é o tédio. ” (Tim Ferriss)

Sabemos que a vida da maioria das pessoas não é necessariamente ruim, mas é terrivelmente chata. É por isso que eles precisam de entretenimento constante da televisão e/ou das redes sociais. Isto acaba produzindo um sentimento de quem vive no mundo virtual está vivendo mais do que no real e analógico, e com nitidez maior, uma experiência muito mais intensa de um definido instante do mundo, o que nos obriga a focar e a selecionar nossas percepções.

Assim descobrimos estarmos em uma sociedade que cresceu sob o grande projeto do muro protetor, que aprendeu que diante da diversidade e do conflito é possível, antes de tudo, esquivar-se e modificar a realidade em vez de modificar-se a si mesmo e aos seus pontos de vista, e sobretudo: “As pessoas querem ser desafiadas, não transformadas”.

Portanto, devemos nos concentrar em ser a pessoa mais amável possível para nosso próximo. Se ele retorna o favor ou não, cabe a ele. Afinal, só o amor real constrói, isso porque se importa de fato pelo outro e busca melhorar para auxiliar e dar suporte; O mais irônico é que o amor é a única construção do mundo que não tem fim, mas que também ninguém espera que acabe. É uma obra infinita que a gente aproveita todos os dias. E as vezes começa por uma simples perguntinha: E aí, como estão as coisas?

Sobre lucaspinduca

I'm part cultural voyeur mixed with a splash of aspiring behavioral scientist and wannabe motivational Christian speaker.
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