SÓ A VERDADE FAZ BEM A SUA SAÚDE.

Segundo Chauí (2008, p. 95) “Nossa ideia de verdade foi construída ao longo dos séculos com base em três concepções diferentes, vindas da língua grega, da latina e da hebraica.”

Na concepção grega, a verdade é alétheia, que significa o não oculto, o não dissimulado e, como tal verdadeiro, é o que se manifesta aos olhos do corpo e do espírito, é a manifestação do que é ou existe tal como é. O falso é pseudos, o escondido, o encoberto, o dissimulado, parece ser, mas não é como parece. De acordo com essa concepção, a verdade estaria na essência, sendo idêntica à realidade e acessível apenas ao pensamento e verdadeiro aos sentidos. Assim, um elemento necessário era a visão inteligível, em outras palavras, o ato de revelar o próprio desvelamento. Então podemos dizer que, a verdade em alétheia seria a busca em distinguir aquilo que temos imprevisão que seja verdadeiro. Sendo assim, a verdade já está evidenciada nas coisas.

Na concepção latina, verdade é veritas , significando exatidão, precisão, rigor do que se refere à linguagem como expressão de fatos acontecidos, a relatos ou enunciados que dizem as coisas, aos fatos tais como foram acontecidos. Se nos colocarmos pelo lado da concepção latina, podemos observar que ela se afirma na capacidade dos seres humanos em descrever com precisão um acontecimento. Essa concepção depende muito da forma que os fatos são narrados. Nesse ponto, a verdade como veritas, se trata de descrever com detalhes o ocorrido no passado. Observam-se diferenças nas duas concepções. Na latina, a precisão dos fatos que são contados é que vai determinar se esse fato é verdadeiro ou falso. Na grega a verdade está nas próprias coisas, diferentemente da latina.

Na concepção hebraica verdade é emunah, que significa confiança. Nessa concepção, Deus e os seres humanos é que são verdadeiros, mas são verdadeiros se cumprem o que prometem, se não traem a confiança. A verdade aqui está relacionada com a esperança de cumprimento do que foi prometido. Note que a fé e a crença movem essa concepção, de tal modo, que temos que acreditar em uma verdade mesmo que as evidências sejam contraditórias.

A verdade então, parece se referir ao que as coisas são, aos fatos e acontecimentos que realmente se deram tais como são relatados, e ao que virá a ser ou o que virá a acontecer porque assim foi prometido.

Se formos seguir este raciocínio, o verdadeiro nome da epidemia de COVID-19 em andamento sugere que, em certo sentido, estamos lidando com um “nada de novo sob o sol contemporâneo”. O nome verdadeiro do coronavírus é SARS 2, que é uma ‘Síndrome Respiratória Aguda Grave 2’, um nome que sinaliza a “segunda vez” dessa identificação, após a epidemia de SARS 1, que se espalhou pelo mundo na primavera de 2003. Na época, ela foi chamada “a primeira doença desconhecida do século XXI”. É claro então, que a epidemia atual não é de forma alguma o surgimento de algo radicalmente novo ou sem precedentes. É a segunda deste tipo neste século e pode ser situada como a primeira descendente. Tanto é assim que a única crítica séria que hoje pode ser dirigida às autoridades em questão de previsão é não ter financiado, após a SARS 1, a pesquisa que teria disponibilizado ao mundo da medicina instrumentos genuínos de ação contra a SARS 2.

O que mostra porque a atual pandemia não é uma situação de crise claramente contraposta a uma situação de normalidade. Desde a década de 1980 o mundo tem vivido em permanente estado de crise. Uma situação duplamente anômala. Por um lado, a ideia de crise permanente é um oximoro, já que, no sentido etimológico, a crise é por natureza excepcional e passageira e constitui a oportunidade para ser superada e dar origem a um melhor estado de coisas. Por outro lado, quando a crise é passageira, ela deve ser explicada pelos fatores que a provocam.

Paralelamente ao aparecimento do coronavírus, uma avalanche de informações sobre a infecção começa a acontecer. Seja pelas redes sociais ou por canais oficiais de mídia, muito é dito acerca do problema. Na mesma medida, observa-se uma invasão de notícias e dados irresponsáveis, sem compromisso com a realidade.

Este é um fenômeno em curso no mundo todo, o qual toma opinião por conhecimento. E por consequência, esvazia o espaço da pesquisa científica e deturpa o lugar da moral. Ou seja, enquanto a construção de conhecimento necessita de análise exaustiva, racional, contextual, complexa de um determinado assunto, a opinião é apenas um julgamento movido por visões limitadas e moduladas por sentimentos internos. Um exemplo: Você falando sobre cloroquina no comentário de uma notícia no Facebook é opinião. Cientistas das áreas de saúde estudando anos em laboratórios, no mestrado, no doutorado, publicando artigos, experienciando vivências é a tentativa de produção de conhecimento.

Sabemos que em uma crise nossas evidências nunca são perfeitas e sempre precisaremos tomar decisões antes que nossa compreensão das coisas esteja completa, especialmente quando as pessoas morrem aos milhares todos os dias, de um vírus que ninguém jamais viu antes. Mas uma ideia grosseira, se não uma ideologia, tomou conta do pânico dessa crise: que qualquer dado, por menos que seja ruim, é melhor que nenhum. “Não é perfeito”, admitiu um autor da pesquisa de anticorpos da Califórnia, John Ioannidis, da Universidade de Stanford, “mas é o melhor que a ciência pode fazer”. Isso é perigoso e errado. Como o próprio Ioannidis mostrou anteriormente, pode ser arriscado diminuir a faísca da ciência em tempos normais. No momento, pode ser ainda pior. É vital reunirmos o conhecimento o mais rápido possível, diante da pandemia, mas sacrificar os padrões científicos não fará nada para acelerar esse processo. Se alguma coisa vai acontecer é um abrandamento.

O que, exatamente, ganhamos com esse abandono louco da prática científica cuidadosa? É muito cedo para dizer com certeza, mas é bem possível que alguns resultados dos estudos descuidados acabem no final, assim como alguns estudos de qualidade superior, estando errados. Enquanto isso, as desvantagens são óbvias. À medida que o trabalho descuidado prolifera, ele gera diários não confiáveis, servidores de pré-impressão e fábricas de boatos da Internet, dificultando a classificação de fatos por pensamentos ilusórios. À margem, isso pode levar as pessoas a fazerem tratamentos não comprovados e potencialmente perigosos, como o homem do Arizona que morreu em março depois de tentar se automedicar com cloroquina. Mas os maiores danos são aqueles que se espalham pela corrente principal do nosso sistema de saúde e pesquisa. Estudos incompletos não produzem apenas resultados enganosos, eles também roubam atenção e recursos preciosos de projetos que têm uma chance real de produzir informações verídicas e aplicáveis.

O jornal americano The Economist mostrava no início deste ano que as epidemias tendem a ser menos letais em países democráticos devido à livre circulação de informação. Mas como as democracias estão cada vez mais vulneráveis às fake news, teremos de imaginar soluções democráticas assentes na democracia participativa ao nível dos bairros e das comunidades e na educação cívica orientada para a solidariedade e cooperação, já que as mentiras são uma forma poderosa de “magia” que podem induzir grandes grupos de pessoas a cometer erros terríveis, além de fazer com que fiquem cegos para o óbvio: Mentiras fazem as pessoas se machucarem enquanto pensam que estão se ajudando.

O modo como foi inicialmente construída a narrativa da pandemia nos meios de comunicações ocidentais tornou evidente a vontade de demonizar a China. As más condições higiênicas nos mercados chineses e os estranhos hábitos alimentares dos chineses (primitivismo insinuado) estariam na origem do mal. Subliminarmente, o público mundial era alertado para o perigo de a China, hoje a segunda economia do mundo, vir a dominar o mundo. Se a China era incapaz de prevenir tamanho dano para a saúde mundial e, além disso, incapaz de o superar eficazmente, como confiar na tecnologia do futuro proposta pela China? Mas terá o vírus nascido na China? A verdade é que, segundo a organização Mundial de Saúde, a origem do vírus ainda não está determinada. É, por isso, irresponsável que os meios oficiais do EUA falem do “vírus estrangeiro” ou mesmo do “coronavírus chinês”, tanto mais que só em países com bons sistemas públicos de saúde (os EUA não são um deles) é possível fazer testes gratuitos e determinar com exatidão os tipos de influenza ocorridos nos últimos meses.

A aparente veracidade das soluções sociais mais rígidas cria nas classes que tiram mais proveito delas um estranho sentimento de segurança. É certo que sobra sempre alguma insegurança, mas há meios e recursos para os minimizar, sejam eles os cuidados médicos, as apólices de seguro, os serviços de empresas de segurança, a terapia psicológica, as academias de ginástica. Este sentimento de segurança combina-se com o de arrogância e até de condenação para com todos aqueles que se sentem vitimizados pelas mesmas soluções sociais. O atual surto viral interrompe este senso comum e evapora a segurança de um dia para o outro, criando um ambiente seguro para a proliferação das opiniões embasadas em fake news.

Mas como você pode se proteger da desinformação? Em primeiro lugar, reflita antes de compartilhar: faça uma busca rápida para ver se a notícia é realmente verdadeira. Em segundo, foque nos fatos: cheque a fonte da informação e veja se ela veio de um órgão oficial, como a OMS ou do Ministério da Saúde, já que desde o início da pandemia de coronavírus, uma das preocupações da Organização Mundial da Saúde (OMS) é justamente com as informações falsas e como o cenário pode interferir na saúde mental. E em terceiro, seja cauteloso com o conteúdo: muitos vídeos e imagens são tirados de contextos. Lembre-se: a desinformação pode se espalhar tão rápido quanto o vírus. Mas fazer as perguntas certas pode impedir tanto a “infodemia” como a propagação de fake news.

Sobre lucaspinduca

I'm part cultural voyeur mixed with a splash of aspiring behavioral scientist and wannabe motivational Christian speaker.
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