Devocionais para não devotos XVII

Não sei se esperam que eu vença esta guerra, mas vou lutar o quanto puder… Oro para que chegue logo o dia em que possamos saudar um mundo no qual não devamos matar inimigos que não conseguimos odiar. Para esse fim, estou disposto a ter meu corpo destroçado inúmeras vezes. Afinal, todos nós tendemos a querer chegar logo ao “resultado final”, a solução que resolverá o conflito. Apesar de saber que é exatamente a coisa errada em que se concentrar, pelo menos no início.

Achei uma aranha minúscula em cima de um livro. Num impulso de malvadeza, aproximei minha caneca quente da aranha, que se pôs a correr freneticamente. Coloquei a caneca à sua frente, ela mudou de rota. Repeti o ato várias vezes até a aranha se imobilizar. Deixei-a sossegada por um tempo. Num novo impulso, aproximei a caneca quente por cima e ela voltou a correr. Continuamos assim por uns dois minutos. Ela então cansou, encolheu as pernas e tornou-se imóvel mesmo sem ter sido tocada pelo calor da caneca. É possível que, para essa aranha, o tamanho do livro seja o do Rio de Janeiro, e cinco minutos sejam cinco ou dez anos. Durante esse período, e nesse espaço, onde quer que ela fosse, havia calor. E quando ela parou, o calor veio de cima… Se isso acontecesse a um ser humano, ele enlouqueceria? Talvez. Uma frase de Jean-Christophe [obra que valeu o Nobel de Literatura ao romancista francês Romain Rolland] sobre isto:

“A vida consiste em uma batalha contínua e sem trégua. Se você quer se tornar um ser humano honrado, precisa lutar contra inimigos invisíveis, desastres naturais, desejos avassaladores, pensamentos sombrios; tudo o que engana a pessoa, a diminui, a destrói.”

Ajuda saber quais são as regras antes de se preparar para quebrá-las? Sim, porquê ao saber muitas vezes descobre-se que não é necessário tal ação.

Através da alegoria da aranha vejo o retrato cru e doloroso das pessoas nestes ‘novos’ tempos: sem entender o que ocorre, eles correm sem rumo, em busca de uma saída para a situação impossível causada pela angústia e ansiedade desses dias tão malucos. Seu entendimento é que não se deve preocupar com as ações e seus valores no passado, tendo em vista que nada se pode fazer a respeito do que já passou, mas que se deve, antes, buscar olhar para frente, para o futuro, tomando como motivação a escolha de ações que maximizem suas boas consequências e que reduzam ao máximo suas más consequências. A maioria deles gostaria de fazer alguma diferença no mundo. Não nego que parte desse desejo deriva da sua vontade de ter a existência reconhecida. Mas sobretudo, ela deriva do vazio que sentem e da sua ira com os chamados líderes, que são incapazes de reconhecer problemas que até eu consigo identificar. Para isso desejo me tornar um ser humano capaz, mesmo que a grande custo, capaz de identificar objetivamente a causa do problema e transmitir esse conhecimento à geração seguinte.

A aranha não entende de onde vem aquela coisa quente e não sabe como se livrar. Seres humanos também se perdem às vezes…

Sobre lucaspinduca

I'm part cultural voyeur mixed with a splash of aspiring behavioral scientist and wannabe motivational Christian speaker.
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