Uma espiritualidade não religiosa.

Sem pretender efetuar uma análise exaustiva nem tomar em consideração todos os aspetos da realidade que vivemos, proponho apenas manter-nos atentos a algumas tendências do mundo atual que dificultam o desenvolvimento da nossa espiritualidade.

Os escritos bíblicos reforçam a necessidade e destacam que a unidade é um elemento basal na Igreja Cristã. A Igreja é a reunião deste povo que foi chamado para a comunhão, para a unidade. Seja na celebração, no relacionamento, na devoção, na missão ou no comungar da fé. A Igreja de Cristo foi reunida por Ele, para louvor e glória Dele, que serve e está ligada somente Nele. Observando as características de cada povo, de cada país em cada continente, é consenso que os latinos são mais abertos ao congregar, ao reunir-se. Churrascos, aniversários, festas, muitas vezes sem motivos aparentes, fazem parte do cotidiano de um povo que gosta de estar junto, gosta de sentir o calor do próximo. Com o povo brasileiro não é diferente, há quem diga que somos o povo mais acolhedor do mundo. O Brasil é a nação onde todos são bem recebidos, bem tratados. Aqui, mesmo as reuniões mais formais, terminam com uma boa conversa sobre futebol, uma troca de receitas, uma dica de viagem ou uma boa piada que faz todos em volta rirem como se fossem velhos amigos. Gostamos do calor das relações, da conversa olho no olho, de um aperto de mão e um grande e forte abraço na chegada ou na despedida. Por isso, tem sido tão difícil viver este momento que nos impõe o distanciamento, como forma de demonstrar amor, respeito e carinho. O texto de Efésios capítulo 4, versículos 4 ao 6 é uma aclamação da fé cristã:


há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos”. 

Nela, há ecos da profissão de fé no único Deus de Israel ( Deuteronômio cap. 6.4-5 e ver Marcos cap. 12.29-30). Enumeram-se também, sete elementos da fé e da vida cristã, e se ressalta o caráter único de cada um deles. O centro de tudo é um Espírito (Santo), um Senhor (Jesus Cristo) e um só Deus e Pai. É cirúrgico em nos ensinar que a comunhão é algo divino, sagrado, é um dom de Deus, que fortalece os laços de amor, mesmo quando não estamos próximos; por isso, é possível, estarmos em comunhão mesmo afastados.

Teologicamente e filosoficamente não podemos re-significar uma cosmovisão, seja ela de pouca ou grande abrangência, sem descaracterizá-la, o que já não ocorre com o senso religioso por ser uma característica da individualidade do ser humano. A atitude que uma pessoa assume diante dos valores espirituais – Deus, vida eterna, a alma humana, o pecado, as causas do sofrimento – considerando suas convicções, práticas e comportamentos, chamamos de espiritualidade. E todos os seres humanos podem, em algum grau, serem espiritualizados; estou dizendo com isso que todos possuem a capacidade de fazer uma conexão com a sua essência ou com o transcendente para obter as respostas desejadas. Essa liberdade frente aos discursos religiosos pode ser entendida da seguinte maneira, segundo Villasenor (2011, p. 5): “o indivíduo sente-se livre para relativizar os discursos das diversas religiões em oferta, passando a bricolar vários preceitos religiosos”. Não se trata, contudo, de uma opção por produtos como dogmas ou preceitos, muito menos se trata de uma busca por referências norteadoras de um sentido último e definitivo. Trata-se de pequenos bens e serviços que atendem a satisfações relativas ao bem-estar individual.

Sobre esse enfraquecimento do sentido estruturante que pode já ter representado a dimensão religiosa em algum momento de nossa história ocidental, alerta Gianni Vattimo: “Não estou certamente frente a um patrimônio de doutrinas e de normas, claramente definidas, que resolveriam todas as minhas dúvidas e me indicariam claramente o que fazer” (VATTIMO, 1996, p. 70-1). O contexto da relativização dos discursos e do patrimônio doutrinário revela que a situação do ser humano em nossa civilização ocidentalizada vive uma significativa crise relativa à assimilação e consentimento face aos fundamentos da cultura hegemônica. Isso faz com que a centralidade de instauração de sentido migre, da religião e de seu staff, para os sujeitos. Daí se origina também a relevância do ecumenismo. Tal circunstância constituiu fenômeno único no itinerário pessoal de vida desse homem religioso, pois é por meio dele  que podem “perceber como todas as religiões em seus cumes místicos falam a mesma linguagem em todos os espaços e todos os tempos: a linguagem da ligação com a totalidade.”*

Ainda afirma SANCHIS (1997, p. 35), “o campo religioso é hoje, cada vez menos, o campo das religiões, pois o homem religioso, na sua ânsia de compor um universo-para-si, […] tende a não se sujeitar às definições que as instituições lhe propõem”. São os sujeitos os verdadeiros atores e mediadores das transações no mercado de bens e serviços religiosos. Esse controle já esteve, no passado, majoritariamente, com os agentes religiosos vinculados à oficialidade de suas agremiações. Além disso, em relação ao que ainda pretensamente se poderia continuar chamando religião, essa cultura celebra o local frente ao universal, os pequenos relatos frente aos grandes relatos, a excitação dos afetos frente às doutrinas, o amortecimento anímico frente à reflexão, paz e tranquilidade face à consciência e compromisso.

Quando se procura refletir no horizonte da cultura contemporânea o senso religioso, tenciona-se pensar este último na perspectiva de uma cultura decorrente da crise dos modelos abrangentes, falência dos grandes relatos articuladores de sentido, sejam religiosos, políticos ou culturais. Uma cultura marcada pela valorização do individual, do efêmero, também celebrada como cultura da fragmentação em que os sentidos postos têm valor enquanto sejam reconhecidos como instantâneos, móveis e passageiros. O valor está na relatividade e se a verdade já não se encontra estabelecida, a verdade é fruto do diálogo e não da imposição de interpretações que se julgam mais perto do ‘natural’”. Neste contexto, a cultura contemporânea está aqui pensada como o tempo de um particular enfrentamento do problema da identidade face à celebração da diferença, reconhecimento do valor da pluralidade, atomização e, politicamente falando, da laicidade. O que atualmente acaba criando a possibilidade de um indivíduo ter fé e espiritualidade e não participar de nenhuma religião. Esta diferenciação acontece quando preferimos projetar um deus a partir de nossas opiniões, nossas verdades e nossos conceitos mal elaborados.

Como explica Tomás de Aquino, fé é um conhecimento iluminado, embora possa crer em algo que não seja religioso. Entretanto, se um processo religioso for bem vivido pelo indivíduo acabará despertando sua espiritualidade, e será este conjunto de crenças que sustentarão e manterão suas escolhas voltadas para o que é bom e verdadeiro existencialmente. Devo lembrar que dentro do existencialismo a vida é um absurdo, até mais absurdo que a morte porque encontrar um sentido para viver é a maior dificuldade da existência humana. E o ceticismo é quase uma norma. Apesar das pessoas buscarem deixar um legado através de uma profissão, da arte, da literatura e do esporte, viver não é a respeito do que deixamos para os outros, e sim o que fazemos por nós mesmos. Ou seja, ter um sentido na vida é, antes de tudo, ser fiel a você mesmo e buscar aquilo que pode te fazer feliz. Não podemos esquecer que a razão, a filosofia, a natureza, a proximidade da morte, todas estas coisas podem iluminar, despertar o interesse do indivíduo para uma realidade transcendente e a possibilidade da vida se esgotar em si mesma; e muitas vezes ao buscar uma maneira de eliminar a angústia desses acontecimentos o indivíduo encontra uma saída na religião.

Viktor Frankl**, sobrevivente do Holocausto e psiquiatra, diz que o indivíduo precisa encontrar sentido no sofrimento (O ensino cristão por exemplo, é claro ao dizer que viver é ser afligido). E se não pode mudar o mundo, mude a si mesmo. Falta-nos a clareza do sentido potencial do que podemos realizar em nossa existência e aqui está o nó da questão! Essa incapacidade de conferir um sentido à vida leva as pessoas a enredar-se nos labirintos de neuroses e de outros fantasmas como a depressão e as drogas. É preciso pensar em como mudar crenças pessoais, buscar uma maneira nova de re-significar os sentidos e a própria existência. Pois morrer é fácil. Encarar a vida, e todo o absurdo que a cerca, é difícil.

Considerando as várias crenças religiosas existentes hoje, é interessante constatar que o grau de observância dos fiéis que a elas aderem é muito variado. Enquanto alguns aderentes são extremamente zelosos em obedecer aos preceitos de sua fé, outros não têm o mesmo tipo de empenho e de compromisso. Pelo contrário, sendo a religião um bem que assume a forma de produção coletiva em muitas situações, existe espaço para o surgimento do problema do carona, comportamento este em que indivíduos procuram apenas obter os benefícios do consumo de bens e dos serviços religiosos sem incorrer em custos. Também salta aos olhos o fato de mesmo tendo a possibilidade e a liberdade de praticar determinadas ações que, em princípio, não seriam consideradas condenáveis sob uma ética laica, muitos indivíduos optam por não as praticar em decorrência da observância da ética religiosa que adotaram.

Observando o comportamento humano nos deparamos com muitas outras situações, de forma rotineira, onde as pessoas que professam alguma religião formam suas preferências e fazem suas escolhas em um determinado horizonte intertemporal com base em suas crenças religiosas. Por outro lado, preferências moldadas em crenças religiosas também condicionam os seus aderentes a evitar o consumo, de modo temporário ou definitivo, de determinados tipos de bens e de serviços, como bebidas alcoólicas, fumo e literatura obscena. Ou de determinados tipos de alimentos. E como tem implicações de ordem econômica, no que se refere à influência das religiões na formação de crenças e estruturação das preferências individuais, isto acaba afetando a forma como são escolhidas também.

Talvez esse adjetivo ‘espiritual’ faça você pensar em coisas bem distantes da realidade atual, o céu e a vida eterna que ainda virão. E recebe o nome ‘espiritual’ por envolver um aprendizado específico: sermos guiados pelo Espírito de Deus e discernirmos sua voz. É um processo que se desenvolve ao longo do tempo e ao qual precisamos nos dedicar todos os dias. Paulo diz em Gálatas 5:16–17, “deixem que o Espírito guie sua vida. Assim, não satisfarão os anseios de sua natureza humana. A natureza humana deseja fazer exatamente o oposto do que o Espírito quer, e o Espírito nos impele na direção contrária àquela desejada pela natureza humana. Essas duas forças se confrontam o tempo todo, de modo que vocês não têm liberdade de pôr em prática o que intentam fazer.

Esse processo acontece agora, em meio à nossa vida diária, cheia de aspectos bem concretos relacionados ao trabalho, relacionamentos, pessoas, cuidados com a casa, o corpo, a comunidade e a igreja. Esse aprendizado se desenvolve no momento presente em nossa vida ordinária, enquanto Cristo está sendo formado em nós (Gálatas 4:19).

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Referências:

SANCHIS, Pierre. As religiões dos brasileiros. Horizonte: Revista de Estudos em Teologia e Ciências da Religião, Belo Horizonte, v. 1, n. 2, p. 28-43, 2o sem. 1997.

VATTIMO, Gianni. Creer que se cree. Barcelona: Paidós, 1996.

VATTIMO, Gianni; DERRIDA, Jaques. A religião. O seminário de Capri. São Paulo: Estação Liberdade, 2000.

VATTIMO, Gianni; RORTY, Richard; ZABALA, Santiago (Org.). O futuro da religião: solidariedade, caridade, ironia. Coimbra: Angelus Novus, 2006.

VILLASENOR, Rafael Lopes. Crise institucional: os sem religião e os de religiosidade própria. NURES, São Paulo, n.17, p. 1-13, abr. 2011.

Sobre lucaspinduca

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