Devocionais para não devotos XXI

“Porque paz é movimento criativo, viver a boa luta é se renovar a cada instante, insistentemente. O oposto de paz não é guerra, como somos levados a pensar corriqueiramente. O oposto de paz é estagnação! Precisamos de movimento, de um contínuo ir em frente. Dia após dia, estação após estação.”

“Gostei muito da sua definição de paz porque sempre vi de outra maneira”, alguém me disse outro dia, “porque se você parar para pensar, a definição de paz é subjetiva ao indivíduo”. Sim, é subjetivo e a gente entrega demais para o outro; porque estamos sempre a procura de pacificadores quando deveríamos ser os promotores da nossa paz. No fundo, ela depende do comprometimento unânime, sincero e sustentado das pessoas. Cada um de nós, independentemente da idade, do sexo, do estrato social, crença religiosa ou origem cultural é chamado à criação de um mundo pacificado*.

Apesar do ser humano adorar um embate, buscar o conflito com ele mesmo  ou confrontar o outro todo tempo, parece que só envelhecendo aprenderemos a escolher nossas lutas e a fugir dos conflitos desnecessários. Hoje em dia, por exemplo, a esperança de paz exige uma luta contra os algoritmos da raiva nas redes sociais, além das emoções primitivas tentando fazer nosso cérebro ‘catastrofizar’ tudo. Estamos programados para verificar constantemente as ameaças. É uma característica que nos manteve vivos na época dos caçadores-coletores, mas agora pode ter o efeito oposto. Aprendemos que a raiva se espalha mais rápido online do que a alegria e a indignação é contagiante.

Precisamos encontrar a paz e vivê-la, e um dos primeiros passos neste sentido refere-se à gestão de conflitos. Ou seja, prevenir os conflitos potencialmente violentos e reconstruir a paz e a confiança entre as pessoas é algo que precisa ser considerado urgente. Tal missão estende-se à todo o mundo porque o conflito é um processo natural e necessário em toda sociedade humana, é uma das forças motivadoras da mudança social e um elemento criativo essencial nas relações humanas, paz não é algo para aqueles sem uma causa. Nessa época de pessoas atormentadas por pesadelos, por frustrações e sonhos desfeitos, manter a paz é fundamental para não cair nas armadilhas da depressão. Afinal, ciúmes, decepções, mal-entendidos, rejeições do certo em favor do errado, problemas familiares, luto doméstico, corações partidos e mortes repentinas nos encontram desde sempre.

Tenho uma filha adulta com transtorno de ansiedade generalizada em tratamento, que costumava ter crises de ansiedade até por conta da lição de casa da faculdade. Mas no dia em que teve que trabalhar de madrugada, fazer um trabalho, dormir duas horas e ir para São Paulo resolver coisas do trabalho, precisou achar uma maneira de pacificar sua alma e aprender resiliência para não deixar nem por um segundo suas emoções saírem do seu controle.  Seguiu em frente, seguiu o fluxo. Como ela mesma diz, “a minha paz acontece quando as  coisas estão acontecendo, quando há movimento”.

Paz por estar a caminho significa que a felicidade está sendo encontrada no processo, e não no produto final. Mas isso depende da narrativa de cada um, tenho visto pessoas que ficam em paz na inércia, e aqueles outros em paz no movimento, quando as coisas acontecem e estas pessoas podem acompanhar o fluxo, pois é o que sustenta todo o seu propósito pessoal. Mas toda progressão exige de você um esforço, controle, impulso, afinal, a ideia de moto-contínuo é uma hipótese apenas; e porque todo movimento precisa enfrentar o efeito de cessar, para permanecer em paz você vai precisar estar/chegar onde precisa ou, estar sempre á caminho, sempre motivado a encontrar e permanecer. Acredito que por isso seja tão mais fácil fazer a guerra ás vezes… Viver a vida é representar um papel em uma jornada narrativa que aspira a uma certa unidade ou coerência. É também um teste para poucos.


* Clara, I. S. & Silva, M. M. (2000). Por uma pedagogia para a não violência. Porto: Profedições,4.

Sobre lucaspinduca

I'm part cultural voyeur mixed with a splash of aspiring behavioral scientist and wannabe motivational Christian speaker.
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