Que maravilhoso mundo filosófico cheio de miseráveis dúvidas!

Aqui temos o suporte da atual crise da civilização: o conflito entre conhecer e ser, entre a inteligência e a existência. Mas isto nada tem de novo. Na primeira metade do séc. XIX esta verdade antiga, já conhecida de um Nicolau de Cusa, é novamente tomada por Kierkegaard, cuja filosofia tem o seu centro na antítese do “existir” e do “pensar” e dela se aproveitou para assentar a sua fé em alicerces mais firmes ainda. Só muito mais tarde é que outros pensadores forçaram este pensamento a seguir caminhos alheios a Deus para o deixarem cair no nihilismo e no desespero, ou na adoração da vida mundana.

Mas, quando a religião pessoal (até os ateus possuem suas “divindades”) falha, todos procuram algo novo para acreditar – um novo modelo de negócio, um novo governante, uma via filantrópica, uma nova filosofia – mas encontram apenas falsos salvadores. E todos começam a questionar suas razões e crenças e abraçam um mundo de incertezas. Infelizmente, a sociedade atual, a humanidade, não percebe esse fato. Continuam a viver como se não houvesse propósito maior do que um mero existir. Olhem esta história de Nietzsche sobre um louco que sai procurando Deus, e como as pessoas que não acreditam em Deus começam a zombar dele, até que o louco para no meio deles e resume a existência deles até ali:

“Onde está Deus?”… “Eu lhes direi. Nós o matamos – Vocês e eu. Todos nós somos seus assassinos. E como fizemos isso? Como pudemos beber o mar? Quem nos deu a esponja para apagar todo o horizonte? O que fizemos quando desamarramos esta terra do seu sol? Para onde ela está se movendo agora? Para longe de todos os sóis? Não estamos caindo sem parar? Para trás, para os lados, para frente, em todas as direções? Restou alguma coisa em cima ou embaixo? Não estamos vagando como que por um nada infinito? Não estamos sentindo a respiração do espaço vazio? Não ficou mais frio? Não está chegando cada vez mais à noite? Não estamos tendo de acender lampiões de manhã? Não ouvimos apenas o barulho dos coveiros que estão sepultando a Deus? […] Deus está morto […]. E nós o matamos. Como nós, os maiores assassinos, iremos consolar a nós mesmos?” [a multidão fica perplexa e calada, o louco lança o lampião no chão…] “Cheguei muito cedo, esse acontecimento incrível ainda está a caminho – ainda não atingiu os ouvidos do ser humano”. [1]

Acredito que este acontecimento está chegando aos nossos ouvidos hoje. Nietzsche escreveu que o fim do Cristianismo significava o advento do niilismo – a destruição de todo significado e valor da vida. “Toda nossa cultura europeia está há algum tempo em movimento, numa tensão torturante que está crescendo a cada década, como na iminência de uma catástrofe: sem descanso, com violência, precipitado, como um rio que quer chegar ao fim, que não reflete mais, que tem medo de refletir.”

Lembrando… Em um mundo no qual a filosofia de Friedrich Nietzsche fosse amplamente aplicada seria aquele que a esmagadora maioria das pessoas acharia totalmente miserável, um mundo que em minha opinião dificilmente seria digno de se viver. Sobre este mundo e seus habitantes, Henry Louis Mencken diz:

“No fundo de toda a filosofia, de toda ciência e de todo o pensamento, você irá encontrar uma pergunta que inclui tudo: quem é o homem para dizer a verdade do erro? O homem ignorante resolve este problema de forma muito simples: ele sustenta que tudo o que ele acredita, ele sabe; e que tudo o que ele sabe é a verdade. Esta é a atitude de todos os teólogos amadores e profissionais, políticos e outros idiotas desse tipo… opor-se a esta teoria infantil do conhecimento é a dúvida crônica do homem instruído. Ele vê provas diárias que muitas coisas realizadas para serem verdadeiras por nove décimos de todos os homens são, na realidade, falsas, e ele está, assim, apto a adquirir uma dúvida sobre tudo, inclusive suas próprias crenças.”

Perceba caro leitor que o pensamento pós moderno não se dá por satisfeito em formular uma determinada crença sobre o homem, mas procura impô-la, fazendo uma sondagem nas profundidades do homem para obrigá-lo a tomar consciência de suas potencialidades inimagináveis; induz o homem à crença de poder ser um deus antes mesmo de atingir a dignidade que o faça humano; quer dirigir, como um farol seguro, o desenvolvimento, a realização do homem em seu caminho pelo mundo. Tudo isso não é alguma coisa que os humanistas murmuram debilmente e oferecem como opção; é um urgente “imperativo categórico” que brada dos lábios dos seus “pregadores”. O humanismo se propõe transformar o homem no centro do universo, em torno do qual tudo gravita. Como pode uma filosofia arrogar-se um império sobre o homem? Como pode pretender ter prerrogativas que incidem sobre toda a dimensão humana, cujo santuário não se abria a não ser para a potestade da religião e da fé? A resposta é a seguinte: O humanismo é uma religião, uma religião do homem pós moderno. E Johan Huizinga nos diz o porquê ela deve ser ferrenhamente combatida:

“O pensamento “condicionado pela existência”, na sua luta pela expressão, deixa que o fantasioso da alegoria, sem o freio do raciocínio crítico, penetre no argumento lógico. Se a vida não pode se exprimir em termos de lógica, o que todos têm de admitir, então chega à vez ao poeta de fazer a sua aparição onde falha a aproximação lógica. Assim tem sido desde que o mundo conheceu a arte da poesia. No processo do desenvolvimento cultural, porém, pensador e poeta puderam ser bem diferenciados e a cada um foi concedido o seu domínio próprio. Ultimamente a nova “filosofia da vida” tem revelado certa tendência para reincidir numa confusão desnorteante de meios de expressão lógicos e poéticos”. [2]

 “(…) há também uma superprodução intelectual, um excesso permanente da palavra escrita e “radiodifundida”, e uma divergência de pensamento quase irremediável. A arte foi apanhada no círculo vicioso que agrilhoa o artista à publicidade e por meio desta, à moda, qualquer delas, por sua vez depende dos interesses comerciais. Ao longo de toda a série, desde a vida do Estado à vida da família, parece estar em curso um desconjuntamento como o mundo jamais conheceu”. [3]

Porque simplesmente não é verdade dizer que vivemos em uma época de descrença – não, nós acreditamos que hoje, tanto quanto qualquer momento que veio antes, alguns de nós podemos acreditar na profecia de Brene Brown ou Tony Robbins. Podemos acreditar na bíblia da The New Yorker ou da Harvard Business Review. (…) Falamos a língua dos líderes carismáticos que prometem resolver todos os nossos problemas. Nós vemos o sofrimento como um ato necessário do capitalismo, que é um deus neste século; tomamos o texto do progresso tecnológico como a infalível verdade. E nós quase não percebemos o preço humano que pagamos quando deixamos de questionar um tijolo, porque tememos que pudesse abalar toda a nossa fundação. [4]

“O que muitas vezes parece é que o homem, abusando da liberdade obtida pelo seu controle da natureza física, se recusa a dominar-se a si próprio, sempre pronto a repelir todos os valores que o espírito para ele conquistara. Os direitos e as pretensões da natureza humana são invocados em toda parte para se oporem à autoridade de leis éticas absolutas. A condição de domínio da natureza fica assim apenas a meio do caminho”. [5]

Fyodor Dostoyevsky mostrou em seus livros que o ser humano não pode viver dessa maneira, como se não houvesse problema algum nas guerras que obrigam crianças a nascerem com a condição de apátridas ou nos regimes ditatoriais que desrespeitam leis, tratados e os direitos humanos; como se não houvesse problema nos caprichos megalomaníacos dos “King Jong-Un” da vida. Todo ser humano com suas faculdades mentais normais vai gritar e dizer que esses atos são errados. E qual a única maneira de impedir ou consertar isto? Seria com o domínio da natureza humana? Afinal, não podemos nos contentar somente com os triunfos da psiquiatria, da assistência social ou da guerra ao crime. O domínio da natureza humana só poderá significar domínio de todo indivíduo sobre si mesmo. Aí sim, este indivíduo poderá apontar a verdade do erro. Mas quem conseguiu isso? Portanto, o dilema do homem pós-moderno, que já percebeu a falência da modernidade, está entre a negação da cosmovisão cristã (e a existência de Deus) e a cosmovisão ateísta (que não tem valores objetivos, relativismo), esta que é insuficiente para proporcionar uma vida coerente e feliz ao ser humano porque hoje se constata que a realização pessoal e a coerência social andam independentemente por causa do relativismo, que fez com que cada pessoa pudesse escolher seu próprio caminho, valores e um conjunto de significado, e o intelectualismo que somente gera mais dúvidas.  Entretanto o ser humano para viver feliz e coerente precisa de sentido, valor e propósito objetivos, que, acima de tudo, integre em sua vida cosmovisão e moralidade.

Se você está perturbado pelas coisas impensadas que tem vindo a aceitar, então deve ser a hora de questionar. Então, eu não tenho um evangelho de perturbação ou de inovação ou de um ‘triple bottom line’. Eu tenho um evangelho de fé para compartilhar com você hoje, na verdade eu tenho e eu ofereço um evangelho de esperança. Porque o evangelho da dúvida não pede que você pare de acreditar, ele pede que você acredite em uma coisa nova: que é possível não acreditar, é possível que as respostas obtidas estejam erradas, é possível que às questões em si sejam erradas. Sim, o evangelho de dúvida significa que é possível que, nesta fase, neste tempo e lugar, tudo está errado. Porque ele levanta a pergunta: “por quê?”, mas não oferece a resposta para “Com todo o poder que temos em nossas mãos, por que as pessoas ainda sofrem tanto”? Fyodor Dostoyevsky responderia afirmativamente que o sofrimento do inocente pode aperfeiçoar o caráter e levar a pessoa a um relacionamento mais íntimo com Deus. Do lado da negação, ele diria que quem nega a existência de Deus desce no mais completo relativismo moral, de modo que um ateu não pode condenar nenhum ato, por mais assustador ou hediondo que seja. Então eu acho que é melhor parar de acreditar na filosofia humanista… Jesus disse: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8:32). Mas o problema é que muita gente não sabe a verdade quando a veem, e se contentam com uma mistura de verdade e falsidade, que é muito mais mortal do que o material servido por alguém que é realmente incorreto ou inadequado. Além de tudo isso, as manifestações contemporâneas que nos rodeiam parecem excluir toda ideia de um autêntico equilíbrio, pondo em movimento forças que ninguém precisa; que para ninguém trazem vantagens, que a sociedade teme e que muitos ridicularizam por serem inúteis, absurdas e prejudiciais. Ou seja, todo mundo esta procurando saídas a qualquer custo, seguindo QUALQUER caminho. Ainda não perceberam que estão em uma rotatória? Precisam de um guia?

Karl Marx escreveu um comentário devocional sobre permanecer em Cristo, que foi baseado no Capítulo 15 do Evangelho de João. Ele escreveu-o em 17 de agosto de 1835, quando ele tinha dezessete anos. A certa altura do seu curso ginasial, respondendo à prova: “Sobre a União dos Crentes com Cristo”, escreveu: “… o zelo pela virtude é abafado pela voz tentadora do pecado, e se transforma em escárnio, assim que sentimos o pleno impacto da vida. A luta pelo entendimento é posta de lado por uma vulgar concupiscência pelos bens terrenos. O anseio pela verdade é amortecido pela força doce e lisonjeadora da mentira. E assim o homem permanece como a única criatura, em toda a natureza, que não cumpre o seu propósito, o único membro do Universo que é indigno do Deus que o fez. Todavia, o gracioso Criador é incapaz de odiar a obra de suas mãos. Deseja erguê-la até onde Ele mesmo está, e, assim sendo, enviou o seu Filho, e agora nos chama através destas palavras: ‘Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado; permanecei em mim, e eu permanecerei em vós… ‘ (Jo 15.3,4).” E onde Cristo expressa com maior clareza a necessidade de união com Ele do que na bela parábola da vinha e seus ramos, na qual Ele se compara com a vinha e a nós com os ramos? Os nossos corações, a razão, a história, a Palavra de Deus, tudo nos faz apelos em altas vozes, convincentemente, dizendo-nos que a união com Ele é absolutamente necessária; que sem Ele seríamos rejeitados por Deus; que somente Ele é capaz de libertar-nos…” Uma vez que um homem tenha atingido essa virtude, essa união com Cristo esperará calma e tranquilamente os golpes da desventura. Opor-se-á bravamente às tempestades da paixão e resistirá impavidamente aos rugidos dos iníquos; pois quem poderia arrebatá-lo de seu Redentor”? [6]

A história mostra que Marx não permaneceu firme na sua fé. Para finalizar, só me restaram essas palavras:

“A gente pode reprimir ideias, fantasias e pensamentos – por reprimir, quero dizer fechar num canto da mente e esquecer. Mas, com os afetos dos quais queremos nos livrar, fazemos diferente: nós os projetamos nos outros”. [7]

1 – Nietzsche, Friedrich. The gay science, in The portable Nietzsche, By W. Kaufmann. New York, Viking, 1954, p. 108, 125.
2- HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã: diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo. São Paulo, Saraiva, 1946, p. 90-91. Capítulo O culto da vida.
3- HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã: diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo. São Paulo, Saraiva, 1946, p. 37-39. Capítulo Condições básicas da cultura.
4- http://www.ted.com/talks/casey_gerald_the_gospel_of_doubt
5- Idem ao 2.
6- http://www.christiantreasury.org/content/karl-marx-union-faithful-christ
7- CALLIGARIS, Contardo. Caderno Ilustrada da Folha de São Paulo, 07 de janeiro de 2016.
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Um pouco sobre a moderna resiliência

Se viver feliz e viver segundo a natureza é uma e a mesma coisa, como afirma Sêneca na epígrafe de A moral universal, do grande iluminista Barão de Holbach, então é possível dizer que a verdadeira moral é aquela que deve servir à vida, é aquela que está a serviço da existência. [1]

Isto parece descrever a nossa atual epidemia de narcisismo. De fato, no mito grego, Narciso se apaixona não consigo mesmo, mas pelo seu reflexo. Na versão moderna, Narciso cairia de amor pelo seu próprio feed no Instagram, e morreria de fome, enquanto compulsivamente contasse os seus seguidores. Se nossos egos estão obesos com amor-próprio, mídias sociais podem servir de fato os carboidratos emocionais vazios que desejarmos. Instagram e afins não criam um narcisista, mas estudos sugerem que eles atuam como um acelerador, uma plataforma próxima do ideal para facilitar o que os psicólogos chamam de ” grande exibicionismo”. Sem dúvida você já viu isto nos outros e talvez até um pouco em você mesmo, quando postou uma selfie, e em seguida verificou 20 vezes os “likes” marcados. [2]
O mundo contemporâneo se define pela maneira de viver e compartilhar referências comuns em um mesmo período de tempo. Ou seja, contemporaneidade é pensar na condição humana como em perpétua redefinição. Mas o indivíduo contemporâneo é, sem nenhuma dúvida, mal circunscrito, sempre à espera da sua legitimidade, sempre por detrás de um desejo, sempre alheio e ainda assim, exigente ator, criador… Observamos, em muitas situações um cidadão solitário, anônimo demais apesar de compartilhar referências comuns. Por isso, a decisão pela promoção do indivíduo e o seu desenvolvimento pessoal é o único progresso capaz de nos fazer alcançar um ideal de modernidade. É no cotidiano destes indivíduos que encontraremos elementos para distinguir sua verdade dos erros cometidos no passado e auxiliar os mesmos a progredirem neste mundo globalizado. [3]
Ao mesmo tempo, os seres humanos são separados dos animais. Temos um ser espiritual, um ser físico e uma consciência. Portanto, podemos fazer escolhas e ser responsáveis pelas escolhas que fazemos. Podemos escolher a ordem e a paz, ou confusão e caos. Se escolhermos o primeiro, podemos cultivar e compartilhar nossos talentos com os outros. Se escolhermos o último, vamos isolar e segregar os outros. Nós também podemos expandir a nossa visão para incluir o universo e a diversidade de seu povo, ou podemos permanecer limitados e rasos e isolar aqueles que nos são estranhos.
… E assim eu espero e eu suporto. Ou o que é a palavra para apenas ser paciente sem julgar enquanto o tempo passa através de você? Sempre que um forte desejo se revela ouço as palavras de meu pai na minha cabeça “Seja paciente, suporte…”. Parece que a única maneira de obter o que desejo é esperar pacientemente. Eu não acredito nas pessoas que dizem trabalhe duro e você vai conseguir. Se você é sábio e se você tivesse a chance de olhar nos olhos de uma pessoa, você saberia que você não pode obter, mesmo se você trabalhar duro. Isso simplesmente não funciona dessa maneira.
Para resolver o problema, temos que entendê-lo. A filosofia ajuda-nos a fazê-lo tão bem como a psicologia. O filósofo francês do século 18, Jean-Jacques Rousseau escreveu sobre “amour-propre”, uma espécie de amor-próprio com base nas opiniões dos outros. Ele considerava não natural e pouco saudável, e acreditava ainda que a comparação social arbitrária levava as pessoas a desperdiçarem suas vidas tentando parecer e soar atraente para os outros.
No entanto, situações ambíguas são muito mais difíceis do que certas pessoas. Existe um desejo muito forte para resolver as questões e saber o resultado e ao longo do caminho não estragar tudo. Queremos saber a verdade. Então nós imaginamos vários resultados, alguns felizes e outros trágicos. Nós fazemos listas e conversamos com amigos, mas no final o que realmente estamos procurando é uma espécie de certeza de que o universo, por qualquer motivo, não vai nos oferecer no momento.
Se para desfrutar até mesmo um agradável presente temos de ter a garantia de um futuro feliz, estamos “chorando para a lua.” Nós não temos essa garantia. As melhores previsões são ainda questões de probabilidade em vez de certeza, e mesmo com o melhor de nosso conhecimento cada um de nós vai sofrer e morrer. Se, então, não podemos viver felizes sem um futuro assegurado, nós certamente não estamos adaptados a viver em um mundo finito, onde, apesar dos melhores planos, acidentes acontecem, e onde a morte vem no fim. [4]
E, no entanto passamos a vida fugindo do momento presente, constantemente ocupando-nos com excessivos planejamentos para o futuro ou recuando ansiosamente sobre sua impermanência, e assim, invariavelmente, roubando-nos a vibração de viver.
O escapismo constante de nossas próprias vidas é a nossa maior fonte de infelicidade. Kierkegaard começa com uma observação bem conveniente para hoje, em meio a nossa cultura do “estar ocupado é uma coisa boa”:
De todas as coisas ridículas o mais ridículo, parece-me, é estar ocupado – ser um homem que com referência a sua comida e seu trabalho é muito rápido. [5] Há um ensino muito antigo que nos diz:
Não andeis ansiosos por coisa alguma; antes em tudo sejam os vossos pedidos conhecidos diante de Deus pela oração e súplica com ações de graças; Filipenses 4.6. – Bíblia JFA Offline
“Como nós gastamos nossos dias, é exatamente como nós gastamos nossas vidas”, escreveu Annie Dillard em sua reflexão intemporal sobre a presença demasiada da produtividade, um antídoto oportuno para a ansiedade central da nossa era obcecada por produtividade. Vale a pena lembrar, aqui, que “estar ocupado é uma decisão” – Aquilo que constantemente fazemos, e muitas vezes para o nosso próprio prejuízo. Como Sócrates disse: “Cuidado com a esterilidade de uma vida ocupada”.

Eu concordo quando Rosa Parks diz:
“Estamos aqui na terra para viver, crescer e fazer o possível para tornar este mundo um lugar melhor para todas as pessoas desfrutarem da liberdade”.
Apenas acrescento que esta liberdade deve ser uma verdadeira liberdade, porque hoje se vive tentando preencher lacunas de uma vida sem significado, vida que está baseada na incerteza daquilo que o futuro nos reserva como disse o filósofo Sêneca. Por isso as pessoas vivem buscando alargar os horizontes, preenchendo todos os espaços em vez de torná-lo mais comprido, através de atitudes e comportamentos mais duradouros. Susan Sontag explica isso da seguinte forma:
O tempo existe, a fim de que tudo não aconteça todo de uma vez… E espaço existe para que tudo isso não aconteça com todos vocês. [6]
E ainda assim, cada um de nós tem que fazer sua própria escolha. Eu tenho que fazer minha escolha por mim. Você tem que fazer sua escolha por você. Isso não é algo que podemos deixar de lado ou arranjar alguém que faça por nós, ou dizer para o nosso parceiro, “você decide por mim.” Mesmo não fazendo uma escolha é uma escolha. É assim que funciona. É a capacidade que cada pessoa tem de entender algo extremamente individual (ou até mesmo não entender nada) sobre determinada coisa/ obra/ poema/ fotografia está diretamente ligada ao que cada pessoa já sentiu, viu e viveu na vida, é algo intransferível e às vezes até inexplicável. O que isto significa é que nós nunca realmente experimentamos o que outra pessoa experimenta. Em última análise, todos nós estamos sozinhos no universo. No final, acho que é tudo sobre o que a fé realmente é. Fé é dar um passo atrás e olhar para as nossas vidas de muito longe, da lua, por exemplo, com um telescópio. De uma grande distância, todos os pequenos detalhes que já estamos obcecados em não parecer grande coisa. Vemos que todos os outros estão lutando também. Mesmo que estejamos sozinhos, estamos também todos nisto juntos. Então nós fazemos a nossa melhor escolha, completamente cegos e esperançosos, e esperamos o melhor. Então percebemos que não importa o que aconteça, vai ficar bem. Não OK como em “tudo vai acabar OK, vai acabar bem”, porque a vida não vem com um aviso de recebimento ou cartão de garantia. Mas tudo bem, porque a cada momento podemos escolher tomar nossas decisões com a confiança de que não importa o que aconteça, vamos gerir. Como sempre temos conseguido. E então nós escolhemos com o coração leve. Mais tarde, nós escolheremos novamente.*
Para aqueles que assim desperdiçam o seu tempo, Sêneca oferece uma advertência inequívoca:
Você está vivendo como se estivesse destinado a viver para sempre; a sua própria fragilidade nunca ocorre a você; você não percebe quanto tempo já passou, mas desperdiça-o como se você tivesse uma oferta completa e inesgotável, embora todo o tempo que você está dedicando para alguém ou alguma coisa nesse dia pode ser o seu último. Você age como um mortal em tudo o que você tem medo, e como imortal em tudo o que você deseja… Quão tarde é começar realmente a viver quando a vida tem apenas de acabar! Quão estúpido é esquecer nossa mortalidade, e adiar planos significativos para o nosso quinquagésimo e sexagésimo anos, com o objetivo de começar a vida a partir de um ponto no qual poucos chegaram! [7]
Mas o futuro ainda não está aqui, e não pode se tornar uma parte da realidade vivida até que ele esteja presente. Desde que nós sabemos do futuro é composta de elementos puramente abstratos e lógicos – inferências, suposições, deduções – não pode ser comido, sentido, cheirado visto, ouvido ou não apreciado. Persegui-lo é perseguir um fantasma constantemente em fuga, e quanto mais rápido você o persegue, mais rápido ele corre em frente. É por isso que todos os assuntos da civilização são apressado, por isso quase ninguém tem o que ele tem, e está sempre buscando mais e mais. Felicidade, então, irá consistir não de realidades sólidas e substanciais, mas de tais coisas abstratas e superficiais como promessas, esperanças e garantias. [8]
Termino aqui lembrando duas coisas: que a definição de “boa vida” de Russell continua a ser a mais simples e mais encorajadora que eu já encontrei: A boa vida é aquela inspirada pelo amor e guiada pelo conhecimento. Conhecimento e amor são ambos indefinidamente extensíveis; portanto, no entanto uma vida pode ser boa, uma vida melhor pode ser imaginada. Nem o amor sem conhecimento, nem conhecimento sem amor pode produzir uma boa vida. [9] E uma citação de C.S. Lewis:
“Uma filosofia genuína pode às vezes validar uma experiência da natureza; uma experiência da natureza não pode dar validade a uma filosofia. A natureza não irá verificar qualquer proposição teológica ou metafísica (ou pelo menos não da maneira que consideramos agora); ela ajudará a revelar o seu significado. E, nas premissas cristãs, isso não se dará acidentalmente. Pode-se esperar que a glória criada nos proporcione vislumbres da não-criada: pois uma deriva da outra e de alguma forma a reflete”.[10]

É por isso que insisto na graça que supõe para todos nós poder dispor de um tempo especial para lançar um olhar atrás sobre nossas vidas, percorrê-la até o momento presente, e comprovar que em todos os momentos a graça esteve presente, e assim, cheios de fé e confiança em Jesus Cristo, empreendermos essa última etapa da maturidade.

1-A Moral universal ou os deveres do homem fundamentados na sua natureza, Martins Fontes – selo Martins, 2015.
2-http://www.nytimes.com/2016/02/14/opinion/narcissism-is-increasing-so-youre-not-so-special.html?_r=2&utm_medium=email&utm_source=other&utm_campaign=opencourse.ODnbKv_6EeSa0SIACyGBQw.announcements~opencourse.ODnbKv_6EeSa0SIACyGBQw.Jyot5LCrEeWRTArgYkB6yQ
3-https://oficinadopinduca.wordpress.com/2011/04/16/a-globalizacao-o-anonimato-e-os-cristaos-contemporaneos/
4-Alan Watts, The Wisdom of Insecurity: A Message for an Age of Anxiety, New York: Vintage Books, a division of Random House, Inc., 2011.
5-Søren Kierkegaard; David F Swenson; Lillian Marvin Swenson; Walter Lowrie, Either/or; a fragment of life, Princeton, Princeton University Press; London, H. Milford, Oxford University Press, 1944.
6-Susan Sontag, At the Same Time: Essays and Speeches, New York: Farrar, Straus, and Giroux, 2007.
* https://vimeo.com/9679622
7-Lucius Annaeus Seneca, On the shortness of life, C D N Costa, New York: Penguin Books, 2005.
8-Idem a 1.
9-Bertrand Russell, What I Believe, Routledge Great Minds, 2004.
10-https://books.google.com.br/books?id=0qoftMnQ1rAC&pg=PT32&lpg=PT32&dq=an+experience+of+nature+cannot+validate+a+philosophy.+Nature+will+not.&source=bl&ots=gBOZHToHui&sig=uPsRdjC0zttyK03VbId_zsJvM9o&hl=pt-BR&sa=X&redir_esc=y#v=onepage&q=an%20experience%20of%20nature%20cannot%20validate%20a%20philosophy.%20Nature%20will%20not.&f=false

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Páscoa, uma época oportuna.

Todo ano na semana santa, em meio ao frissom por chocolate, infelizmente, se destacam também alguns dos excessos e fraquezas do cristianismo moderno em todo o planeta. Na pior das hipóteses, assistimos uma “Paixão de Cristo” que é uma manifestação estranha e superficial sobre as últimas horas brutais que marcaram a execução de Jesus. Onde o seu sofrimento e redenção é sempre conectado à algum momento de sofrimento e redenção pessoais ou de uma comunidade sofredora (eu acho que é por isso que as pessoas preferem chocolate!).

As atuais comemorações da “Paixão de Cristo” me fazem sentir como se estivessem encobrindo o que realmente aconteceu naquela colina chamada caveira (Gólgota) fora de Jerusalém há dois milênios. As armadilhas da glamourização deste evento cristão mundial chamado Páscoa em nada fazem lembrar que a execução de Jesus foi brutal e terrível. De fato, os romanos mataram Jesus de Nazaré com a concordância dos co-responsáveis pela morte do carpinteiro, o povo judeu, representados pelos seus líderes religiosos (muitos rejeitam essa concepção a despeito do que diz o texto bíblico). Muitas vezes nossa familiaridade com a história de sofrimento e morte de Jesus tende a banalizar os horrores da cruz. Mas não devemos nos enganar: a crucificação não era nenhum trabalho mal feito ou sem planejamento. Jesus foi vítima de uma execução romana por crucificação, a maior ferramenta do terrorismo patrocinado pelo Estado de César. Jesus morreu nu, frio e com dois criminosos, enquanto sua mãe e seu amigo observavam. Apesar da atual “Paixão de Cristo” tentar o seu melhor para comunicar essa cena de horror nas comemorações pelo mundo cristão a fora, de alguma forma ficou apenas um resumo pop sobre um amor genérico e sofrimento humano que não fazem justiça a realidade do acontecimento. Nenhuma banda estava presente, a cruz não acendeu, não houve fogos de artificio e não era um evento patrocinado por nenhuma marca de chocolate. E embora seja uma das histórias mais memoráveis da história humana, a morte de Jesus não foi noticiada a todos em seu próprio tempo. E ainda hoje continua sendo mal transmitida. Se não acredita, vá em qualquer produção cristã nestes dias e você verá, com uma roupagem pop e ás vezes consumista, a morte de Jesus parecendo com um evento repleto de estrelas e uma história de primeira página de folhetim. Mas a verdade é bem diferente. A história de um judeu (tido como rebelde sem nunca ter sido) a ser executado pelas autoridades romanas, que foi preso e condenado injustamente, abandonado pelos que deveriam recebê-lo e trocado por um assassino rebelde só chamou atenção após o evento da sua ressurreição. A partir desse fato, o sofrimento, morte e ressurreição de Jesus não foi apenas um evento histórico limitado a Palestina do primeiro século, mas também um evento cósmico, com implicações para as pessoas de todas as gerações.

Hoje, precisamos entender que celebrar a semana Santa é uma oportunidade. É uma chance de caminhar com a igreja, ao longo do tempo e em todo o mundo; como ela, a noiva, caminha com seu noivo durante a semana mais importante da história do mundo. É uma oportunidade para focar nossas mentes e buscar intensificar nosso entendimento da mais importante e atemporal das realidades: a ida passo-a-passo de Jesus ao Gólgota é uma revelação brilhante da extensão do seu amor. Ele nos amou “até ao fim” (João 13: 1), indo todo o caminho em direção a cruz por nós, sofrendo com cada contusão, cada ferida, palpitação e pontada de dor.

Talvez a moderna ideia da “Paixão de Cristo” seja o Jesus Christ Superstar* desta geração, ensinando os fiéis de hoje a curiosa história da vida de Jesus de Nazaré. Mas, como tantas tentativas de recriar o drama, não foi tão bom quanto o original. Falando em história original, o Evangelho de João utiliza 10 capítulos somente para falar sobre a última semana da vida de nosso Senhor, sua traição, suas provações, sua crucificação e sua ressurreição triunfante. O livro de Atos, que, em seguida, narra a vida da igreja primitiva, retorna aos eventos da Semana Santa com frequência (ver, por exemplo, Atos 1: 15-19; 2: 22-36, 3: 11-26; 4: 8 -12, 24-28, entre outros). Por isso você não precisa engolir todas as balelas pseudo-cristãs (e sua moral humanista achocolatada)** que geralmente são veiculadas nestes dias de semana santa. Leia a verdadeira história na íntegra numa Bíblia perto de você!

*https://pt.wikipedia.org/wiki/Jesus_Christ_Superstar

**https://youtu.be/Uo07VJbOPnY

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Compaixão é a verdadeira comunicação.

A coisa mais fascinante sobre os seres humanos é o nosso desejo irreprimível de entender as coisas. Nós temos um desejo profundo de significado. Do nascimento à morte, avançamos em nossa busca para conhecer e compreender a vida e o mundo que nos rodeia. Estamos continuamente mergulhados no trabalho consciente e inconsciente de tentar conhecer e compreender os outros e a nós mesmos. Mas nenhum de nós nunca completa.

Depois de tanto tempo, tanta água passou debaixo da ponte e a questão permanece a mesma: o amor pode mudar este mundo? Sim? Como? Porque estamos nos tornando uma sociedade de IDIOTs*. Casais que preferem digitar e enviar mensagens de texto uns aos outros do que falar um com o outro, pessoas que evitam o contato olho-no-olho, e grande parte da geração mais nova que não conseguem manter uma conversa por mais de alguns minutos sem mexer no telefone. Fica claro de tudo isso que estamos nos tornando uma sociedade de IDIOTs* distraídos pela tecnologia e desconectados das nossas relações humanas. Somos tolos e estamos nos enganando, achando que as impulsivas e superficiais conexões digitais são melhores do que as conversas e conexões presenciais. Mas os seres humanos não são máquinas que fazem sentido todo tempo. E somos mais tolos ainda porque gastamos muito de nossa energia criando motivos, justificativas, regras para definir o mundo em que vivemos e para nos guiar em nossas escolhas:

“Gente boa diz a verdade.” “Vegetarianismo é melhor afinal”. “Não quero que chova todos os dias nas minhas férias.”

Eu não vou nem falar de selfies e de “curta a minha postagem no feice”. Não nos contentamos com a vida que temos em nós e em nosso próprio ser. Queremos viver uma vida imaginária na idéia dos outros, e para isso fazemos esforço para aparecer. Queremos viver na idéia dos outros. O eu imaginário não está em mim, mas no outro. O que me satisfaz é preencher o vazio do eu com as representações que o outro tem de mim. “Trabalhamos constantemente para embelezar e conservar nosso ser imaginário e negligenciamos o verdadeiro”, fazendo da representação que o outro tem de mim a finalidade do trabalho do eu. Ou seja, o outro é o mestre de minha identidade. Temos então que tratar aqui de uma situação inversa e simétrica do bom amor de si (os membros pensantes): amar-se de um amor justo, é amar-se como outrem, Deus, nos ama, é interiorizar sua diferença. [1]

Existem milhares de pessoas fazendo o que você quer fazer para viver. Mas você é a única pessoa viva que tem a custódia de sua vida. Sua vida particular. Sua vida inteira. Não apenas a sua vida em uma mesa ou sua vida em um ônibus ou de carro ou no computador. Não só a vida de sua mente, mas a vida de seu coração. Não apenas suas contas bancárias, mas também sua alma. As pessoas não falam muito sobre a alma. É muito mais fácil escrever um currículo do que trabalhar a definição do espírito. Mas um currículo não é consolo em uma noite de inverno, ou quando você está triste, ou quebrado, ou solitário, ou quando você recebeu os resultados de seus testes e eles não são tão bons. [2]

Vivemos em um mundo onde os títulos e rótulos desempenham um papel importante nos ajudando a identificar com quem estamos interagindo e para entender onde nós sentamos em relação aos outros. Às vezes isto pressupõe que escolhemos estar desordenados devido a estas escolhas, que podem ser muito deprimentes, se você é sensível aos rótulos.

Bem, isso funciona até que algo que nós não esperávamos acontece, ou não se encaixa na versão do mundo que criamos em nossas mentes. Então nos tornamos chateados, irritados, deprimidos. Quando não podemos deixar isso passar há uma tendência de agir agressivamente para com o mundo exterior ou nós mesmos, não acreditando que as coisas não aconteceram como o esperado.

O filósofo Schopenhauer acreditava que as relações humanas nos permitem identificar o valor da moralidade, reconhecendo a compaixão como o único sentimento realmente moral, pois está acima de qualquer interesse quando o indivíduo se reconhece no outro por meio do sofrimento. Quando ambos compartilham o sofrimento e a dor podemos enxergar o nascimento da compaixão que seria reconhecer o outro como um igual, de acordo com Schopenhauer, o sofrimento do outro nos atinge de tal forma que podemos sentir piedade e enfim compaixão, é um fato inegável da consciência e esta não repousa sobre pressupostos, religiões ou classe social, mas se apresenta, enraizada na própria natureza humana.

Discordo do filósofo quanto  a compaixão ser o sentimento ideal para catalisar dor e sofrimento. Acredito no verdadeiro amor cristão que nos faz atentar para o outro. Neste ponto a conversa sempre volta ao mesmo lugar: Nós estamos tão presos aos rótulos que, muitas vezes, não percebemos a existência deles, apenas aceitamos como algo natural e, assim, perpetuamos essa cultura de estereótipos. Mas quando leio os Evangelhos percebo uma mensagem original que traz uma ideia simples e eficaz: O outro não deve ser rotulado, encaixado em um parâmetro apenas para satisfazer minha visão de mundo em meu egocentrismo. Devo sim preocupar-me com o estado alheio e ajudar a melhorá-lo como indivíduo e consequentemente, o meio social em que está. Saber escolher a boa parte e auxiliar outros a fazê-la é fundamental para influenciar a sociedade de maneira benéfica. E nós cristãos quando olhamos para o texto bíblico, entendemos que devemos erigir um altar não a nós mesmos, glorificando uma auto realização, e sim um altar feito de obediência ao Deus único e verdadeiro. Mas costuma ser difícil fazer esta escolha porque o objeto do sacrifício é a nossa própria vontade. [3]

Nestes tempos modernos, viver sem agredir é disciplinar-se para estar sempre flexível, tolerante, esquecendo até mesmo de nossa mais profunda e enraizada crença, face à evidência de que o mundo é diferente das histórias que criamos sobre isso. Mesmo que nos encontremos com algo totalmente ruim, com coisas que parecem completamente erradas, devemos deixar as nossas crenças aos poucos, como uma borboleta que pegamos na nossa mão e eventualmente deixamos ir. Chamam isso de tolerar, de ser flexível. Esta “flexibilidade” emerge de uma compreensão de que tudo o que vemos e descrevemos no mundo, se nós realmente procuramos abaixo da superfície, em última análise, não tem nenhuma substância permanente. No final, não há nada lá. E viver sem significado é impossível. Assim, continuamos a fazer novas histórias e novos significados, entendendo que nenhum deles é verdadeiro em última análise, esta frase inclusive.

Penso que há alguma ambiguidade sobre este assunto. E é isto que estamos vivendo ultimamente. Sem uma âncora na alma para nos dar sustentação quando a correnteza do mundo nos sobrevém. Por isso fornecer uma melhor forma de comunicação é o que a linguagem do coração destina-se. Fornecer ate mesmo sem esperar uma resposta de retorno. Porque doar não consiste em fazer/receber esperando uma troca justa. É dar aquilo que fará o outro ser um doador também. Precisamos espalhar ideias não apenas para comunicar e se conectar uns aos outros e sim, desejando honrar o outro e até mesmo dignificá-lo. Porque este é o fim da comunicação. Conhecer o outro e estabelecer uma relação fraternal, onde o verdadeiro significado de doar possa se realizar de fato: Aceitar um ao outro.

“Nós, que somos fortes, temos o dever de suportar as fraquezas dos fracos, em vez de agradar a nós mesmos. Portanto, cada um de nós deve agradar ao próximo, visando o que é bom para o aperfeiçoamento dele. Pois também Cristo não agradou a si próprio, mas, como está escrito: “Os insultos daqueles que te ofenderam caíram sobre mim”. (Carta aos Romanos cap. 15, versos 1 ao 3. King James Atualizada)

Precisamos acreditar que dar é a melhor forma de comunicação. A forma mais nobre de doação é dar com o coração. Apesar de nossas diferenças em termos de raça, língua, sociedade, ideias e cultura, quando o coração dá sem esperar nada em troca, não há necessidade de palavras; em última análise, somente o coração pode comunicar e se conectar a todos nós, simplesmente porque o coração é a última forma de comunicação. E qual é o conteúdo que ele comunica? Compaixão, piedade e comunhão, amor prático.

Ou seja, arranje uma vida em que você não esteja sozinho. Encontre as pessoas que ama, e que te amem também. E lembre-se que o amor não é lazer, é trabalho. Atenda o telefone. Envie um e-mail. Escreva uma carta. Arranje uma vida em que você seja generoso. E perceba que a vida é a melhor coisa do mundo, e que não tem nada resolvido previamente. Preocupe-se profundamente com a bondade que quer espalhar por aí. Pegue o dinheiro que você gastaria em besteira e dê para a caridade. Trabalhe em uma cozinha de sopão. Seja um irmão ou irmã. Todos vocês querem fazer o bem. Mas se vocês não fizerem muito bem, então o que fizerem nunca será suficiente. [4] Acreditamos que, conservando os verdadeiros valores da vida, dando amor, compaixão, consideração e acima de tudo, sendo honestos uns para com os outros, poderemos ser verdadeiramente felizes.

Podemos alcançar uma visão satisfatória sobre as coisas durante uma vida inteira, mas nós nunca sentiremos que terminamos o trabalho ou que tenhamos trabalhado toda a coisa. Há sempre mais perguntas a fazer, mais fronteiras para atravessar, mais espaços para serem pintados em nosso exame intelectual e afetivo, respostas mais intrigantes devem ser encontradas. Na verdade, a maioria de nós, eventualmente, chegará a perceber que, as perguntas que somos capazes de responder sobre o significado da vida são as questões mais importantes, mais amadas e que nos levam a lutar com afinco sobre a questão de saber o que o amor realmente é. Nossas mentes e corações são insaciáveis na busca pelo significado. Eventualmente percebemos que fazer as perguntas de maneira certa, apenas, é muitas vezes mais importante para o nosso senso de significado do que obter todas as respostas elaboradas. E para que isso aconteça tem que haver diálogo, tem que haver comunicação. Para que isto ocorra, precisamos que haja um desejo ou uma intenção, que vocês decidam o que desejam.

Bem, você vai definir a sua declaração de missão pessoal e saber como integrá-la à sua vida diária, quando uma luz que se espalha por toda a parte, transportada por homens e mulheres de boa vontade, brilhar em você! Neste Natal, siga a estrela de Belém e encontre a Luz de todos os homens!

* Impulsive Digital Isolationist Obsessive Tendencies.
1- http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0100-512X2006000200007&script=sci_arttext
2- https://oficinadopinduca.wordpress.com/2015/10/04/citacoes-que-nao-sao-obrigacoes-nao-deveriam-valer
3- Parte do discurso de Anna Quindlen (Pulitzer Prize-winning author) at the graduation ceremony of an American university where she was awarded a Honorary PhD in February 2008.
4- idem ao item 1.
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A VIDA DOS OUTROS

Por que é que a vida dos outros são sempre muito mais interessantes do que a nossa? Parece que uma vez por ano, muitas pessoas vivem a vida dos outros por um certo tempo. Ou mais de uma vez.

A vida de outras pessoas, como tem chegado até nós na chamada realidade, não é cinema, mas uma fotografia, que é o mesmo que dizer que não podemos compreender a ação apenas os fragmentos elipticamente aparados. Não há mais nada do que os momentos em que estamos com esse outro cuja vida pensamos que entendemos, ou quando falam dele, ou quando ele nos conta o que tem acontecido e projeta diante de nós o que pretende fazer. No final é um álbum de fotos, de momentos fixos; Nunca uma evolução em curso diante de nós, a transição de ontem para hoje, a primeira agulha de esquecimento na memória…1

Em paralelo a vida real há uma sociedade virtual, movida por meio das novas tecnologias, vigiando, pesquisando, stalkeando as vidas alheias. E nunca estivemos rodeados de tantas testemunhas! Esta sociedade de vigias online ou não, infelizmente, está tão mergulhada numa existência dita hoje líquida, que a ideia de ”espionar” o que se passa nas ”redes sociais” é o último pensamento da maioria antes de ir dormir e quando acordam é o primeiro a se manifestar; assim como a última luz que veem antes de adormecer é da tela que encontram assim que acabam de acordar! E em função disso, as pessoas estão vivendo vidas paralelas: uma real e uma virtual. O problema é que muitos agem como se tivessem de fato duas personalidades, o que na verdade é uma ilusão. Existe um segundo motivo também:

(…) falar de si mesmo gera prazer. Nas conversas normais uma pessoa usa em torno de 30% do tempo para falar de si próprio. Nas redes sociais este indicador sobe para 90%, com possibilidade de um feedback instantâneo, pois muitas pessoas curtem ou comentam a foto ou a mensagem publicada. (…) No Facebook e Instagram não existe crise financeira nem problemas conjugais, todos tem dinheiro, o emprego dos sonhos, o casamento perfeito, viagens maravilhosas, etc. 2

E juntamos a esses outro comportamento, muito comum, de quem tem uma segunda personalidade virtual: O cultivo de uma mera aparência da sabedoria em vez da coisa real, simplesmente porque gostamos de ser reconhecidos como alguém que possui relevantes conselhos, ou uma palavra que anima e resolve os problemas de todo mundo.  Nunca citamos tanto e tão equivocadamente escritores, atores, diretores, compositores e filósofos. Parece que estamos todos em um grande esforço diário para ratificar o pensamento individualista moderno que diz “sou o que eu mesmo escolhi ser.” Entretanto, para manter este comportamento individualista e virtual, precisamos refletir moralmente de uma maneira que possamos deixar de lado ou que tornemos abstratas nossas identidades e heranças sociais. Mas segundo MacIntyre isso é errado pois “minha história de vida estará sempre entretecida na história das comunidades das quais advém minha identidade. Nasci com um passado; tentar romper com esse passado, de forma individualista, é deturpar meus relacionamentos atuais”.3

Acredito que este é um princípio filosófico (teleológico) que deve ser aplicado para nos fazer crer que não adianta buscar na utopia de uma vida virtual idealizada a resolução de problemas de relacionamentos, psicológicos ou espirituais.

Eu percebi que o que faço e penso é importante e tem relevância para as pessoas nos meus círculos de relacionamentos, mas hoje com a velocidade da comunicação, a internet e as redes sociais, não importando muito se estou no mundo virtual ou real, a minha opinião facilmente será amplificada e isso aumentará a possibilidade da minha experiência pessoal e minhas ideias tomarem a forma de um discurso autoritativo. E vice-versa; porque dá mesma maneira que olho e investigo a vida do outro, sou pesquisado, stalkeado e lido também. E as vezes isso é tudo o que queremos mesmo quando agimos levianamente.

A maneira como organizamos a nossa vida ou como deixamos que os outros a organizem pode nos levar a perder o essencial. O que na prática deveria me fazer mais responsável com a qualidade do conteúdo que coloco a disposição nas redes sociais, com o que estou absorvendo e consumindo, até mesmo, com a maneira de exercer minha individualidade no caso de comportamento cristão. Daí a importância de desenvolvermos um estilo gracioso de viver. Onde o foco está naquilo que fazemos e não no significado que as pessoas poderiam atribuir ao que faço. “não devemos nos cansar de fazer pequenas coisas por amor a Deus. Ele não se importa com a grandeza do trabalho, mas com o amor com que é realizado”. É preciso então apontar para uma espiritualidade apoiada nas coisas simples, na fuga da obsessão pela evidência, pelo reconhecimento. O ato de olhar não é algo puramente espontâneo. Se quisermos ir além e interpretar o que enxergamos, necessário se faz treinar o olhar e começar a educar a próxima geração, os jovens cristãos ou não, a fim de perceberem a presença de Deus, para que compreendam a diferença entre as imagens, declarações e vídeos que se engajam com a humanidade, espiritualidade e com a inteligência e as que só estão tentando nos vender algo ou distrair, que tentam nos levar a uma emotividade barata cuja finalidade são ações indefinidas ou aleatórias. É preciso assimilar que só poderemos entender a narrativa da nossa vida se pudermos conectá-la como parte das histórias de outras pessoas e a vontade de Deus.

Foi neste ponto que o meu problema com a suposta emotividade alheia começou a clarear. A emoção em sua versão kitsch, extravasada por meio de chavões inautênticos, não me parece transformadora. Não me emociona. No Facebook, me soa como má literatura. Até porque já não é mais a emoção que está ali, e sim a tentativa (mal sucedida) de sua representação, que talvez esconda apenas o exibicionismo de sempre.

 

Filosoficamente a emoção é um movimento que nos coloca fora de nós mesmos (Huberman), e uma forma de transformação ativa do nosso mundo (Merleau-Ponty), ela torna-se ato quando nos extravasa e, então, podemos fazer uso dela na sociedade, engendrando transformações naqueles que se emocionam. 4

Se você não tem paz sobre o que está fazendo ou do jeito que você está se comportando, então não faça. E apesar de lidar com este tipo de pessoas todos os dias, não acho saudável olhar a própria vida, trajetória ou como você queira classificar a sua jornada pessoal neste mundo, através de um autorroteiro supereditado e canhestramente preparado para satisfazer sua autopiedade, egoísmo, egocentrismo; ou apenas para corresponder ao status quo da prática social em alta no momento, de forma artificial e pré-formatada, e ainda achar que está incluído no fluxo normal da vida, acreditando que pertence de verdade ao outro que você acaba de enganar postando um acontecimento irreal ou imaginário sobre si mesmo.

(…) Nossa cultura ensina que é preciso produzir sempre mais como indicador de sucesso ou felicidade. Dentro deste contexto, precisamos postar e compartilhar numa tentativa de gritar ao mundo o desejo de pertencimento e alimentar a satisfação do próprio ego. Nos casos mais graves, as redes sociais passam a ser um palco sombrio de fuga ou idealização em uma peça de teatro inventada, mas que sempre terá plateia cheia. 5

Não posso deixar de lembrar que “Liberdade com certeza não é de graça”… Este é o motivo de um comportamento social baseado em relações virtuais. Podemos ver que nele a tal “felicidade” também é baseada em coisas que não precisamos e regida por entidades que não controlamos, mas e daí? Sente-se e vá ver como estão vivendo os seus vizinhos! Tudo que servir para o propósito de criar um ambiente homogêneo em que somos definidos por aquilo que temos ou somos virtualmente, será sempre realmente válido nesta presente era.* Seja por motivos para suportar a vida (secular) quando nos falta paixão e propósito, ou apenas para dar contornos de vida real aos nossos desejos arbitrários.

É por isso que perdemos tempo demais olhando os bastidores da vida alheia quando deveríamos estar protagonizando a própria (e tão efêmera!) existência. Quando deveríamos viver uma vida real plena de excelência estamos existindo apenas em conformidade com as “necessidades” de ajustamento ao senso comum e midiático desses tempos pós-modernos, e, pior ainda, estamos moldando nossos jardins de maneira a ter o tom da grama do vizinho, que como todos sabem, é sempre mais verde! Parece que existimos para estar sempre em busca de um sentido, sentido este que na prática seria ordenador, entretanto não o queremos assim, pois gostamos mesmo é de olhar o mundo através de telas e janelas eletrônicas, onde preferimos curtir sem realizar, podemos julgar sem experimentar ou entender, onde a maior janela esta diante de nós oferecendo ação in loco e uma oportunidade de exercermos nossa personalidade, de manifestarmos um caráter capaz de influenciar, buscar o bem, praticar uma virtude, ser aprimorado, que é ignorado e rejeitado por uma causa simples: Não queremos perder tempo de jeito nenhum. Nem mesmo para pensar. Fazer escolhas? Muito menos. Queremos o gabarito da vida porque não queremos ficar de fora e um clique não custa nada. Então viva os layouts prontos! Copiemos o modelo social de sucesso! Somos todo default. Não se preocupe com sua essência foque na aparência, naquilo que é mais confortável. Mas como seria viver se parássemos um pouco para pensar sobre o assunto?

No final do último século ficou claro que começou uma nova era na história da humanidade, que até pode trazer um pesar, um desgosto, mas não pode ser ignorada nem mesmo pelo conservadorismo mais teimoso. Não é uma mudança que permanece abaixo da superfície, visível apenas para aqueles com um maior discernimento; pelo contrário, é claramente visível para as pessoas comuns. Invenções modernas, industrialismo, virtualidade excessiva, baixíssimo nível moral, tudo construído sobre uma premissa de pós-modernidade. Temos, em muitos aspectos, um novo mundo. Como é impossível sair da atmosfera em que respiramos, também é impossível sair deste mundo novo. E estas mudanças nas condições materiais de vida não são as únicas; Elas são produzidas por alterações na mente do homem, que vêm como resultado de mudanças em sua espiritualidade. Este novo mundo não mudou pelas forças cegas da natureza, mas sim pela ação e atividade do espírito humano.

Bem, o educador Eugenio Mussak diz: “Nesse momento de reflexão, você tem que se fazer perguntas, mas não procurar respostas. Porque o que mais falta na nossa vida são questionamentos, e a resposta só aparece quando fazemos a pergunta certa”. Para Eugenio, deveríamos fazer as seguintes questões, sempre: quem sou eu?; quem eu gostaria de ser?; o que vou fazer para vir a ser a pessoa que eu gostaria de ser? “Na tentativa de responder a isso, você vai chegar a um vestígio do que é o sentido da vida”.

Sempre quis saber o que ou quem estava por trás das paredes? Todos já fizemos isso uma vez na nossa vida, como uma criança, ou mesmo como adultos. Mas até que ponto isto é bom para nós cristãos, visto que, esta maneira instantânea de viver faz o pensamento ser substituído pelo visual, pela realização virtual das minhas vontades reais, e pelo não aperfeiçoamento real do ser humano quando o aliena de um convívio gracioso?6 A uns, a justiça humana é aplicada de uma forma; a outros, de outra forma, mesmo que as circunstâncias das transgressões sejam idênticas. Mas a justiça de Cristo, no crente, faz com que ele viva de maneira justa, em consonância com a Lei de Deus (ver Salmos 23.3, Provérbios 12.28). Viver piamente significa viver de acordo com a piedade (gr. eusebeia) cristã, é viver em santidade e respeito à palavra de Deus, em santificação. Todo esse cuidado com o comportamento cristão não é sem finalidade, mas tem um propósito muito elevado, face à vinda de Cristo: “aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do grande Deus e nosso Senhor Jesus Cristo”.

“Agora, irmãos, quero que lembrem do evangelho que eu anunciei a vocês, o qual vocês aceitaram e no qual continuam firmes. A mensagem que anunciei a vocês é o evangelho, por meio do qual vocês são salvos, se continuarem firmes nele. A não ser que não tenha adiantado nada vocês crerem nele” (1 Coríntios 15, versículos 1 e 2- NTLH).

1- Traduzido pelo autor. Julio Cortázar, “Capítulo 109”, Rayuela, Cátedra, Madrid, 2008 (1984).
2- Extraído de OFLU Revista, coluna Espaço Aberto, de 27 de setembro de 2015, Niterói.
3- Michael J. Sandel, Justiça, O que é fazer a coisa certa, 6ª Ed., Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2012.
4-http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=4136&titulo=Contra_a_breguice_no_Facebook
5- Idem ao 2.
6- Conforme https://oficinadopinduca.wordpress.com/2011/06/05/virtualidades/
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