Onde os modernos ‘selvagens’ vão?

Palavras de Santo Agostinho: “Vós dizeis: os tempos são difíceis, são tempos duros, tempos de desgraças. Vivei bem e, com uma vida boa, mudai os tempos. O tempo não prejudicou ninguém. Os que são prejudicados são os homens e aqueles de quem recebem os danos são homens. Portanto, mudai o homem e mudarão os tempos”.

As coisas que fazemos, incluindo nossas histórias, refletem, servem e muitas vezes moldam nossas necessidades e desejos. Vemos isso em todos os contos de fadas em relação a um infantil acesso ao mito; de “Cinderela” para “Alice no país das maravilhas” para o Super-homem; desde a construção de um forte, quando criança, para a construção de cidades ideais, planejadas como sociedades inteiras. Fantasia, de uma forma divertida e prática, serve as nossas persistentes necessidades e desejos iluminando a mente humana. Fantasia exprime de muitas maneiras, desde o conforto que sentimos nos poderes divinos de uma fada madrinha até o sedutor desconforto que sentimos confrontando o Drácula. Do ponto de vista prático, de todas as formas de ficção que a fantasia induz, a ficção científica (de Frankenstein ao Avatar) é a mais importante em nosso mundo moderno porque é o único tipo que reconhece explicitamente as profundas maneiras em que a ciência e tecnologia, os principais produtos da mente humana, moldam não só o nosso mundo, mas nossas esperanças e medos.

Mas não podemos viver totalmente mergulhados na fantasia ou envolvidos apenas pela utopia. Por isso podemos ver hoje uma realidade conflitante fundamentada em uma crise de sentido e de valores que se apresenta na vida pessoal e nas relações sociais das pessoas. A partir desse contexto percebe-se uma inquietação acerca do sentido da vida e do papel do “ser no mundo”, vindo assim a reaparecer com mais força o interesse pelo tema da ética, enquanto coluna vertebral da reflexão sobre a conduta do ser humano e seus valores. Não é suficiente para o homem comum e contemporâneo superar a crise da ética atual conhecendo o outro e suas necessidades para se chegar a sua convivência harmônica. Não há como superar esta crise sem um modelo de ética voltada para uma comunidade, como na polis grega. Hoje se aposta no individualismo, na competição, na sociedade do espetáculo e do consumo. [1]

Continuamos a pensar que apesar de todos os recursos disponíveis, hoje as pessoas vivem fechadas em um mundo virtualmente infantil, cuja insensibilidade altera sua constituição, tornando-os cada dia mais embrutecidos em suas relações e vivências; são preguiçosos, não criam nada, não empreendem nada, são materialistas, com uma concepção de mundo que não vai além do que veem. Aquilo que seria útil a eles e a sociedade, o exercício pleno de sua racionalidade, lhes faltam ou é totalmente desinteressante. A metáfora sugerida aqui é sobre o ‘selvagem moderno’; um selvagem é um sujeito fora do eixo cultural, alienado do fluxo histórico, não se identificando com a moral e a conduta civilizatória de seu tempo, eis o ponto em que chegamos, melhor dizendo, regressamos. A vida moderna obriga a ir cada vez mais rápido enquanto nossa racionalidade tem limites.

Antigamente se dizia “o que os olhos não veem o coração não sente”. Isto foi substituído pelo “what the heart thinks, the brain does not feel” [2]. Hoje esta inversão das posições entre o coração e o cérebro aparece como uma ego-distônica concepção ideal de vida moderna. Parece também que esqueceram que “o sentimento não é um canal de comunicação em si, ele passa por um filtro psicológico muito mais emblemático que mistura pensamentos e sensações. Ele é por natureza irracional, mas passa por filtros racionais. A visão de mundo que nutrimos e assumimos como real determina a forma como vamos sentir a realidade.

Se você acha que a vida é uma batalha, está numa selva e é mimado o mais provável é que o sentimento de raiva predomine em sua vida.

Se acha que as regras são padrões fixos e imutáveis, a justiça e a retidão são ordens implacáveis será sempre mobilizado pela culpa e o medo.

Se vê cada oportunidade como uma chance de se dar bem, obter vantagem e controle a ansiedade será seu prato predileto. Portanto, não existem emoções descoladas das ideias que fazemos sobre as coisas.”[3]

E, de fato há uma continuidade entre os nossos gostos elementares para as coisas e nossos amores para as pessoas. Uma vez que o “mais alto não se sustenta sem o menor” É melhor começar na parte inferior, com meros gostos; e uma vez que “gostar” nada significa sem tirar algum tipo de prazer nisso, temos de começar com prazer.

A primeira vez que você encontra alguém, o seu primeiro pensamento não é “Como ele funciona?” É “Como é que ele me faz sentir?” E quando você for perguntado sobre essa pessoa mais tarde, você descreve a sua personalidade: “Ela é relaxada, inteligente, espirituosa. Ela me faz rir”.

Pode parecer estranho aplicar os mesmos atributos para objetos inanimados, mas se tomarmos um momento para pensar sobre nossos pertences, todos nós temos um punhado de itens que não são particularmente úteis ou agradáveis aos olhos. Por que ainda os conservamos? Porque nós temos formado uma conexão, e eles são significativos, de alguma forma: o presente de aniversário do nosso melhor amigo, um ingresso do filme de um primeiro encontro com a pessoa especial. Essas conexões afetam-nos inconscientemente, dando vida a objetos inanimados de outra forma.

Sobre esta continuidade e lugar-comum podemos dizer que, juntos, produzem estereótipos que validam, em longo prazo, um estigma interpessoal e social quando o individual passa a caracterizar o coletivo. Isto acontece porque a atual visão de mundo reforça alguns valores que sustentados pelo senso comum acabam por produzir os mitos ideológicos modernos quase incontestáveis. Por isso o hábito de compreender o sucesso de um indivíduo como mérito unicamente pessoal em nossa época, tem sido moldado de maneira crescente como valor de prestígio na sociedade contemporânea. No centro dessa ideia incluem-se perspicácia, inteligência e determinação. Assim, o sujeito vitorioso é colocado num patamar de destaque para que o resultado do desenvolvimento de suas potencialidades seja, reiteradas vezes, celebrado. Este triunfo individual reconhecido socialmente se apresenta então como condição indispensável para que alguém se sinta realizado e fortaleça seus valores na sociedade. Quanto mais uma pessoa descobrir e aprimorar em si o talento que a promoveu e adequá-lo mais rápido às necessidades e regras sociais, maior será sua consagração. E isto, algumas vezes, parece não depender tanto de conhecimento ou virtudes, e sim da capacidade humana de se despir da racionalidade, do pensamento e reflexão, para se tornar apenas mais um animal em busca de sobrevivência e vingança na selva urbana e midiática atual. Como já foi dito:

[…] Como consequência, despontaram, não só em alguns filósofos, mas no homem contemporâneo em geral, atitudes de desconfiança generalizada quanto aos grandes recursos cognoscitivos do ser humano. Com falsa modéstia, contentam-se de verdades parciais e provisórias, deixando de tentar pôr as perguntas radicais sobre o sentido e o fundamento último da vida humana, pessoal e social. Em suma, esmoreceu a esperança de se poder receber da filosofia respostas definitivas a tais questões (PAULO II, 1998).

E o dilema moderno permanece o mesmo: Pense em todas as escolhas feitas que trouxeram você até aqui. Pergunte-se porque você optou por elas, será que em nenhum momento você foi capaz de ver esse furacão, ou será que você viu, mas preferiu acreditar que tudo se acalmaria?! Faça ainda esta outra pergunta: como seria se você tivesse a chance de fazer novas escolhas, se você não tivesse optado por entrar nesse furacão?[4]

Esta é uma das características distintivas da vida moderna: ela fornece inúmeras oportunidades para considerar (à distância, por meio de fotografia, vídeos) todas as coisas que estão acontecendo ao nosso redor. Imagens e acontecimentos (quer sejam atrocidades ou não) tornaram-se, através das pequenas telas da televisão, dos celulares e do computador, uma espécie de lugar-comum. Ou então: “vive num mundo de fantasia”:

“O principal personagem da história é Deus, que fez a Terra e outras coisas. Em primeiro lugar, todos os anjos lhe obedecem, mas um fica de saco cheio e desiste. Ele é punido com o inferno (é um lugar real, não uma palavra feia) e se transforma em Satanás, que é uma parte bem legal. Deus após cria Adão & Eva (que têm um catálogo nomeado por eles agora. É incrível). Eles vivem em um jardim e estão todos felizes e tal até Eva estragar e eles são expulsos. O mesmo tipo de coisa aconteceu com meu irmão e sua namorada”.[5]

Parafraseando Platão, quem são os seguidores da sabedoria, se pelo exposto acima, não são nem os sábios nem os ignorantes (porque a sabedoria deste tempo é capaz de pensamentos fantásticos como este sobre o Genesis e a criação)?

Tudo bem. Bêbados existem em todos os lugares. Aliás, a embriaguez habitual é geralmente o resultado da incapacidade de acomodar-se inteiramente à realidade, dizem os psicólogos.

As pessoas anseiam vagamente por algo diferente do mundo que elas conhecem, mas elas não têm a capacidade de aproximar este mundo ao desejo dos seus corações. Ainda mais, eles não têm a capacidade de atingir uma visão abrangente da beleza emanada neste mundo. Nem a arte da fuga, nem a arte de revelação são possíveis para eles. No entanto, eles têm percepções que não podem usar e impulsos que nunca chegarão a ser concretizados. Logo, a bebida, ou alguma outra droga, aliviam o seu sentimento de impotência e borram os contornos hostis do mundo real trazendo consolo e acabam por isso se tornando uma necessidade.[6] Quem procura este tipo de alívio rápido (os modernos selvagens?) experimentará com certeza algum tipo de vergonha. A vergonha é uma sensação humana de conhecimento consciente de desonra, desgraça, ou condenação. Seu sinônimo, ignomínia, dá a entender o efeito de uma ação desonrosa ou injusta. A ação ignominiosa está relacionada com o descaramento e a desonra de um indivíduo a quem as considerações morais lhe são indiferentes e que é, consequentemente, objeto do descrédito geral (cf. Wikipédia).

Então onde está o limite? Esta é uma pergunta importante para que se saiba até onde ir nas buscas, conquistas e realizações. Contudo, uma pergunta sem resposta. Muitos limites estão estabelecidos pelas leis, mas estas não conseguem abranger a infinita variedade que envolve a ação humana e os detalhes da vida. E mesmo nas situações previstas em lei, a variação de aspectos é tão grande e frequente que justificam a presença dos intérpretes para definir a correta aplicação dos dispositivos legais. Desse modo, a sabedoria é superior à lei pois se aplica a toda e qualquer situação. Em cada instante, em cada caso específico, só a sabedoria poderá definir com precisão o limite para as ações humanas.

E “Um deles é saber a diferença entre moral e sabedoria. A moralidade é temporária, Sabedoria é permanente…” – Hunter S. Thompson.

Recordemos que, se o corpo clássico (do conhecimento) é ordenado, então deve também em termos metafóricos ser saudável. ‘A ordem é a mais antiga preocupação da filosofia política,’ Susan Sontag escreve em ‘Doença como metáfora’, e se é plausível comparar a polis com um organismo, então é plausível comparar a desordem civil com uma doença’. Qualquer sinal da doença é uma ameaça para a ordem e como Sontag torna tudo muito claro, a ‘pior’ doença de todas é o câncer. Ela mostra como uma doença, e em particular o câncer, é frequentemente usado como uma metáfora para descrever o mal-estar da sociedade. ‘Nenhuma visão política específica parece ter um monopólio desta metáfora. Trotsky chamou o estalinismo de câncer do marxismo’, o Gang of Four eram chamados de ‘o câncer da China’ e ‘a metáfora padrão das polêmicas árabes […] é que Israel é “um câncer no coração do mundo árabe.”‘ Para a pessoa com câncer, esta metáfora tem o efeito de separá-los como um intocável; câncer é visto como uma espécie de punição. Para a sociedade, a metáfora cancerosa exige tratamento agressivo para que a cura seja devidamente efetuada. O câncer deve ser retirado para que o corpo saudável seja restabelecido e então a ordem possa ser reconstruída.

Joseph Campbell afirma que “Metáforas nos carregam de um lugar para outro; nos capacitam a cruzar fronteiras que, de outra maneira, estariam fechadas para nós”. Ou seja, é inevitável que tenhamos que construir nosso próprio caminho em lugar de trilhar o de outra pessoa, sendo necessário conhecer o significado dos símbolos e signos, para colocá-los dentro de um contexto cultural e de época. Numa mitologia tradicional ou, se prefere, sistema religioso tradicional, as imagens e os rituais por meio dos quais estas imagens são integradas na vida de uma pessoa são apresentados oficial e impositivamente pelos pais ou pela evangelização religiosa, e se espera que o indivíduo experimente os significados e os sentimentos visados.

Se, como aconteceu no mundo contemporâneo, todos os fundos das imagens de nossa herança religiosa se transformam, como ocorre quando encontramos a nós mesmos num mundo de máquinas em lugar de um mundo de vida pastoral, essas imagens alteradas realmente não podem e não comunicam os sentimentos, as emoções e os significados que comunicaram às pessoas que viveram no mundo em que essas imagens foram desenvolvidas.

Porém, há um perigo real quando as instituições sociais inculcam nas pessoas estruturas mitológicas que não combinam mais com sua experiência humana. Por exemplo, quando se insiste em certas interpretações religiosas ou políticas da vida humana, pode ocorrer dissociação mítica. Pela dissociação mítica, pessoas rejeitam ou são separadas de efetivas noções explicativas a respeito da ordem de suas vidas.[7]

Finalizando, a questão cristã a ser resolvida é esta: Será que as pessoas estão tentando desenvolver-se, melhorando a si mesmas e às circunstâncias em que vivem, sem tocar na raiz do problema? Será que o amor a si próprio está escondido sob os mais benevolentes gestos e por trás das orações mais fervorosas? Que tipo de crescimento pessoal às pessoas estão procurando? O crescimento pessoal que vai aumentar sua autoestima, ou o crescimento pessoal que envolve negar a si mesmo e tomar a sua cruz? O crescimento pessoal que vai confirmar o valor de seus próprios egos, ou o que as tornará semelhantes à imagem de Cristo?

Ambas as formas de crescimento, tanto a que se inclina para o amor a si mesmo quanto a que se inclina para amar a Deus, têm um custo elevado. Amar a si mesmo mais do que amar a Deus leva a uma perda espiritual, mas amar a Deus com todo o seu ser leva a negar o “eu” e faz com que o efeito mortal da cruz se faça sentir contra o velho homem (aquele “eu” ao qual muitos de nós ainda estão agarrados e amam), que deve ser considerado morto (cf. Carta aos Romanos cap. 6).

Os homens são infelizes e sofrem com os problemas da vida porque se tornaram “amantes de si mesmos” e “mais amigos dos prazeres que amigos de Deus”. A inclinação pecaminosa do ser humano é amar a si mesmo mais do que a Deus e às outras pessoas. O egoísmo se agarra à natureza humana e produz inveja, luxúria, orgulho, arrogância, desrespeito por Deus, desobediência aos pais, falta de gratidão, engano, provocando tanto a paixão pelos seus próprios caminhos quanto à contenda por causa deles. Ele leva também a falsas acusações, que são exageradas, já que as pessoas têm sido encorajadas a culpar seus pais, as circunstâncias, e a qualquer outra coisa, menos a si mesmas, pela sua condição de vida.[8]

Sabe, porém, isto: que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos.

Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons, traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus, tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te.

Porque deste número são os que se introduzem pelas casas, e levam cativas mulheres néscias carregadas de pecados, levadas de várias concupiscências; Que aprendem sempre, e nunca podem chegar ao conhecimento da verdade.

Não irão, porém, avante; porque a todos será manifesto o seu desvario, como também o foi o daqueles – 2 Timóteo 3:1-7, 9.

[1] http://www.portalconscienciapolitica.com.br/products/filosofia-etica-e-sociedade/
[2] https://www.flickr.com/photos/19728372@N03/26004473653/
[3] http://www.sobreavida.com.br/2012/01/23/o-que-os-olhos-nao-veem-o-coracao-nao-sente/
[4] https://aboutabove.wordpress.com/2011/12/18/um-ceu-cinza/
[5] https://br.pinterest.com/pin/28921622581331053/
[6] http://www.goodreads.com/book/show/967553.Beethoven.
[7]https://books.google.com.br/books?id=1Kw5OWibZ0oC&pg=PA21&lpg=PA21&dq=THOU+ART+THAT+TRANS%E2%80%A6&source=bl&ots=jbNHdLgFwA&sig=_yEUePZf8cai2vrq1b8acUqQJKQ&redir_esc=y#v=onepage&q=THOU%20ART%20THAT%20TRANS%E2%80%A6&f=false
[8] http://www.apaz.com.br/mensagens/tempos_dificeis.html
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Você tem uma mensagem!

“Já se disse que viver é uma aventura, e a vida é bela justamente por seu caráter imprevisível. Viver intensamente é retirar da vida tudo o que ela tem para oferecer, o que não é pouco, mas sem um bom plano é melhor nem sair de casa. E, um bom plano é aquele que considera a possibilidade de uma alteração, ou mais de uma. Sim, a vida é imprevisível, e é cada vez mais. E é bom que estejamos preparados para isso. Sempre.” [Eugenio Mussak]

Houve um tempo que a esperança vinha do mar; depois passou a vir das antenas de TV. Hoje vem da internet. Antigamente lançávamos garrafas com pedidos ao mar; depois passamos a nos espremer em auditórios lotados ou a espremer os olhos em frente à tubos catódicos de catorze polegadas. Agora, seguimos os perfis dos nossos gurus nas redes sociais. Buscamos interação com o mundo virtual no afã de alterar o real. Nada foi alterado até aqui. Ou, como nos lembra o índio americano em “A Matriz Divina”, de Gregg Braden: “Então alguma coisa aconteceu”, ele disse. “Ninguém realmente sabe o porquê, mas as pessoas começaram a se esquecer de quem eram. Ao se esquecerem, começaram a se sentir separadas,separadas da terra, separadas umas das outras e até mesmo de quem as havia criado. Ficaram perdidas, vagando pela vida, sem nenhuma direção ou destino. Nesse estado de segregação acreditavam que deviam lutar para sobreviver aqui neste mundo, para defender-se das mesmas forças que lhes concederam a vida, que tinham aprendido a viver com tanta harmonia e confiança. Logo passaram a se proteger energicamente do mundo em que viviam, em vez de viverem em paz com o mundo que estava dentro deles.”

O peso existencial precisa ser carregado pelo indivíduo. Muitos fogem, tentam se isolar e acabam necessitando de algum tipo de resgate.  O peso de existir para quê ou quem precisa ser carregado com um outro, dividido com alguém. Seja em  garrafas, catálogos com a programação televisiva ou smartphones.

A fome que quer dar um sentido a minha existência continua. Logo, existir torna-se possuir, ter um marco existencial. O homem desvia sua necessidade psicológica e espiritual para o físico, criando falsas necessidades. Por isso, muitas pessoas com ansiedade desviam seu problema para uma ilusória necessidade de alimentação (e viva os food trucks!). A infelicidade ou sentimento de insatisfação pode ser erroneamente identificado como falta de alguma coisa material, quando, na realidade o que está faltando é algo mais íntimo, profundo e espiritual.

O homem projeta seus desejos para além daquilo que possui. Como jamais terá tudo o que deseja e, mesmo que tivesse, passaria a ter novos desejos, o homem está condenado a nunca conhecer a felicidade verdadeira. Ainda não entendemos que a medida de todas as coisas não pode ser aferida por homens, cuja limitação moral, intelectual e espiritual é risível diante da magnitude do horizonte que está a nossa frente. O verbo ser não é muito apropriado para o ser humano, a não ser naquela declaração divina: “Tú és pó.” Aí está o que o homem é. Nas outras questões, o verbo “estar” é o mais coerente com a transitoriedade humana.

Apesar de vivermos na era da informação, toda tomada de decisões sempre exigirá uma vontade forte, altruísta e alinhada com o seu tempo. Por isso pensar dói e conhecer machuca demais, pois percebemos a necessidade de subir a montanha e vislumbrar do topo, a terra da oportunidade onde o que somos encontrará um sentido afinal. Mas o ensino comum dos nossos dias diz que subir nos ombros de gigantes é muito mais cômodo. Estes “gigantes” nos levarão a passear e ver tudo que sonhamos ou desejamos. Infelizmente a nossa mediocridade atual e o ventriloquismo metafísico que impera no mundo nos apresentam esta realidade, que é difícil de encarar, onde um copo é como um mar, um jardim nos parece uma floresta tropical; um e-mail pode ser um salvo conduto para Terabítia. Conforme disse Epíteto, “o que perturba e assusta o ser humano não são as coisas, mas suas opiniões e fantasias sobre as coisas”.

Agora com as redes sociais, o mundo parece obedecer a nossa vontade. Nós não concordamos mais com os limites individuais e coletivos, as discussões não só não ajudam a construir o consenso que é suposto acontecer, mas proíbem a sua formação, exacerbando antagonismos onde avançam a incompreensão mútua.

Albert Camus na abertura do ensaio que abre o livro “O mito de Sísifo”, afirma: “Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia”. A pergunta essencial, claro, é qual o sentido da vida. Ficamos à mercê da ideologia de ocasião; aquela que ajusta a sua necessidade ao modismo sabiamente preparado para satisfazer a necessidade do aqui e agora, afinal, Epicuro estava certo, o importante é viver tudo que há pra viver, e assim vamos nos permitindo ser superficiais, vivendo de coisas supérfluas, soberbos em nossa nanica existência. Onde, por exemplo, se queremos entrar em um grupo, procuramos ser iguais aos demais, assumindo valores e padrões de identificação do grupo, afim de sermos aceitos. Queremos ser normais, de acordo com as normas do grupo. Depois que nossa admissão está consumada, procuramos ser diferentes para obter destaque. Buscamos então a individualidade. Em última análise, o que queremos é não ser comuns, óbvios demais. Queremos ser específicos, especiais, diferentes. Por isso, sempre desejamos posições, adjetivos e títulos que nos façam diferentes e, de preferência, superiores ao nosso próximo. E de tanto nos individualizarmos, no final, acabamos por esperar um auxílio que não virá, já que o pedido nunca foi feito ou, se foi feito, o lançamos em uma garrafa escura, com uma caveira no rótulo para inibir qualquer um de abrí-la e tentar o resgate.

Esta nossa eterna arrogância de achar que o mundo é conforme o que imaginamos e não como é; esta necessidade de ser mestres sem ter aprendido nada. Ainda mais quando “A ciência se apresenta hoje, em sua objetividade, como o único fornecedor de verdades que pode ser recebido por todos, mas, ao mesmo tempo, o real como a ciência moderna entende, e o conhecimento que dispensa, não fornecem educação sobre o propósito que vale a pena continuar.” Todo mundo está tentando impor valores, em vez do bem; o desafio é reelaborar um meio de harmonizar e aproximar os relacionamentos para que o mundo inspirado por este novo padrão de proporcionalidade, entre meios e fins, entre os propósitos e as faculdades do ser humano… se permitam tanto o respeito quanto a possibilidade de emancipação. 

Enfim, no meio de tanto Carpe Diem, Carpe Futurum, quase dá para esquecer que uma vida vivida com medo é uma half-life! A vida que não se questiona não vale a pena. É a tal arte de viver com fé mas sem saber fé em quê. Opa! Mais um e-mail recebido contendo um Ppt com fotos lindas, uma ideia para se auto ajudar com uma música melancólica!

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Que maravilhoso mundo filosófico cheio de miseráveis dúvidas!

Aqui temos o suporte da atual crise da civilização: o conflito entre conhecer e ser, entre a inteligência e a existência. Mas isto nada tem de novo. Na primeira metade do séc. XIX esta verdade antiga, já conhecida de um Nicolau de Cusa, é novamente tomada por Kierkegaard, cuja filosofia tem o seu centro na antítese do “existir” e do “pensar” e dela se aproveitou para assentar a sua fé em alicerces mais firmes ainda. Só muito mais tarde é que outros pensadores forçaram este pensamento a seguir caminhos alheios a Deus para o deixarem cair no nihilismo e no desespero, ou na adoração da vida mundana.

Mas, quando a religião pessoal (até os ateus possuem suas “divindades”) falha, todos procuram algo novo para acreditar – um novo modelo de negócio, um novo governante, uma via filantrópica, uma nova filosofia – mas encontram apenas falsos salvadores. E todos começam a questionar suas razões e crenças e abraçam um mundo de incertezas. Infelizmente, a sociedade atual, a humanidade, não percebe esse fato. Continuam a viver como se não houvesse propósito maior do que um mero existir. Olhem esta história de Nietzsche sobre um louco que sai procurando Deus, e como as pessoas que não acreditam em Deus começam a zombar dele, até que o louco para no meio deles e resume a existência deles até ali:

“Onde está Deus?”… “Eu lhes direi. Nós o matamos – Vocês e eu. Todos nós somos seus assassinos. E como fizemos isso? Como pudemos beber o mar? Quem nos deu a esponja para apagar todo o horizonte? O que fizemos quando desamarramos esta terra do seu sol? Para onde ela está se movendo agora? Para longe de todos os sóis? Não estamos caindo sem parar? Para trás, para os lados, para frente, em todas as direções? Restou alguma coisa em cima ou embaixo? Não estamos vagando como que por um nada infinito? Não estamos sentindo a respiração do espaço vazio? Não ficou mais frio? Não está chegando cada vez mais à noite? Não estamos tendo de acender lampiões de manhã? Não ouvimos apenas o barulho dos coveiros que estão sepultando a Deus? […] Deus está morto […]. E nós o matamos. Como nós, os maiores assassinos, iremos consolar a nós mesmos?” [a multidão fica perplexa e calada, o louco lança o lampião no chão…] “Cheguei muito cedo, esse acontecimento incrível ainda está a caminho – ainda não atingiu os ouvidos do ser humano”. [1]

Acredito que este acontecimento está chegando aos nossos ouvidos hoje. Nietzsche escreveu que o fim do Cristianismo significava o advento do niilismo – a destruição de todo significado e valor da vida. “Toda nossa cultura europeia está há algum tempo em movimento, numa tensão torturante que está crescendo a cada década, como na iminência de uma catástrofe: sem descanso, com violência, precipitado, como um rio que quer chegar ao fim, que não reflete mais, que tem medo de refletir.”

Lembrando… Em um mundo no qual a filosofia de Friedrich Nietzsche fosse amplamente aplicada seria aquele que a esmagadora maioria das pessoas acharia totalmente miserável, um mundo que em minha opinião dificilmente seria digno de se viver. Sobre este mundo e seus habitantes, Henry Louis Mencken diz:

“No fundo de toda a filosofia, de toda ciência e de todo o pensamento, você irá encontrar uma pergunta que inclui tudo: quem é o homem para dizer a verdade do erro? O homem ignorante resolve este problema de forma muito simples: ele sustenta que tudo o que ele acredita, ele sabe; e que tudo o que ele sabe é a verdade. Esta é a atitude de todos os teólogos amadores e profissionais, políticos e outros idiotas desse tipo… opor-se a esta teoria infantil do conhecimento é a dúvida crônica do homem instruído. Ele vê provas diárias que muitas coisas realizadas para serem verdadeiras por nove décimos de todos os homens são, na realidade, falsas, e ele está, assim, apto a adquirir uma dúvida sobre tudo, inclusive suas próprias crenças.”

Perceba caro leitor que o pensamento pós moderno não se dá por satisfeito em formular uma determinada crença sobre o homem, mas procura impô-la, fazendo uma sondagem nas profundidades do homem para obrigá-lo a tomar consciência de suas potencialidades inimagináveis; induz o homem à crença de poder ser um deus antes mesmo de atingir a dignidade que o faça humano; quer dirigir, como um farol seguro, o desenvolvimento, a realização do homem em seu caminho pelo mundo. Tudo isso não é alguma coisa que os humanistas murmuram debilmente e oferecem como opção; é um urgente “imperativo categórico” que brada dos lábios dos seus “pregadores”. O humanismo se propõe transformar o homem no centro do universo, em torno do qual tudo gravita. Como pode uma filosofia arrogar-se um império sobre o homem? Como pode pretender ter prerrogativas que incidem sobre toda a dimensão humana, cujo santuário não se abria a não ser para a potestade da religião e da fé? A resposta é a seguinte: O humanismo é uma religião, uma religião do homem pós moderno. E Johan Huizinga nos diz o porquê ela deve ser ferrenhamente combatida:

“O pensamento “condicionado pela existência”, na sua luta pela expressão, deixa que o fantasioso da alegoria, sem o freio do raciocínio crítico, penetre no argumento lógico. Se a vida não pode se exprimir em termos de lógica, o que todos têm de admitir, então chega à vez ao poeta de fazer a sua aparição onde falha a aproximação lógica. Assim tem sido desde que o mundo conheceu a arte da poesia. No processo do desenvolvimento cultural, porém, pensador e poeta puderam ser bem diferenciados e a cada um foi concedido o seu domínio próprio. Ultimamente a nova “filosofia da vida” tem revelado certa tendência para reincidir numa confusão desnorteante de meios de expressão lógicos e poéticos”. [2]

 “(…) há também uma superprodução intelectual, um excesso permanente da palavra escrita e “radiodifundida”, e uma divergência de pensamento quase irremediável. A arte foi apanhada no círculo vicioso que agrilhoa o artista à publicidade e por meio desta, à moda, qualquer delas, por sua vez depende dos interesses comerciais. Ao longo de toda a série, desde a vida do Estado à vida da família, parece estar em curso um desconjuntamento como o mundo jamais conheceu”. [3]

Porque simplesmente não é verdade dizer que vivemos em uma época de descrença – não, nós acreditamos que hoje, tanto quanto qualquer momento que veio antes, alguns de nós podemos acreditar na profecia de Brene Brown ou Tony Robbins. Podemos acreditar na bíblia da The New Yorker ou da Harvard Business Review. (…) Falamos a língua dos líderes carismáticos que prometem resolver todos os nossos problemas. Nós vemos o sofrimento como um ato necessário do capitalismo, que é um deus neste século; tomamos o texto do progresso tecnológico como a infalível verdade. E nós quase não percebemos o preço humano que pagamos quando deixamos de questionar um tijolo, porque tememos que pudesse abalar toda a nossa fundação. [4]

“O que muitas vezes parece é que o homem, abusando da liberdade obtida pelo seu controle da natureza física, se recusa a dominar-se a si próprio, sempre pronto a repelir todos os valores que o espírito para ele conquistara. Os direitos e as pretensões da natureza humana são invocados em toda parte para se oporem à autoridade de leis éticas absolutas. A condição de domínio da natureza fica assim apenas a meio do caminho”. [5]

Fyodor Dostoyevsky mostrou em seus livros que o ser humano não pode viver dessa maneira, como se não houvesse problema algum nas guerras que obrigam crianças a nascerem com a condição de apátridas ou nos regimes ditatoriais que desrespeitam leis, tratados e os direitos humanos; como se não houvesse problema nos caprichos megalomaníacos dos “King Jong-Un” da vida. Todo ser humano com suas faculdades mentais normais vai gritar e dizer que esses atos são errados. E qual a única maneira de impedir ou consertar isto? Seria com o domínio da natureza humana? Afinal, não podemos nos contentar somente com os triunfos da psiquiatria, da assistência social ou da guerra ao crime. O domínio da natureza humana só poderá significar domínio de todo indivíduo sobre si mesmo. Aí sim, este indivíduo poderá apontar a verdade do erro. Mas quem conseguiu isso? Portanto, o dilema do homem pós-moderno, que já percebeu a falência da modernidade, está entre a negação da cosmovisão cristã (e a existência de Deus) e a cosmovisão ateísta (que não tem valores objetivos, relativismo), esta que é insuficiente para proporcionar uma vida coerente e feliz ao ser humano porque hoje se constata que a realização pessoal e a coerência social andam independentemente por causa do relativismo, que fez com que cada pessoa pudesse escolher seu próprio caminho, valores e um conjunto de significado, e o intelectualismo que somente gera mais dúvidas.  Entretanto o ser humano para viver feliz e coerente precisa de sentido, valor e propósito objetivos, que, acima de tudo, integre em sua vida cosmovisão e moralidade.

Se você está perturbado pelas coisas impensadas que tem vindo a aceitar, então deve ser a hora de questionar. Então, eu não tenho um evangelho de perturbação ou de inovação ou de um ‘triple bottom line’. Eu tenho um evangelho de fé para compartilhar com você hoje, na verdade eu tenho e eu ofereço um evangelho de esperança. Porque o evangelho da dúvida não pede que você pare de acreditar, ele pede que você acredite em uma coisa nova: que é possível não acreditar, é possível que as respostas obtidas estejam erradas, é possível que às questões em si sejam erradas. Sim, o evangelho de dúvida significa que é possível que, nesta fase, neste tempo e lugar, tudo está errado. Porque ele levanta a pergunta: “por quê?”, mas não oferece a resposta para “Com todo o poder que temos em nossas mãos, por que as pessoas ainda sofrem tanto”? Fyodor Dostoyevsky responderia afirmativamente que o sofrimento do inocente pode aperfeiçoar o caráter e levar a pessoa a um relacionamento mais íntimo com Deus. Do lado da negação, ele diria que quem nega a existência de Deus desce no mais completo relativismo moral, de modo que um ateu não pode condenar nenhum ato, por mais assustador ou hediondo que seja. Então eu acho que é melhor parar de acreditar na filosofia humanista… Jesus disse: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8:32). Mas o problema é que muita gente não sabe a verdade quando a veem, e se contentam com uma mistura de verdade e falsidade, que é muito mais mortal do que o material servido por alguém que é realmente incorreto ou inadequado. Além de tudo isso, as manifestações contemporâneas que nos rodeiam parecem excluir toda ideia de um autêntico equilíbrio, pondo em movimento forças que ninguém precisa; que para ninguém trazem vantagens, que a sociedade teme e que muitos ridicularizam por serem inúteis, absurdas e prejudiciais. Ou seja, todo mundo esta procurando saídas a qualquer custo, seguindo QUALQUER caminho. Ainda não perceberam que estão em uma rotatória? Precisam de um guia?

Karl Marx escreveu um comentário devocional sobre permanecer em Cristo, que foi baseado no Capítulo 15 do Evangelho de João. Ele escreveu-o em 17 de agosto de 1835, quando ele tinha dezessete anos. A certa altura do seu curso ginasial, respondendo à prova: “Sobre a União dos Crentes com Cristo”, escreveu: “… o zelo pela virtude é abafado pela voz tentadora do pecado, e se transforma em escárnio, assim que sentimos o pleno impacto da vida. A luta pelo entendimento é posta de lado por uma vulgar concupiscência pelos bens terrenos. O anseio pela verdade é amortecido pela força doce e lisonjeadora da mentira. E assim o homem permanece como a única criatura, em toda a natureza, que não cumpre o seu propósito, o único membro do Universo que é indigno do Deus que o fez. Todavia, o gracioso Criador é incapaz de odiar a obra de suas mãos. Deseja erguê-la até onde Ele mesmo está, e, assim sendo, enviou o seu Filho, e agora nos chama através destas palavras: ‘Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado; permanecei em mim, e eu permanecerei em vós… ‘ (Jo 15.3,4).” E onde Cristo expressa com maior clareza a necessidade de união com Ele do que na bela parábola da vinha e seus ramos, na qual Ele se compara com a vinha e a nós com os ramos? Os nossos corações, a razão, a história, a Palavra de Deus, tudo nos faz apelos em altas vozes, convincentemente, dizendo-nos que a união com Ele é absolutamente necessária; que sem Ele seríamos rejeitados por Deus; que somente Ele é capaz de libertar-nos…” Uma vez que um homem tenha atingido essa virtude, essa união com Cristo esperará calma e tranquilamente os golpes da desventura. Opor-se-á bravamente às tempestades da paixão e resistirá impavidamente aos rugidos dos iníquos; pois quem poderia arrebatá-lo de seu Redentor”? [6]

A história mostra que Marx não permaneceu firme na sua fé. Para finalizar, só me restaram essas palavras:

“A gente pode reprimir ideias, fantasias e pensamentos – por reprimir, quero dizer fechar num canto da mente e esquecer. Mas, com os afetos dos quais queremos nos livrar, fazemos diferente: nós os projetamos nos outros”. [7]

1 – Nietzsche, Friedrich. The gay science, in The portable Nietzsche, By W. Kaufmann. New York, Viking, 1954, p. 108, 125.
2- HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã: diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo. São Paulo, Saraiva, 1946, p. 90-91. Capítulo O culto da vida.
3- HUIZINGA, Johan. Nas sombras do amanhã: diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo. São Paulo, Saraiva, 1946, p. 37-39. Capítulo Condições básicas da cultura.
4- http://www.ted.com/talks/casey_gerald_the_gospel_of_doubt
5- Idem ao 2.
6- http://www.christiantreasury.org/content/karl-marx-union-faithful-christ
7- CALLIGARIS, Contardo. Caderno Ilustrada da Folha de São Paulo, 07 de janeiro de 2016.
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Um pouco sobre a moderna resiliência

Se viver feliz e viver segundo a natureza é uma e a mesma coisa, como afirma Sêneca na epígrafe de A moral universal, do grande iluminista Barão de Holbach, então é possível dizer que a verdadeira moral é aquela que deve servir à vida, é aquela que está a serviço da existência. [1]

Isto parece descrever a nossa atual epidemia de narcisismo. De fato, no mito grego, Narciso se apaixona não consigo mesmo, mas pelo seu reflexo. Na versão moderna, Narciso cairia de amor pelo seu próprio feed no Instagram, e morreria de fome, enquanto compulsivamente contasse os seus seguidores. Se nossos egos estão obesos com amor-próprio, mídias sociais podem servir de fato os carboidratos emocionais vazios que desejarmos. Instagram e afins não criam um narcisista, mas estudos sugerem que eles atuam como um acelerador, uma plataforma próxima do ideal para facilitar o que os psicólogos chamam de ” grande exibicionismo”. Sem dúvida você já viu isto nos outros e talvez até um pouco em você mesmo, quando postou uma selfie, e em seguida verificou 20 vezes os “likes” marcados. [2]
O mundo contemporâneo se define pela maneira de viver e compartilhar referências comuns em um mesmo período de tempo. Ou seja, contemporaneidade é pensar na condição humana como em perpétua redefinição. Mas o indivíduo contemporâneo é, sem nenhuma dúvida, mal circunscrito, sempre à espera da sua legitimidade, sempre por detrás de um desejo, sempre alheio e ainda assim, exigente ator, criador… Observamos, em muitas situações um cidadão solitário, anônimo demais apesar de compartilhar referências comuns. Por isso, a decisão pela promoção do indivíduo e o seu desenvolvimento pessoal é o único progresso capaz de nos fazer alcançar um ideal de modernidade. É no cotidiano destes indivíduos que encontraremos elementos para distinguir sua verdade dos erros cometidos no passado e auxiliar os mesmos a progredirem neste mundo globalizado. [3]
Ao mesmo tempo, os seres humanos são separados dos animais. Temos um ser espiritual, um ser físico e uma consciência. Portanto, podemos fazer escolhas e ser responsáveis pelas escolhas que fazemos. Podemos escolher a ordem e a paz, ou confusão e caos. Se escolhermos o primeiro, podemos cultivar e compartilhar nossos talentos com os outros. Se escolhermos o último, vamos isolar e segregar os outros. Nós também podemos expandir a nossa visão para incluir o universo e a diversidade de seu povo, ou podemos permanecer limitados e rasos e isolar aqueles que nos são estranhos.
… E assim eu espero e eu suporto. Ou o que é a palavra para apenas ser paciente sem julgar enquanto o tempo passa através de você? Sempre que um forte desejo se revela ouço as palavras de meu pai na minha cabeça “Seja paciente, suporte…”. Parece que a única maneira de obter o que desejo é esperar pacientemente. Eu não acredito nas pessoas que dizem trabalhe duro e você vai conseguir. Se você é sábio e se você tivesse a chance de olhar nos olhos de uma pessoa, você saberia que você não pode obter, mesmo se você trabalhar duro. Isso simplesmente não funciona dessa maneira.
Para resolver o problema, temos que entendê-lo. A filosofia ajuda-nos a fazê-lo tão bem como a psicologia. O filósofo francês do século 18, Jean-Jacques Rousseau escreveu sobre “amour-propre”, uma espécie de amor-próprio com base nas opiniões dos outros. Ele considerava não natural e pouco saudável, e acreditava ainda que a comparação social arbitrária levava as pessoas a desperdiçarem suas vidas tentando parecer e soar atraente para os outros.
No entanto, situações ambíguas são muito mais difíceis do que certas pessoas. Existe um desejo muito forte para resolver as questões e saber o resultado e ao longo do caminho não estragar tudo. Queremos saber a verdade. Então nós imaginamos vários resultados, alguns felizes e outros trágicos. Nós fazemos listas e conversamos com amigos, mas no final o que realmente estamos procurando é uma espécie de certeza de que o universo, por qualquer motivo, não vai nos oferecer no momento.
Se para desfrutar até mesmo um agradável presente temos de ter a garantia de um futuro feliz, estamos “chorando para a lua.” Nós não temos essa garantia. As melhores previsões são ainda questões de probabilidade em vez de certeza, e mesmo com o melhor de nosso conhecimento cada um de nós vai sofrer e morrer. Se, então, não podemos viver felizes sem um futuro assegurado, nós certamente não estamos adaptados a viver em um mundo finito, onde, apesar dos melhores planos, acidentes acontecem, e onde a morte vem no fim. [4]
E, no entanto passamos a vida fugindo do momento presente, constantemente ocupando-nos com excessivos planejamentos para o futuro ou recuando ansiosamente sobre sua impermanência, e assim, invariavelmente, roubando-nos a vibração de viver.
O escapismo constante de nossas próprias vidas é a nossa maior fonte de infelicidade. Kierkegaard começa com uma observação bem conveniente para hoje, em meio a nossa cultura do “estar ocupado é uma coisa boa”:
De todas as coisas ridículas o mais ridículo, parece-me, é estar ocupado – ser um homem que com referência a sua comida e seu trabalho é muito rápido. [5] Há um ensino muito antigo que nos diz:
Não andeis ansiosos por coisa alguma; antes em tudo sejam os vossos pedidos conhecidos diante de Deus pela oração e súplica com ações de graças; Filipenses 4.6. – Bíblia JFA Offline
“Como nós gastamos nossos dias, é exatamente como nós gastamos nossas vidas”, escreveu Annie Dillard em sua reflexão intemporal sobre a presença demasiada da produtividade, um antídoto oportuno para a ansiedade central da nossa era obcecada por produtividade. Vale a pena lembrar, aqui, que “estar ocupado é uma decisão” – Aquilo que constantemente fazemos, e muitas vezes para o nosso próprio prejuízo. Como Sócrates disse: “Cuidado com a esterilidade de uma vida ocupada”.

Eu concordo quando Rosa Parks diz:
“Estamos aqui na terra para viver, crescer e fazer o possível para tornar este mundo um lugar melhor para todas as pessoas desfrutarem da liberdade”.
Apenas acrescento que esta liberdade deve ser uma verdadeira liberdade, porque hoje se vive tentando preencher lacunas de uma vida sem significado, vida que está baseada na incerteza daquilo que o futuro nos reserva como disse o filósofo Sêneca. Por isso as pessoas vivem buscando alargar os horizontes, preenchendo todos os espaços em vez de torná-lo mais comprido, através de atitudes e comportamentos mais duradouros. Susan Sontag explica isso da seguinte forma:
O tempo existe, a fim de que tudo não aconteça todo de uma vez… E espaço existe para que tudo isso não aconteça com todos vocês. [6]
E ainda assim, cada um de nós tem que fazer sua própria escolha. Eu tenho que fazer minha escolha por mim. Você tem que fazer sua escolha por você. Isso não é algo que podemos deixar de lado ou arranjar alguém que faça por nós, ou dizer para o nosso parceiro, “você decide por mim.” Mesmo não fazendo uma escolha é uma escolha. É assim que funciona. É a capacidade que cada pessoa tem de entender algo extremamente individual (ou até mesmo não entender nada) sobre determinada coisa/ obra/ poema/ fotografia está diretamente ligada ao que cada pessoa já sentiu, viu e viveu na vida, é algo intransferível e às vezes até inexplicável. O que isto significa é que nós nunca realmente experimentamos o que outra pessoa experimenta. Em última análise, todos nós estamos sozinhos no universo. No final, acho que é tudo sobre o que a fé realmente é. Fé é dar um passo atrás e olhar para as nossas vidas de muito longe, da lua, por exemplo, com um telescópio. De uma grande distância, todos os pequenos detalhes que já estamos obcecados em não parecer grande coisa. Vemos que todos os outros estão lutando também. Mesmo que estejamos sozinhos, estamos também todos nisto juntos. Então nós fazemos a nossa melhor escolha, completamente cegos e esperançosos, e esperamos o melhor. Então percebemos que não importa o que aconteça, vai ficar bem. Não OK como em “tudo vai acabar OK, vai acabar bem”, porque a vida não vem com um aviso de recebimento ou cartão de garantia. Mas tudo bem, porque a cada momento podemos escolher tomar nossas decisões com a confiança de que não importa o que aconteça, vamos gerir. Como sempre temos conseguido. E então nós escolhemos com o coração leve. Mais tarde, nós escolheremos novamente.*
Para aqueles que assim desperdiçam o seu tempo, Sêneca oferece uma advertência inequívoca:
Você está vivendo como se estivesse destinado a viver para sempre; a sua própria fragilidade nunca ocorre a você; você não percebe quanto tempo já passou, mas desperdiça-o como se você tivesse uma oferta completa e inesgotável, embora todo o tempo que você está dedicando para alguém ou alguma coisa nesse dia pode ser o seu último. Você age como um mortal em tudo o que você tem medo, e como imortal em tudo o que você deseja… Quão tarde é começar realmente a viver quando a vida tem apenas de acabar! Quão estúpido é esquecer nossa mortalidade, e adiar planos significativos para o nosso quinquagésimo e sexagésimo anos, com o objetivo de começar a vida a partir de um ponto no qual poucos chegaram! [7]
Mas o futuro ainda não está aqui, e não pode se tornar uma parte da realidade vivida até que ele esteja presente. Desde que nós sabemos do futuro é composta de elementos puramente abstratos e lógicos – inferências, suposições, deduções – não pode ser comido, sentido, cheirado visto, ouvido ou não apreciado. Persegui-lo é perseguir um fantasma constantemente em fuga, e quanto mais rápido você o persegue, mais rápido ele corre em frente. É por isso que todos os assuntos da civilização são apressado, por isso quase ninguém tem o que ele tem, e está sempre buscando mais e mais. Felicidade, então, irá consistir não de realidades sólidas e substanciais, mas de tais coisas abstratas e superficiais como promessas, esperanças e garantias. [8]
Termino aqui lembrando duas coisas: que a definição de “boa vida” de Russell continua a ser a mais simples e mais encorajadora que eu já encontrei: A boa vida é aquela inspirada pelo amor e guiada pelo conhecimento. Conhecimento e amor são ambos indefinidamente extensíveis; portanto, no entanto uma vida pode ser boa, uma vida melhor pode ser imaginada. Nem o amor sem conhecimento, nem conhecimento sem amor pode produzir uma boa vida. [9] E uma citação de C.S. Lewis:
“Uma filosofia genuína pode às vezes validar uma experiência da natureza; uma experiência da natureza não pode dar validade a uma filosofia. A natureza não irá verificar qualquer proposição teológica ou metafísica (ou pelo menos não da maneira que consideramos agora); ela ajudará a revelar o seu significado. E, nas premissas cristãs, isso não se dará acidentalmente. Pode-se esperar que a glória criada nos proporcione vislumbres da não-criada: pois uma deriva da outra e de alguma forma a reflete”.[10]

É por isso que insisto na graça que supõe para todos nós poder dispor de um tempo especial para lançar um olhar atrás sobre nossas vidas, percorrê-la até o momento presente, e comprovar que em todos os momentos a graça esteve presente, e assim, cheios de fé e confiança em Jesus Cristo, empreendermos essa última etapa da maturidade.

1-A Moral universal ou os deveres do homem fundamentados na sua natureza, Martins Fontes – selo Martins, 2015.
2-http://www.nytimes.com/2016/02/14/opinion/narcissism-is-increasing-so-youre-not-so-special.html?_r=2&utm_medium=email&utm_source=other&utm_campaign=opencourse.ODnbKv_6EeSa0SIACyGBQw.announcements~opencourse.ODnbKv_6EeSa0SIACyGBQw.Jyot5LCrEeWRTArgYkB6yQ
3-https://oficinadopinduca.wordpress.com/2011/04/16/a-globalizacao-o-anonimato-e-os-cristaos-contemporaneos/
4-Alan Watts, The Wisdom of Insecurity: A Message for an Age of Anxiety, New York: Vintage Books, a division of Random House, Inc., 2011.
5-Søren Kierkegaard; David F Swenson; Lillian Marvin Swenson; Walter Lowrie, Either/or; a fragment of life, Princeton, Princeton University Press; London, H. Milford, Oxford University Press, 1944.
6-Susan Sontag, At the Same Time: Essays and Speeches, New York: Farrar, Straus, and Giroux, 2007.
* https://vimeo.com/9679622
7-Lucius Annaeus Seneca, On the shortness of life, C D N Costa, New York: Penguin Books, 2005.
8-Idem a 1.
9-Bertrand Russell, What I Believe, Routledge Great Minds, 2004.
10-https://books.google.com.br/books?id=0qoftMnQ1rAC&pg=PT32&lpg=PT32&dq=an+experience+of+nature+cannot+validate+a+philosophy.+Nature+will+not.&source=bl&ots=gBOZHToHui&sig=uPsRdjC0zttyK03VbId_zsJvM9o&hl=pt-BR&sa=X&redir_esc=y#v=onepage&q=an%20experience%20of%20nature%20cannot%20validate%20a%20philosophy.%20Nature%20will%20not.&f=false

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Páscoa, uma época oportuna.

Todo ano na semana santa, em meio ao frissom por chocolate, infelizmente, se destacam também alguns dos excessos e fraquezas do cristianismo moderno em todo o planeta. Na pior das hipóteses, assistimos uma “Paixão de Cristo” que é uma manifestação estranha e superficial sobre as últimas horas brutais que marcaram a execução de Jesus. Onde o seu sofrimento e redenção é sempre conectado à algum momento de sofrimento e redenção pessoais ou de uma comunidade sofredora (eu acho que é por isso que as pessoas preferem chocolate!).

As atuais comemorações da “Paixão de Cristo” me fazem sentir como se estivessem encobrindo o que realmente aconteceu naquela colina chamada caveira (Gólgota) fora de Jerusalém há dois milênios. As armadilhas da glamourização deste evento cristão mundial chamado Páscoa em nada fazem lembrar que a execução de Jesus foi brutal e terrível. De fato, os romanos mataram Jesus de Nazaré com a concordância dos co-responsáveis pela morte do carpinteiro, o povo judeu, representados pelos seus líderes religiosos (muitos rejeitam essa concepção a despeito do que diz o texto bíblico). Muitas vezes nossa familiaridade com a história de sofrimento e morte de Jesus tende a banalizar os horrores da cruz. Mas não devemos nos enganar: a crucificação não era nenhum trabalho mal feito ou sem planejamento. Jesus foi vítima de uma execução romana por crucificação, a maior ferramenta do terrorismo patrocinado pelo Estado de César. Jesus morreu nu, frio e com dois criminosos, enquanto sua mãe e seu amigo observavam. Apesar da atual “Paixão de Cristo” tentar o seu melhor para comunicar essa cena de horror nas comemorações pelo mundo cristão a fora, de alguma forma ficou apenas um resumo pop sobre um amor genérico e sofrimento humano que não fazem justiça a realidade do acontecimento. Nenhuma banda estava presente, a cruz não acendeu, não houve fogos de artificio e não era um evento patrocinado por nenhuma marca de chocolate. E embora seja uma das histórias mais memoráveis da história humana, a morte de Jesus não foi noticiada a todos em seu próprio tempo. E ainda hoje continua sendo mal transmitida. Se não acredita, vá em qualquer produção cristã nestes dias e você verá, com uma roupagem pop e ás vezes consumista, a morte de Jesus parecendo com um evento repleto de estrelas e uma história de primeira página de folhetim. Mas a verdade é bem diferente. A história de um judeu (tido como rebelde sem nunca ter sido) a ser executado pelas autoridades romanas, que foi preso e condenado injustamente, abandonado pelos que deveriam recebê-lo e trocado por um assassino rebelde só chamou atenção após o evento da sua ressurreição. A partir desse fato, o sofrimento, morte e ressurreição de Jesus não foi apenas um evento histórico limitado a Palestina do primeiro século, mas também um evento cósmico, com implicações para as pessoas de todas as gerações.

Hoje, precisamos entender que celebrar a semana Santa é uma oportunidade. É uma chance de caminhar com a igreja, ao longo do tempo e em todo o mundo; como ela, a noiva, caminha com seu noivo durante a semana mais importante da história do mundo. É uma oportunidade para focar nossas mentes e buscar intensificar nosso entendimento da mais importante e atemporal das realidades: a ida passo-a-passo de Jesus ao Gólgota é uma revelação brilhante da extensão do seu amor. Ele nos amou “até ao fim” (João 13: 1), indo todo o caminho em direção a cruz por nós, sofrendo com cada contusão, cada ferida, palpitação e pontada de dor.

Talvez a moderna ideia da “Paixão de Cristo” seja o Jesus Christ Superstar* desta geração, ensinando os fiéis de hoje a curiosa história da vida de Jesus de Nazaré. Mas, como tantas tentativas de recriar o drama, não foi tão bom quanto o original. Falando em história original, o Evangelho de João utiliza 10 capítulos somente para falar sobre a última semana da vida de nosso Senhor, sua traição, suas provações, sua crucificação e sua ressurreição triunfante. O livro de Atos, que, em seguida, narra a vida da igreja primitiva, retorna aos eventos da Semana Santa com frequência (ver, por exemplo, Atos 1: 15-19; 2: 22-36, 3: 11-26; 4: 8 -12, 24-28, entre outros). Por isso você não precisa engolir todas as balelas pseudo-cristãs (e sua moral humanista achocolatada)** que geralmente são veiculadas nestes dias de semana santa. Leia a verdadeira história na íntegra numa Bíblia perto de você!

*https://pt.wikipedia.org/wiki/Jesus_Christ_Superstar

**https://youtu.be/Uo07VJbOPnY

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