Laico é o caminho da perdição?

Nunca uma época conheceu, de fato, mais mitos laicos do que a nossa, e onde tudo ascende a mito, no mito desabrocha o fetiche: o esporte como espetáculo e não como ação, o hobby dominical, as férias no exterior, o automóvel como sinal de respeitabilidade social, o eletrodoméstico como talismã da felicidade conjugal, a máquina fotográfica para se desfazer do passado e transferir a memória a uma coisa. No entanto, uma lista é impossível, porque o caráter do fetiche ao objeto vem da investidura simbólica de sacralização que recebe, e por isso qualquer objeto pode se tornar fetichizado, como qualquer comportamento pode se tornar mitificado. [1]

Basta um olhar mais atento ao comportamento a nossa volta para perceber que o ser humano não é só razão como insistem em dizer; ele também é espiritual, emotivo, passional e até irracional. Devido à estrutura mítica de todo ser humano, o mito é uma realidade também contemporânea apesar de vivermos em uma era onde tudo é “pós”: pós-industrial, pós-moderna, pós-cristão.

Em nossa época atual nada é mais mítica que a linguagem televisiva e cinematográficas, cheias de imagens e conteúdos que buscam atingir nossos anseios mais primitivos. A atuação dos meios de comunicação de massa na fugacidade das imagens e na rapidez das mudanças sociais e culturais exalta os múltiplos e também fugazes ídolos que povoam nosso imaginário de forma transitória. Neste contexto pós-moderno que vivemos, o mito contemporâneo tem proposto a nossa sociedade um novo afeto, uma nova fé e claramente uma nova crença. Ou, quem nunca ouviu falar do mito da “eterna juventude” ou foi motivado pelo caráter de determinado atleta? Quem nunca se identificou com o conteúdo presente em novelas, filmes, contos e não tentou justificar suas ações para si e para os outros idealizando o seu comportamento e tendo-os como um motivo justificador? Por exemplo, na cultura de massa onde estamos imersos quase sem nos dar conta, os modelos de representação tradicionais estão sempre sendo substituídos por aqueles que possuem uma capacidade de orientar o comportamento e o consumo da sociedade. O culto do corpo tem sido muito representado já há algum tempo, e muito enfatizado também, nas telenovelas atuais. Isso porque nas sociedades modernas as identidades sociais dependem de uma definição que se efetuará basicamente no âmbito da aparência pessoal. Assim, o culto do corpo, compreendido como busca de distinção por meio da moda e do uso de produtos de beleza, torna-se quase uma sacralização da juventude, cujo fetiche maior é, os corpos “sarados” e suas “igrejas”, as academias.

O lado ruim disso tudo, e que não podemos esquecer, são os problemas acarretados por alguns desvios no uso correto do corpo, como a banalização do sexo e da nudez; a erotização exagerada e até, a infantilização da vida social por causa da reorganização da família em função das relações de alcova simplesmente, algo muito comum e explicitado nas telenovelas brasileiras por exemplo. Este é um comportamento típico da mitologia contemporânea que foi muito bem analisado pelo Frei Beto: “Esta corporalização da estética faz definhar o espírito e opera a inversão de Narciso. Narciso contempla-se porque era belo. Na inversão não há beleza, há um padrão de formas, que suplica reconhecimento aos olhos alheios, o espelho narcísico invertido. Vejam em mim a beleza que julgo ter…”

Todo pensador está de certo modo envolvido com as idéias do seu tempo. Esse é um axioma antigo, porém válido. O contexto sócio-cultural, os conceitos filosóficos, o progresso tecnológico, a economia e os conflitos mundiais interferem indubitavelmente na maneira de pensar, e desde a Reforma até os nossos dias, não faltaram mudanças. Então fica muito fácil perceber que as transformações, os novos comportamentos e as ideias que surgem, acabam reforçando o culto hedonista “do tudo aqui e agora”, pois com as inovações comportamentais, sociais, e até litúrgicas, fica demonstrado o afã desta geração em manter o passo com um mundo sempre mais dessacralizado, para salvar o salvável de uma situação ontológica, na formulação particular religiosa, que sempre mais se atrofia. Mas, na realidade, a redução ao presente está longe de acalmar ou extinguir a angústia que a condição humana traz desde seu nascimento, e abolir o futuro não significa abolir a morte. E, assim, por um lado, dessa redução e desse afã sempre latente e sempre renascente, provoca a dilatação, conduzida de evasão, da pesquisa científica na medida em que é capaz de atingir a única verdade que possa dizer respeito ao homem, por outro lado, a necessidade de uma retomada, seja camuflada ou parcial, do que constituía o horizonte aberto para além do presente. Nessa necessidade afundam as raízes da re-sacralização e da re-mitificação, porém conduzidas à vida e aos objetos cotidianos [2]:

– O realismo estetizado (Maximum Exposure) – Que é o desejo pela intensidade, pelo surpreender e ser surpreendido, arriscar-se, ousar, sair do lugar comum e fazer algo diferente são peculiaridades tipicamente humanas que foram aguçadas pelos efeitos da massificação da era global. Na onda anterior do Observatório, a ênfase estava em despertar os sentidos de maneira inusitada. Agora nota-se certo cansaço do politicamente correto e surge, então, a necessidade de retomar a vida real. A autenticidade e a espontaneidade são novamente valorizadas e, com isso, a agressividade aflora abrindo espaço para tudo que está fora do padrão.

– O tempo e existência relativizados (Kronos Fever) – Onde a discussão sobre os papéis sociais do homem e da mulher já não ocupa mais um espaço relevante na sociedade. Nas primeiras pesquisas, notava-se que a mulher estava mais presa aos poderes que havia conquistado, enquanto o homem, mais perdido, sem um papel muito definido. Na onda anterior, perceberam-se novos casais e novas constelações familiares. Agora a questão do tempo emerge com força e o trânsito entre os sexos é menos conflituoso que o trânsito entre as idades. Emancipação da infância, infantilização da vida madura, decrepitude juvenil e juvenização da velhice são as marcas deste Kronos Fever.

– O bem estar desejado (Living Well) – Bem estar é o foco da tendência Living Well. Primeiro, o bem estar era obrigatório, o que deu o tom do “bem estar a todo custo”. Depois sentiu-se a diminuição das cobranças, trazendo a marca do “bem estar possível” e, na última onda, surgiu o “bem estar necessário”. Agora vive-se o “bem estar desejado”. Prazer, beleza e felicidade são os sinalizadores dos novos tempos.

– A identidade midiatizada (ID QUEST) – A busca da identidade agora está conectada de maneira irreversível às tecnologias e às mídias, e o ambiente digital se torna o espaço para o exercício da identidade: religião, família, trabalho. Tudo está midiatizado e posto em circulação na rede. Diferentes impactos na noção de nacionalidade e soberania são percebidos ao redor do mundo. Principalmente na Europa o sofrimento e a profundidade da crise social e cultural (para além de econômica) faz reafirmar nacionalismos até então velados. No Brasil, assim como na China, a valorização da identidade nacional é crescente e o orgulho de cada um se expande. Nos Estados Unidos, o ideário da retomada do protagonismo mundial renasce e estimula a identidade de cada um.

– A emergência do socioeconômico (Know Your Rights) – Alicerçada no paradigma “consumir é existir”, com ramificações para o consumo crítico, ético e sofisticado, esta tendência agora dá sinais de fusão entre todos os eixos, manifestando o entrecruzamento das lógicas do entretenimento, dos negócios e da sociabilidade. O consumo passou de vilão a mocinho? consumir passou a ser uma saída para a crise mundial? E houve uma expansão do conceito de consumo para além do ato de comprar.

Se analisarmos um pouco mais a fundo todos esses processos pós-modernos, veremos que existe o aspecto da Secularização, redefinida como apenas o declínio da igreja-religião, e o aspecto do surgimento de uma nova forma de religiosidade mística e espiritual. As teorias da Secularização estão corretas apenas no sentido de que detectam o enfraquecimento da religião em forma de igreja ou seita, mas não percebem o surgimento desta “religião mística e espiritual” de Troeltsch, caracterizada pelo individualismo e fraca institucionalidade. Segundo Sell e Brüseke, Campbell também enfatiza, positivamente, Troeltsch, ao se referir à religião Mística como a que melhor se adaptaria às condições de vida moderna. Entre os fatores destacados, temos: o individualismo da experiência mística que se adapta ao individualismo moderno; o espírito de tolerância religiosa que valoriza todas as formas de organização religiosa; o sincretismo, no sentido de que permite à religião Mística incorporar elementos da sociedade secular, combinando-os livremente [3] (grifo do autor).

Esta é a dinâmica do mistério, que, com efeito, dilata e contrai constantemente as nossas emoções e, por meio dessa mecânica psicológica, consegue em algum momento expulsar medos e traumas sorrateiros há muito encovados em nós: diante do enigma, a razão baixa imediatamente sua guarda para a emoção enfim tomar o seu lugar. É justamente nesse estágio que a índole humana se torn mais volúvel e extremamente suscetível ao processo catártico. O poder contido no mistério, afinal, antes de alcançar a consciência atinge a alma, o inconsciente, para depois turvá-los e, com alguma sorte, libertá-los de suas inúmeras pulsões. [4] Mas e nós cristãos? Onde estamos nestes tempos de tão gritante laicismo [5]?

Segundo Karl Barth, a função da teologia evangélica é formular uma pergunta concernente à verdade, significando com isso que a tarefa do teólogo é inquirir se a igreja tem compreendido e comunicado corretamente o evangelho. O problema consiste em não reconhecer a influência da cultura sobre a nossa interpretação da Palavra inspirada.

[…]

O mundo crê que você tem capacidade e direito de adorar a Deus sozinho, de acordo com o que você pensa e decide. A igreja é uma ajuda para os que precisam, mas quem tem sua própria Bíblia e pode seguir os seus ensinamentos morais e espirituais não tem muita necessidade de ser inserido em um “corpo”.

Quando foi a última vez que ouvimos uma mensagem em que se falasse que Jesus morreu pela igreja? Ef. 5. 26. Que ele vai casar com a noiva (igreja), e não com você, um indivíduo?

[…]

A interpretação bíblica tende a seguir a opinião do mundo que acha que a criança nasce inocente. Certamente iria para o céu, mesmo sem ser batizado ou sem ter aprendido as verdades do evangelho. O evangelista Piper (pai do famoso John Piper) falou que não era difícil ganhar alguém para Cristo. O que era difícil era convencê-lo de que estava perdido. [6]

Como disse o reformador João Calvino: “Quase toda sabedoria que possuímos, ou seja, a sabedoria verdadeira e sadia, consiste em duas partes: o conhecimento de Deus e de nós mesmos”. Como temos agido?

Para os Novos Movimentos Religiosos das sociedades ocidentais a salvação é conseguida através de uma sabedoria de origem mística, com a intenção de liberar as potencialidades do próprio interior humano. Essas novas experiências religiosas constituem comunidades de comunicação, nas quais os indivíduos podem usufruir dos benefícios intrínsecos e simbólicos da vida do grupo, cujos desfrutes são raros nas grandes cidades. Elas representam uma mistura de tradição e modernidade. Adaptam-se à modernidade e à sociedade secularizada, mas conservam uma referência simbólica e autolegitimante com a sociedade tradicional. Isso oferece aos indivíduos formas de segurança mais imediatas e atuais do que aquelas oferecidas pelas igrejas e denominações tradicionais (Cf. WILSON apud MARTELLI, 1995, p. 341). [7]

Aristóteles afirmava que o mundo era finito, hierarquizado, estático, tão somente movido pelo motor imóvel, que é o Deus transcendente por nada movido, isto hoje é sumariamente condenado como crença dogmática. O que prevalece e é continuamente propagado, no entanto, é uma mistura de ceticismo, existencialismo e humanismo filosófico puro e simples, que acaba por criar um estilo de caminhar e viver onde não se profere julgamentos sobre o certo e o errado, cujo maior objetivo é alcançar uma felicidade imperturbável. Ora, onde há indefinição de sentido ético-moral, onde falta um ponto de referência que não seja relativizado, onde o padrão muda toda hora, a moral e a ética passam a ser instrumentos de poder pessoal, isto é, de utilitarismo moral que não se adequa ao pensamento cristão de um amor incondicional e sacrificial porque advoga apenas as causas próprias ou de poucos e não universaliza a Revelação Bíblica. Lembrando sempre disso: os que “amam o mundo” estão em estreita comunhão com ele, dedicando-se aos seus valores, costumes e cultura. Em outras palavras, os que se comportam desta forma demonstram que sua satisfação e prazer estão naquilo que desagrada a Deus e ofende os princípios das Sagradas Escrituras. Esse pernicioso sentimento impede a comunhão do crente com o Senhor (leia a 1ª carta de João 2.15-16). O Apóstolo Paulo, ao escrever sua carta aos Romanos adverte aos cristãos a não se conformarem com este século.  O verbo “conformar” no original significa “ser modelado de acordo com um padrão e refere-se à constante imitação de uma atitude ou conduta até que a pessoa se torne igual ao modelo. Nesta perspectiva, a Bíblia ensina que o crente deve resistir e combater, não imitar os padrões de comportamento, a cultura e os valores mundanos (seculares, laicos), mesmo porque, aqueles que estão em Cristo devem viver a vida de forma diferenciada. É necessário reconhecer a radical ignorância de nossa razão, confessando a desproporção que existe entre a criação e a finitude da nossa razão:

“De que nos serve entender as coisas, se com isso nos tornamos mais covardes, se esse conhecimento nos tira o repouso e a tranquilidade de que gozaríamos sem ele, nos reduz a condição pior que a do porco de Pirro”? Para o nosso maior bem é que fomos dotados de inteligência; por que fazê-la voltar-se contra nós, contrariamente aos desígnios da natureza e da ordem universal, que querem que cada um use suas faculdades e seus meios de ação da maneira mais conveniente à sua comodidade? [8] Parece que laico é o caminho que conduz a perdição.

1- Cesare Brandi, “La perdita del futuro”, in: Le due vie. Bari: Editori Laterza, 1966, p. 121-122, tradução Davi Pessoa.
2- Baseado em http://revistawide.com.br/e-commerce/7-tendencias-globais-de-consumo
3- Parte extraída de REVISTA PARALELLUS: revista dos alunos do mestrado em Ciências da Religião-Unicap / Universidade Católica de Pernambuco. Mestrado em Ciências da Religião. ano 1, n. 1, (2010), pág. 156-157, 159. Recife, 2010.
4- http://saopauloreview.com.br/2014/09/25/a-catarse-e-o-misterio-na-literatura/
5-Doutrina contrária à influência religiosa nas instituições sociais: http://www.aulete.com.br/laicismo#ixzz3F10aT43r
6- http://conhecereisaverdade.xpg.uol.com.br/religiosidade-mundana-e-espiritualidade-biblica.html
7- Idem ao 3.
8- MONTAIGNE, Michel. Ensaios I. Trad. Sérgio Milliet, São Paulo, Nova Cultural, 1991.
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Sobre lucaspinduca

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