Devocionais para não devotos XXIII

Sonhei que mantendo meus braços rígidos e empurrando com força, poderia me suspender alguns metros acima do solo. Eu poderia voar! Acho que a questão mais importante ali não era tanto porquê, mas como. E ouvi: ‘Então eu digo, ande pelo Espírito, e você não vai satisfazer os desejos da carne’. Bati as asas com mais força e logo estava voando sem esforço sobre as árvores e postes de telefone! Um espírito livre? Um pássaro?
Enquanto todos ficaram surpresos e correram sob mim quando atingi certa estabilidade no voo, mais uma ideia despertou: uma perspectiva negativa nunca pode levar a uma vida positiva! Para isso, cada um tem sua própria resposta… mas uma perspectiva espiritual pode nos levar a uma vida mais próxima do padrão bíblico. Podemos escolher agir sobre ela ou, ao contrário, evitar cruzar a barreira da fantasia?
Viktor Frankl, sobrevivente do Holocausto e psiquiatra, diz que o indivíduo precisa encontrar sentido no sofrimento (o ensino cristão, por exemplo, é claro ao dizer que viver é estar aflito). E se você não pode mudar o mundo, mude a si mesmo. Falta-nos a clareza do significado potencial do que podemos realizar em nossa existência, e aqui está o nó da coisa! Essa incapacidade de dar sentido à vida leva as pessoas a se tornarem presas fáceis nos labirintos de neuroses e outros fantasmas, como depressão e drogas. É preciso pensar em como mudar as crenças pessoais, buscar uma nova forma de ressignificar os sentidos e a própria existência. Porque morrer é fácil. Enfrentar a vida e todas as bobagens que a rodeiam é o mais difícil.
Cruzei meus braços para trás e voei baixo sobre a vizinhança. Disparei tão rápido que meus olhos lacrimejaram com o vento. Eu ri e ri, fazendo voltas enormes no céu!
E comecei a pensar, como adultos, muitas vezes temos que aprender a ouvir a clareza do chamado: É inverno. É o momento de aceitação ativa da tristeza. E não importa por que sentimos ou desejamos, o importante é o que fazemos com isso, como o vivenciamos, como chegamos a nos acalmar com a tristeza que podemos sentir.
Desde a infância, somos ensinados a ignorar a tristeza, a enfiá-la em nossas mochilas e a pretender que ela não esteja lá. Mas ignoramos que precisaremos carregá-lo por toda a vida também!
Estava ruminando esta ideia quando o celular me acordou e mostrou que eu iria perder o ônibus se não saísse da cama; 20 minutos depois, lá estou eu, parado na chuva fria, esperando para ir para o trabalho, e acabando de lembrar que tinha esquecido minha máscara.
Definitivamente, o que você pensa (sobre o mundo) não é o que você ganha… a coragem de encarar as piores partes de nossa experiência e nos comprometer a curá-las o melhor que pudermos, é o que ganharemos. Na verdade, o inverno é um momento de intuição, cuja necessidade real é sentida agudamente em nossa alma quando ele chega.

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Devocionais para não devotos XXII

Mesmo quando o corpo pede um pouco mais de alma, a vida não para.


Com o mundo girando cada vez mais rápido, não nos resta muita coisa a não ser fazer escolhas que possam permitir, ao menos por alguns momentos, um pouco de tranquilidade. Algumas pessoas são pragmáticas, aceitando as coisas à medida que vão surgindo e tirando o melhor proveito das escolhas disponíveis. Algumas pessoas são idealistas, defendendo princípios e se recusando a transigir. E algumas pessoas agem por capricho baseadas naquilo que passa por suas cabeças. Por isso mesmo, todas as pessoas, cristãs ou não, tem que decidir uma questão importante sobre si mesmo: se o seu padrão de valores será baseado na opinião que as pessoas fazem da sua aparência, herança social e cultural, tipo de amigos, objetivos, etc. Ou na opinião de Deus sobre estas mesmas coisas. É quando se faz necessário perguntar: você pertence a si mesmo (você é o mesmo quando ninguém te olha ou vê) e a essência da vida que possui (pertence de corpo e alma ao que se propõe fazer)? Pertencer, psicologicamente falando, é criar laços indissolúveis consigo mesmo. Dominar suas emoções estando comprometido com Deus, no caso cristão, é entender que uma opinião sobre si mesmo é muito menos importante do que a opinião de Deus sobre nós, que uma auto avaliação precisa é derivada da avaliação de Deus. Porque uma verdadeira identidade cristã tem Deus como referência. Depois de aceitarmos isto, ficará mais fácil cuidar melhor das relações e interações que fazemos. Deus diz:


“Pois os meus pensamentos não são os pensamentos de vocês, nem os seus caminhos são os meus caminhos”, declara o Senhor. Assim como os céus são mais altos do que a terra, também os meus caminhos são mais altos do que os seus caminhos e os meus pensamentos mais altos do que os seus pensamentos”.Isaías 55:8-9


Aqui temos uma ênfase ao fato de que as inclinações e estruturas de pensamento humanas, relativas a vida e a relacionamentos-chave, e que são naturais no homem, podem estar contrariando os pensamentos de Deus e o modo como Ele quer que vivamos.  Também fala sobre as dificuldades envolvidas em romper com o estabelecido, o quanto a fé e a paixão podem ser poderosas para fazer uma mudança pessoal no meio de uma sociedade.

Geração após geração, corremos o risco de esquecer quem Deus é e quem nós somos. O filosofo Kant até escreveu: “A tutela é a incapacidade de usar o próprio entendimento sem a orientação de ninguém”. O cristão precisa da tutela do Espírito Santo em toda a sua vida cristã. Que fique esclarecido de uma vez por todas: O homem não possui recursos que possam oferecer solução permanente para os seus problemas. A razão não pode solucionar todos os problemas humanos de maneira definitiva, motivo pelo qual inevitavelmente surgem contradições na filosofia e na teologia. Além disso, o ser humano tem uma tendência natural para abandonar um ponto de vista simples e mais tradicional quando vai em busca de resolver suas questões e solucionar os seus problemas, e acaba envolvendo-se em muitas confusões existenciais e morais por causa disso. Quando um ponto de vista único é abandonado, toda a perspectiva se fragmenta em múltiplas visualizações que acabam fornecendo  informações em excesso. Daí em diante, a sensação de desencaixe e desorganização aumenta rapidamente, fazendo este individuo iniciar um processo de eliminação ou redução das muitas perspectivas, exceto uma, aquela que seja mais confortável e de acordo com a sua vontade e desejos, para fazer o mundo voltar a uma ordem reconhecível. Mas confiar na capacidade da mente de criar para si mesma uma visão racional viável, pode nos mostrar a impossibilidade de escaparmos de nossa própria mente caso ela esteja errada. Afinal, todas as nossas ideias são, essencialmente, subjetivas e interpretativas. Em nossa limitação de pensamentos, quase nunca imaginamos que os projetos de Deus para o nosso futuro são grandes. Nestes dias em que todas as verdades ditas são consideradas pelo menos relativas, se não meramente pessoais, todos os dias temos uma oportunidade de rever conceitos, de fazer algo bom por nós. O problema é como verificar a verdade de Deus, sem cair no erro de definir a verdade com base na tradição ou em nosso próprio entendimento daquilo que achamos que ela seja.

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Devocionais para não devotos XXI

“Porque paz é movimento criativo, viver a boa luta é se renovar a cada instante, insistentemente. O oposto de paz não é guerra, como somos levados a pensar corriqueiramente. O oposto de paz é estagnação! Precisamos de movimento, de um contínuo ir em frente. Dia após dia, estação após estação.”

“Gostei muito da sua definição de paz porque sempre vi de outra maneira”, alguém me disse outro dia, “porque se você parar para pensar, a definição de paz é subjetiva ao indivíduo”. Sim, é subjetivo e a gente entrega demais para o outro; porque estamos sempre a procura de pacificadores quando deveríamos ser os promotores da nossa paz. No fundo, ela depende do comprometimento unânime, sincero e sustentado das pessoas. Cada um de nós, independentemente da idade, do sexo, do estrato social, crença religiosa ou origem cultural é chamado à criação de um mundo pacificado*.

Apesar do ser humano adorar um embate, buscar o conflito com ele mesmo  ou confrontar o outro todo tempo, parece que só envelhecendo aprenderemos a escolher nossas lutas e a fugir dos conflitos desnecessários. Hoje em dia, por exemplo, a esperança de paz exige uma luta contra os algoritmos da raiva nas redes sociais, além das emoções primitivas tentando fazer nosso cérebro ‘catastrofizar’ tudo. Estamos programados para verificar constantemente as ameaças. É uma característica que nos manteve vivos na época dos caçadores-coletores, mas agora pode ter o efeito oposto. Aprendemos que a raiva se espalha mais rápido online do que a alegria e a indignação é contagiante.

Precisamos encontrar a paz e vivê-la, e um dos primeiros passos neste sentido refere-se à gestão de conflitos. Ou seja, prevenir os conflitos potencialmente violentos e reconstruir a paz e a confiança entre as pessoas é algo que precisa ser considerado urgente. Tal missão estende-se à todo o mundo porque o conflito é um processo natural e necessário em toda sociedade humana, é uma das forças motivadoras da mudança social e um elemento criativo essencial nas relações humanas, paz não é algo para aqueles sem uma causa. Nessa época de pessoas atormentadas por pesadelos, por frustrações e sonhos desfeitos, manter a paz é fundamental para não cair nas armadilhas da depressão. Afinal, ciúmes, decepções, mal-entendidos, rejeições do certo em favor do errado, problemas familiares, luto doméstico, corações partidos e mortes repentinas nos encontram desde sempre.

Tenho uma filha adulta com transtorno de ansiedade generalizada em tratamento, que costumava ter crises de ansiedade até por conta da lição de casa da faculdade. Mas no dia em que teve que trabalhar de madrugada, fazer um trabalho, dormir duas horas e ir para São Paulo resolver coisas do trabalho, precisou achar uma maneira de pacificar sua alma e aprender resiliência para não deixar nem por um segundo suas emoções saírem do seu controle.  Seguiu em frente, seguiu o fluxo. Como ela mesma diz, “a minha paz acontece quando as  coisas estão acontecendo, quando há movimento”.

Paz por estar a caminho significa que a felicidade está sendo encontrada no processo, e não no produto final. Mas isso depende da narrativa de cada um, tenho visto pessoas que ficam em paz na inércia, e aqueles outros em paz no movimento, quando as coisas acontecem e estas pessoas podem acompanhar o fluxo, pois é o que sustenta todo o seu propósito pessoal. Mas toda progressão exige de você um esforço, controle, impulso, afinal, a ideia de moto-contínuo é uma hipótese apenas; e porque todo movimento precisa enfrentar o efeito de cessar, para permanecer em paz você vai precisar estar/chegar onde precisa ou, estar sempre á caminho, sempre motivado a encontrar e permanecer. Acredito que por isso seja tão mais fácil fazer a guerra ás vezes… Viver a vida é representar um papel em uma jornada narrativa que aspira a uma certa unidade ou coerência. É também um teste para poucos.


* Clara, I. S. & Silva, M. M. (2000). Por uma pedagogia para a não violência. Porto: Profedições,4.

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Como o Evangelho ofende a nossa cultura antropocêntrica?

“Quando Cristo disse, na sala de julgamento de Herodes, as notáveis palavras “Eu sou um rei”, Ele pronunciou um sentimento carregado de poder e dignidade indescritíveis. (…) Aquela coroa de espinhos era, de fato, o diadema de um império; aquele manto de púrpura era a insígnia de realeza; aquele caniço frágil era o símbolo de poder irrestrito; e aquela cruz, o trono de domínio que nunca acabará”1

Por isso, a maior ofensa do Evangelho não é nenhuma de suas implicações sócio culturais: o que ele implica para o debate sobre o aborto ou o casamento homoafetivo. A maior ofensa do Evangelho é o próprio Evangelho. Ele nos confronta com três verdades que ninguém gosta de ouvir:

– Existe um Deus e não é você! Ele é o Criador de todas as coisas e todo sentido e significado procede dEle, não da sua cabeça. Você pode não gostar, mas vive no mundo dEle e não pode fazer só o que dá na sua cabecinha.

– Todos pecaram e carecem da glória de Deus. Sim, todos, inclusive você. Você pode achar que não, mas não é diferente daqueles que costuma colocar do outro lado – seja que outro lado for esse. Na verdade, em relação a nós, a cruz mostra que somos pecadores, miseráveis, insuficientes, falhos, os piores, imerecedores (Ef 2:1). Pois, a realidade é que nós deveríamos estar ali e não Jesus (Is 53:4-5). Não há valor em nós e o valor que temos é de Cristo, não nosso (Is 64:6/Hb4:15). No fundo, somos todos farinha do mesmo saco.

– Existe apenas um caminho para a salvação, apenas um nome pelo qual importa que sejamos salvos: o de Jesus Cristo, o Filho de Deus. Ou Ele resgata você, ou você permanecerá perdido apesar de todas as suas tentativas. A cruz não mostra o nosso valor, pois a cruz não serve para nos exaltar. A cruz mostra o grande amor de Cristo por nós, no caso sem valor. A cruz exalta e glorifica Cristo (Fp 2:6-11).

Sim, o Evangelho é exclusivista. Um reino será estabelecido ao final e todo mundo terá que se submeter a Cristo. Não é de se espantar que, vez após outra, tentemos redefinir alguns aspectos dessa mensagem, dando origem a outros evangelhos. Isso, porém, é uma grande tolice. A principal manifestação satânica e do mal desta era é religiosa; é a cegueira em relação ao evangelho de Jesus Cristo. Por que o Evangelho que ofende é também o único que redime.
Dessa maneira, a cruz nos mostra que não a merecemos, mas que ao mesmo tempo a necessitamos todos os dias. A cruz é o começo de todos que Nele creem e o fim de todos os que a Ele seguem. A Cruz é o grito de Deus para o mundo: “Você não pode salvar a si mesmo!” – Charles Spurgeon.

1. J. L. Reynolds, “Church Polity, of the Kingdom of Christ”, em Polity: Biblical Arguments on How to Conduct Church Life, ed. Mark Dever (Washington, DC: Center for Church reform, 2001), 298.

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Devocionais para não devotos XX

(…) Vocês são mortais, não há dúvida, porém o fato de que possam refletir com esse minúsculo cérebro sobre a eternidade ou sobre o passado e que dessa maneira, com o espaço limitado e o tempo limitado que lhes é dado, possam abranger espaço e tempo tão imensos, aí reside o mistério. – Cees Nooteboom.

Em nossa realidade centrada quase que exclusivamente no ser humano, as pessoas se veem como autoridade máxima. Sempre apressadas para reivindicar algo quando não podem desfrutar os direitos que julgam possuir pelo simples fato de serem… humanos. Estamos em um universo que não é mais o da disciplina coercitiva, mas o de uma máquina de estímulos, um sistema de tentações que diz sem parar “veja, isso é magnífico, bom, você gostará”.  Por isso, a partir de uma visão utilitarista, somos empurrados para agir sempre de forma a maximizar o bem-estar comum, nos acossam diariamente com packaging, publicidade, séries, filmes, destinos turísticos, música…

Caro leitor, já percebeu como o mundo fala mais alto e ligeiro, como se tentasse encaixar o maior número possível de palavras em um curto intervalo de tempo? É para que sua voz sobressaia as outras e suas ideias se imponham mais facilmente. Embora venha, do excesso de palavras, as promessas do tolo (Eclesiastes 5.3). É neste universo sedutor que encontramos as redes sociais como atraentes estrelas dos sistemas de “empacotamento” de ideias estimulantes. Onde toda narrativa tem se mostrado uma tentativa de construir algo novo e estimulante, a partir de alguma coisa além da verdade que contraria o senso comum de  felicidade, ao mesmo tempo que desconstrói fundamentos e princípios sólidos.

Mas é quando a nossa atenção se prende ao mundo a nossa volta que descobrimos: já estamos, e vivemos, em uma época cheia de pós-verdades (fatos objetivos x apelo às emoções), onde a intenção é infundir as coisas por meio de nossas próprias lentes modernas exclusivas, e fazer as coisas parecerem compreensíveis para todos, misturando sonhos, fantasias, memórias, reimaginando o mundo. Tomemos  por exemplo o Instagram (nada contra. Sou um usuário do app): não é a vida real e deveria ser, já que estamos preparando uns aos outros (e a nós mesmos) para falhar, removendo todo o ‘real’ de nossos feeds. Este ‘apagamento’ daquilo que é real leva a ressignificação de questões importantes. Por isso percebemos que estamos vivendo um tempo estranho e de muita ansiedade. Muitos de nós estão olhando ao redor e se perguntando “quem somos e o que estamos nos tornando? Ora, sejam bem vindos a hipermodernidade! Hora de acordar e perceber que estamos descontentes, não com o peso das circunstâncias, mas com o peso de nossas expectativas somente.

E haja ansiedade! Gilles Lipovetsky nos explica que tudo começou nos EUA, lá pelos anos 50, quando o capitalismo se entranhou no consumo de massa, e isso transformou os modos de vida. Desde então, falam de fun morality, de como o prazer e sua busca se tornaram legítimos, e a consequência disso é que pouco a pouco essa lógica de sedução e prazer tomou conta de tudo, da educação até a economia nada escapou. Nossos ideais hoje incluem viajar, comprar coisas de marca, nos distrairmos … Esta forma cultural, em que o mercado, a ética individualizante e o espírito do consumismo são erigidos como o modelo cognitivo e normativo da vida social não é de espantar, mas isso não está à altura de uma sociedade, mesmo humanista, que deve também se integrar a outros ideais que não sejam gostar das coisas pela aparência e ser seduzido pelas mercadorias. Se há uma espécie de precoce maturidade e independência neste processo, ainda assim há algo de incapacitante neste homem hiper ou pós-moderno, pois precisam sempre dar uma forma nova a tudo o que conhecem, colocando em um novo contexto. Mas ao rejeitar as regras antigas sem ter um padrão novo minimamente adequado, temos a sensação de estarmos mergulhados em uma vida desregrada, em um tipo de Antinomismo (anti ,contra e nomos , lei), cujas características são sempre as mesmas:

-Subjetividade: o indivíduo busca fazer o que considera certo, independentemente do que está determinado (1Rs. 11.6);

-Individualismo: o indivíduo age autonomamente, por conta própria, buscando para si o que é de seu interesse, sem se importar com as regras coletivas (Fp. 2.4);

-Relativismo: ignora as bases normativas (que diz como devemos agir) de valor que aprovam ou desaprovam os atos morais (Sl. 94.20-21);

-Irracionalismo: leva à ação impulsiva e emotiva, sem que sejam consideradas a consequências (2Sm. 11.2-5).

E se antes pertencíamos a um coletivo de trabalho, de bairro e de religião, e isso fornecia um amparo aos indivíduos que viviam em condições difíceis, dava-lhes uma espécie de segurança interior também. Hoje, apesar de termos muita liberdade, todos podemos mudar de profissão, de parceiros, de religião, de país, a vida privada é livre, entretanto, os indivíduos se tornaram extremamente frágeis psiquicamente, inconformados e insatisfeitos.

E como resultado, bem ruim eu diria, criou-se esta angustiante necessidade moderna de sermos tão interessantes ao ponto de seduzir o outro para receber sua aceitação, validando assim a nossa pretensa relevância.

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Devocionais para não devotos XIX

Nós precisamos ter a visão de Deus. Temos de nos enxergar como pessoas preciosas ao Senhor. Contudo, para que passemos a nos ver como Deus nos vê, é necessário que tomemos algumas atitudes.

Despertar do Sono do Autodesprezo

“E digo isto a vós outros que conheceis o tempo: já é hora de vos despertardes do sono…” (Romanos 13.11.)

Será que realmente tem importância aquilo que pensamos de nós mesmos? Sim, tem. Se pensamos que somos lixo, nossa tendência será agir como lixo.
Algumas pessoas não conseguem ter amigos, porque estão convencidas de que não têm nada a oferecer-lhes.
Enquanto acharmos que não prestamos para nada, enquanto estivermos preocupados com o que os outros pensam de nós, teremos muita dificuldade em amar o nosso próximo e até mesmo a Deus.
Quando ficamos no quarto, nos lamentando, com pena de nós mesmos, nos aproximamos do nível perigoso de achar que não temos valor nenhum.
Mas não somos “um joão-ninguém”, sem lugar no mundo. Deus nos criou e fez de nós, em algum lugar, um ser muito precioso.

Crer que Somos a Menina dos Olhos de Deus

Davi nos deixou uma importante lição no versículo 8 do Salmo 17. Ele se expôs aos olhos de Deus. O salmista desejava ser visto como realmente era. Depois disso estava pronto para ver Deus face a face. Davi orou:

“Guarda-me como a menina dos olhos, esconde-me à sombra das tuas asas.”

A expressão menina dos olhos é muitas vezes usada nas Escrituras. No hebraico, significa “o homenzinho dos olhos” ou “a filha dos olhos”.
Uma interpretação para essa expressão tem como base o que vemos quando olhamos bem de perto nos olhos de alguém. Vemos a nossa própria imagem. Se estamos bem perto da pessoa, vemos o nosso próprio reflexo. Se aplicarmos esse fato ao nosso relacionamento íntimo com Deus, o significado é que ele está olhando para nós. Então entendemos que somos o centro da atenção divina e que podemos ver a nós mesmos como somos quando virmos a nós mesmos através dos olhos de Deus.
Outra interpretação de “menina dos olhos” é que Deus nos ama e nos dá tanto valor como o damos à nossa própria vista. Nesse caso, a menina dos olhos é a pupila.
Charles Spurgeon faz o seguinte comentário sobre essa expressão:
“Parte alguma do corpo é mais preciosa, mais delicada e mais cuidadosamente guardada do que os olhos; e a parte dos olhos que deve ser guardada com maior cuidado é a central, a pupila, ou a ‘menina dos olhos’.
“O sábio Criador colocou os olhos num lugar bem protegido; estão cercados por ossos que se projetam como os montes ao redor de Jerusalém.
“Além disso, seu grande Autor os circundou com muitas túnicas interiores, além do cercado que são as sobrancelhas, a cortina que são as pestanas e a cerca que são as pálpebras; além disso tudo, ele deu aos homens um valor tão grande para com seus olhos e uma apreensão de perigo tão instantânea, que parte alguma do corpo é mais fielmente cuidada do que o órgão da visão.”
Assim como damos valor às pupilas e ao maravilhoso dom da visão, da mesma forma o Senhor cuida de cada um de nós.
O Senhor nos vê, nos conhece, cuida de nós e jamais nos abandonará. Seu amor ilimitado cura as nossas mágoas. Quando percebemos que somos a menina dos olhos de Deus, sentimos a divina graça que é infinita.
Vemos o nosso reflexo em seus olhos não como a pessoa que temos sido, mas como o milagre que podemos vir a ser.

Endireitar Nossos Conceitos Teológicos Errados
Temos de permitir que Deus e sua Palavra consertem nossas falsas ideias. É impossível uma pessoa viver de maneira certa, se seus conceitos são errados. Não podemos praticar a verdade, quando acreditamos num erro.
É falso o conceito de que Deus se agrada de uma atitude de auto depreciação, que ela é parte da humildade cristã e necessária à nossa santificação e desenvolvimento espiritual.
A verdade, porém, é que a auto depreciação não é a verdadeira humildade cristã. Essa atitude acha-se em oposição a alguns dos ensinamentos básicos da fé cristã.
O maior mandamento é que amemos a Deus com todo o nosso ser. O segundo é que amemos ao nosso próximo como a nós mesmos. Não temos aqui dois, mas três mandamentos: amar a Deus, amar a nós mesmos e amar aos outros.
Se você amar a Deus, a si mesmo e aos outros estará cumprindo toda a lei de Deus (Mateus 5.43-48). Esse é o eterno princípio do triângulo – um amor correto para com Deus, por nós mesmos e por outras pessoas.
A pessoa que possui uma imagem própria baseada no que Deus diz, é mais saudável, em todos os sentidos, do que aquelas que têm uma imagem própria negativa. Foi assim que Deus nos criou, e se agirmos de modo contrário, não apenas estaremos seguindo um conceito teológico errado, como também correremos o risco de ser destruídos.

“Porque, pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um.” (Romanos 12.3.)

Pensando com moderação, não iremos nem nos subestimar nem nos superestimar. É Satanás quem nos confunde e nos cega nessas questões, pois nos faz acusações:
– Olhe aí, você está ficando muito orgulhoso…
Contudo a verdade é justamente o contrário. A pessoa que tem uma imagem própria negativa está sempre tentando se mostrar. Ela tem de provar que está certa, em todas as situações, tem de mostrar seu valor. E geralmente fica tão envolvida em si mesma, que se esquece do Senhor.
Ninguém pode amar os outros incondicionalmente, quando precisa ficar o tempo todo tentando provar seu valor próprio.
A autonegação não tem nada a ver com a humildade cristã, nem com a santidade. A crucificação do eu e a entrega pessoal a Deus não exigem uma autoimagem inferior, que é diferente do que o Senhor pensa de nós.

“Visto que foste precioso aos meus olhos, digno de honra, e eu te amei, darei homens por ti e os povos, pela tua vida.” (Isaías 43.4.)

Entender que Nosso Senso de Valor Próprio Deve Vir de Deus
Temos de formar nosso senso de valor próprio a partir do que Deus diz, e não dos falsos reflexos que vêm das outras pessoas, do diabo e, até mesmo, do nosso passado.
Temos de fazer uma escolha que definirá a nossa vida: vamos dar ouvidos a Satanás e a todas as mentiras que ele nos diz, às distorções e às mágoas do passado que nos mantêm aprisionados por certos sentimentos e conceitos acerca de nós mesmos, que não são cristãos nem saudáveis? Ou buscaremos nosso senso de valor próprio em Deus e em sua Palavra? Não temos o direito de menosprezar ou depreciar uma pessoa (nós) a quem:

• Deus ama tanto.
Não devemos nos dizer: “Bom, sei que Deus me ama, mas não gosto de mim mesmo.” Isso é um insulto a Deus e ao seu ilimitado amor. Quando desprezamos um ser que é criação de Deus, estamos, na verdade, dizendo que não gostamos da “criatura” e não apreciamos muito o “Criador”. Na verdade, não estamos vendo o quanto Deus nos ama e o quanto significamos para ele.

• Deus honrou tanto.
“Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus; e, de fato, somos filhos de Deus…” (1 João 3.1.)
Quando nos consideramos desprezíveis e sem valor, sendo filhos de Deus, essa falsa humildade fere o coração do Senhor.

• Deus dá tanto valor.
Dificilmente, alguém morreria por um justo; pois poderá ser que pelo bom alguém se anime a morrer.

“Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo Fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores.” (Romanos 5.7,8.)

Deus deixou bem claro o valor que temos para ele. Ele nos atribui um valor tão elevado, que entregou a vida de seu Filho para nos salvar.
De onde tiraremos a base para formar nossa imagem própria? Das distorções de nossa infância? Das mágoas do passado e das falsas ideais que foram colocadas em você? Ou será que preferiremos dizer:
“Não, não darei mais ouvidos a essas mentiras do passado. Não escutarei o que Satanás diz, já que ele é o acusador, e me envia mensagens confusas e falsas. O diabo nos cega e quer distorcer tudo. Vou escutar a opinião que Deus tem de mim, vou deixar que ele me programe, até que o bom conceito que ele tem de mim passe a ser o meu, atingindo até o mais íntimo dos meus sentimentos.”
Permitamos que Deus nos ame, e deixemos que ele nos ensine a nos amar a nós mesmos, e a amar aos outros. Desejamos ser amados. Queremos que Deus nos dê segurança, que nos aceite. E, aleluia, ele faz isso. Contudo, por causa da programação nociva que recebemos de outras fontes, temos dificuldade em aceitar esse amor. Aliás, isso é tão difícil, que talvez prefiramos continuar a ser como éramos.
Querido, eu o desafio neste momento a iniciar esse processo de restauração, para que possa erguer bem alto sua cabeça, como filho ou filha de Deus.

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Viva a vida que você ama e ame a vida que você vive.

Tem alguém cansado de “agarrar a possibilidade de ser bom e crescer, junto com a vontade de ler, aprender e experimentar coisas novas ”? Deveria ter lido o livro de Eclesiastes.

Há 20 séculos as pessoas procrastinam como você hoje: adiam, atrasam, dão desculpas e deixam seus prazos desaparecerem. O filósofo romano e estóico Sêneca, certa vez brincou dizendo que uma coisa que todos os tolos têm em comum é, estão sempre se preparando para viver, mas nunca o fazem de verdade.
Sei que chegar até aqui foi um trabalho árduo – porque no último ano você perdeu o rumo (todos perderam!) e a partir disso sua jornada foi mais difícil do que você pensava que seria! Mas, vamos! Nunca pense pequeno, como eu sempre digo, se você tem um sonho, torne-o grande!
Também sei que o quê representamos para os outros nos deixa muito preocupados e, geralmente, dedicamos muito mais tempo ao que os outros vão pensar do que cultivar o que podemos nos tornar. Mas não tenha medo, meu amigo: eu sei que você pode fazer isso. Não estou dizendo que tenho poderes de clarividência, mas sei que você pode superar a meia-idade lamacenta e atoleiros culturais por causa de um simples fato: você está aqui. Você está pensando. Você está tentando. Não é fácil, mas você decidiu que seu sonho é importante o suficiente para dedicar seu tempo… e isso é tudo o que precisa. Parafraseando o filósofo Soren Kierkegaard :

“Se eu pudesse desejar algo para mim, não desejaria riqueza ou poder, mas a paixão da possibilidade; Queria apenas um olho que, eternamente jovem, ardesse de vontade de ver a possibilidade ”.

Agarre a possibilidade que vier e faça a coisa certa e você descobrirá algo no final: você gosta mais de ganhar do que de perder. Caso contrário, quanto mais tivermos consciência dessa jornada selvagem, maior será a chance de dar vida aos nossos sonhos. A apatia e o risco desnecessário devem ser minimizados. Sim, as coisas não são mais as mesmas, mas as estrelas ainda ficam no mesmo lugar. Às vezes, as coisas não saem de acordo com o planejado. Ferramentas quebram, fios se cruzam, a paciência se desfaz. E nessas ocasiões, ajuda saber exatamente o que aconteceu para que não aconteça novamente. Momentos como esses são quando nos voltamos para uma pergunta simples, mas extremamente eficaz: você já se esforçou para dar vida a uma nova visão criativa? Porque tudo flui para algo maior, certo?

Sabemos que somos animais dotados de uma arma de sobrevivência, a inteligência, e não deuses que moldam o mundo segundo seus próprios pensamentos. Contudo, a capacidade humana de atenção tem um limite natural. Só algumas poucas coisas podem ser verdadeiramente importantes de cada vez. E nós, humanos, somos capazes de dedicar uma grande energia à busca do nada e a mistura de pensamentos inúteis e absurdos.

Começamos este texto falando sobre este assunto, porque precisamos olhar para trás, para o ontem como fonte de aprendizado, sem, no entanto, ficarmos paralisados; afinal, precisamos também olhar para frente onde o futuro com todas as suas potencialidades nos espera. Porque nada é permanente. Tudo muda. Essa é a única coisa que sabemos com certeza neste mundo. Mas ainda vou reclamar disso. E em ordem cronológica, temos um maior senso de controle e a certeza de que as coisas que gostamos e queremos estarão lá porque escolhemos e não porque alguém, uma empresa, um aplicativo ou uma ferramenta disse que é relevante.
Talvez, para escapar disso, você tenha que superar por excelência da verdade, que é o seu esforço para se adaptar a um pensamento maior ou melhor do que o seu, e você deve, portanto, assumir a responsabilidade como todo indivíduo livre, de ver o problema com honestidade e pensar em soluções corajosas. O famoso “faça sempre o seu melhor e cresça”. Porquê se você é um sonhador, você também é um lutador! Tenha em mente uma coisa: se você não desistir, você melhorará a cada dia. Quem sonha, quem acredita e luta sabe fazer e faz acontecer! E mesmo com medo segue em frente, mesmo quando o medo o atinge, somos humanos não é mesmo? Lembre-se apenas de uma coisa: se você colocar muitas expectativas nas coisas e elas não fluirem, você acabará tomando as decisões erradas apenas para poder atender a essas expectativas! Cuidado com essa atitude errada!

“O segredo da mudança é concentrar toda a sua energia, não em lutar contra o velho, mas em construir o novo.” – Sócrates


Ser franco é ser consistente consigo mesmo. O sujeito justo é aquele que vive e se apresenta socialmente sem cortes, sem máscaras que escondem porções inconvenientes de sua personalidade. Nu e cru.
E por que isto é importante? Este novo ano traz um desafio a mais para todos: buscar uma razão para viver da melhor maneira possível!
Portanto, lembre-se que o Criador deu aos seres humanos inteligência e consciência, ou seja, não podemos entender e encontrar o caminho se estivermos nos escondendo de nós mesmos.
Talvez você, leitor, não saiba o quanto eu compartilho da ideia de que não adianta o ser humano expandir sua intelectualidade se essa aquisição não for acompanhada de crescimento emocional e autoconhecimento. Pois essa maturidade é o que nos faz pessoas inteiras, livres, capazes de se relacionar bem com outras pessoas, de lidar bem com nossas emoções, de administrar nossas vidas para sermos as melhores pessoas que podemos ser. Não apenas tente, mas seja esta pessoa. Paul Tillich chama a nossa capacidade de entrar na vida das pessoas para estimulá-las de “a coragem de Ser”.
Porque em nosso caminho para realizar nossos pequenos sonhos neste grande mundo, nos deparamos com o caminho de outras pessoas todos os dias, e durante estes breves encontros na encruzilhada, podemos ignorar os estranhos, ou podemos escolher torcer uns pelos outros.
Não importa o que aconteça, lembre-se sempre disso.

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Devocionais para não devotos XVIII

“Não importa o quão ousado ou cauteloso você escolha ser, no curso de sua vida você está fadado a entrar em contato físico direto com o que é conhecido como o Mal.” – Joseph Brodsky.

Nosso mundo seria melhor se tivesse mais Zoé (em grego  ζωὴν, João 1:4). Deixo esclarecido que faço aqui um comentário pessoal sobre um dilema moral, fato x valor, colocado por um hipotético sujeito e o processo pelo qual ele racionaliza sua justificativa para não seguir sua voz pessoal interior, vulgarmente chamada de consciência. Essa pessoa que deseja desesperadamente trocar sua etiqueta, sua pele e se firmar na pureza da verdade, em vez de se encolher em um silêncio civilizado diante da injustiça, teoriza as consequências de tal ação apesar de saber que isso não vai mudar o fato de sua declaração perturbar o mundo que, até este ponto, vivia confortavelmente em seu próprio auto-engano superficial. Como sua visão é tão diferente de todas as outras, ele sabe que isso perturbará a tranquilidade das pessoas ao seu redor. Em retaliação defensiva, em vez de reexaminar, reformar e admitir o erro de seus métodos, a sociedade voltará suas costas com desdém a sua declaração e proclamará a verdade que ele expôs como sendo apenas a loucura de um brincalhão. Ele ao ver que não será levado a sério, chora de frustração por ser o único que teve essa visão da verdade e da realidade. Ele se sente sozinho e pequeno no cosmos. Com isso, ele sabe que o mundo terá grande prazer em sua aparência externa de fraqueza e derrota, e em sua arrogância, ele sabe que eles se unirão em uma esmagadora declamação e o insultarão impiedosamente aonde quer que ele vá, todos os dias de sua vida. Ele ergue os olhos, buscando a aprovação celestial e a resolução do problema. Ele tenta clarear seus olhos em busca de um sinal do despertar milagroso daqueles ao seu redor. Assim que começa a enxugar os olhos com a fé de que, por causa de sua sinceridade de coração, certamente haverá mudanças, ele cai de seu estado de sonho para a realidade dura. A enormidade de toda a situação se abate sobre ele como um maremoto quando ele vê as ramificações do que começou com sua simples declaração da verdade. Ele está paralisado em pensamentos e não consegue mais entender suas próprias palavras enquanto elas se afogam no redemoinho de confusão entre a emoção humana e a verdade comovente. Ele eventualmente morre como um homem louco porque ele sabe a verdade, mas nunca a buscou com toda a sua intenção devido à sua falta de coragem em suas próprias convicções. Ele se via como totalmente inadequado para desafiar o que ele não aprovava neste mundo, então ele nunca defendeu aquilo em que acreditava. Após sua morte, a civilização se perpetua em sua alegre ignorância, incólume pela voz da verdade que ele guardava dentro de si. Ele se foi, e com ele, a ameaça potencial que ele representava para uma sociedade eufórica de moral fraca. No final, ele vê que realmente estava certo e que a sociedade estava realmente errada. Ele sabe então, tarde demais, que teria feito a diferença se ao menos não tivesse cedido aos próprios medos imaginários ou aos seus pecados. Ele desperdiçou uma vida inteira reprimindo a si mesmo e a verdade que um dia havia imaginado. Ele se tornou seu pior inimigo. Ele havia algemado sua própria alma, não a sociedade que ele tentou responsabilizar por sua falta de ação. No final das contas, ele se tornou a mesma coisa contra a qual uma vez se enfureceu moralmente, um membro silencioso e enganador de uma sociedade pretensiosa. Agora, depois de tudo isso, se ele acabar diante das portas do inferno, o diabo terá todo o direito de reivindicar sua alma. E não adiantará argumentar que os pecados foram terrivelmente escolhidos para representar tudo o que poderia fazê-lo feliz na Terra, pois é nossa obrigação fazer uma seleção melhor daquilo que nos faz feliz.

Uma última coisa: Deus não força você a acreditar Nele, apesar do Diabo trapacear o tempo todo para te convencer que não existe o inferno. E apesar de ainda não estar convicto de que conseguiremos nos comportar menos orientados para a satisfação da própria conveniência, ainda espero que sigamos em nossa jornada enfrentando os problemas e identificando a necessidade de encontrar beleza e sentido nos atos cotidianos da vida, mas desta vez com menos dúvidas. Feliz Natal para você meu querido leitor, que a propósito, deve sempre escolher melhor aquilo que te faz feliz.

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Uma espiritualidade não religiosa.

Sem pretender efetuar uma análise exaustiva nem tomar em consideração todos os aspetos da realidade que vivemos, proponho apenas manter-nos atentos a algumas tendências do mundo atual que dificultam o desenvolvimento da nossa espiritualidade.

Os escritos bíblicos reforçam a necessidade e destacam que a unidade é um elemento basal na Igreja Cristã. A Igreja é a reunião deste povo que foi chamado para a comunhão, para a unidade. Seja na celebração, no relacionamento, na devoção, na missão ou no comungar da fé. A Igreja de Cristo foi reunida por Ele, para louvor e glória Dele, que serve e está ligada somente Nele. Observando as características de cada povo, de cada país em cada continente, é consenso que os latinos são mais abertos ao congregar, ao reunir-se. Churrascos, aniversários, festas, muitas vezes sem motivos aparentes, fazem parte do cotidiano de um povo que gosta de estar junto, gosta de sentir o calor do próximo. Com o povo brasileiro não é diferente, há quem diga que somos o povo mais acolhedor do mundo. O Brasil é a nação onde todos são bem recebidos, bem tratados. Aqui, mesmo as reuniões mais formais, terminam com uma boa conversa sobre futebol, uma troca de receitas, uma dica de viagem ou uma boa piada que faz todos em volta rirem como se fossem velhos amigos. Gostamos do calor das relações, da conversa olho no olho, de um aperto de mão e um grande e forte abraço na chegada ou na despedida. Por isso, tem sido tão difícil viver este momento que nos impõe o distanciamento, como forma de demonstrar amor, respeito e carinho. O texto de Efésios capítulo 4, versículos 4 ao 6 é uma aclamação da fé cristã:


há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos”. 

Nela, há ecos da profissão de fé no único Deus de Israel ( Deuteronômio cap. 6.4-5 e ver Marcos cap. 12.29-30). Enumeram-se também, sete elementos da fé e da vida cristã, e se ressalta o caráter único de cada um deles. O centro de tudo é um Espírito (Santo), um Senhor (Jesus Cristo) e um só Deus e Pai. É cirúrgico em nos ensinar que a comunhão é algo divino, sagrado, é um dom de Deus, que fortalece os laços de amor, mesmo quando não estamos próximos; por isso, é possível, estarmos em comunhão mesmo afastados.

Teologicamente e filosoficamente não podemos re-significar uma cosmovisão, seja ela de pouca ou grande abrangência, sem descaracterizá-la, o que já não ocorre com o senso religioso por ser uma característica da individualidade do ser humano. A atitude que uma pessoa assume diante dos valores espirituais – Deus, vida eterna, a alma humana, o pecado, as causas do sofrimento – considerando suas convicções, práticas e comportamentos, chamamos de espiritualidade. E todos os seres humanos podem, em algum grau, serem espiritualizados; estou dizendo com isso que todos possuem a capacidade de fazer uma conexão com a sua essência ou com o transcendente para obter as respostas desejadas. Essa liberdade frente aos discursos religiosos pode ser entendida da seguinte maneira, segundo Villasenor (2011, p. 5): “o indivíduo sente-se livre para relativizar os discursos das diversas religiões em oferta, passando a bricolar vários preceitos religiosos”. Não se trata, contudo, de uma opção por produtos como dogmas ou preceitos, muito menos se trata de uma busca por referências norteadoras de um sentido último e definitivo. Trata-se de pequenos bens e serviços que atendem a satisfações relativas ao bem-estar individual.

Sobre esse enfraquecimento do sentido estruturante que pode já ter representado a dimensão religiosa em algum momento de nossa história ocidental, alerta Gianni Vattimo: “Não estou certamente frente a um patrimônio de doutrinas e de normas, claramente definidas, que resolveriam todas as minhas dúvidas e me indicariam claramente o que fazer” (VATTIMO, 1996, p. 70-1). O contexto da relativização dos discursos e do patrimônio doutrinário revela que a situação do ser humano em nossa civilização ocidentalizada vive uma significativa crise relativa à assimilação e consentimento face aos fundamentos da cultura hegemônica. Isso faz com que a centralidade de instauração de sentido migre, da religião e de seu staff, para os sujeitos. Daí se origina também a relevância do ecumenismo. Tal circunstância constituiu fenômeno único no itinerário pessoal de vida desse homem religioso, pois é por meio dele  que podem “perceber como todas as religiões em seus cumes místicos falam a mesma linguagem em todos os espaços e todos os tempos: a linguagem da ligação com a totalidade.”*

Ainda afirma SANCHIS (1997, p. 35), “o campo religioso é hoje, cada vez menos, o campo das religiões, pois o homem religioso, na sua ânsia de compor um universo-para-si, […] tende a não se sujeitar às definições que as instituições lhe propõem”. São os sujeitos os verdadeiros atores e mediadores das transações no mercado de bens e serviços religiosos. Esse controle já esteve, no passado, majoritariamente, com os agentes religiosos vinculados à oficialidade de suas agremiações. Além disso, em relação ao que ainda pretensamente se poderia continuar chamando religião, essa cultura celebra o local frente ao universal, os pequenos relatos frente aos grandes relatos, a excitação dos afetos frente às doutrinas, o amortecimento anímico frente à reflexão, paz e tranquilidade face à consciência e compromisso.

Quando se procura refletir no horizonte da cultura contemporânea o senso religioso, tenciona-se pensar este último na perspectiva de uma cultura decorrente da crise dos modelos abrangentes, falência dos grandes relatos articuladores de sentido, sejam religiosos, políticos ou culturais. Uma cultura marcada pela valorização do individual, do efêmero, também celebrada como cultura da fragmentação em que os sentidos postos têm valor enquanto sejam reconhecidos como instantâneos, móveis e passageiros. O valor está na relatividade e se a verdade já não se encontra estabelecida, a verdade é fruto do diálogo e não da imposição de interpretações que se julgam mais perto do ‘natural’”. Neste contexto, a cultura contemporânea está aqui pensada como o tempo de um particular enfrentamento do problema da identidade face à celebração da diferença, reconhecimento do valor da pluralidade, atomização e, politicamente falando, da laicidade. O que atualmente acaba criando a possibilidade de um indivíduo ter fé e espiritualidade e não participar de nenhuma religião. Esta diferenciação acontece quando preferimos projetar um deus a partir de nossas opiniões, nossas verdades e nossos conceitos mal elaborados.

Como explica Tomás de Aquino, fé é um conhecimento iluminado, embora possa crer em algo que não seja religioso. Entretanto, se um processo religioso for bem vivido pelo indivíduo acabará despertando sua espiritualidade, e será este conjunto de crenças que sustentarão e manterão suas escolhas voltadas para o que é bom e verdadeiro existencialmente. Devo lembrar que dentro do existencialismo a vida é um absurdo, até mais absurdo que a morte porque encontrar um sentido para viver é a maior dificuldade da existência humana. E o ceticismo é quase uma norma. Apesar das pessoas buscarem deixar um legado através de uma profissão, da arte, da literatura e do esporte, viver não é a respeito do que deixamos para os outros, e sim o que fazemos por nós mesmos. Ou seja, ter um sentido na vida é, antes de tudo, ser fiel a você mesmo e buscar aquilo que pode te fazer feliz. Não podemos esquecer que a razão, a filosofia, a natureza, a proximidade da morte, todas estas coisas podem iluminar, despertar o interesse do indivíduo para uma realidade transcendente e a possibilidade da vida se esgotar em si mesma; e muitas vezes ao buscar uma maneira de eliminar a angústia desses acontecimentos o indivíduo encontra uma saída na religião.

Viktor Frankl**, sobrevivente do Holocausto e psiquiatra, diz que o indivíduo precisa encontrar sentido no sofrimento (O ensino cristão por exemplo, é claro ao dizer que viver é ser afligido). E se não pode mudar o mundo, mude a si mesmo. Falta-nos a clareza do sentido potencial do que podemos realizar em nossa existência e aqui está o nó da questão! Essa incapacidade de conferir um sentido à vida leva as pessoas a enredar-se nos labirintos de neuroses e de outros fantasmas como a depressão e as drogas. É preciso pensar em como mudar crenças pessoais, buscar uma maneira nova de re-significar os sentidos e a própria existência. Pois morrer é fácil. Encarar a vida, e todo o absurdo que a cerca, é difícil.

Considerando as várias crenças religiosas existentes hoje, é interessante constatar que o grau de observância dos fiéis que a elas aderem é muito variado. Enquanto alguns aderentes são extremamente zelosos em obedecer aos preceitos de sua fé, outros não têm o mesmo tipo de empenho e de compromisso. Pelo contrário, sendo a religião um bem que assume a forma de produção coletiva em muitas situações, existe espaço para o surgimento do problema do carona, comportamento este em que indivíduos procuram apenas obter os benefícios do consumo de bens e dos serviços religiosos sem incorrer em custos. Também salta aos olhos o fato de mesmo tendo a possibilidade e a liberdade de praticar determinadas ações que, em princípio, não seriam consideradas condenáveis sob uma ética laica, muitos indivíduos optam por não as praticar em decorrência da observância da ética religiosa que adotaram.

Observando o comportamento humano nos deparamos com muitas outras situações, de forma rotineira, onde as pessoas que professam alguma religião formam suas preferências e fazem suas escolhas em um determinado horizonte intertemporal com base em suas crenças religiosas. Por outro lado, preferências moldadas em crenças religiosas também condicionam os seus aderentes a evitar o consumo, de modo temporário ou definitivo, de determinados tipos de bens e de serviços, como bebidas alcoólicas, fumo e literatura obscena. Ou de determinados tipos de alimentos. E como tem implicações de ordem econômica, no que se refere à influência das religiões na formação de crenças e estruturação das preferências individuais, isto acaba afetando a forma como são escolhidas também.

Talvez esse adjetivo ‘espiritual’ faça você pensar em coisas bem distantes da realidade atual, o céu e a vida eterna que ainda virão. E recebe o nome ‘espiritual’ por envolver um aprendizado específico: sermos guiados pelo Espírito de Deus e discernirmos sua voz. É um processo que se desenvolve ao longo do tempo e ao qual precisamos nos dedicar todos os dias. Paulo diz em Gálatas 5:16–17, “deixem que o Espírito guie sua vida. Assim, não satisfarão os anseios de sua natureza humana. A natureza humana deseja fazer exatamente o oposto do que o Espírito quer, e o Espírito nos impele na direção contrária àquela desejada pela natureza humana. Essas duas forças se confrontam o tempo todo, de modo que vocês não têm liberdade de pôr em prática o que intentam fazer.

Esse processo acontece agora, em meio à nossa vida diária, cheia de aspectos bem concretos relacionados ao trabalho, relacionamentos, pessoas, cuidados com a casa, o corpo, a comunidade e a igreja. Esse aprendizado se desenvolve no momento presente em nossa vida ordinária, enquanto Cristo está sendo formado em nós (Gálatas 4:19).

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Referências:

SANCHIS, Pierre. As religiões dos brasileiros. Horizonte: Revista de Estudos em Teologia e Ciências da Religião, Belo Horizonte, v. 1, n. 2, p. 28-43, 2o sem. 1997.

VATTIMO, Gianni. Creer que se cree. Barcelona: Paidós, 1996.

VATTIMO, Gianni; DERRIDA, Jaques. A religião. O seminário de Capri. São Paulo: Estação Liberdade, 2000.

VATTIMO, Gianni; RORTY, Richard; ZABALA, Santiago (Org.). O futuro da religião: solidariedade, caridade, ironia. Coimbra: Angelus Novus, 2006.

VILLASENOR, Rafael Lopes. Crise institucional: os sem religião e os de religiosidade própria. NURES, São Paulo, n.17, p. 1-13, abr. 2011.

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Devocionais para não devotos XVII

Não sei se esperam que eu vença esta guerra, mas vou lutar o quanto puder… Oro para que chegue logo o dia em que possamos saudar um mundo no qual não devamos matar inimigos que não conseguimos odiar. Para esse fim, estou disposto a ter meu corpo destroçado inúmeras vezes. Afinal, todos nós tendemos a querer chegar logo ao “resultado final”, a solução que resolverá o conflito. Apesar de saber que é exatamente a coisa errada em que se concentrar, pelo menos no início.

Achei uma aranha minúscula em cima de um livro. Num impulso de malvadeza, aproximei minha caneca quente da aranha, que se pôs a correr freneticamente. Coloquei a caneca à sua frente, ela mudou de rota. Repeti o ato várias vezes até a aranha se imobilizar. Deixei-a sossegada por um tempo. Num novo impulso, aproximei a caneca quente por cima e ela voltou a correr. Continuamos assim por uns dois minutos. Ela então cansou, encolheu as pernas e tornou-se imóvel mesmo sem ter sido tocada pelo calor da caneca. É possível que, para essa aranha, o tamanho do livro seja o do Rio de Janeiro, e cinco minutos sejam cinco ou dez anos. Durante esse período, e nesse espaço, onde quer que ela fosse, havia calor. E quando ela parou, o calor veio de cima… Se isso acontecesse a um ser humano, ele enlouqueceria? Talvez. Uma frase de Jean-Christophe [obra que valeu o Nobel de Literatura ao romancista francês Romain Rolland] sobre isto:

“A vida consiste em uma batalha contínua e sem trégua. Se você quer se tornar um ser humano honrado, precisa lutar contra inimigos invisíveis, desastres naturais, desejos avassaladores, pensamentos sombrios; tudo o que engana a pessoa, a diminui, a destrói.”

Ajuda saber quais são as regras antes de se preparar para quebrá-las? Sim, porquê ao saber muitas vezes descobre-se que não é necessário tal ação.

Através da alegoria da aranha vejo o retrato cru e doloroso das pessoas nestes ‘novos’ tempos: sem entender o que ocorre, eles correm sem rumo, em busca de uma saída para a situação impossível causada pela angústia e ansiedade desses dias tão malucos. Seu entendimento é que não se deve preocupar com as ações e seus valores no passado, tendo em vista que nada se pode fazer a respeito do que já passou, mas que se deve, antes, buscar olhar para frente, para o futuro, tomando como motivação a escolha de ações que maximizem suas boas consequências e que reduzam ao máximo suas más consequências. A maioria deles gostaria de fazer alguma diferença no mundo. Não nego que parte desse desejo deriva da sua vontade de ter a existência reconhecida. Mas sobretudo, ela deriva do vazio que sentem e da sua ira com os chamados líderes, que são incapazes de reconhecer problemas que até eu consigo identificar. Para isso desejo me tornar um ser humano capaz, mesmo que a grande custo, capaz de identificar objetivamente a causa do problema e transmitir esse conhecimento à geração seguinte.

A aranha não entende de onde vem aquela coisa quente e não sabe como se livrar. Seres humanos também se perdem às vezes…

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