Quem machucou você?

“I hurt myself today

To see if I still feel”

O trecho acima é da música Hurt1. Ela começa dizendo: “Me machuquei hoje para descobrir se ainda consigo sentir”. Isso acontece porque ele jogou fora quase tudo que o fazia humano. Então ele precisa saber se ainda sente pelo menos a coisa humana mais básica: a dor. Ele usa uma analogia de drogas para simbolizar o método de autodestruição que usou para se desumanizar. Esse método pode ser interpretado como drogas literais, como religião, como uma amante… A partir disso ele faz uma pergunta: “O que eu me tornei?” Olhando para a sua vida ele percebe que se tornou algo diferente, algo desumano. Ele percebe como suas ações eram inúteis. Então o próximo verso fala sobre como ele “matou” Deus, ou pelo menos o removeu de sua vida e assumiu o Seu lugar, sem conhecer as conseqüências de suas ações. Finalmente, no final da música, ele lamenta suas ações e diz que se tivesse outra chance de começar de novo faria tudo diferente para manter sua alma. Mas como cristão sei que uma segunda chance não deve ser usada para manter a posse dela (Marcos 8:36). Você não pode ganhar o mundo e rejeitar a Deus (nem que seja temporariamente) sem perder sua alma, quem agir assim vai perdê-la, e a melancolia o invadirá e quando perceber, suas escolhas não poderão perpetuar sua existência, tão pouco produzir um estado em que possa “sorrir para o mundo e dar-se bem com tudo”. Isto o faz perceber que se não há ninguém ou nada que tenha algum tipo de valor em sua vida, você está sozinho e é um governante de uma vida vazia? E outra coisa, o maior inimigo das almas humanas é o espírito hipócrita que faz os homens olharem para si mesmos buscando auto salvar-se. Ou você é o salvador ou precisa ser salvo.

O autor da música também percebe que não é capaz de mudar sozinho porque não é mais tão humano do que os outros. E que sempre deixará as outras pessoas para baixo e as machucará. Ele machucará qualquer um que tentar se aproximar dele. Como se machucou tanto, machucar é tudo o que sabe. Ele como todos nós, está em busca de uma saída. E o refúgio mais próximo para quem está sofrendo de angústia é a solidão. E hoje é muito comum percebermos todo mundo vivendo como usuários da solidão mais do que lutando contra ela, apesar do assunto não ser falado abertamente. Isso acontece porque a solidão pode nos desprender do próprio solo da História produzindo um tipo de suspensão ás vezes, levando-nos a uma atitude livre de referências, marcas ideológicas ou clichês. O que obrigatoriamente nos faz buscar novos horizontes e, paradoxalmente, deixar a caverna das certezas. Entretanto, ninguém muda, torna-se uma pessoa diferente, enquanto ainda sente os sentimentos da pessoa que deixou de ser. Eis um motivo do porque não podermos, na visão de Husserl[2], extrair evidências plenas de nossa percepção empírica do mundo, pois, a julgar pelo o que a experiência sensível nos revela do mundo, nós jamais poderíamos eliminar por completo a possibilidade de duvidar da posição de existência das coisas que se nos apresentam e, neste sentido, estaríamos sempre prontos a corrigir as nossas percepções do que havia sido estabelecido com base na experiência sensível. Ou traduzindo do ‘filosofês’: viver nestes termos seria um eterno “eu quero dizer agora o oposto do que eu disse antes”. E daí viria a necessidade de se metamorfosear continuamente para poder experimentar as tantas percepções, e criar sensações que ressignifiquem aquilo que a existência em si não é capaz de mostrar com clareza. Tudo seria relativo demais,  líquido demais. Os encaixes mudariam e os pinos também, constantemente.

Segundo Eugene Ionesco, na história da humanidade não há civilizações ou culturas que não manifestem, de uma ou mil maneiras, essa necessidade de um absoluto que se chama céu, liberdade, milagre, paraíso perdido, paz, ir além história; não existe uma era que não expresse a necessidade do homem ser transfigurado ou que não expresse o desejo de revolução, a busca pela Cidade Ideal, isto é, o desejo de purificar o mundo, de modificá-lo, de salvá-lo, reintegrá-lo metafisicamente ao divino. A humanidade nunca ficou satisfeita somente com a “realidade tal como é”. Na Grécia pagã, onde a harmonia mais perfeita parecia existir entre a moralidade e a alegria, entre a natureza e a sociedade, os platônicos, embora vivessem sob o céu mais luminoso do mundo, pensavam que este mundo e este céu não eram capazes de contemplar a única luz essencial, aquela das idéias eternas. Os próprios estóicos aceitavam passivamente viver uma vida cotidiana absurda e cinzenta porque sua metafísica prometia que os homens sábios após a morte contemplariam os movimentos das estrelas, isto é, a beleza absoluta e não-terrestre. Não há religião em que a vida cotidiana não seja considerada uma prisão; não há filosofia ou ideologia que não pense que vivemos na alienação; de um modo ou de outro, e mesmo nas ideologias que negam os mitos de que se alimentam apesar de si mesmos, a humanidade sempre teve uma nostalgia pela liberdade que é apenas beleza, que é apenas vida real, plenitude, luz.

Bem, na vida ordinária do dia a dia lidamos com pessoas e suas atividades, com toda a sorte de eventos complexos, e com relacionamentos sociais como o Estado, a igreja, o sindicato e a família. A realidade temporal também inclui animais, plantas, minerais, dentre outras coisas, sejam elas formadas pela natureza ou pela cultura como, por exemplo, o caso de homens em linhas de produção, em lojas, ou em laboratórios. Mesmo uma descrição primária como essa nos envolve num processo não de construção, mas de observação de todos os tipos de distinções salientes presentes na vida humana. Isso pode parecer uma verdade incontestável num primeiro momento, mas a história da filosofia nos oferece muitos exemplos de homens que sobrepuseram suas ideias brilhantes à realidade antes mesmo de começarem a examiná-la. Por isso precisamos nos guardar contra este perigo e investigar acuradamente a estrutura que a realidade temporal revela por si mesma.3

E sendo um pouco mais sincero e franco aqui, investigar também é deixar-se investigar, e dar a alguém a minha solidão seria, falando poeticamente, construir uma janela para a minha alma e deixar o outro espiar. De certo modo ficaria esclarecido que há entre a essência e a existência uma expressão particular de cada individuo, sua consciência, e que seria esse também o elo faltante para nos fazer passar de uma visão ingênua do mundo para um modo de consideração das coisas, no qual o mundo se revela em sua totalidade como “fenômeno”. Ou como Kant dizia: “Das ding an sich”. A coisa (ou mundo) como ela é realmente, não o que parece ser ou eu acho que é. Sabe quando as coisas dão errado e logo assumimos que as pessoas querem nos prejudicar e geralmente há uma explicação mais lógica? Então, por isso não devemos atribuir à malícia o que pode ser somente o produto da nossa estupidez. A razão é sempre “razão” de alguma realidade, e a realidade “é”. Tudo que é, é ser. Ser racional é ser inteligível por uma racionalidade, uma razão. Nunca podemos separar totalmente SER e RAZÃO.

Uma coisa precisa ser explicada aos cristãos: Crer em Cristo é permanecer em seus ensinos. Permanecer nos ensinos de Cristo é resistir à forma de agir e de pensar do mundo. Essa resistência não se trata, portanto, de uma ação reativa, mas uma atitude intencional de não ser como o mundo é. Ou seja, além de seguir os ensinos de Cristo a qualquer custo, o cristão decide conscientemente não seguir o modelo de vida proposto pelo sistema de valores do mundo. Ou vamos pouco a pouco, por exemplo, deixar de aceitar a tristeza como nosso acessório de fábrica e, portanto, negaremos um sentimento intrínseco ao ser humano.

Eu sei, às vezes, nem agimos de forma voluntária. Estamos descansando calmamente, assistindo a um documentário, lendo um livro ou conversando com alguém no whatsapp e, de repente, aquele “alguém” chega, alguém que sabe tudo por sua própria experiência e nos conta sobre sua vida. Você começa a se divertir e para, começa a ouvir e imaginar como deveria ter sido crescer naqueles anos, até perceber que a conversa se tornou uma emboscada da qual você não pode escapar. Todos nós sabemos como que é, são momentos inesquecíveis da nossa vida, momentos inestimáveis, mas devemos reconhecê-lo: somos sempre surpreendidos e enquanto escutamos, parte do tempo passamos procurando uma maneira de fugir.

E aí seguimos sendo um eterno aprendiz, acreditando que a vida pode ser bem melhor nesta atormentada busca pela felicidade que nos é negada por esta sociedade que nos impõe ritmos frenéticos e objetivos falsos que acabam eclipsando as coisas realmente importantes da vida.

1- https://www.youtube.com/watch?v=gSS2IgnnBo8

2- www.revispsi.uerj.br/v12n3/artigos/html/v12n3a08.html

3- Contornos da filosofia cristã / L. Kalsbeek; traduzido por Rodrigo Amorim de Souza. _

São Paulo: Cultura Cristã, 2015

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Não escolha ser enganado por você mesmo

Se uma orla dá contornos a água, a água modela a orla. Embora sejam forças iguais são opostas, mas se combinam para formar um ambiente. Assim o ser humano também, como as ondas e a orla, está sempre forçando os próprios limites afim de ampliar suas adjacências (para tornar-se mais relevante talvez) e ao mesmo tempo sendo forçado a permanecer no status quo determinado pelas circunstâncias. 

Esta junção de forças funciona adequadamente para explicar a busca por realização do ser humano. O conhecimento atual diz que estamos dentro de limites aproximados, nascidos pela natureza e solidificados pela criação e ainda assim amorfos e maleáveis, onde toda onda imperceptivelmente nos altera a cada encontro acidental e sucessivo. Onde cada “erro” é uma real possibilidade para o ser humano criar consciência de como está no mundo, e ter a exata noção do seu ser e das consequências do que faz. Algo muito real para os cristãos obrigados por uma ética bíblica, isto é, crentes que lutam por corações, mentes e corpos puros, mas confiam na graça de Deus nas (muitas) ocasiões em que as coisas dão errado. Sinto dor, sofro, passo por dificuldades, mas aprendo a me conduzir dependentemente da graça divina e sem me tornar um peso para ninguém e tentar viver harmonicamente.

A vida é uma jornada onde os privilegiados nem sempre são os mais fortes, mas àqueles que arriscam superar seus próprios limites. ˗ Misael Bass Teixeira

Pensemos em um homem que perdeu tudo o que conseguiu conquistar a duras penas e outro que perdeu tudo que reconquistou depois de uma grande luta. Em comum o fato da perda e de estarem a bordo de uma jornada que vai levar a um ponto ou lugar sem data definida. O consolo é a chegada? Viver é apenas existir? Nunca deveria existir um tempo chamado cedo demais? Ter conhecimento da realidade e percebê-la não é mais importante que a realização de algo em busca da verdadeira felicidade. Mas o homem cotidiano não gosta de demorar, tudo o apressa e ao mesmo tempo, nada lhe interessa além de si mesmo como já dito por Albert Camus.

E se as coisas durassem para sempre saberíamos dar o valor que elas têm? Não. Porque queremos tudo perfeito justamente para não dar valor a nada. Agora, se você já escolheu sua maneira de viver aceite isso. Há uma grande diferença entre aceitação e escolha caso não tenha percebido.

Em 1845 Karl Marx escreveu suas famosas 11 teses sobre Feurbach. Na sexta tese Marx afirma algo verdadeiro, mas reducionista: “A essência humana é o conjunto das relações sociais”. Efetivamente não se pode pensar a essência humana fora das relações sociais. Mas ela é muito mais que isso, pois resulta do conjunto de suas relações totais. Mas a aceitação atual da indicação de Marx mostra que a maior parte da construção do homem moderno se realiza, efetivamente, apenas em sociedade. Daí a supervalorização da formação social que melhor cria as condições para ele poder desabrochar mais plenamente nas mais variadas relações.1

Alguns de nós já sentimos essa tensão em nossas próprias vidas. Percebemos as maneiras pelas quais amigos, colegas de trabalho e até mesmo membros da família olham para nós com olhos arregalados e perturbados quando percebem nosso compromisso de honrar a Deus com nossos corpos, mentes e almas. Podemos não ter tido nossas vidas destruídas ou estragadas pelo caminho, mas sabemos o que é ser questionados, provocados ou ridicularizados como resultado de expressarmos e praticarmos nossa fé. E para muitos, esta tem sido uma experiência dolorosa. Ser incompreendido sempre é. Mas muitos de nós ainda gostariam de saber a verdade.

No livro de Jó, a experiência existencial do personagem se dá em um contexto de perdas, sofrimento e marginalização que transcende as explicações mais razoáveis. Somos convidados então a nos libertar da prisão ideológica de nossos dias, das narrativas construídas através das tradições culturais conseguidas graças à acumulação de conhecimentos baseados em um senso comum que especula e apenas arranha a superfície da existência humana, e acabam por produzir um ser humano incapaz de construir uma vida nova, um mundo novo, uma história de fato. Além de cada vez mais se distanciarem de Deus. Porque quando acreditamos que somos senhores de nós mesmos, nos conformamos com uma falsidade dada a nós pelo “pai da mentira” (João 8:44). Quanto mais acreditamos em nós mesmos, menos capacidade temos para discernir a verdade. Como Paulo nos lembra, “você não é seu, mas foi comprado por um preço” (1 Coríntios 6:19). Agora, como sempre, as mentiras do diabo se escondem como verdade, em lemas comuns de nossa cultura que soam atraentes, inspiradores e desejáveis. Queremos estar no comando de nós mesmos, no controle do nosso futuro e capazes de nos tornarmos melhores. Isso parece muito bom e razoável. Mas quando “você faz você”, você se torna o eu supremo. “Se formos longe demais, a busca por um ‘Ser Supremo’ pode se confundir com a mais antiga tentação humana”, escreve Ross Douthat em Bad Religion, “o sussurro no Éden de que ‘sereis como deuses’”.2

Na nossa vida diária, usamos nossa percepção continuamente para nos movermos dentro de casa, na rua, no trabalho etc. Nessa movimentação elegemos sempre um alvo, para agirmos em direção a ele e realizarmos algo importante para nós. Após esta realização partimos para outra onde tudo se repete. Se quero sair de uma vila onde moro, preciso necessariamente intencionar que quero sair. 

Isso significa que minha consciência esteja ligada ao que elegi. E quando elejo, aponto um alvo, isto é, uma figura. Nesse instante em que realizo esta necessidade, tudo que intento a posteriori fazer, fica no que o Gestaltismo chama de fundo. Pois bem, se quisermos viver contrariando essa lei que está em nós, viveríamos sem consciência, pois ter consciência é ter, como disse Husserl (1959) 3, consciência de algo, de alguma coisa, sob pena de não se ter consciência na espécie humana. Se tiro o algo, isto é, a figura, minha consciência, se é que ainda posso falar de sua existência, ficaria somente como um fundo amorfo, desorganizado.

Por isso que é importante não permanecer totalmente fascinado e absorto por tantas narrativas que acontecem ao nosso redor o tempo todo; porque se as coisas derem errado será preciso não seguir o fluxo delas. O mundo pode tentar nos esmagar e provavelmente o fará. Mas toda vez que o ser humano quiser sobreviver a isto, só será vitorioso se a sua fé puder ser embainhada na Verdade.4 

Bem, ao ler Os Irmãos Karamazov percebe-se que os personagens sucumbiram ao orgulho e, portanto, à influência do demoníaco e viveram de acordo com falsas narrativas sobre sua identidade. Um chama a si mesmo de bufão. Outro se apresenta como um intelectual. Ainda outro está dividido entre ser um herói romântico ou um sensualista. A figura sagrada do romance, o padre Zosima, adverte esses personagens: “Acima de tudo, não minta para si mesmo. Um homem que mente para si mesmo e ouve sua própria mentira chega a um ponto em que ele não percebe qualquer verdade”.

Para os crentes, essa luta entre o bem e o mal, entre Deus e Satanás, se resume à nossa visão de autoridade. Nós, protestantes, frequentemente nos encolhemos com essa palavra, em parte porque nos lembramos de abusos de poder e excessos autoritários. No entanto, a palavra também deve evocar aquele que nos criou. Se rejeitarmos toda autoridade para “pensar por nós mesmos” e “sermos nosso próprio guia” no mundo seremos inconscientemente presos à autoridade demoníaca. Mas Deus é a autoridade final para nós cristãos.

Eu queria fazer parceria com Dostoiévski e O’Connor para lembrar os leitores do verdadeiro demônio, cujo contágio de mentiras e violência atrai todo coração humano. Este demônio atormenta cada um de nós. Através da nossa cultura e da mídia, em particular, ele mente docemente e constantemente. Olhe para cada filme ou desenho infantil que parece retratar um herói olhando para sua imagem em um espelho ou uma piscina de água e descobrindo que o segredo da vida é acreditar em si mesmo ou confiar em si mesmo. Mas “o coração é enganoso acima de todas as coisas”, Jeremias nos adverte nas Escrituras (Jr 17: 9). O diabo deve ser desmascarado para que cada um possa se ver pelo que realmente somos: almas necessitadas de um salvador. 5

E mais: nós fazemos questão de mostrar que está tudo bem sempre porque não gostamos da ideia de admitir que erramos ou não temos o controle. Que somos limitados e não entendemos perfeitamente o mundo que nos cerca. Por isso é difícil compreender que apesar de tudo e dessa realidade estar mutilada, ainda estamos em uma constante jornada em busca da parte que falta, e mesmo dizendo que não posso me auto guiar, disciplinar e viver sem algum tipo de autoridade, preciso admitir que nossos sonhos podem se tornar realidade apesar das tristezas e precariedades da vida. Como nem mesmo a ciência pode conhecer as profundezas de sua alma, enquanto seu consciente não sentir nenhum problema em particular, é você quem finalmente escolherá, porque somente sua consciência decidirá o que é bom ou melhor para si mesmo! Por estarmos corrompidos pelo pecado nós cristãos acreditamos que a nossa alma precisa de um guia para fazer a escolha certa, nos ajudar a enxergar na montanha de circunstâncias uma que nos ajude a corrigir a nossa falta. Porque a vida é assim também. Às vezes, de algo horrível, algo maravilhoso acontece. Os milagres são ainda mais prováveis e possíveis em nossa realidade fragmentada.

1 https://oficinadopinduca.wordpress.com/2015/07/09/a-conveniencia-do-arco-iris/

2 Jessica Hooten Wilson é professora associada de humanidades na John Brown University, em Siloam Springs, Arkansas, e autora de três livros, Dando ao Diabo a Sua Vinda: Autoridade Demoníaca na Ficção de Flannery O’Connor e The Brothers Karamazov (que recebeu CT’s Prêmio de livro de 2018 em cultura e artes), Walker Percy, Fyodor Dostoevsky, e a busca por influência e leitura de Novelas de Walker Percy . Atualmente, ela está preparando o romance inacabado de O’Connor para publicação.

3 HUSSERL, E. Recherches logiques. Tome 1: Prolégomènes à la logique pure. Collection Epimethée. Paris: PUF, ([1900] 1959).

4 https://medium.com/@robertovargasjr/rei-arthur-e-os-cavaleiros-da-t%C3%A1vola-redonda-12dd1acbd94f

5 Ibid. ao 1.

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Você pensa que está girando ou rodopiando?

Saber a diferença entre um giro e um rodopio, que é ter uma das pernas como eixo, me lembra e faz entender que viver é ir um pouco além de expectativas, momentos ou circunstâncias cabíveis a cada um. Ainda que a ideia de liberdade em nossos dias pareça ser o direito de definir o próprio conceito de existência, de significado, nós precisamos atentar para o fato da natureza humana ser permanente. Em filosofia quando se diz que existe uma verdade sobre algo ela automaticamente torna as outras uma mentira. O que é extremamente difícil e frustrante nisso tudo é o simples fato de ter tanta certeza antes e agora eu me sentir completamente perdido e um nada. Chamo essa sensação de vertigem do rodopio. Para piorar, quando você está no ônibus e o celular está descarregado tudo que você faz é olhar para fora da janela enquanto os pensamentos ecoam na sua cabeça: “Estou perdido… Não sei do que preciso… Do que realmente gosto… Onde quero estar… Quem eu quero ser”. E claro, a suprema dúvida das dúvidas: “Eu realmente estou perdido”? Que só é menos pior se a possibilidade de resposta for: Se você faz esta pergunta dessas muitas vezes ao dia, durante o mês, durante a vida, invariavelmente você já sabe onde está o problema e a solução também. Aí começam a bater algumas dúvidas na cachola da gente:

“Nada no mundo consegue tomar o lugar da persistência. O talento não consegue; nada é mais comum que homens fracassados com talento. A genialidade não consegue; gênios não recompensados é quase um provérbio. A educação não consegue; o mundo é cheio de errantes educados. A persistência e determinação sozinhas são onipotentes”*.

Porque tanta angústia se já sabemos o que deve ser feito? Bem, eu acredito que nós não nascemos para voar. Nascemos para fazer do nosso lugar um lugar melhor. Mas como não estamos muito interessados nisso, criamos asas para nos evadir. Como um monge inglês chamado Pelágio** disse:

“já que a perfeição é possível para o homem, ela é obrigatória”.

Girar é sempre em torno de algo, de um centro. Mas rodopiar nos faz o centro do giro. O segredo para ser perfeito é sempre vontade e esforço não é? Se os indivíduos trabalhassem bastante e empregassem seus talentos com sabedoria suficiente, eles poderiam ser perfeitos. Mas um rodopio simples nos mostra como estamos errados em compreender nossa fragilidade. Somos frágeis e falíveis. Nós temos necessidades que precisam ser supridas. E todos nós precisamos da graça de Deus. Não somos auto suficientes. Cada vez mais me convenço de que só é complicado e difícil quem não tem muito a dizer e acha que é preciso se valorizar, transformando o que era simples num enigma de esfinge.

Na frase de Kant, “O homem é aquilo que a educação faz dele”, o filósofo afirma que somente através da disciplina e moralidade, chegaremos a uma humanidade mais feliz e respeitosa com a coletividade. Temos visto o contrário disso não é mesmo? Bem, Imagine que o dia mal começou e a pessoa já estava andando por aí com uma raiva sem tamanho porque teve um sonho ruim e não tinha a quem culpar porque ‘ninguém faz promessas a alguém nos sonhos’? Isto pede a dica do dia: os momentos felizes não estão escondidos no passado e nem no futuro. Outra coisa importante: parece que seguimos compreendendo o valor do petróleo, da comida, dos minerais preciosos e da habitação, mas não o valor da beleza intocada, de uma amizade, da vida selvagem, da solidão e da renovação espiritual. Deve ser porque estamos em uma época de saturação da mídia, das liberdades, das dúvidas, das filosofias, de tudo. O nosso maior perigo hoje não é o de nos entregarmos a formas obviamente pecaminosas de entretenimento, porque parece que nada mais é errado se te faz feliz, mas que nossa atenção se consumisse lentamente com trivialidades e nos tornássemos entediados com a Verdade ou até mesmo incapazes de reconhecê-la.

Será que continuaremos agindo como estúpidos, negando teimosamente que era ilusão tudo aquilo que investimos tanto tempo e esforço, até quando mesmo? Quando temos um centro para orbitar revoluções podem acontecer. Mas ser o centro nos obriga a voltar ao mesmo ponto várias vezes, e não é sempre por um bom motivo. Acho que não sei mais como lidar com as pessoas por causa destas atitudes cínicas, egocentradas, mesmo eu passando a vida toda achando que sabia, mas eu não sei. As vezes me sinto como um ouriço. Todo mundo conhece um ouriço. São tímidos, hábitos noturnos (muita netflix e mineração online nas redes sociais), espinhosos as vezes, principalmente quando precisam defender suas posições ou pontos de interesses. Mas capazes de sofrer o espinho alheio se for por um motivo de bem comum maior. São totalmente diretos quando confrontados: Se você tentar perturbar o seu silêncio que seja com algo relevante porque senão… Pimba!

_ Mano, tá tudo bem?

_Que pergunta idiota. Nunca está tudo bem.

Traduzindo as entrelinhas: “Não ouse roubar a minha solidão, se não fores capaz de me fazer real companhia” (Nietzsche).

Isso não parece muito empático para mim agora, lendo devagar, embora se você sabe que ficar evitando os seus problemas não é a mesma coisa que solucioná-los… Tudo bem para mim. Às vezes penso que Deus não deixa as coisas fazerem sentido pra gente aprender a brincadeira de decifrar. Ou podemos pensar assim:

“Você não pode simplesmente sentar-se e colocar a vida de todo mundo à frente da sua e pensar que isso conta como amor. Você simplesmente não pode. Você tem que fazer coisas. Eu vou fazer o que eu quero fazer. Eu vou ser quem eu realmente sou. E vou descobrir o que é isso.” (Stephen Chbosky).

Você deve ser responsável por escolher girar ou rodopiar. Em ser humilde e comum aceitando sua fraqueza e necessidade de ajuda, e ajudando seu próximo também. Leu isso e logo veio aquele sentimento de gostar-o-suficiente-pra-não-conseguir-sair-no-meio-da-conversa-chata? Acho que isso diz mais sobre quem você é do que sobre a outra pessoa. Isso me faz sentir como se a minha piscina estivesse cheia de mocaccino (Não que eu tenha uma. Usei a comparação para ser exagerado mesmo). E as minhas ideias fossem reminiscências de uma época boa com uma ideologia que é puro argumento de música francesa para levante popular***. Pelo menos uma vez na vida, a gente gostaria de ter a chance de esquecer tudo isso… e poder recomeçar. Entende? E quando digo “tudo isso” estou falando em dar um reset na vida… Pelo menos saber por onde ir e começar… A cruz cristã anuncia a fraqueza e necessidade de cada pessoa. E isso significa que exclui a ostentação, o orgulho e egoísmo de poucos. Olha, algo da minha moral judaico cristã está gritando umas coisas do C.S. Lewis aqui:

“Somos criaturas medíocres, brincando com bebida, sexo e ambição, quando a alegria infinita nos é oferecida. […] Nos contentamos com muito pouco.”

Agora sinto como se a qualquer momento tudo fosse desabar e que eu irei pagar até pelos erros que não cometi. Então, se é desse jeito como todo mundo já sabe, mais cedo ou tarde vamos sentar para o banquete das consequências, eu já peguei o pires para me servir e você?

*https://citacoes.in/citacoes/111311-immanuel-kant-o-homem-nao-e-nada-alem-daquilo-que-a-educacao-faz/

** https://g.co/kgs/gwP9jC

*** https://www.youtube.com/watch?v=tmiI98EG1Fo&feature=youtu.be

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O “erro” de todo mundo precisa de um amigo.

Você sabe qual o sonho que você tem e onde você está tentando chegar, a missão é simples, mas toda vez que você pensa que chegou, um alçapão se abre ou algo escorrega de suas mãos ou você está um pouco atrasado para pegar o metrô ou é a bateria do celular acabando, não é? Parece que a execução do seu plano não é tão simples porque em algum lugar agora, algo adoravelmente frustrante está acontecendo e antes que você perceba, cinco passos se tornaram mais de dez passos. Todas as vezes que isso acontece nós percebemos a nossa pequenez e nulidade diante da vastidão do mundo. Perceber que não temos todas as respostas e ferramentas adequadas é o que nos obrigará a sair da caverna em busca delas. E por sair dela, crescemos, amadurecemos e encontramos as respostas.

Yesterday and days before

Sun is cold and rain is hard

I know, been that way for all my time

‘Til forever on it goes

Through the circle, fast and slow

I know, it can’t stop, I wonder*

Talvez por isso precisamos tanto de amigos.

Nós sabemos que a nossa existência tem um propósito. Muitas pessoas perguntam: Estamos todos perdidos ou já nos encontramos? Será esta a dúvida que substituirá “quem sou eu e para onde vamos?” Bem, ainda seguimos seguindo as errantes estrelas ou como diz o sábio Haruki Murakami: “Aquele que ama procura a parte que falta de si mesmo”.

Essa dúvida creio que enquanto vivos não somos capazes de responder sozinhos. Ou pelo menos nesse momento que o mundo está ainda não temos mentalidade suficiente para responder. Mas será que não temos algo deixado para nós ou alguém iluminado que tenha nos ensinado alguma coisa? Porquê amar a Deus é buscar uma parte que nos falta porquê somos feitos por Ele. Sim do pó das estrelas (Por que brilharemos como estrelas logo… somos agora o pó delas). Mas ainda temos que descobrir quais respostas são certas e adequadas. Falta descobrir onde você encaixará sua vida para fazer valer sua existência enquanto não transcende. Apóstolo Paulo diz que precisamos viver de maneira tal que a nossa fé permaneça firme no fim de tudo, produzindo a alegria de uma carreira cumprida.

De alguma maneira se você é cristão como eu perceberá que a graça divina nos encontra através de caminhos improváveis. Um desses caminhos é a amizade. Imagine que alguém aparece com uma caixa de papelão cheia de desventurados objetos na sua porta, coisas de jovens, os dois tornam-se amigos rapidamente, enquanto brincam em parques e testam todo tipo de ideias, e crescendo juntos comemoram todas as coisas extraordinárias que podem fazer e que seres erráticos típicos não conseguem. Não conseguem porque o erro mais comum da maioria das pessoas é achar que precisam abrir mão da sua liberdade para viver no mundo de alguém, obrigando-se a estar em um constante diminuir para caber, e não admitir que todos têm partes boas a serem juntadas e ruins a serem corrigidas ou eliminadas. E que a regra máxima deveria ser sempre: duas coisas boas juntas ainda que pequenas nunca darão errado. O todo só existe por causa de suas partes menores não é mesmo?

E quando aparecer a dúvida: Será que preciso expandir meu círculo de amigos e sair da segurança do pseudo anonimato auto imposto para experimentar um pouco de alegria e até mesmo um “encaixe” duradouro? Se ainda somos necessários uns aos outros para sermos melhores então sim, amigos serão bem-vindos.

Claro que viver o máximo possível uma relação de amizade ou proximidade afetiva com alguém além do seu vizinho mais próximo é estar disposto a quebrar pequenas convenções particulares, receber lições de gramática não solicitadas e visitas em horários impróprios. E depois de algum tempo você começará a perceber que apesar de não poder fugir dos chatos, pode andar de skate ou patinete. E pode não conseguir um casaco de lã, mas pode servir uma xícara de café. Não pode deixar suas marcas em todos os lugares, mas sabe como explodir uma bolha de chiclete. E de cabeça para baixo! E o melhor disso tudo passar a ter um tremendo orgulho da singularidade de seus novos amigos e ter no final uma mensagem duradoura e tão satisfatória como: encaixar é muito entediante? Mas você pode amar isso se entender a diferença entre “O que você está fazendo?” e “Descreva suas ações” (Um está inquirindo, o outro exigindo).

Outra coisa, se “Homem nenhum é de fato bom, enquanto não souber quão mal é, ou poderia ser” como diz G. K. Chesterton, fica clara a nossa necessidade da ajuda de alguém? Eu acredito que o erro de todo mundo é achar ou exigir do outro que ele tenha somente coisas boas para dar, que seja o nosso amigo de brinquedo, forçando um encaixe sem respeitar suas particularidades. Todos nós possuímos algo-fora-dos-padrões que pode nos levar para fora do lugar comum insípido. A vida está cheia de exemplos bons mostrando que a alegria nem sempre é estar perfeitamente encaixados. Em nosso círculo de pessoas mais próximas sempre tem alguém como nosso pai, alguém com cabeça de esfregão, alguém que é parecido com um gato desgrenhado e preguiçoso; aqueles que se alongam de manhã cedo e cochilam à tarde; aqueles que têm medo de altura e não são exatamente os membros mais arrumados da turma. Se olhar para si verá alguma aresta também. Se olharmos bem somos todos tão parecidos com todos e no fim de tudo compartilhamos apenas a afeição comum por gente que de outra maneira não precisaríamos de proximidade ou interação nenhuma. Por isso mesmo devemos fugir daqueles “críticos” que nos fazem sentir mal pelo que você gosta ao invés de comentarem sobre o que acreditam ser bom e positivo.

Todos nós já ouvimos isso antes: viva com seu animal de estimação por tempo suficiente e você começará a se assemelhar a ele, talvez até esfregue o “focinho” um no outro. Por causa deste princípio, escolha e permanência dedicada, o padrão moderno para família mudou e a define de muitas maneiras além do sangue e da semelhança física, uma delas é quando você passa bastante tempo com alguém, compartilha uma casa, refeições e os momentos mais mundanos da vida cotidiana. Uma definição tão boa quanto qualquer outra é ser resiliente e permanecer fiel àqueles que contam com você. Em outras palavras, eles parecem exatamente como você quer que eles pareçam, todos mantêm suas diferenças e como a maioria dos amigos funciona assim: Um é velho e sábio, outro é jovem e tem olhos arregalados. Um é paciente e calmo, outro é excitável e indisciplinado. Um vê o quadro geral, outro tem dificuldade em ver além do que está bem na frente dele, como quando encontram um cão bravo ou gente brincalhona e barulhentas em uma festa. É nas aventuras entre amigos que podemos observar a dinâmica afetuosa entre eles enquanto caminham pela vida afora, onde consolam-se durante as tempestades e encontrando um desafio decidem encarar juntos. E se um não fica impressionado ao ver um esquilo correndo pelas folhas, o outro não pode acreditar em o quanto é bom que o mundo tenha esquilos nele. Fica aqui um bom lembrete de que uma das vantagens mais importantes de ter um amigo diferente é que você consegue ver o mundo através de um conjunto completamente diferente de olhos. E com isso verificar se alguns defeitos, mesmo pequenas deficiências físicas, podem conter uma certa beleza, como aquela técnica japonesa, conhecida como Kintsugi, onde reparam objetos quebrados preenchendo suas rachaduras com ouro ou prata. Em uma amizade verdadeira em vez de esconder as falhas elas são acentuadas e celebradas, pois são a prova da imperfeição da própria vida (Assim aprendemos mais uma lição: Às vezes a maneira mais fácil de fazer alguma coisa é a mais óbvia).

* https://www.letras.mus.br/creedence-clearwater-revival/70219/traducao.html

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O quê você sabe que não está certo?

A vida parece uma invenção, mas é a invenção que tem que parecer verdadeira não é mesmo?
E não, não tem nada de errado com você, com a sua intensidade, com a sua entrega, com a sua verdade, com o seu coração gigante e a sua mania de confiar nas pessoas. não tem nada de errado em ser real, em ser de verdade, em ser honesto. O mundo precisa de pessoas como nós. As pessoas estão procurando mentores em todos os lugares. Apenas tome cuidado ao levar seu lixo para a rua, isso poderia fazer muitos pensarem que você também pode levá-los à luz.
E faça uma reflexão apenas se desejar agir após, pois “O que foi pensado apenas uma vez não pôde ser apagado” segundo Borges. Por isso cuide melhor dos seus pensamentos. Dá muito trabalho depois organizar, abstrair e esquecer certos detalhes e coisas. Enfim, tudo que deve ser dito já foi pensado uma vez. Krahe* disse isso: todas as gerações ressuscitam seu passado. Mas os sátiros, e eu me considero um sátiro, quero dizer, satírico, sempre temos algo a dizer, embora o que eu esteja realmente pensando eu não diga, porque eu posso acabar na fogueira. Parece que todos nós temos um eu-satírico não é mesmo?
Quando olhamos uma pessoa completamente secular, alguém cuidadosamente educado para estar aberto a todas as verdades e comprometido com ninguém, esta pessoa anseia pela certeza e segurança de uma crença. É quando precisamos reconhecer que todo o glamour e capacitação do mundo não podem nos capacitar a usar seu poder para nossos próprios fins. “Você não pode servir a dois senhores”, disse Jesus. Podemos encobrir as nossas escolhas com caprichos e ofuscação, em histórias fantásticas de destinos e capacitação pessoal, mas no final ainda precisaríamos dar uma resposta e sem meio termos.
E lembre-se, a busca que move um povo e dá sentido a tudo o que fazem no mundo é sempre por uma verdade. É a sina humana de inventar relatos que busquem explicações, mesmo que provisórias, para aliviar a carga de nossa imensa ignorância a respeito do mundo. É claro que alguns de nós contamos essas histórias mais explicitamente do que outros – a identidade narrativa de alguém pode ser uma história (mal) formada no limiar da sua consciência, enquanto outra pessoa pode literalmente escrever seu passado e futuro em um diário ou um livro de memórias.
É nesta busca de explicar e preparar uma plataforma para se projetar para a frente, que a psicanálise nos mostra como o presente ressignifica o passado, ou seja, é olhando para trás que o sujeito supera as contingências do tempo em que surgiu. E se isso não acontecer? “Em breve, nem seremos capazes de entender os livros do passado”, Cécile Wajsbrot nos lembra que a monstruosidade atual não consiste em olhar para trás, mas em desprezar o passado. Maximizando a questão, a problemática atual não é culpa nem do fascismo, nem do comunismo, nem nada indexado. É apenas nossa recusa em compartilhar e aprender. Posso crer que ao chegar neste ponto o antropocentrismo falhou.
Eticamente a civilização é um equilíbrio e tensão entre os instintos primitivos dos homens e as inibições de um código moral. Sem as inibições, os instintos destruiriam a civilização, sem os instintos as inibições destruiriam a vida. O problema está em ajustar as inibições protegendo a civilização sem enfraquecer a vida. Nelson Rodrigues já nos alertava para isto: “O mundo só se tornou viável porque antigamente as nossas leis, a nossa moral, a nossa conduta eram regidas pelos melhores. Agora a gente tem a impressão de que são os canalhas que estão fazendo a nossa vida, os nossos costumes, as nossas ideias”. Tudo parece bem encaminhado para nos fazer ultra tolerantes, pacíficos e empáticos desprovidos de instintos. Mas se você é inofensivo, você não é virtuoso, você é apenas inofensivo, você é como um coelho; um coelho não é virtuoso, não pode fazer nada além de ser comido! Isso não é ser virtuoso.** Em resumo, ainda há vida na tradição inaugurada na Idade Média de juntar ferocidade e mansidão. Mas a manutenção desta vida depende de reconhecer que o temperamento cavalheiresco (a bravura e autocontrole coexistindo) é arte, não é natural, algo que deve ser atingido, não algo que devemos confiar que aconteça. E este reconhecimento é especialmente necessário à medida que avançamos na democracia. Em séculos passados os vestígios do cavalheirismo foi mantido vivo por uma classe especializada, por meio da qual avançou para outras classes em parte por imitação em parte por coerção. Agora as pessoas devem ser cavalheirescas por sua própria iniciativa, ou então escolher entre as alternativas restantes de brutalidade ou covardia. Por exemplo, o Aquiles de Homero não sabe nada sobre a demanda de que o bravo também deveria ser modesto e misericordioso. Este é, de fato, parte do problema geral de uma sociedade sem classes, o que é muito raramente mencionado: será seu ethos a síntese do melhor em todas as classes ou uma fossa com os resíduos de todas e as virtudes de nenhuma?***

Os pesquisadores da Denison University, em Ohio, afirmam: “Nossas descobertas sugerem que a experiência de alguém revisar sistematicamente a sua vida e identificar, descrever e relacionar conceitualmente capítulos da vida pode servir para aprimorar o ser, mesmo na ausência de aumento da claridade de autoconceito e significado”.****
Segundo Sartre, o ser para si “não é o que é e é o que não é”, isto é, que ele é livre ou que sua existência precede sua essência, e ao possuir uma identidade que para ele não é definitiva, o ser não está pronto de uma vez por todas. Ou melhor: Eu não sou eu mesmo, eu me torno isso, faço a mim mesmo com cada uma das minhas palavras ou minhas ações. Ser para Sartre significa estar em construção, ser um projeto. Ora, aquilo que o humano é, o é em cada época definido por oposição/relação – àquilo que o humano não é, ao não humano. Nessa definição do humano, a comunicação sempre assumiu, ao longo da história, um papel essencial.
A fala, porém, acabaria por somar-se à força como instrumento de dominação do homem pelo homem. A fala dos mais velhos, a fala dos mais sábios, a fala dos mais brutos, a fala sutil do mais moço e mais fraco que aprendeu a contrapor a esperteza à sabedoria e à força bruta.*****
Parece até que voltamos aos primórdios da raça humana quando os vícios constituíam uma virtude porque pareciam indispensáveis para a sobrevivência da mesma. Mas onde “O condicional foi deliberado, o reino da terra é dos que têm o talento de pôr o não a serviço do sim, ou que, tendo sido autores de um não, rapidamente o liquidam para instaurarem um sim.” – José Saramago.
Mas o quê você sabe que não está certo? Eu sei que poderia viver um pouco mais e melhor sem medo. Apenas comprando um cafezinho para alguém e tão somente para começar uma deliciosa conversa. Afinal, eu preciso de novos argumentos, sou um contador de histórias não sou? E preciso aceitar que a dor e o sofrimento são uma parte inevitável da vida e usar essa aceitação para lidar com pensamentos e sentimentos negativos. Além disso, pessoas incríveis deixam marcas saudáveis. Amizade ainda é um tipo barato de cura para os nossos dias.

*https://elpais.com/ccaa/2016/12/08/madrid/1481226905_898082.html
**tYlxupUH8N
***https://t.co/SXTnew98DK?amp=1 ****https://www.nexojornal.com.br/externo/2019/04/13/Para-impulsionar-a-autoestima-escreva-cap%C3%ADtulos-da-sua-vida? ***** https://oficinadopinduca.wordpress.com/2012/09/07/a-persistencia-da-mensagem-divina-ao-longo-dos-tempos-2/

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Devocionais para não devotos (VIII)

Os festejos de momo terminaram.
Agora todos eles acham que são tão diferentes, mas até a pouco tempo com aquela música tocando, eles estavam todos dançando. Eles achavam que ninguém mais estava divertindo-se tanto quanto, mas todos estavam fazendo a mesma coisa. No fundo, eles estão todos desesperados pela mesma coisa, que é aceitação e ser parte de algo maior, importante e duradouro novamente. Se ao menos pudessem tirar um minuto para dizer isso a quem realmente pode realizar algo sobrenatural e real ao mesmo tempo! Mas eles não vão conseguir sozinhos e essa é a nossa obrigação: ajudá-los a ver se talvez um dia eles descobrirão e possivelmente se salvarão libertando-se do mundo.

Houve uma vez, quando os setenta e dois voltaram e vieram muito alegres e disseram a Jesus (Lucas 10.17-20):

— Até os demônios nos obedeciam quando, pelo poder do nome do senhor, nós mandávamos que saíssem das pessoas! Jesus respondeu:
— De fato, eu vi Satanás cair do céu como um raio. Escutem! Eu dei a vocês poder para pisar cobras e escorpiões e para, sem sofrer nenhum mal, vencer a força do inimigo. Porém não fiquem alegres porque os espíritos maus lhes obedecem, mas sim porque o nome de cada um de vocês está escrito no céu.

Jesus nos ensina algo importante aqui: Não se perca no emaranhado de novidades superficiais que nos conduzem ao orgulho, covardia e falsidade.
Nós nos gloriamos na cruz mas simplesmente pela cruz? Onde está o amor a Cristo pelo Cristo? A glória de servir é a maior prova que o cristão novo pode experimentar ao se libertar do homem velho.
Você pode ir à igreja todos os domingos, mas se você não ama os outros como Jesus amava os outros, você é a razão pela qual as pessoas que não acreditam em Jesus não vão à igreja. Porque tornar-se um servo envolve um estilo de vida em que o próximo vem antes de nós mesmos. Ao contrário de ser orgulhoso que é simplesmente ser cheio de si; que tem um senso de valor próprio superestimado e uma atitude de “ser melhor que os outros”. Preciso dizer que todo orgulhoso superestima sua reputação e integridade (caráter) não é reputação. D. L. Moody diz que o caráter é o que o homem é na obscuridade, quando está sozinho. Infelizmente nossa geração acha difícil distinguir caráter de reputação e isto é tudo o que vale hoje em dia: ter uma reputação. Ser o “tal”, o “cara”. Será preciso lembrar que a concretização dos nossos sonhos depende mais da nossa integridade do que da nossa reputação? No livro de Provérbios lemos que “A integridade dos justos os guia, mas a falsidade dos infiéis os destrói.” (Provérbios 11:3). Seu caráter é tudo o que você é na sua intimidade e ninguém sabe, suas atitudes repetidas diariamente e que moldam sua personalidade, sua marca pessoal, o “sinal” que o distingue dos outros e pela qual o individuo define seu estilo, a sua maneira de ser, de sentir e de reagir. Ou seja, o caráter não apenas define quem você é, mas também descreve o seu estado moral (leia Provérbios 11: 1-31 e veja o que estou dizendo). Visto pela fé cristão é o homem que foi até à cruz e ao chegar até ela negou a si mesmo, e renunciou ao mundo, seguindo o cordeiro de Deus que foi imolado sob o aguilhão da dor mais pungente que uma criatura pode sentir. O verdadeiro cristão sente nos ombros o peso da cruz de Cristo, caminha combalido com o magnetismo do seu amor, sonda o seu íntimo e sobressalta-se com a doçura de um mel que lhe serve de bússola fiel para seguir os caminhos de uma vida de credibilidade; sua alma regozija agora porque é uma pobre criatura sedenta de uma inabalável fé que o coloca de joelhos submetendo todo o seu corpo, todo o seu espírito e a sua inteligência à prova última que é o reconhecimento do amor de Cristo.*
Mas não é sempre que ouvimos estas histórias da vida real contadas nos noticiários e podemos ver ou sentir esperança. Por isso nos voltamos muitas e seguidas vezes para aquilo que pode nos acalmar ou trazer um pouco de conforto e esperança. Manifestações artísticas, principalmente aquelas mais bem elaboradas, espelham o nosso mundo mas não permitem nos tornar apenas contempladores ou nos alienar dos acontecimentos. Numa sociedade que não está disposta a enxergar sua própria violência, corrupção e problemas somos forçados muitas vezes a reconhecer e rever certos valores. Somos responsáveis por aquilo que acontece em nosso redor e não podemos usar bálsamo de nenhum tipo para nos eximir disso.
Se, segundo Sartre, somos condenados a liberdade, somos também hoje, ao desejo. Como definição o desejo é sempre por algo que não se tem. Com o advento da velocidade incessante tornamo-nos mais consumidores que cidadãos, segundo Bauman, a medida que desejamos o que não temos. Portanto, cada vez mais, nossas escolhas estão ligadas ao consumo, não ao que já nos pertence. Instiga-se o consumo a partir do desejo de maneira não reflexiva. Ao tornar tudo objeto, ao coisificar o mundo (Conceito Heideggeriano que também criticava a racionalidade dessa ação), torna-se objeto de desejo e, por consequência, tudo se torna descartável, supérfluo, a medida que ao possuirmos a coisa que desejamos não a desejamos mais. O desejo está fora de si e, ao possuir, desejamos outra coisa, alimentando a velocidade do mundo.
Assim se constituem as relações no mundo fluido. A constituição de família, relações amorosas, e todas as coisas antes rígidas hoje são líquidas, pautada no desejo e no medo do fracasso, entregues a velocidade da modernidade. Pense, por exemplo, na ideia do casamento. No mundo sólido era concebido como algo eterno, hoje é natural que acabe depois de alguns anos. A ideia de Família, portanto, mantém sua essência, mas mudou sua forma. Em tempos líquidos, nada é feito para durar!
Tenhamos sempre em mente, quem peca é aquele que não faz o que foi criado para fazer. Será que fiz o que Ele me criou para fazer? Reflexão que não me impulsiona a agir é perda de tempo. Não quero entender nada. Quero acreditar, mas não posso ter certeza, apenas posso agir e confiar que Deus me terá em sua Glória e sei que Ele agora está sorrindo.

* citação de @johnpfinch
** http://www.dm.com.br/opiniao/2017/04/nos-autem-gloriari-opportet-in-cruce-domini-nostri-jesus-cristi.html

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