-
Posts recentes
-
Junte-se a 34 outros assinantes
- Follow Oficina do Pinduca on WordPress.com
Blogs que sigo
My Store

-

https://a.co/d/016LO3R5 Arquivos
- outubro 2026
- setembro 2026
- agosto 2026
- julho 2026
- junho 2026
- maio 2026
- abril 2026
- março 2026
- fevereiro 2026
- janeiro 2026
- dezembro 2025
- novembro 2025
- agosto 2025
- junho 2025
- abril 2025
- março 2025
- fevereiro 2025
- janeiro 2025
- dezembro 2024
- novembro 2024
- outubro 2024
- setembro 2024
- agosto 2024
- julho 2024
- junho 2024
- maio 2024
- abril 2024
- março 2024
- fevereiro 2024
- janeiro 2024
- dezembro 2023
- novembro 2023
- janeiro 2023
- dezembro 2021
- novembro 2021
- outubro 2021
- julho 2021
- junho 2021
- maio 2021
- abril 2021
- março 2021
- fevereiro 2021
- janeiro 2021
- dezembro 2020
- novembro 2020
- outubro 2020
- setembro 2020
- agosto 2020
- julho 2020
- junho 2020
- maio 2020
- abril 2020
- março 2020
- fevereiro 2020
- janeiro 2020
- dezembro 2019
- novembro 2019
- outubro 2019
- setembro 2019
- agosto 2019
- julho 2019
- junho 2019
- maio 2019
- abril 2019
- março 2019
- fevereiro 2019
- janeiro 2019
- dezembro 2018
- novembro 2018
- outubro 2018
- setembro 2018
- agosto 2018
- julho 2018
- junho 2018
- maio 2018
- abril 2018
- março 2018
- fevereiro 2018
- janeiro 2018
- dezembro 2016
- novembro 2016
- outubro 2016
- setembro 2016
- agosto 2016
- julho 2016
- junho 2016
- maio 2016
- abril 2016
- março 2016
- fevereiro 2016
- dezembro 2015
- novembro 2015
- outubro 2015
- setembro 2015
- agosto 2015
- julho 2015
- junho 2015
- maio 2015
- abril 2015
- março 2015
- fevereiro 2015
- janeiro 2015
- dezembro 2014
- novembro 2014
- outubro 2014
- setembro 2014
- agosto 2014
- julho 2014
- junho 2014
- maio 2014
- março 2014
- fevereiro 2014
- janeiro 2014
- dezembro 2013
- outubro 2013
- setembro 2013
- agosto 2013
- abril 2013
- dezembro 2012
- novembro 2012
- outubro 2012
- setembro 2012
- agosto 2012
- julho 2012
- junho 2012
- abril 2012
- março 2012
- janeiro 2012
- dezembro 2011
- novembro 2011
- outubro 2011
- setembro 2011
- agosto 2011
- julho 2011
- junho 2011
- maio 2011
- abril 2011
- março 2011
Meta
Devocionais para não devotos 58
Dostoievsky
A “armadilha” do Cristianismo Ortodoxo na obra “dostoievskiana” é uma estrutura ontológica. Na anatomia dos seus romances, a redenção nunca ocorre pela via da lógica, do mérito ou da terapia; ela exige a mortificação completa do ego; exige o que a teologia chama de Kenosis – o esvaziamento total de si mesmo para dar espaço ao divino. Os personagens que tentam se salvar através da super-racionalidade (Ivan Karamázov) ou da força de vontade isolada terminam na loucura ou no suicídio.
A “armadilha” ortodoxa exige que o personagem desça ao seu nível mais patético, sujo e humilhante. Mítia Karamázov só encontra a luz quando é despojado de sua honra, de suas roupas e de sua liberdade durante o interrogatório, aceitando o sofrimento purificador para expurgar a sujeira que carregava por dentro.
A engrenagem da armadilha é a Sobornost — a comunhão mística onde “todos são culpados por todos e por tudo“. O estalo da redenção ocorre no exato segundo em que o personagem para de justificar os próprios pecados e assume voluntariamente a dor do outro. É o Stáriets Zóssima se curvando diante do sofrimento futuro de Mítia; é Raskólnikov beijando a terra suja da praça de forma ridícula e pública… Você não se salva sozinho no ecossistema de Dostoiévski.
Ler Dostoiévski é “perigoso” exatamente por isso. Ele atrai o leitor pela vaidade do debate filosófico, mas, uma vez dentro do texto, a armadilha se fecha e o autor te prova que não existe atalho intelectual para a paz. A redenção “dostoievskiana” é um processo violento, que exige que a arrogância moderna seja esmagada pelos dentes de ferro da tradição, do sofrimento voluntário e da aceitação do mistério. Você entra achando que vai analisar a mente de um criminoso e acaba se confrontando com o abismo da própria alma.
No Ocidente, parece que a redenção é frequentemente jurídica: você comete um erro, paga a sua dívida com a sociedade e está “limpo“. Mas essa oposição entre o Oriente espiritual e o Ocidente jurídico não é bem assim… talvez faça mais sentido dizer isto da fé evangélica protestante. A teologia reformada jamais reduziu a salvação a uma mera transação jurídica isolada da transformação interior. João Calvino, nas Institutas da Religião Cristã (Livro III), ensina explicitamente o conceito de Dupla Graça (Duplex Gratia):
Pela fé em Cristo, recebemos dois benefícios inseparáveis: a Justificação (o perdão dos pecados e a imputação da justiça de Cristo, que atende à dimensão forense) e a Santificação (a renovação real do nosso ser pelo Espírito Santo).
Dizer que o protestantismo enxerga a salvação “apenas como o pagamento de uma dívida” é ignorar que, para os reformados, ninguém é justificado sem ser simultaneamente regenerado e posto no caminho da santificação. A dimensão forense resolve a nossa situação legal perante o Tribunal Divino; a habitação do Espírito Santo transforma a alma real e progressivamente.
A Igreja Católica Ortodoxa ensina que a salvação consiste não apenas em pagar uma dívida, como algo meramente jurídico, mas, segundo o que o Concílio de Trento afirma, a graça não só perdoa, mas também transforma realmente a nossa alma. A kenosis, a humildade, a mortificação do orgulho e a união com Deus são igualmente centrais na espiritualidade católica. Neste ponto, Dostoiévski pode ser apreciado tanto por ortodoxos quanto por católicos. E a questão da aniquilação completa do ego não é uma expressão com a qual eu concordo totalmente, porque no cristianismo o ego não desaparece. O que desaparece é o orgulho. A personalidade permanece. Na realidade, a nossa personalidade floresce com a graça aperfeiçoando a natureza da alma e não destruindo-a. Por isso acho muito correto falar em mortificação do egoísmo, da natureza humana corrompida.
Publicado em comportamento, Cristianismo, Sem categoria, Vida Cristã
Com a tag absurdo, Albert Camus, amor, cristianismo-ortodoxo, Dostoiévski, Eclesiastes, existir, Filosofia, homem, literatura, Pensador moderno, Sem categoria, sentido
Deixe um comentário
Devocionais para não devotos 57
Se o mundo perdeu o sentido, perdeu a lógica e, ao perdê-la, perdeu a ética. Ou podemos ler a frase ao contrário: ao perder a ética, que já era pouca, perdeu a lógica também.
Todos somos imperfeitos. Todos enfrentamos dificuldades. Somos obcecados por tecnología. Não é preciso ser um gênio para perceber a que os dois primeiros itens apontam, ou para onde eles apontam, se você estiver preso a crenças antiquadas sobre a localização das preposições. Passamos a vida tentando ser compreendidos, mas no fim cada alma continua sendo um quarto fechado por dentro. E quando você olha por tempo demais para dentro deste quarto, percebe que o mais assustador não é a escuridão dele, mas a familiaridade que ela começa a despertar em você. Existe uma tristeza silenciosa em perceber que ninguém jamais enxergará você por completo. E se você gastar a vida inteira tentando, não diga que perdeu tempo, porque talvez essa seja a única razão da nossa existência, pois na muita sabedoria há muito aborrecimento. Esta triste frase fala sobre o estudo da natureza do homem em sua grandeza e sua pequenez, em sua sanidade e em sua insanidade. Porque o simples alargamento do horizonte, seja de conhecimento ético ou físico, não traz nenhuma satisfação; os homens apenas ficam mais conscientes de sua distância em relação ao verdadeiro ideal.
Chega um momento em que o mundo perde o sentido que tinha antes. Há pessoas que carregam oceanos inteiros dentro de si e mesmo assim passam a vida fingindo calma para que ninguém perceba o caos escondido em sua alma. Estas pessoas continuam sorrindo, as ruas continuam cheias, mas alguma coisa dentro delas, de você, já não pertence mais a tudo isso. Porque o mundo quebra todos os homens. Estar no mundo é ter muitas aflições. Alguns permanecem destruídos. Outros passam tanto tempo tentando ser alguém aceitável para o mundo que, quando finalmente desistem, percebem que já não sabem mais quem são antes de começar a fingir. Outros aprendem a esconder tão bem as rachaduras que ninguém imagina quantas vezes eles precisaram se reconstruir sozinhos. Em comum, todos pediram tão pouco da vida: um pouco de paz, algum silêncio e alguém que entendesse seu cansaço sem que precisassem explicar. Ainda assim, até isso pareceu demais para o mundo.
E a pior sensação não é descobrir que o mundo recusou seus pedidos, mas perceber que você mudou tanto a ponto de já não reconhecer a própria maneira de sentir algumas dores, principalmente aquelas que não transformam ninguém em algo melhor. Há noites em que a solidão pesa tanto que até o silêncio parece fazer barulho dentro da cabeça. Elas apenas ensinam a continuar vivendo com um vazio tão antigo que já parece fazer parte do corpo. E nessas horas, a alma se torna um lugar difícil de habitar. O que sobra é a única resposta aceitável: viver mais, e não menos. Ter consciência no lugar da anestesia, teimosia no lugar do conforto, e a recusa de fingir que as coisas voltaram a fazer sentido. O sentido não é encontrado pronto. É construído por quem já sabe que não havia nenhum esperando. Quase todo ser humano carrega esta mesma tristeza, a de passar a vida inteira tentando ser amado sem jamais conseguir mostrar aos outros quem realmente é. No fim, o absurdo, escreve Camus, não está no homem nem no mundo, mas na presença comum dos dois. Não é o universo que é sem sentido, nem você que está quebrado. É o encontro entre alguém que pede sentido e um mundo que não pode responder de maneira plenamente satisfatória.
Oscar Wilde disse que, se você sabe o que você quer ser, você inevitavelmente tornar-se-á – o que é seu castigo, mas se você nunca sabe, então você pode ser qualquer coisa. Há uma verdade nisso. Nós não somos substantivos, somos verbos. Eu não sou uma coisa – um ator, escritor – eu sou uma pessoa que faz as coisas – eu escrevo, eu ajo – e eu nunca sei o que vou fazer a seguir. Acho que você pode ficar aprisionado se pensar em si como um substantivo. – Stephen Fry
Estas coisas aprendi com eles: Franz Kafka – Fiódor Dostoiévski – Albert Camus – Friedrich Nietzsche – Clarice Lispector – Osamu Dazai – Fernando Pessoa – Ernest Hemingway – Edgar Allan Poe – George Orwell – Liev Tolstói – Machado de Assis – Oscar Wilde.
Publicado em comportamento, Cristianismo, Sem categoria, Vida Cristã
Com a tag absurdo, Albert Camus, amor, Eclesiastes, existir, Filosofia, homem, Pensador moderno, sentido
Deixe um comentário
Devocionais para não devotos 53
“Somos seres inconclusos e estamos a atravessar a existência na relação com tudo que aqui faz morada.”
Estes dias esbarrei no Instagram com a frase acima, atribuída a Luiz Rufino em sua obra “Vence Demanda”. Ela reflete a ideia de que o ser humano está em constante construção, inacabado por natureza, e define sua existência através da interação contínua e da conexão com o meio e todos os outros seres.
Esta ideia não reflete a retórica cristã, cujo conceito de humano como criatura está acabado, pronto. Contrariando perspectivas panteístas ou deístas, aqui se enfatiza a distinção clara entre o Criador e a criatura, sublinhando a dependência total da criatura em relação a Deus. Dentro da cristandade, o ser humano é visto como uma “criatura razoável” ou “racional”, com o propósito de participar da vida bem-aventurada de Deus, cuja conclusão foi que o ser humano era bom. Porém, desvirtuados pela desobediência ao Criador, colocamos tudo a perder.
No entendimento de Rufino, este ser “inconcluso” que não é totalmente bom, e até um pouco falho, é possuidor de uma característica fundamental que é aprender, mudar e evoluir, onde a “travessia” é um processo que não termina, pois não existe ponto de chegada para encerrar este aprendizado, e só acontece “na relação com tudo que aqui faz morada”, ou seja, com as pessoas que estão em nosso círculo social e seus lugares de interação, com a tentativa de compreender o que se passa no espírito de cada indivíduo, valorizando justamente o caráter de especificidade, em que cada um é responsável por suas próprias escolhas e pelo caminho que decide trilhar — que por mais tortuoso que seja, pode conduzir a algum lugar de proveito.
Da nossa incompletude e da nossa desorientação, do nosso anseio e do nosso desejo de viajar, surge a força motriz de todo amor e de cada revolução, da nossa ciência e da nossa arte, da nossa criação e da nossa autocriação. Todo ato criativo é um ato de travessia.
Possivelmente, este é o lugar das perguntas que o pensamento filosófico organiza, a fim de dar à vida a ideia de que tudo converge para um mesmo fim: O que é que eu sou? Sou um pensamento? Cogito ergo sum? Tenho em mim o sopro? Mas quem é esse que tem? Quem é que fala por mim se tenho um corpo e um espírito? Eu sou um eu?
“É exatamente isto que você é, um eu”, responde-me o mundo (e coloco ênfase no “eu” minúsculo), lembrando que, se a vida é encarada como um processo, uma passagem (travessia), cuja importância é o modo como nos relacionamos com o mundo (o que “faz morada”), o cérebro humano, biologicamente, precisa se remodelar conforme a intensidade, a frequência e a consistência do nosso esforço mental. A disciplina e a repetição, por isso, não são moralismos antiquados, mas são os alicerces neurobiológicos do aprendizado profundo e da capacidade de antecipar eventos no que é inerente ao mundo concreto e material, sem generalizações fáceis.
E nesta existência relacional, pergunto-me: por que Deus pede tanto que seja amado por nós? Resposta possível: porque assim nós amamos a nós mesmos e, ao nos amarmos, nós nos perdoamos. E como precisamos de perdão! Não somos seres isolados. A nossa identidade se constrói na “relação com tudo”, porque a própria vida já vem mesclada ao erro, com ênfase na interdependência entre os seres humanos, a natureza e o ambiente.
A ideia de inconclusão acontece porque vivemos em um tempo em que as pessoas observam muito, mas compreendem pouco. Um detalhe diferente já desperta julgamentos; um costume que não conhecemos vira motivo de estranhamento. Mas quando alguém decide realmente observar, algo interessante acontece: a diferença deixa de parecer distância e passa a revelar apenas uma história que ainda não conhecemos. Pois toda pessoa é um reflexo do mistério de Deus. Todo amor, respeito e veneração prestados a Deus também devem ser devotados à sua imagem, à pessoa humana (explicado mais precisamente no Evangelho de Mateus, 22:37-39).
É diferente do que pensa o homem atual: opinar é chegar a alguma conclusão; para Ortega, não é reagir nem expressar apetites com palavras, é aceitar a disciplina do pensamento, o confronto com razões, limites e verdades que não escolhemos.
O crème de la crème é concluir que precisamos abandonar a pretensão absurda de “neutralidade”. Isso não existe. Toda lei, toda norma social e toda instituição cultural são reflexos do deus e da moralidade de alguém. Passamos tempo demais tentando encaixar nossa visão de mundo em uma estrutura secular que nega fundamentalmente a realeza de Cristo e a realidade do nosso povo, sugerindo apenas uma perspectiva de que a educação e a vida devem ser pautadas pela liberdade e pela construção coletiva. Mero humanismo, cujo triunfo sobre o Cristianismo começou no dia em que o deixamos governar nossa vida comunitária ‘por valores humanos, fortalecidos desde o Iluminismo, em vez dos valores cristãos que prevaleceram por muitos séculos’.
Quanto a vencer demandas, os cristãos entendem e acreditam que só a fé em Jesus Cristo pode vencer o mundo.
Publicado em Sem categoria
Com a tag criacionismo, Cristianismo, Humanismo, Luiz Rufino, Ortega
1 Comentário
Devocionais para não devotos 51
“A Igreja falha porque as pessoas têm medo de fazer o que é certo.”
“Na Epístola de Tiago, meu livro favorito da Bíblia, há um trecho que diz que qualquer pessoa que saiba o que é certo e deixa de fazê-lo comete pecado. Este é o problema central da Igreja.”
Cada geração precisa encontrar seu próprio caminho e, geralmente, tende a desconfiar da ênfase que recebe das gerações anteriores. É comum que os que a antecedem se desesperem em vez de ouvir, mesmo que discordem profundamente. Os grandes problemas, distopias, desafios e desilusões que atualmente afligem a humanidade, cujo pensamento é incapaz de acompanhar a velocidade dos avanços tecnológicos, como a IA, estão gerando perplexidade total sobre o sentido da vida e a natureza efêmera da existência. As carências espirituais criadas por essa perplexidade estão sendo preenchidas de diversas maneiras, como o vício em drogas, o apego à música “rebelde”, modas extravagantes e muitas outras tendências que, assim como o suposto “renascimento religioso”, tornam-se tábuas de salvação temporárias, servindo apenas como uma fuga de uma realidade cada vez mais insuportável.
É preciso lembrar: o que está por trás de toda fachada bonita de uma igreja é uma sociedade em guerra – uma guerra de classes, credos, gerações e interesses. Ricos em guerra com os pobres, adolescentes em guerra com seus pais, esposas em guerra com seus maridos, professores em guerra com seus pupilos…
Esta geração — filhos de pós-modernistas, progressistas, relativistas e neoliberais — herdou um mundo sem certezas; sem comunidade nem raízes. Ao tentarem emancipá-los, lançamo-los ao vazio. Prometeram que poderiam viver uma vida de absurdo, e, no entanto, por meio de tanta desconstrução, suas existências acabaram em completa ruína. Ensinaram que não existem verdades, nem bem, nem mal, nem sentido, apenas escolhas.
Por isso acredito que o que estas pessoas buscam, inconscientemente, é um retorno a algo mais próximo daquilo que estão perdendo: a família, em um lugar que ainda resiste à manipulação de máquinas ou da política, ou seja, a igreja verdadeira. Além disso, os valores fundamentais da sociedade compartilham pontos em comum com valores cristãos centrados na mensagem de Jesus e são muito semelhantes aos que vemos nos Direitos Humanos. Talvez seja porque as pessoas estão fartas deste mundo superficial e falso e desejam valores que parecem ter se perdido. Talvez seja isso, sim.
Mas esse retorno não é neutro: sem uma análise crítica, corremos o risco de a religião não libertar, mas sim legitimar um reacionismo novo ou antigo, e a nostalgia pela comunidade se tornar um recurso identitário a serviço da ordem ou da exclusão. Em sociedades fragmentadas, submetidas ao ritmo frenético do mercado, o sagrado reaparece como um bálsamo, mas também como uma ferramenta. Por isso, é importante responder esta questão: quem dirige esse ressurgimento, com que propósitos e sob quais dinâmicas de poder?…
Há outros desafios: um deles é a falta de coragem, outro, a falta de comprometimento; a outra é a falta de conhecimento. Existe um mandamento para que saibamos a razão da nossa fé na primeira carta de Pedro capítulo três, versículo quinze, e nos diz como os crentes se negam, crucificam o mundo e enfrentam a perseguição, e como eles devem ser encorajados por uma forte “esperança”; os homens do mundo, que não têm essa esperança, são movidos pela curiosidade a perguntar o segredo dessa esperança; o crente deve estar pronto para dar um relato como esta esperança surgiu nele, o que ela contém e sobre o que ela repousa e muitas igrejas negligenciam esse mandamento.
Com os maravilhosos recursos informativos, investigativos e estruturais que o cristianismo em geral possui, podemos construir uma fé sólida que atraia e seja capaz de transformar uma sociedade cansada do consumismo e da banalidade generalizada, uma sociedade que se contenta com uma foto, um ritmo frenético e novo ou uma notícia escandalosa. Esta geração precisa ser capaz de distinguir a solidez da fé cristã do péssimo exemplo que [a Igreja de modo geral] deu e, em muitos casos, continua a dar. Precisamos de uma igreja mais ética e menos centrada na estética, mais cumpridora dos mandamentos e menos secularizada.
Existe uma grande verdade que nunca muda. Ouvi-a pela primeira vez do meu professor de seminário em uma aula sobre Eclesiastes. “Tudo é um vai e vem”, o que não é exatamente, embora seja, uma gangorra. O movimento do progresso (entendido em seu sentido mais profundo, o do Tempo) é pendular. O humanismo triunfou sobre o cristianismo no dia em que começamos a governar nossa vida comunitária mais ‘por valores humanos, fortalecidos desde o Iluminismo, do que pelos valores cristãos que prevaleceram por muitos séculos’. No entanto, sempre me pareceu que essa revolução laica carecia de um discurso mais robusto do que simplesmente expor as falsidades do outro lado. E é isso que está acontecendo agora: o pêndulo temporal está oscilando de volta para onde veio. E então oscilará de novo.
A religião, mesmo com suas contradições, possui certas qualidades que faltam à sociedade secular. A articulação de narrativas épicas e a liturgia são elementos poderosos na consciência humana que o secularismo, ainda que partindo de uma base mais sólida do que a religião, ainda não conseguiu desenvolver com sucesso.
Apesar de muitos não buscarem doutrinas, mas sim pontos de referência que os acompanhem em suas buscas, descobertas e experiências pessoais, ajudando-os a viver de forma significativa, pacífica e com uma responsabilidade humanizadora em meio ao caos cultural que vivenciam, acredito que chegou a hora de remover os escombros, buscando fortalecer os significados e a importância da Igreja nesta cultura ruidosa, violenta e cínica em que vivemos.
Você precisa fazer login para comentar.