Teorizando a distopia da rã coitadinha.

“Acho que o amor é a ausência de engarrafamento”. Elis Regina. [1]

Lendo esta declaração pensei na possibilidade de aplicá-la a todos que estão em busca de um encaixe customizado neste mundo a partir de uma interpretação particular e confortável da realidade. Como é sabido por todos, a ausência daquilo que detesto permite a realização do que me apraz. E a verdade de hoje é: o amor pelo proibido tem se disfarçado de amor verdadeiro, de amores maiores do que aqueles limitados a apenas um assunto ou família. Um amor assexuado, polimorfo, dedicado para e por toda a humanidade.

Bem, viver nunca foi fácil. É no caminho de escolhas e renúncias que muitas dificuldades nos são dadas como aprendizado, existindo duas formas de reagir as adversidades portanto: ou você empaca e remói o percalço que interrompeu sua jornada ou usa o ato negativo como força motriz e choque mental para mudar o rumo e seguir em frente.

E penso também que não será necessário um artista, guru, coach ou influencer (ou seja, lá quem você tem por mentor) que transformado numa espécie de narrador de seu próprio tempo dê um depoimento último, porque não será preciso deslocar ou provocar o público como em um exercício onde este seja convidado a pensar junto sobre o cotidiano para ampliar sua visão de mundo. Ora, ampliar a visão é poder ver além de uma perspectiva pessoal. É saber que existe algo mais do que aquilo que estamos observando no momento. Ampliar sua visão é perceber que há algo mais, além do que seus olhos podem ver e ir em busca do aprendizado. Então, essas percepções poderiam nos levar a investir em um diálogo com a realidade através da cultura (literária, religiosa, artística e midiática em geral), compreendendo-a como linguagem capaz de elaborar percepções sobre temporalidades e lugares, repercutindo relatos sobre identidades e cotidianos diversos, ou seja, uma modalidade discursiva capaz de enredar histórias (E haja imaginação para tantas e novas narrativas).

Ou, como nos diz o filosófo Hume: As ideias são as marcas das impressões dissipadas no fluxo de percepções que constitui a mente humana. Já as impressões mais vívidas, penetram mais violentamente em nosso pensamento em sua primeira aparição à alma, e abrangem as sensações e as paixões. Bem, Hume parece estar sugerindo que “o mundo é tal qual como o percebemos”. Qual o risco de você acreditar nisso? Você poderá aceitar o “podemos idealizar tudo agora” como uma hipótese capaz de mudar toda a sua existência e acreditar que ela poderá ser utópica, otimista e muito recompensadora apenas ignorando os fatos desagradáveis.

Infelizmente tenho dificuldades para acreditar nisso porque quase sempre me dou conta de que o nosso mundo real está petrificado pelo hábito, e já nos acostumamos a falar sobre ele de uma certa forma e pensarmos sempre dentro dos mesmos quadros, onde vemos tudo sempre da mesma maneira e os sentimentos se embotam por sabermos que o que vai ser é igual àquilo que já foi (Olá Eclesiastes!). E aquilo que experimentamos deveria se encaixar em categorias mais racionais. Mas tudo o que podemos conhecer ainda não é a realidade total, aquilo que Kant chama de fenômeno, o objeto na medida em que ele é apresentado, organizado e entendido pelo nosso pensamento[2].

Vivemos em uma época em que belos momentos estão muitas vezes atrás das telas. Nunca será o mesmo que deixar a sua alma capturar o momento e permitir-se engolfar as emoções que se desenrolam. Uma parte da nossa capacidade de mergulhar totalmente foi apreendida e limitada por um dispositivo que nunca nos deixará realmente apreciar a beleza da efemeridade. (O declínio da realidade humana – Lara Mindy)

A minha próxima pergunta é: Viver é sobre crescimento e mudança? E quando parar de acontecer significa que estou apenas sobrevivendo ou meramente existindo sem nenhuma relevância? Viver no fundo do poço e se contentar com uma vida de migalhas é uma questão de escolha? Eu sei, nosso primeiro instinto seria de encolher-se como um rato que subitamente acorda de seus sonhos de roedor e se vê perdido na cidade furiosa em pleno horário do rush. Mas ao contrário, desafiando a simples angústia de sobreviver, todos nós temos a oportunidade de sair desta condição de miséria e procurar o vasto oceano que começa em si mesmo, e apenas não conseguimos enxergá-lo por estarmos em uma posição desprivilegiada. Por isso rejeito o coitadismo[3] moderno que apenas serve como um antônimo para aqueles que cuidam do próprio destino, porque ele faz você naturalmente depender sempre de outras pessoas ou de fatores externos para que as coisas aconteçam. Em alguns casos, certas atitudes, ou falta delas, podem ser definidas até como preguiçosas.

Já leram a parábola da rã[4]? Uma das interpretações nos diz que podemos entender a garça como a nossa consciência, nos chamando a sair do fundo do poço em direção ao oceano das novas oportunidades e perspectivas, e parte deste oceano já está dentro de nós, basta que enxerguemos sua beleza obscurecida pelo medo, pelos complexos de inferioridade, pelos traumas do passado etc.

Entretanto, hoje há um grande obstáculo para isto acontecer: Esta geração (e a próxima infelizmente) ainda não conseguiu imaginar um futuro melhor (e também ninguém se preocupou em preparar um). Acham que suas ideias podem corrigir e consertar todos os erros das gerações anteriores e, principalmente, aquilo que não se encaixam mais em seus anseios e idealizações. Por isso mesmo engendram tantas queixas, indignações e ressentimentos para conseguirem submeter todos quanto puderem ao desamparo e desesperança. Afinal, isso não exige coragem de ninguém, apenas a covardia é suficiente (e um perfil em rede sociais). Sua única admoestação é: Desesperem-se mais. Apelam tanto para a esquerda como para a direita, porque, no final, exigem tão pouco da nossa imaginação literária, política ou moral, pedindo apenas que desfrutemos da companhia de pessoas cujo medo do futuro se alinha confortavelmente com o seu próprio coitadismo. E não é irônico nós estarmos com medo que nossos jovens desaprendam a ver como nós vemos e diligentemente os ensinamos também? É bem conhecida a citação do Sócrates no diálogo Fedro[5], em que ele diz que a escrita atrofiará a memória dos jovens, que já

“não usarão suas memórias; eles confiarão nas externas letras escritas e não se lembrarão por si mesmos”.

E arremata com uma afirmação que poderíamos bem repetir hoje mesmo sobre o Google:

“eles serão ouvintes de muitas coisas e não terão aprendido nada; eles parecerão ser oniscientes e não saberão praticamente nada; eles serão uma companhia cansativa, tendo a aparência da sabedoria sem sua realidade”.

Antes de dizer que os jovens de hoje em dia não estão preparados para o mundo adulto, lembre-se de que eles não precisam entrar em nosso mundo adulto. Eles criarão o mundo deles. Para o qual terão certeza de que seus filhos não estarão preparados também.

Para os cristãos: A. W. Tozer[6] percebeu a muito tempo que é preciso uma guerra, uma eleição, tensões raciais, mudanças climáticas, um exôdo de refugiados ou um surto de criminalidade juvenil para dar suporte ao assunto dos profetas modernos. Não é a Palavra do Senhor, mas a vida descompromissada, o desfrutar do tempo e o pensamento dos comentaristas itinerantes (artista, guru, coach ou influencer) que estabelecem o ritmo e determinam a importância da nossa pregação. O mundo sempre se move primeiro e a igreja vem humildemente depois, tentando lamentavelmente parecer e soar como um modelo razoável e, ao mesmo tempo, manter um testemunho religioso fraco, inserindo um comercial respeitável de vez em quando, com o objetivo de que todos devam aceitar Jesus e ser renascido. O fundamentalismo secularizado é uma coisa horrível, muito horrível, muito pior na minha opinião do que o modernismo honesto ou o ateísmo total. É todo um tipo de heterodoxia do coração que existe junto com a ortodoxia do credo. Seu verdadeiro mestre pode ser descoberto observando quem ele admira e imita.

Os fatos por si só nos mostram que estamos evocando agora uma distopia não para resistir, mas para esconder. Porque estamos mais preocupados com o estilo de vida do que com o futuro, queremos acreditar que um feminismo distópico, representações midiáticas evocando quebras de paradigmas e influenciadores pseudos intelectuais ganhando prêmios são algum tipo de mudança significativa em si mesmo. E ainda temos os grandes eventos de música e cinema para amortizar a quebra de padrões comportamentais e implementar os novos! Yeah! Estamos conseguindo e avançando! Aumenta o som DJ! Com tudo isso acontecendo podemos perceber que já vivemos estes tempos de distopia. Imobilidade, apatia, indiferença. Como o autor bíblico do Eclesiastes nos diz:

“Todas as coisas trazem canseira. O homem não é capaz de descrevê-las; os olhos nunca se saciam de ver, nem os ouvidos de ouvir. O que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol.” (Eclesiastes 1, 8-9, NVI).

Então, para encerrar, uma coisa deve ficar bem esclarecida: havendo ou não engarrafamentos, isso não impedirá que o amor verdadeiro siga seu curso. Vá ao encontro dele antes que alguma narrativa moderna de algum artista, guru, coach ou influencer tente transformá-lo em um batráquio preso num poço! Ainda há um amor que tudo crê, tudo suporta, é paciente e que não se ufana!

Que comece 2020!

1- https://analauranahas.com/2013/07/14/acho-que-o-amor-e-a-ausencia-de-engarrafamento/

2- https://guiadoestudante.abril.com.br/especiais/immanuel-kant/#c

3- https://manualdohomemmoderno.com.br/comportamento/complexo-do-chaves-ou-sindrome-do-coitadismo

4- http://blogs.opovo.com.br/artesanatodamente/2014/11/14/parabola-da-ra/

5- https://pt.wikipedia.org/wiki/Fedro_%28di%C3%A1logo%29

6- https://books.google.com.br/books?id=fXgYAgAAQBAJ&dq=today,+it+takes+a+war,+an+election,+racial+tensions+or+an+outbreak+of+juvenile&hl=pt-BR&source=gbs_navlinks_s

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Devocionais para não devotos XI

Este é um texto antigo, 2008 se a memória não estiver falhando.

Acho que a humanidade começa a se livrar do estigma do pecado original, e a Madonna é um símbolo desta nova era redentora _ filosofou Lulu.”*

Primeiro erro desta declaração: o entendimento incorreto do que seja pecado original, confundindo-o e resumindo à alguns aspectos da sexualidade. Devo ressaltar que a sexualidade saudável é muito bem vista e aceita dentro da moral cristã bíblica. E o fato de apresentações explícitas de libido e luxúria feitas por uma artista ‘provocadora’ serem aceitas e valorizadas por uma maioria não faz a humanidade avançar mais do que avançou o Império Romano debaixo da (des) governança de Calígula.

Segundo: se é um estigma, está na base de formação do caráter e da personalidade, estando completamente enraizado na formação moral e social do indivíduo, logo, “se livrar” do estigma, é também descartar a sua visão de mundo (cosmovisão); é abandonar sua própria convicção de realidade ou compreensão do que seja a mesma, abandonando também seu quinhão cultural. O que o tornaria um ser anacrônico e sem encaixe social.

Terceiro: Redenção** é um conceito cristão que significa livramento de algum mal através do pagamento de um preço. É mais do que simplesmente livramento, “se livrar”. Esta é a maneira pelo qual, prisioneiros de Guerra e seqüestrados são libertos ainda hoje. E, além disso, qualquer um em sã consciência dirá em coro comigo que Madonna não tem interesse nenhum em sofrer por ninguém até uma possível morte, muito menos pagar alguma coisa com a própria vida. Ao contrário de Jesus Cristo que se deu por todos nós na cruz (João 3.16, Marcos 10.45, NVI). Devo lembrar ainda que o sacrifício de Cristo não encontra um  paralelo em nenhum outro mártir; primeiro porque não visou o lucro próprio; segundo, porque foi um sacrifício pago com a própria vida e não poderia ser com outro recurso ou por dinheiro; terceiro, Ele assumiu a culpa pelos erros de uma raça inteira e para sempre, erros que não cometeu.

Existem muitas coisas na vida que mostram sua verdadeira face ou significado apenas quando visto de perto, muito perto. Talvez por isso, nos enganamos continuamente sobre as pessoas e fatos. Por só buscar as coisas tangíveis e “reais”, o material e o factível, é que nos prendemos a forma e permanecemos apenas observando a superfície e não aprofundamos os relacionamentos, não buscamos conhecimento real. Uma consequência desta falta de interesse em desnudar-se e conhecer é a crença comum que nos faz acreditar um pouco demais em nós e nas pessoas apenas porque VEMOS os outros se ajudando, contribuindo de vontade própria, mesmo que seja só um pouco. Esta esperança***, este otimismo de ocasião é um entorpecente natural para a época em que vivemos.

Existe ainda uma quantidade de pessoas que não costumam mostrar-se totalmente porque preferem se autoproteger com máscaras, especialmente, as máscaras das religiões. Mas diante das grandes catástrofes ou quando algumas situações revelam o seu “eu” verdadeiro, acabam por ver que todas as pessoas são iguais. E quando relutam em se interessar pelos outros é aí que devem deixar as suas fantasias e máscaras para notar que individualmente somos menos do que acreditamos.

Acredito que as mudanças e situações destes últimos meses, e a comoção social com suas consequências sejam um lamento natural da própria criação que resume tudo o que vivemos este ano e presenciamos até aqui. Por isso, quanto mais penso sobre as nossas realizações e olho para o próximo ano, vejo que nossas ações são umas inutilidades se o caráter e o propósito de existirmos como cristãos não seguir de fato o padrão bíblico, que é integralmente sofrer amando, porque quando não nos empenhamos em espalhar felicidade entre os nossos semelhantes o nosso egoísmo torna-se um flagelo social pior que as maiores desgraças naturais. Se não estivermos motivados para amar praticamente, e até sofrendo em prol de outros menos afortunados, é até desnecessário dizer: Adeus ano velho e Feliz ano Novo!

* Declaração do cantor  Lulu Santos antes do show no Maracanã, SEGUNDO CADERNO, Jornal O Globo, pág. 2, 16 de dezembro de 2008.

** cf. O NOVO DICIONÁRIO DA BÍBLIA, edições Vida Nova, 2001, pág. 1372.

***Segundo o Dicionário Aulete digital, (es.pe.ran.ça), sf., 1. Expectativa otimista da realização daquilo que se almeja; 2. Fig. Aquilo ou aquele em que(m) se deposita uma expectativa; 3. Qualquer coisa que seja ilusória; 4. Rel. Juntamente com a fé e a caridade, a segunda das três virtudes básicas do cristão.

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ECOS DE ECUMENISMO.

“Ecumenismo – é o processo de busca da unidade. O termo provém da palavra grega “oikos” (casa), designando “toda a terra habitada”. Num sentido mais restrito, emprega-se o termo para os esforços em favor da unidade entre igrejas cristãs; num sentido lato, pode designar a busca da unidade entre as religiões ou, mesmo, da humanidade. Neste último sentido, emprega-se também o termo “macro-ecumenismo”.

Assim, ecumenismo é um assunto fascinante e desafiador. Sabemos que discutir a questão ecumênica requer, antes de tudo, despir-se de preconceitos ou qualquer outro tipo de resistência. Mas, acima de tudo, precisamos ser sinceros e claros em nossas convicções e posições. Para os cristãos protestantes fundamentalistas (os que crêem na Bíblia literalmente), o ecumenismo cumpre perfeitamente as profecias bíblicas no livro do Apocalipse que prevê o seu líder – o falso profeta – que levará a humanidade a aceitar o Anticristo que está por vir (Apocalipse 13.11-12, NVI).

“Dicionário Aurélio define ecumenismo como movimento que visa à unificação das igrejas cristãs (católica, ortodoxa e protestante). A definição eclesiástica, mais abrangente, diz que é a aproximação, a cooperação, a busca fraterna da superação das divisões entre as diferentes igrejas cristãs.”

“Atualmente, o termo tem um significado estritamente religioso, apesar do seu contexto histórico abranger os aspectos geográfico, cultural e político. Numa edição especial, a revista Sem Fronteiras (As Grandes Religiões do Mundo, p. 36) descreve o ecumenismo como um movimento que se preocupa com as divisões entre as várias Igrejas cristãs. E explica: Trabalha-se para que estas divisões sejam superadas de forma que se possa realizar o desejo de Jesus Cristo: de que todos os seus seguidores estivessem unidos, de assim como Ele e o Pai são um só”.[1]

“Católico convicto, Monda, radicado nos Estados Unidos há 12 anos, começou a pesquisa, que resultaria no livro, sem sequer notar. Convidou mais 12 personalidades a responderem a pergunta-chave do livro: “você acredita em Deus?”. De um ateu convicto como Paul Auster à Jane Fonda e seu feminismo cristão, as mais diversas defesas da presença religiosa trocaram experiências com Monda. Spike Lee, Toni Morrison, Salman Rushdie, Jonathan Frazen, entre outros, também embarcaram no desafio. Mas teve quem saísse pela tangente. Agradeceram educadamente ao convite do italiano, mas recusaram participar da coletânea”.[2]

Mas a recusa de duas das mulheres de maior expressividade política da atualidade, Hillary Clinton e Condoleezza Rice, de não participarem da entrevista de Antonio Monda, leva-nos a outra reflexão bastante importante: a relação entre Igreja e Estado. Conflito antigo que, a cada dia, como atestam os entrevistados por Monda, está mais vivo. Ou nos movimentos fundamentalistas ou na chamada nova era. E na tentativa de justificar uma crescente religiosidade contemporânea, associada a extremismos e partidarismos, a maioria das personalidades entrevistadas chega a seguinte conclusão: o fundamentalismo como fruto de uma institucionalização da fé, de uma Igreja organizada. Porque o fundamentalismo significa uma interpretação literal das palavras de Deus, a idéia de uma instituição que “controle” a sociedade religiosa é bem aceita:  “Com uma Igreja no meio, o risco é menor, já que há uma orientação do que pode e deve ser feito ou não”.[3]

Em primeiro lugar, gostaria de deixar claro que a multiplicidade da fé não condiz propriamente com a multiforme graça divina, visto que, biblicamente só existem dois caminhos, e um conduz ao lugar certo o outro não. Segundo, o fundamentalismo religioso quando usado para consolidar o poder de estado ou de governos é um perigoso provocador de distorções na doutrina bíblica. Vide o caso da igreja Católica, que em sua busca de poder, acabou corrompendo-se ao longo da história por causa do seu adultério com a monarquia e o estado, e o fundamentalismo islâmico, que é um caso extremo de totalitarismo religioso, onde o líder da nação se confunde com um enviado dos céus para poder impor sua ideologia, que quase sempre é baseada no livro sagrado para poder ser impingida mais facilmente. Logo, a exegese bíblica que é necessária para uma correta interpretação dos textos do Antigo e Novo Testamento não deve ser usada para se institucionalizar a fé. Mesmo porque não é a igreja que regula a sociedade, mas é Deus que através de sua igreja se reporta a esta sociedade. Em terceiro lugar, o Papa Leão XIII disse certa vez que “Tolerar igualmente todas as religiões… é o mesmo que ateísmo (Immortale Dei)”, e devo concordar com Monda quando diz que “não acredito que haja ateísta de verdade. Você sempre acredita em algo, cria mitos, ídolos. No lugar de Deus, muitas pessoas colocam outras crenças: seja no dinheiro, no sexo, corpo e o que seja. O ateísta verdadeiro substitui Deus por ídolos”.[4]

Hoje o mundo está vivendo um renascimento religioso. Mas o que realmente isto significa? Bem, a religião está no centro das discussões mundiais. Todos os tipos de religião. Algumas vezes por motivos errados, como no caso dos separatismos e conflitos religiosos. Existe uma movimentação em todos os níveis de uma preparação para um governo mundial, e de uma religião mundial, que passa pelo ecumenismo; quando o Papa João Paulo II reafirmou o ecumenismo como essencial para a fé cristã na Enciclica Ut unum sint (“Que todos sejam um”), este Papa iniciou um movimento ecumênico, instado a dialogar acerca do compromisso com a justiça, a paz, a integridade da criação, a espiritualidade e as novas formas eclesiais surgidas nesse contexto; e várias religiões já se uniram em torno desta doutrina que é claramente contrária aos ensinos bíblicos e agora só falta o estado e a igreja se fundirem em um único poder. Ora, o Senhor Jesus quer que sejamos um com Ele, em obediência e no cumprimento de seus mandamentos, e sempre respeitando o outro (“ame o teu próximo como a ti mesmo”), mas Jesus nunca se envolveu ou pregou idéias religiosas e políticas.  Está claro que devemos respeitar o próximo e o seu direito de “cada um acha qual o melhor jeito de encontrar Deus” (é o que nos diz a lei da liberdade de expressão), mas não podemos cooperar com o ecumenismo sem aceitarmos práticas e doutrinas que fogem ao padrão ensinado por Cristo; cada qual dará conta de si mesmo perante o próprio Deus, logo, é bom que sejamos um sim, mas um em Cristo Jesus para a proclamação do seu evangelho da verdade, e nunca para sermos arautos de uma nova era humanista e suas ideologias que distanciam o homem de Deus, cheia de uma paz temporária baseada em conquistas humanas meramente.

[1] http://pt.wikipedia.org/wiki/Ecumenismo

[2] http://rascunho.ondarpc.com.br/index.php?ras=secao.php&modelo=2&secao=2&lista=1&subsecao=54&ordem=1298

[3] Partes retiradas de uma entrevista concedida pelo roteirista italiano e professor da Universidade de Nova York, Antonio Monda ao jornal literário Rascunho, Curitiba, em março de 2007.

[4] idem ao 3.

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Devocionais para não devotos (X)

Estamos no subúrbio de alguma cidadezinha (mas poderia ser em uma grande metrópole também) onde um fenômeno incomum está para acontecer. Um breve relâmpago e nada permanecerá como antes. Dizem que este é um acontecimento anunciado há muito tempo e acontecerá em breve, como o dilúvio, ninguém acreditava até…

Em um quarto fechado alguém assiste uma série qualquer em um tablet, única fonte de luz do ambiente até o celular tocar. Notificação do Whatsapp:

 _ Tá aí suricato?

_ Sempre on babuíno.

_ Bateu uma neura aqui.

_ Normal né? Tu tem várias neuras. (Emoji sorrindo).

_ Aí quebra. Tô intrigado de verdade cara.

_ Ok, me conta qual é o problema agora?

_ Então, você assiste “Os Simpsons” né? Eles são os oráculos modernos cara! Tudo o que acontece nos episódios revelam algo que ainda vai acontecer.

_ Cara, você não tem nada pra fazer aí na loja não? Tá assistindo desenho animado?

_ Pô suricato. Aqui hoje tá suave mano. Então, quem ia imaginar que o bilionário Donald Trump chegaria a ser presidente dos Estados Unidos? Quem pensaria que as Torres Gêmeas de Nova York iam ser destruídas em um atentado? Nenhum de nós acreditava que esses acontecimentos seriam possíveis, mas “Os Simpsons” conseguiram antecipar em alguns de seus episódios.

_ Cara, eles têm um monte de roteiristas. Uma hora um deles mais antenado acabaria combinando várias ideias e hipóteses e acertaria algumas coisas né? Mas qual é o problema? (Emoji de tanto faz).

_ Cara, até a derrota da seleção para a Alemanha eles conseguiram acertar…

_ Mas não acertaram o placar babuíno, se você não tem outra coisa pra falar me deixa terminar a série…

_ Ok. Hoje uns caras de uma igreja estiveram aqui na loja. Deixaram uns folhetos e eu li.

_ (Emoji cara de quem não está entendendo nada).

_ Você precisa assistir os episódios da 30ª temporada. Bate certinho com as informações dos folhetos.

_ O que tem demais nisso? Os caras da igreja conseguiram te assustar é? (Emoji de raiva e susto).

_ não é nada disso. Eu estava vendo a temporada toda quando eles chegaram e a maioria dos episódios falam de assuntos religiosos. E se existir um céu e um inferno mesmo? Pô cara, já pisei muito na bola velho!

_ Rapaz você tá fumando bagulho mofado! Só pode! Cara, os crentes te envenenaram com estas histórias de Jesus, de salvação, de paraíso, inferno e pecado… (Emoji de gargalhada e demônio).

_ Suricato, eu sempre gostei de conversar contigo porque você é um cara safo. Mas você não tá entendendo. Já percebeu que só Deus tem cinco dedos nos desenhos deles? Os caras falaram de arrebatamento e juízo final.  “Os Simpsons” sempre acertam alguma coisa…

_ E você acreditou? (Emoji revirando os olhos).

_ Hum-hum. Eu aceitei ser salvo por Jesus só isso.

_ Sinceramente babuíno! Só você para acreditar em histórias para crianças viu?

De repente um brilho forte amarelado atravessa as cortinas do quarto. Barulho de copo caindo e batida de carro.

_ Peraí. Parece que o transformador da rua pegou fogo de novo. Mãe, cadê meu suco?

Silêncio. Suricato vai até a janela e abre as cortinas. Céu azul tranquilo. Um carro vazio encostado no poste. Uma bicicleta caída com as rodas girando e algumas roupas ao lado.

Volta para a cama e tecla:

_ Este bairro tá cada dia mais horrível babuíno. Acabaram de bater no poste e fugiram… acredita? O pior é que ninguém liga mais. Não apareceu ninguém na rua para olhar. 

_ (digitando…)

_ Babuíno? (Emoji de preocupação)

_ (digitando…)

Bem longe pode-se ouvir o som do rádio da vizinha (que fica o dia inteiro ligado em uma emissora religiosa):

“Porque, assim como o relâmpago sai do oriente e se mostra até ao ocidente, assim será também a vinda do Filho do Homem. Pois onde estiver o cadáver, aí se ajuntarão as águias. E, logo depois da aflição daqueles dias, o sol escurecerá, e a lua não dará a sua luz, e as estrelas cairão do céu, e as potências dos céus serão abaladas.”

Suricato olha pela janela e vê umas nuvens escuras crescendo lentamente no horizonte. Confere o celular mais uma vez:

_ (digitando…)

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Devocionais para não devotos (IX).

“Deuses criados pelo coração são os mais perigosos. Os de barro conseguimos ver, já os do coração são invisíveis, são protegidos como parte dos nossos sentimentos” – Aldair Queiroz
Eu sei que a visão global é laica, está conforme o senso comum, não contradiz a razão e queremos ser felizes, mas isto é possível sem necessariamente cumprir os códigos de sucesso prevalecentes? Sem ter Boas notas na escola, sem um bom trabalho (de prestígio, se possível), sem fazer boas viagens, tudo à luz do conhecimento de todos?

Imaginem um universo paralelo em que o sucesso e a competição não atuassem como combustível para a nossa sociedade. Um mundo em que aspirar às primeiras posições e ser o melhor da classe não importaria nem um pouco. Um universo onde estar apenas bem seria bom. Seria muito bom mesmo. Entretanto, não sei o que nós estamos pensando. Estamos sempre querendo apenas aquela comida que parece muito boa e cara, querendo mais uma televisão super smart, uma casa  linda em um local chic, alguns também querem o carro mais estiloso. Mas nós não fomos deixados aqui para somente ter essas coisas1.

O envolvimento com uma crença ou uma fé (muitas vezes não atreladas a uma religião tradicional) podem trazer novamente a dimensão da esperança. É quando os problemas enfrentados passam a serem vistos como oportunidades para um novo começo, pois a mudança faz parte da vida de qualquer ser humano. É quando aqueles que já passaram ou mudaram, os grandes homens de sucesso, atletas e artistas tornam-se modelos para a maioria das pessoas. Suas opiniões, ideias e perspectivas pessoais são mais acreditáveis que dogmas ou doutrinas porquê podemos customizar e contextualizar as partes que consideramos mais importantes. É exatamente nesse ponto em que dois fundamentos se contradizem e oscilam que os valores culturais são construídos. Por isso entendemos que o mundo não está de cabeça para baixo, o ser humano sim, e diferentemente das leis da física, que estão livres de inconsistências, toda ordem criada pelo homem é cheia de contradições internas. As culturas estão o tempo todo tentando conciliar essas contradições, e nesse processo alimentam todas as mudanças.

Às vezes, fazemos sacrifícios com a finalidade de alcançar uma vida mais plena e feliz; no entanto, muitas vezes não chegamos ao estado de êxtase ou plenitude que desejamos. A decepção pode levar-nos a rejeitar a disciplina que tínhamos empreendido, ou no pior dos casos, pode nos desmoralizar até o ponto de pensar que “Deus se esqueceu de nós”. Qualquer que seja a reação, está só nos mostrando que cometemos um erro. E um erro pode ser corrigido.

Infelizmente por causa do pragmatismo e utilitarismo da nossa cultura toda a nossa autocritica está errada. E os nossos modelos de sucesso, que são humanos, também. Pois os objetos, desejos e conquistas deles são igualmente perecíveis. Eles têm todas essas coisas que desejamos e aquilo que não perece ou é intangivelmente verdadeiro eles não têm também. Ora, se nós somos novas criaturas a causa e o efeito de tudo está em Cristo (a conduta humana deve agir de acordo com a vontade de Deus) e, portanto, é contraditório seguir simplesmente uma tradição cultural. Além disso, como cristãos já deveríamos saber que Deus tem o melhor para os seus filhos. A parábola do filho pródigo nos ensina isso. Que toda a dor da humanidade vem daí, da descoberta de saber que vivemos através das épocas e Deus esteve sempre governando tudo e nós apenas fingindo não saber.

É preciso deixar esclarecido também que a sanfona, o violão, a moto, a bicicleta, o cavalo, o status social, todas essas coisa que parecem não estragar nunca, sempre acabam assim: nós podemos ter, mas amanhã ou depois de amanhã, já deixamos de lado ou jogamos no lixo, porque tudo o que satisfaz os desejos do ser humano vivo tem a durabilidade perecível deles. Nesse caso, a realidade ignora nossas aspirações porque o desejo é apenas o ideal da consciência humana. É como se fosse um deus para aquele que imagina, ou pretende tomar o seu lugar, mas não o alcança, como foi bem mostrado na parábola dos cegos e o elefante (que pode ser entendida como uma teoria sobre a realidade)2: onde os homens se comportam diante da verdade buscando apenas uma parte e acreditando conhecer o todo. E por isso continuam tolos. Isso nos incomoda tanto porque estamos todos envolvidos em algum projeto e sempre colocamos as coisas debaixo da etiqueta “deu certo” ou não. Claro, muitas vezes o projeto que descrevemos é apenas teórico, mas a visão é real. Embora seja apenas um sonho, representa nossas maiores aspirações3 que deverão ser postas em prática durante a jornada de sua realização algum dia, onde sempre existe uma real possibilidade de não ser como queremos por mais simples que seja o projeto, isso parece bastante difícil de ser aceito, pois “nossa sociedade ocidental nos faz acreditar todos os dias nos artigos do LinkedIn e do Medium que tudo é possível através de muito trabalho e auto-sacrifício”4. Porque Somos pragmáticos demais funciona por um tempo.

Mas junte a tudo isso o fato que os homens morrem, todo ano morrem, cada noite, cada manhã, estão morrendo e seus criativos sonhos também. Eles ficaram destinados a isso depois que erraram para com Deus, desobedecendo-o. E mais, maltrataram o Filho dele e fizeram mais mal para si mesmos. Ainda assim Cristo insistiu em resgatar a dignidade humana de ser e de continuar a existir. E apesar de saber que existem pessoas confortáveis em não saber tudo, em apenas saber que há várias possibilidades e a verdade final não lhes interessa realmente.

Lembro aqui uma máxima bíblica: Tudo é possível ao que crê. E crer em Cristo é submeter-se ao seu domínio e ter um relacionamento íntimo com Ele. Quem quiser viver bem nesta terra precisa ser manso como ele. Mansidão é serenidade e resolução. Ser tranquilo e também determinado. Não é nada fácil ser amansado, mas possível a todo aquele que se entrega ao Senhor.

1 – O Perecível e o Imperecível – Reflexões guarani mbya sobre a existênciaDaniel Calazans PierriElefante (2018, 1ª edição).
2 – https://www.netmundi.org/home/2018/os-sete-cegos-e-o-elefante-descartes/
3 – https://www.christianitytoday.com/pastors/2019/august-web-exclusives/bonhoeffer-convinced-me-to-abandon-my-dream.html
4 – https://urbania.ca/article/quand-lanti-ambition-est-la-cle-du-bonheur/
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Quem machucou você?

“I hurt myself today

To see if I still feel”

O trecho acima é da música Hurt1. Ela começa dizendo: “Me machuquei hoje para descobrir se ainda consigo sentir”. Isso acontece porque ele jogou fora quase tudo que o fazia humano. Então ele precisa saber se ainda sente pelo menos a coisa humana mais básica: a dor. Ele usa uma analogia de drogas para simbolizar o método de autodestruição que usou para se desumanizar. Esse método pode ser interpretado como drogas literais, como religião, como uma amante… A partir disso ele faz uma pergunta: “O que eu me tornei?” Olhando para a sua vida ele percebe que se tornou algo diferente, algo desumano. Ele percebe como suas ações eram inúteis. Então o próximo verso fala sobre como ele “matou” Deus, ou pelo menos o removeu de sua vida e assumiu o Seu lugar, sem conhecer as conseqüências de suas ações. Finalmente, no final da música, ele lamenta suas ações e diz que se tivesse outra chance de começar de novo faria tudo diferente para manter sua alma. Mas como cristão sei que uma segunda chance não deve ser usada para manter a posse dela (Marcos 8:36). Você não pode ganhar o mundo e rejeitar a Deus (nem que seja temporariamente) sem perder sua alma, quem agir assim vai perdê-la, e a melancolia o invadirá e quando perceber, suas escolhas não poderão perpetuar sua existência, tão pouco produzir um estado em que possa “sorrir para o mundo e dar-se bem com tudo”. Isto o faz perceber que se não há ninguém ou nada que tenha algum tipo de valor em sua vida, você está sozinho e é um governante de uma vida vazia? E outra coisa, o maior inimigo das almas humanas é o espírito hipócrita que faz os homens olharem para si mesmos buscando auto salvar-se. Ou você é o salvador ou precisa ser salvo.

O autor da música também percebe que não é capaz de mudar sozinho porque não é mais tão humano do que os outros. E que sempre deixará as outras pessoas para baixo e as machucará. Ele machucará qualquer um que tentar se aproximar dele. Como se machucou tanto, machucar é tudo o que sabe. Ele como todos nós, está em busca de uma saída. E o refúgio mais próximo para quem está sofrendo de angústia é a solidão. E hoje é muito comum percebermos todo mundo vivendo como usuários da solidão mais do que lutando contra ela, apesar do assunto não ser falado abertamente. Isso acontece porque a solidão pode nos desprender do próprio solo da História produzindo um tipo de suspensão ás vezes, levando-nos a uma atitude livre de referências, marcas ideológicas ou clichês. O que obrigatoriamente nos faz buscar novos horizontes e, paradoxalmente, deixar a caverna das certezas. Entretanto, ninguém muda, torna-se uma pessoa diferente, enquanto ainda sente os sentimentos da pessoa que deixou de ser. Eis um motivo do porque não podermos, na visão de Husserl[2], extrair evidências plenas de nossa percepção empírica do mundo, pois, a julgar pelo o que a experiência sensível nos revela do mundo, nós jamais poderíamos eliminar por completo a possibilidade de duvidar da posição de existência das coisas que se nos apresentam e, neste sentido, estaríamos sempre prontos a corrigir as nossas percepções do que havia sido estabelecido com base na experiência sensível. Ou traduzindo do ‘filosofês’: viver nestes termos seria um eterno “eu quero dizer agora o oposto do que eu disse antes”. E daí viria a necessidade de se metamorfosear continuamente para poder experimentar as tantas percepções, e criar sensações que ressignifiquem aquilo que a existência em si não é capaz de mostrar com clareza. Tudo seria relativo demais,  líquido demais. Os encaixes mudariam e os pinos também, constantemente.

Segundo Eugene Ionesco, na história da humanidade não há civilizações ou culturas que não manifestem, de uma ou mil maneiras, essa necessidade de um absoluto que se chama céu, liberdade, milagre, paraíso perdido, paz, ir além história; não existe uma era que não expresse a necessidade do homem ser transfigurado ou que não expresse o desejo de revolução, a busca pela Cidade Ideal, isto é, o desejo de purificar o mundo, de modificá-lo, de salvá-lo, reintegrá-lo metafisicamente ao divino. A humanidade nunca ficou satisfeita somente com a “realidade tal como é”. Na Grécia pagã, onde a harmonia mais perfeita parecia existir entre a moralidade e a alegria, entre a natureza e a sociedade, os platônicos, embora vivessem sob o céu mais luminoso do mundo, pensavam que este mundo e este céu não eram capazes de contemplar a única luz essencial, aquela das idéias eternas. Os próprios estóicos aceitavam passivamente viver uma vida cotidiana absurda e cinzenta porque sua metafísica prometia que os homens sábios após a morte contemplariam os movimentos das estrelas, isto é, a beleza absoluta e não-terrestre. Não há religião em que a vida cotidiana não seja considerada uma prisão; não há filosofia ou ideologia que não pense que vivemos na alienação; de um modo ou de outro, e mesmo nas ideologias que negam os mitos de que se alimentam apesar de si mesmos, a humanidade sempre teve uma nostalgia pela liberdade que é apenas beleza, que é apenas vida real, plenitude, luz.

Bem, na vida ordinária do dia a dia lidamos com pessoas e suas atividades, com toda a sorte de eventos complexos, e com relacionamentos sociais como o Estado, a igreja, o sindicato e a família. A realidade temporal também inclui animais, plantas, minerais, dentre outras coisas, sejam elas formadas pela natureza ou pela cultura como, por exemplo, o caso de homens em linhas de produção, em lojas, ou em laboratórios. Mesmo uma descrição primária como essa nos envolve num processo não de construção, mas de observação de todos os tipos de distinções salientes presentes na vida humana. Isso pode parecer uma verdade incontestável num primeiro momento, mas a história da filosofia nos oferece muitos exemplos de homens que sobrepuseram suas ideias brilhantes à realidade antes mesmo de começarem a examiná-la. Por isso precisamos nos guardar contra este perigo e investigar acuradamente a estrutura que a realidade temporal revela por si mesma.3

E sendo um pouco mais sincero e franco aqui, investigar também é deixar-se investigar, e dar a alguém a minha solidão seria, falando poeticamente, construir uma janela para a minha alma e deixar o outro espiar. De certo modo ficaria esclarecido que há entre a essência e a existência uma expressão particular de cada individuo, sua consciência, e que seria esse também o elo faltante para nos fazer passar de uma visão ingênua do mundo para um modo de consideração das coisas, no qual o mundo se revela em sua totalidade como “fenômeno”. Ou como Kant dizia: “Das ding an sich”. A coisa (ou mundo) como ela é realmente, não o que parece ser ou eu acho que é. Sabe quando as coisas dão errado e logo assumimos que as pessoas querem nos prejudicar e geralmente há uma explicação mais lógica? Então, por isso não devemos atribuir à malícia o que pode ser somente o produto da nossa estupidez. A razão é sempre “razão” de alguma realidade, e a realidade “é”. Tudo que é, é ser. Ser racional é ser inteligível por uma racionalidade, uma razão. Nunca podemos separar totalmente SER e RAZÃO.

Uma coisa precisa ser explicada aos cristãos: Crer em Cristo é permanecer em seus ensinos. Permanecer nos ensinos de Cristo é resistir à forma de agir e de pensar do mundo. Essa resistência não se trata, portanto, de uma ação reativa, mas uma atitude intencional de não ser como o mundo é. Ou seja, além de seguir os ensinos de Cristo a qualquer custo, o cristão decide conscientemente não seguir o modelo de vida proposto pelo sistema de valores do mundo. Ou vamos pouco a pouco, por exemplo, deixar de aceitar a tristeza como nosso acessório de fábrica e, portanto, negaremos um sentimento intrínseco ao ser humano.

Eu sei, às vezes, nem agimos de forma voluntária. Estamos descansando calmamente, assistindo a um documentário, lendo um livro ou conversando com alguém no whatsapp e, de repente, aquele “alguém” chega, alguém que sabe tudo por sua própria experiência e nos conta sobre sua vida. Você começa a se divertir e para, começa a ouvir e imaginar como deveria ter sido crescer naqueles anos, até perceber que a conversa se tornou uma emboscada da qual você não pode escapar. Todos nós sabemos como que é, são momentos inesquecíveis da nossa vida, momentos inestimáveis, mas devemos reconhecê-lo: somos sempre surpreendidos e enquanto escutamos, parte do tempo passamos procurando uma maneira de fugir.

E aí seguimos sendo um eterno aprendiz, acreditando que a vida pode ser bem melhor nesta atormentada busca pela felicidade que nos é negada por esta sociedade que nos impõe ritmos frenéticos e objetivos falsos que acabam eclipsando as coisas realmente importantes da vida.

1- https://www.youtube.com/watch?v=gSS2IgnnBo8

2- www.revispsi.uerj.br/v12n3/artigos/html/v12n3a08.html

3- Contornos da filosofia cristã / L. Kalsbeek; traduzido por Rodrigo Amorim de Souza. _

São Paulo: Cultura Cristã, 2015

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Não escolha ser enganado por você mesmo

Se uma orla dá contornos a água, a água modela a orla. Embora sejam forças iguais são opostas, mas se combinam para formar um ambiente. Assim o ser humano também, como as ondas e a orla, está sempre forçando os próprios limites afim de ampliar suas adjacências (para tornar-se mais relevante talvez) e ao mesmo tempo sendo forçado a permanecer no status quo determinado pelas circunstâncias. 

Esta junção de forças funciona adequadamente para explicar a busca por realização do ser humano. O conhecimento atual diz que estamos dentro de limites aproximados, nascidos pela natureza e solidificados pela criação e ainda assim amorfos e maleáveis, onde toda onda imperceptivelmente nos altera a cada encontro acidental e sucessivo. Onde cada “erro” é uma real possibilidade para o ser humano criar consciência de como está no mundo, e ter a exata noção do seu ser e das consequências do que faz.

Algo que é muito real para os cristãos obrigados por uma ética bíblica, isto é, crentes que lutam por corações, mentes e corpos puros, mas confiam na graça de Deus nas (muitas) ocasiões em que as coisas dão errado. Sinto dor, sofro, passo por dificuldades, mas aprendo a me conduzir dependentemente da graça divina e sem me tornar um peso para ninguém e tentar viver harmonicamente.

A vida é uma jornada onde os privilegiados nem sempre são os mais fortes, mas àqueles que arriscam superar seus próprios limites. ˗ Misael Bass Teixeira

Pensemos em um homem que perdeu tudo o que conseguiu conquistar a duras penas e outro que perdeu tudo que reconquistou depois de uma grande luta. Em comum o fato da perda e de estarem a bordo de uma jornada que vai levar a um ponto ou lugar sem data definida. O consolo é a chegada? Viver é apenas existir? Nunca deveria existir um tempo chamado cedo demais? Ter conhecimento da realidade e percebê-la não é mais importante que a realização de algo em busca da verdadeira felicidade. Mas o homem cotidiano não gosta de demorar, tudo o apressa e ao mesmo tempo, nada lhe interessa além de si mesmo como já dito por Albert Camus.

E se as coisas durassem para sempre saberíamos dar o valor que elas têm? Não. Porque queremos tudo perfeito justamente para não dar valor a nada. Agora, se você já escolheu sua maneira de viver aceite isso. Há uma grande diferença entre aceitação e escolha caso não tenha percebido.

Em 1845 Karl Marx escreveu suas famosas 11 teses sobre Feurbach. Na sexta tese Marx afirma algo verdadeiro, mas reducionista: “A essência humana é o conjunto das relações sociais”. Efetivamente não se pode pensar a essência humana fora das relações sociais. Mas ela é muito mais que isso, pois resulta do conjunto de suas relações totais. Mas a aceitação atual da indicação de Marx mostra que a maior parte da construção do homem moderno se realiza, efetivamente, apenas em sociedade. Daí a supervalorização da formação social que melhor cria as condições para ele poder desabrochar mais plenamente nas mais variadas relações.1

Alguns de nós já sentimos essa tensão em nossas próprias vidas. Percebemos as maneiras pelas quais amigos, colegas de trabalho e até mesmo membros da família olham para nós com olhos arregalados e perturbados quando percebem nosso compromisso de honrar a Deus com nossos corpos, mentes e almas. Podemos não ter tido nossas vidas destruídas ou estragadas pelo caminho, mas sabemos o que é ser questionados, provocados ou ridicularizados como resultado de expressarmos e praticarmos nossa fé. E para muitos, esta tem sido uma experiência dolorosa. Ser incompreendido sempre é. Mas muitos de nós ainda gostariam de saber a verdade.

No livro de Jó, a experiência existencial do personagem se dá em um contexto de perdas, sofrimento e marginalização que transcende as explicações mais razoáveis. Somos convidados então a nos libertar da prisão ideológica de nossos dias, das narrativas construídas através das tradições culturais conseguidas graças à acumulação de conhecimentos baseados em um senso comum que especula e apenas arranha a superfície da existência humana, e acabam por produzir um ser humano incapaz de construir uma vida nova, um mundo novo, uma história de fato. Além de cada vez mais se distanciarem de Deus. Porque quando acreditamos que somos senhores de nós mesmos, nos conformamos com uma falsidade dada a nós pelo “pai da mentira” (João 8:44). Quanto mais acreditamos em nós mesmos, menos capacidade temos para discernir a verdade. Como Paulo nos lembra, “você não é seu, mas foi comprado por um preço” (1 Coríntios 6:19). Agora, como sempre, as mentiras do diabo se escondem como verdade, em lemas comuns de nossa cultura que soam atraentes, inspiradores e desejáveis. Queremos estar no comando de nós mesmos, no controle do nosso futuro e capazes de nos tornarmos melhores. Isso parece muito bom e razoável. Mas quando “você faz você”, você se torna o eu supremo. “Se formos longe demais, a busca por um ‘Ser Supremo’ pode se confundir com a mais antiga tentação humana”, escreve Ross Douthat em Bad Religion, “o sussurro no Éden de que ‘sereis como deuses’”.2

Na nossa vida diária, usamos nossa percepção continuamente para nos movermos dentro de casa, na rua, no trabalho etc. Nessa movimentação elegemos sempre um alvo, para agirmos em direção a ele e realizarmos algo importante para nós. Após esta realização partimos para outra onde tudo se repete. Se quero sair de uma vila onde moro, preciso necessariamente intencionar que quero sair. 

Isso significa que minha consciência esteja ligada ao que elegi. E quando elejo, aponto um alvo, isto é, uma figura. Nesse instante em que realizo esta necessidade, tudo que intento a posteriori fazer, fica no que o Gestaltismo chama de fundo. Pois bem, se quisermos viver contrariando essa lei que está em nós, viveríamos sem consciência, pois ter consciência é ter, como disse Husserl (1959) 3, consciência de algo, de alguma coisa, sob pena de não se ter consciência na espécie humana. Se tiro o algo, isto é, a figura, minha consciência, se é que ainda posso falar de sua existência, ficaria somente como um fundo amorfo, desorganizado.

Por isso que é importante não permanecer totalmente fascinado e absorto por tantas narrativas que acontecem ao nosso redor o tempo todo; porque se as coisas derem errado será preciso não seguir o fluxo delas. O mundo pode tentar nos esmagar e provavelmente o fará. Mas toda vez que o ser humano quiser sobreviver a isto, só será vitorioso se a sua fé puder ser embainhada na Verdade.4 

Bem, ao ler Os Irmãos Karamazov percebe-se que os personagens sucumbiram ao orgulho e, portanto, à influência do demoníaco e viveram de acordo com falsas narrativas sobre sua identidade. Um chama a si mesmo de bufão. Outro se apresenta como um intelectual. Ainda outro está dividido entre ser um herói romântico ou um sensualista. A figura sagrada do romance, o padre Zosima, adverte esses personagens: “Acima de tudo, não minta para si mesmo. Um homem que mente para si mesmo e ouve sua própria mentira chega a um ponto em que ele não percebe qualquer verdade”.

Para os crentes, essa luta entre o bem e o mal, entre Deus e Satanás, se resume à nossa visão de autoridade. Nós, protestantes, frequentemente nos encolhemos com essa palavra, em parte porque nos lembramos de abusos de poder e excessos autoritários. No entanto, a palavra também deve evocar aquele que nos criou. Se rejeitarmos toda autoridade para “pensar por nós mesmos” e “sermos nosso próprio guia” no mundo seremos inconscientemente presos à autoridade demoníaca. Mas Deus é a autoridade final para nós cristãos.

Eu queria fazer parceria com Dostoiévski e O’Connor para lembrar os leitores do verdadeiro demônio, cujo contágio de mentiras e violência atrai todo coração humano. Este demônio atormenta cada um de nós. Através da nossa cultura e da mídia, em particular, ele mente docemente e constantemente. Olhe para cada filme ou desenho infantil que parece retratar um herói olhando para sua imagem em um espelho ou uma piscina de água e descobrindo que o segredo da vida é acreditar em si mesmo ou confiar em si mesmo. Mas “o coração é enganoso acima de todas as coisas”, Jeremias nos adverte nas Escrituras (Jr 17: 9). O diabo deve ser desmascarado para que cada um possa se ver pelo que realmente somos: almas necessitadas de um salvador. 5

E mais: nós fazemos questão de mostrar que está tudo bem sempre porque não gostamos da ideia de admitir que erramos ou não temos o controle. Que somos limitados e não entendemos perfeitamente o mundo que nos cerca. Por isso é difícil compreender que apesar de tudo e dessa realidade estar mutilada, ainda estamos em uma constante jornada em busca da parte que falta, e mesmo dizendo que não posso me auto guiar, disciplinar e viver sem algum tipo de autoridade, preciso admitir que nossos sonhos podem se tornar realidade apesar das tristezas e precariedades da vida. Como nem mesmo a ciência pode conhecer as profundezas de sua alma, enquanto seu consciente não sentir nenhum problema em particular, é você quem finalmente escolherá, porque somente sua consciência decidirá o que é bom ou melhor para si mesmo! Por estarmos corrompidos pelo pecado nós cristãos acreditamos que a nossa alma precisa de um guia para fazer a escolha certa, nos ajudar a enxergar na montanha de circunstâncias uma que nos ajude a corrigir a nossa falta. Porque a vida é assim também. Às vezes, de algo horrível, algo maravilhoso acontece. Os milagres são ainda mais prováveis e possíveis em nossa realidade fragmentada.

1 https://oficinadopinduca.wordpress.com/2015/07/09/a-conveniencia-do-arco-iris/

2 Jessica Hooten Wilson é professora associada de humanidades na John Brown University, em Siloam Springs, Arkansas, e autora de três livros, Dando ao Diabo a Sua Vinda: Autoridade Demoníaca na Ficção de Flannery O’Connor e The Brothers Karamazov (que recebeu CT’s Prêmio de livro de 2018 em cultura e artes), Walker Percy, Fyodor Dostoevsky, e a busca por influência e leitura de Novelas de Walker Percy . Atualmente, ela está preparando o romance inacabado de O’Connor para publicação.

3 HUSSERL, E. Recherches logiques. Tome 1: Prolégomènes à la logique pure. Collection Epimethée. Paris: PUF, ([1900] 1959).

4 https://medium.com/@robertovargasjr/rei-arthur-e-os-cavaleiros-da-t%C3%A1vola-redonda-12dd1acbd94f

5 Ibid. ao 1.

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