Devocionais para não devotos (I)

A partir de hoje publicarei pequenos devocionais para quem a fé costuma falhar (e quem nunca né?).

Viver com sabedoria. Nós precisamos ter a visão de Deus. Temos de nos enxergar como pessoas preciosas ao Senhor. Contudo, para que passemos a nos ver como Deus nos vê, é necessário que tomemos algumas atitudes. Isso requer obediência, submissão da vontade, mudança do coração e um espírito brando e dócil. Quando João Batista viu a Jesus, sua reação foi: É necessário que Ele cresça e que eu diminua (Jo 3.30). Em vez de buscar novidades, devemos focalizar e rememorar os valores bíblicos antigos; cuja observação nos mostra consequências eternas. E cuja reflexão nos faz abandonar as nossas convicções meramente humanas, nos apresentando verdades e valores divinos. Então a coisa mais importante é que, vivendo com sabedoria você tornar-se-á autêntico, e não um crente profissional, mendigando bênçãos em troca de jejuns, medindo horas de orações por vitórias temporárias.

“E digo isto a vós outros que conheceis o tempo: já é hora de vos despertardes do sono…” (Romanos 13.11.)

Será que realmente tem importância aquilo que pensamos de nós mesmos? Sim, tem. Se pensamos que somos lixo, nossa tendência será a agir como lixo.
Algumas pessoas não conseguem ter amigos, porque estão convencidas de que não têm nada a oferecer-lhes.
Enquanto acharmos que não prestamos para nada, enquanto estivermos preocupados com o que os outros pensam de nós, teremos muita dificuldade em amar o nosso próximo e até mesmo a Deus.
Quando ficamos no quarto, nos lamentando, com pena de nós mesmos, nos aproximamos do nível perigoso de achar que não temos valor nenhum.
Mas não somos “um joão-ninguém”, sem lugar no mundo. Deus nos criou e fez de nós um ser muito precioso.

E se por um lado precisamos encontrar uma forma moderada e controlada de fazer tudo aquilo que o homem tenha condição de fazer, desde que seja controlado interiormente pela razão e a sabedoria, condições estas que farão do homem uma pessoa verdadeiramente equilibrada em todas as suas atitudes; por outro, a vida cristã verdadeira passa pela fé cristã de um verdadeiro caráter cristão que está unido ao Espírito Santo e aos irmãos pelo vínculo da paz.

Temos de permitir que Deus e sua Palavra consertem nossas falsas ideias. É impossível uma pessoa viver de maneira certa, se seus conceitos são errados. Não podemos praticar a verdade, quando acreditamos num erro.
É falso o conceito de que Deus se agrada de uma atitude de auto depreciação, que ela é parte da humildade cristã e necessária à nossa santificação e desenvolvimento espiritual.
A verdade, porém, é que a auto depreciação não é a verdadeira humildade cristã. Essa atitude acha-se em oposição a alguns dos ensinos básicos da fé cristã.
O maior mandamento é que amemos a Deus com todo o nosso ser. O segundo é que amemos ao nosso próximo como a nós mesmos. Não temos aqui dois, mas três mandamentos: amar a Deus, amar a nós mesmos e amar aos outros.
Se você amar a Deus, a si mesmo e aos outros estará cumprindo toda a lei de Deus (Mateus 5.43-48). Esse é o eterno princípio do triângulo – um amor correto para com Deus, por nós mesmos e por outras pessoas.
A pessoa que possui uma imagem própria baseada no que Deus diz, é mais saudável, em todos os sentidos, do que aquelas que têm uma imagem própria negativa. Foi assim que Deus nos criou, e se agirmos de modo contrário, não apenas estaremos seguindo um conceito teológico errado, como também correremos o risco de ser destruídos.

“Porque, pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um.” (Romanos 12.3.)

Pensando com moderação, não iremos nem nos subestimar nem nos superestimar. É Satanás quem nos confunde e nos cega nessas questões, quando nos faz acusações: – Olhe aí, você está ficando muito orgulhoso…
Contudo a verdade é justamente o contrário. A pessoa que tem uma imagem própria negativa está sempre tentando se mostrar. Ela tem de provar que está certa, em todas as situações, tem de mostrar seu valor. E geralmente fica tão envolvida em si mesma, que se esquece do Senhor. Ninguém pode amar aos outros incondicionalmente, quando precisa ficar o tempo todo tentando provar seu valor próprio.
A autonegação não tem nada a ver com a humildade cristã, nem com a santidade. A crucificação do eu e a entrega pessoal a Deus não exigem uma autoimagem inferior, que é diferente do que o Senhor pensa de nós:

“Visto que foste precioso aos meus olhos, digno de honra, e eu te amei, darei homens por ti e os povos, pela tua vida.” (Isaías 43.4.)

Precisamos entender que nosso senso de valor próprio deve vir de Deus. Temos de formar nosso senso de valor próprio a partir do que Deus diz, e não dos falsos reflexos que vêm das outras pessoas, do diabo e, até mesmo, do nosso passado. Temos de fazer uma escolha que definirá a nossa vida:

– Vamos dar ouvidos a Satanás ( e todos que ele usa para nos incomodar) e a todas as mentiras que ele nos diz, às distorções e às mágoas do passado que nos mantêm aprisionados por certos sentimentos e conceitos acerca de nós mesmos, que não são cristãos nem saudáveis? Ou buscaremos nosso senso de valor próprio em Deus e em sua Palavra?

Além disso, a sabedoria nos apresenta os riscos do excesso e sua inutilidade. Algumas vezes pode ser perigoso, outras, inútil. Ela não proíbe o excesso. Proibir é próprio da lei e não da sabedoria. A sabedoria orienta ao cuidado. Muitos excessos são lícitos, ou seja, não são proibidos. Contudo, podem não ser convenientes. Cabe a cada um julgar com sabedoria cada situação. Isso é bem do estilo no tempo da graça. Permitamos que Deus nos ame, e deixemos que ele nos ensine a nos amar a nós mesmos, e a amar aos outros. Desejamos ser amados. Queremos que Deus nos dê segurança, que nos aceite. E, aleluia, ele faz isso. Contudo, por causa da programação nociva que recebemos de outras fontes, temos dificuldade em aceitar esse amor. Aliás, isso é tão difícil, que talvez prefiramos continuar a ser como éramos.
Querido, eu o desafio neste momento a iniciar esse processo de restauração, para que possa erguer bem alto sua cabeça, como filho ou filha de Deus.

Que Deus o abençoe hoje e sempre.

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FELICIDADE DOS MANSOS.

via FELICIDADE DOS MANSOS.

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O homem pós-moderno angustiado precisa de salvação

Segundo a Wikipedia, podemos chamar de angústia a forte sensação psicológica, caracterizada por “abafamento”, insegurança, falta de humor, ressentimento e dor. Na moderna psiquiatria é considerada uma doença que pode produzir problemas psicossomáticos. A angústia é também uma emoção que precede algo (um acontecimento, uma ocasião, circunstância), também pode-se chegar a angústia através de lembranças traumáticas que dilaceraram ou fragmentaram o ego. Diferentemente do medo ou da ansiedade, que são experimentados pela maioria das pessoas, a angústia acomete menos de 50% da população. À luz do filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard (1813-1855), a psicóloga Marília Dantas, da Universidade Estácio de Sá, em Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro, traduz o mal-estar: “O ser humano sente desamparo, incerteza, falta de controle diante da liberdade de decidir. Optar por um caminho significa correr riscos, abrir mão das alternativas. Isso é angustiante”.1

Angústia pode causar um sentimento de vazio. Fazer sentir conflitos diante das inúmeras possibilidades de escolhas no dia a dia e questiona o sentido de existir. Em casos extremos, essas pessoas são dominadas pela introversão. Elas perdem a capacidade de análise, de lidar com o cotidiano, de interagir socialmente. Podendo ficar paralisadas. Recentemente, a série americana “13 Reasons Why”2 levantou polêmica parecida porque dissecava os motivos do suicídio de uma jovem adolescente que se mata após uma sequência de episódios de bullying e frustrações.3

Cláudio Naranjo4 diz que “É normal não encontrar sentido na vida quando se está muito condicionado pelo mundo”.

E Shelley Prevost explica porque:

“Nossa sociedade reduziu o sucesso a uma lista de itens a serem preenchidos: formar-se no colégio, conseguir um(a) companheiro(a), ter filhos, sossegar num caminho profissional bem definido e ficar ali até que  os cheques da aposentadoria comecem a chegar. Esse caminho bem costurado coloca as pessoas na direção do conformismo, não do propósito. Estamos tão ocupados evitando medos auto-impostos de não sermos suficientemente (preencha aqui alguma qualidade) –  espertos o suficiente, criativos o suficiente, bonitos o suficiente – que raramente paramos e nos perguntamos “ estou feliz e satisfeito? E se não, o que eu deveria mudar?”5

Olhemos para este angustiado pós-moderno (um suicida em potencial?), apesar da sua não preocupação com a salvação, como todos os homens e mulheres do presente sofre as dificuldades da vida do Mal-Estar da Pós-Modernidade6, com suas incertezas existenciais, pois tudo ao redor parece mudar incessantemente, não lhe permitindo ter um projeto de vida, mas vivendo apenas o instante, com o medo de ser enviado ao depósito de lixo, buscando proteção no fechamento em si mesmo. Pode-se inferir que o fechamento do indivíduo em si mesmo, longe de protegê-lo, apenas faz com que aumente sua insegurança e medo. Ver-se-á adiante que a solução para esse e outros problemas do homem presente se dá na abertura para Deus e para o próximo, único modo de, ainda em vida, poder obter a salvação que muitas vezes se ignora precisar.

O homem pós-moderno, nos diz Bauman, vivendo apenas para o instante, “não deixa espaço para inquietações sobre qualquer outra coisa senão o que pode ser, ao menos em princípio, consumido e saboreado instantaneamente, aqui e agora. A eternidade é o óbvio rejeitado”. E prossegue dizendo: “A vida líquida é uma vida de consumo […]. O lixo é o principal e, comprovadamente, mais abundante produto da sociedade líquido-moderna de consumo”; desse modo, “para os que vivem na líquida sociedade moderna, a perspectiva de ‘viver-para-o-depósito-de-lixo’ pode ser a preocupação mais imediata”, e assim “a vida na sociedade líquido-moderna é uma versão perniciosa da dança das cadeiras, jogada para valer. O verdadeiro prêmio nessa competição é a garantia (temporária) de ser excluído das fileiras dos destruídos e evitar ser jogado no lixo”. Consequentemente, a sociedade líquida “milita contra o sacrifício das satisfações imediatas em função de objetivos distantes e, portanto, contra a aceitação de um sofrimento prolongado tendo em vista a salvação na vida após a morte”.
Se, por um lado, o homem líquido se vê numa situação angustiante, por outro lado ele ignora a solução para sua angústia, pois não consegue ver além do instante presente.
Essa sociedade líquida exclui “a possibilidade de uma segurança existencial coletivamente garantida e, em consequência, não oferece incentivos para as ações solidárias; no seu lugar, motivam seus destinatários a centrarem-se na própria proteção pessoal ao estilo do ‘cada um por si’”. Bauman aponta ainda que o empenho em concentrar a atenção na criminalidade e nos perigos que ameaçam a segurança física dos indivíduos e de suas propriedades está intimamente relacionado com a ‘sensação de precariedade’, e segue muito de perto o ritmo da liberalização econômica e da consequente substituição da solidariedade social pela responsabilidade individual.
Lembrando que a pós modernidade considera a comunidade cristã, a igreja, um mero apoio a sua verdade individual. Ou seja, o homem torna-se homem apenas nos relacionamentos sociais, uma vez que seu desenvolvimento é influenciado pela cultura em que é criado.

Mas o  problema começa quando você estende esse processo, imaginar como deve agir em relação aos outros, e inclui algo tão pessoal quanto o propósito da sua vida. Algumas pessoas tem nossa confiança e a capacidade de nos ajudar a encontrar nosso real propósito. Mas a maioria das pessoas, mesmo as bem intencionadas, escolhem muitas vezes nos colocar dentro de compartimentos que fazem mais sentido para elas. Para ganhar a aprovação delas, nós nos dispomos a entrar dentro do compartimento. Para manter a aprovação delas, você aprende a negar seguidamente quem você é. Não sem angústia ou um forte sentimento de não realização pessoal, frustração mesmo, porque estou vivendo o roteiro de outra pessoa.7

Logo, o problema do relacionamento do homem com a sociedade está em um mundo onde ninguém ou quase ninguém acredita que mudar a vida dos outros seja importante para a própria vida […] os vínculos humanos se afrouxaram, razão pela qual se tornaram pouco confiáveis, o que torna difícil o praticar a solidariedade, do mesmo modo que é difícil compreender suas vantagens e, mais ainda, suas virtudes morais.
Unida a esse problema está a sensação de incapacidade do homem atual em alcançar a solução almejada, conforme demonstra Bauman: “A insegurança e a incerteza nascem, por sua vez, da sensação de impotência: parece que temos deixado de ter o controle como indivíduos, grupos e coletividade”.8
Está claro que o homem pós-moderno, angustiado, precisa de salvação? De si mesmo, do mundo, dos outros. Uma salvação além da ruína espiritual em que toda a humanidade se encontra.

No mundo grego antigo, o termo salvar implica tirar algo ou alguém de um grave perigo. Também pode significar o curar de uma doença ou proteger algo de sua destruição. No uso religioso, o termo salvar pode apresentar tanto a noção de resgate dos perigos da vida, quanto a de preservar as coisas de perecer.
No Antigo Testamento, segundo a versão da Septuaginta, o termo grego σῴζω aparece no lugar do termo hebraico ישע (salvar, ajudar, libertar) e o termo σωτηρία é usado para os derivados do mesmo termo hebraico. O verbo ישע, no Antigo Testamento, significa em primeiro lugar ter espaço, pois ser levado a um lugar mais espaçoso remete à ideia de libertação. Os substantivos advindos desse termo hebraico compreendem tanto a libertação quanto o estado de salvação que se segue. No livro de Juízes, há um ser superior que traz libertação a um inferior através de uma intervenção: “quando os sidônios, Amalec e Midiã vos oprimiam, e vós clamastes por mim [Deus], não vos salvei das suas mãos?” (Juízes 10, 12). Em Isaías, toda salvação que não provém de Deus é limitada e por isso o povo de Israel deve esperar a salvação de Deus e não de outra coisa qualquer. Deus aparece como o verdadeiro herói e juiz que salva seu povo, enquanto que os ídolos e astrólogos não são capazes de salvar (cf. Isaías 45, 20; 47, 13 e Deuteronômio 33, 29). Por isso o povo de Israel deve pedir a Deus que o salve dos males da injustiça, da violência, das enfermidades, das prisões, dos ataques jurídicos e dos ataques externos. Também se frisa a ideia de que para ser salvo por Deus é preciso confiar em Deus (cf. Salmos 22, 5; 37, 40). Se há alguma salvação humana, ela passa antes por Deus, fonte de toda a salvação.
No Novo Testamento, a salvação também é usada no contexto de cura de uma enfermidade (cf. Atos 4, 9; 14, 9), porém se estende a algo além do âmbito físico, como quando Jesus diz à pecadora que a sua fé (dela) a salvou (cf. Lucas 7, 50). Cabe notar aqui que o próprio nome de Jesus é ligado à salvação, como aparece no Evangelho de Mateus: “Tu o chamarás com o nome de Jesus, pois ele salvará o seu povo dos seus pecados” (Mateus 1, 21). O termo σωτήρ, por sua vez, remete ao Messias, como consta na Boa Notícia anunciada pelos anjos aos pastores de Belém em Lucas 2, 11.27 No Evangelho de Marcos, vemos a menção de uma salvação escatológica além da simples vida terrestre: “Pois aquele que quiser salvar a sua vida, irá perdê-la; mas, o que perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, irá salvá-la” (Marcos 8, 35). Nas epístolas de Paulo há uma clara preocupação pela salvação (cf. Romanos 10, 1) e se transmite a ideia de que homens, dentre os quais o próprio Paulo, podem colaborar na salvação de outras pessoas (cf. Romanos 11, 14; I Coríntios 9, 22). Enfim, temos o termo σωτήριος o qual aparece na carta a Tito (cf. Tito 2, 11) em que a salvação não é vista de modo restritivo, e sim aberta a todos os homens. Além disso, o livro do Apocalipse retoma o tom veterotestamentário de vitória ligado ao conceito de salvação, no qual os vencedores confessam que a salvação provém de Deus (cf. Apocalipse 7, 10).9
Vemos até aqui que o homem, de qualquer época, tem, em algum momento da vida, alguma relação com a noção de religião, seja ela favorável ou não. Se por um lado, como investiga Pascal Boyer, ter um cérebro normal humano não implica que alguém tenha uma religião, mas apenas que pode adquirir uma10, por outro lado, essa capacidade de aderir a uma religião faz com que todo homem, e não apenas o religioso, se depare com a noção de religião e salvação, mesmo que, às vezes, somente de modo implícito, isto é, sem pensar de modo claro e distinto nas palavras salvação ou religião. Assim, temos que “a religiosidade, portanto, é inerente ao ser humano enquanto crer que a vida tem um sentido, e quem o busca, já é de algum modo ‘religioso’, mesmo sem religião”.
O livro dos Atos dos Apóstolos descreve a preocupação deste homem religioso com sua salvação individual quando o carcereiro pergunta a Paulo e Silas:
“Senhores, que preciso fazer para ser salvo?” (Atos 16, 30), ao passo que eles respondem:
“Crê no Senhor e serás salvo, tu e a tua casa” (Atos 16, 31), mostrando que a salvação não deve ficar restrita apenas ao carcereiro, mas que ela atinge ainda outras pessoas. Além disso, pode-se supor nessa passagem um movimento no carcereiro de “uma noção puramente física de salvação ou cura para o conceito de salvação tornado possível através da morte e ressurreição de Jesus Cristo”.
Do ponto de vista antropológico, o homem, desde longa data, percebe-se aquém da felicidade plena que deseja, depara-se com o mal no mundo e constata que precisa de uma salvação para sair dessa situação e alcançar seu fim adequadamente. Todavia, ele também percebe que não é capaz de se salvar sozinho, pois se percebe limitado. Tal situação é captada pela frase de Agostinho no seu livro Confissões: “porque [Deus] nos criastes para Vós e o nosso coração vive inquieto, enquanto não repousa em Vós”11. A tradição teológica ocidental também expõe essa visão acerca da salvação, como se pode ver no livro dirigido por Sesboüé:

“Mas em que consiste a salvação? Comporta, sem a ela se reduzir, à libertação de uma situação global de pecado que afeta a humanidade, situação vinculada à falta de Adão”12.

Disso decorre uma necessidade de salvação para todo e qualquer homem vinculado à falta de Adão: O homem pecador está numa situação de necessidade radical de salvação. O homem criado, de algum modo, já estava nessa situação, pois não podia realizar seu fim, a comunhão com Deus, por suas próprias forças. Ele tinha necessidade da iniciativa gratuita pela qual Deus lhe daria essa comunhão de vida e de amor. Temos assim, sob essa ótica antropológica, o homem que precisa de salvação. Do ponto de vista teológico, como já vimos na análise do conceito salvação nas Escrituras, temos Deus como fonte de toda salvação. Desse modo, o homem que se afasta de Deus, se afasta justamente da própria salvação, mantendo-se no estado de inquietude sem os meios de sanar seu problema. Para sair desse estado, o homem precisa do arrependimento de suas faltas que é, segundo Deus, o que leva à salvação estável (cf. 2 Coríntios 7, 10).
E, sobre a angústia humana e como curá-la, até que ponto a rica simbologia de celebrações da fé cristã, a confiança no amor gratuito de Deus, a abertura ao dom da sua misericórdia etc., não têm influência favorável na saúde psíquica? E de maneira mais geral, a religião tem uma função terapêutica? Penso que as respostas a estas perguntas merecem um aprofundamento maior. Não deveriam ser deixadas de lado por uma teologia preocupada com a libertação do ser humano inteiro, em todas as suas dimensões.
E uma pergunta que deve ser feita aqui é: a fé cristã ajuda o angustiado homem pós-moderno a viver melhor? A fé cristã ajuda a superar a angústia existencial das pessoas próximas de nós? Não há dúvida de que precisamos nos situar em sintonia com a sensibilidade do homem e da mulher na pós-modernidade. Ou teremos que dar razão aos críticos da racionalidade moderna, unilateral e objetivista, que denunciam, constantemente, a dureza da investigação exegética que tem tornado a Palavra de Deus algo árido, frio, desprovido de amor e cuidado com o próximo, o que a faz inassimilável existencialmente. Claro que não estou pedindo para sufocar o texto bíblico com psicologia e filosofia humanista, mas para continuar no mesmo espírito pelo qual nos foi dada a revelação: para que todos sejam um em Cristo Jesus, saudáveis e completos. Salvos, na melhor acepção da palavra.

 

1-https://saude.abril.com.br/bem-estar/angustia-e-doenca-e-tem-cura/
2-https://pt.wikipedia.org/wiki/13_Reasons_Why
3-https://noticias.r7.com/prisma/coluna-do-fraga/alerta-para-risco-de-suicidio-lesao-autoprovocada-atinge-82-mulheres-por-dia-no-brasil-e-avanca-200-na-decada-27122017
4-https://pt.wikipedia.org/wiki/Claudio_Naranjo
5-Sobre a Shelley – https://www.linkedin.com/in/shelley-prevost-a8521428/
6-Livro de Bauman escrito em 1997.
7-Idem ao 4
8-http://revistas.pucsp.br/index.php/reveleteo – Revista Eletrônica Espaço Teológico ISSN 2177-952X. Vol. 9, n. 16, jul/dez, 2015, p. 75-90.
9-idem ao 8.
10-Cf. BOYER, Pascal. Religion explained: the evolutionary origins of religious thought. New York: Basic Books, 2001, p. 4.
11-AGOSTINHO. Confissões. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1999, parte 1, livro 1, capítulo 1, p. 37.
12-SESBOÜÉ, B. (org.). História dos dogmas: tomo 2. O homem e sua salvação. São Paulo: Loyola, 2003, p. 168.

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Nós enxergamos o que temos vontade?

Nós vivemos em uma época onde o comportamento das pessoas está sendo orientado totalmente para aquilo que é visual, onde os valores, para dizerem algo ou valerem a pena, deverão ser os estéticos e apenas estes. Somos treinados e domesticados para buscarmos tudo que é belo e visualmente impactante.

Hoje a nossa cultura depende de escritores, diretores, atores e outros artistas para sonhar. Podemos ver, por exemplo, que os filmes veiculam, em nível simbólico, as angústias, ansiedades e esperanças próprias aos nossos tempos. São uma trilha simbólica segura para compreender, em profundidade, a época em que acontecem. E mais que um sonho, trata-se, portanto, de um pesadelo coletivo[1].
Ou, melhor dizendo, tem valor apenas o que encanta, deixa extasiado ou prende e apreende o meu olhar. Mas o que tem atraído as pessoas é apenas fumaça. Algo que se esvai com o alvorecer do dia, feito neblina; pois a vida real é muito mais profunda do que estamos sendo acostumados a acreditar ou ver. Por isso desconfio que estão diluindo a nossa realidade com arte e entretenimento full time, com ativismos meramente desviantes, com o altruísmo de  ocasião para dar visibilidade apenas ao ego, e cada dia um pouco mais. E por não percebermos isso, que somos doutrinados desde cedo, que chegamos à maturidade sem condições de auto norteio, somos incapazes de reconhecermos valores reais e de manifestar um caráter seguro e bem formado. Parafraseando  Jonas Madureira[2], estamos aprisionados confortavelmente em nossa caverna platônica, olhando as sombras através das nossas telas touch screen, incapazes de abrir mão do nosso conforto. Por isso voltamos para o fundo de nossas existências admirando a beleza das sombras que nos chegam através do wi-fi; onde vivenciamos uma geração extremamente teórica, sem muita prática e/ou real interesse pela mesma. Acredito que a atual inversão de valores, em que o parecer é decididamente mais importante do que “Ser“, em todos os possíveis sentidos, acaba por nos criar a estranha mania de apenas testemunhar e relatar o que nos cerca. E isso se transforma em uma deplorável dificuldade quando é necessário agir[3].

Além disso nossa sociedade acredita que apenas relacionando intuição e razão construiremos um caminho livre para uma vida produtiva, centralizada na forma e baseada em experiências individuais. Onde é importante assumir a própria subjetividade e não ceder aos padrões impostos pela sociedade dita arcaica. Isto é um claro incentivo para as pessoas resistirem aos padrões estéticos e de comportamento moral anteriores, dados pela sociedade para apenas viverem do seu próprio jeito. Em longo prazo este subjetivismo individualista relativizado, esta liquidez moral e autofagia intelectual produzirão bordas limítrofes sociais tão borradas que um caos pior do que houve em Sodoma e Gomorra será a mais triste e diária realidade deste mundo.
Mas se as virtudes e os valores morais são muito mais necessários que adornos e coisas atraentes, mais do que o prazer de realizar os meus desejos unicamente, porque não seguimos orientados por estes valores morais reais?

Porquê o valor estético, que tem permeado quase todo o pensamento moderno, nos tem feito dependentes da liberdade provocada pelas sensações e emoções despertadas em nós; esta sociedade pós moderna não tem outro propósito senão tornar a vida mais fácil para poetas, artistas, intelectuais e revolucionários, enquanto eles a tornam mais difícil para os outros. E porque somos indivíduos diferentes em nossos desejos e vontades, observamos tudo sob perspectivas diferentes, percebendo valores diferentes em tudo também. Logo, nesta disputa velada, a vitória caberá a quem possuir a maior habilidade retórica e poder político, ao mais adequado ou ao mais esperto; tudo engolfado pela interpretação pragmática, individualista pós modernista. Nas palavras de Roger Lundin[4]:

“Em vez de apelar à autoridade alheia a nós, podemos somente procurar pôr em ordem nossas habilidades retóricas para promovermos as batalhas políticas necessárias para proteger nossas próprias preferências e proibir expressões de preferências que nos ameacem ou incomodem”.

Isto porque a sociedade pós moderna é uma sociedade de pragmatistas, onde a verdade será sempre aquilo que funciona, ou mudada, para promover as preferências pessoais e corporativistas, os prazeres privados tão somente. Por isso onde uma imagem religiosa puder despertar um sentimento do sagrado em uns, para outros poderá ser uma obra de arte menor ou ainda, um mero artesanato, enfeite. Ou como temos visto ultimamente, uma manifestação pode ser artística para uns e profundamente vexatória, desrespeitosa ou intimidatória para outros[5].

Seguindo este raciocínio, podemos perceber que apesar de todos precisarem de luz, poucos podem discernir entre a luz real e aquela produzida artificialmente. Uns por medo, outros por ignorância, e ainda outros por preguiça ou acomodação. Por isso mesmo a depressão das relações e o individualismo passam por uma relativização dos valores, pela desconstrução do ser na existência moral e social.

E sem fé em si ou em algo verdadeiro fica impossível acreditar que vale a pena seguir em frente.

No caso cristão, quando o cenário da vida humana afasta-se do contexto bíblico, do propósito de Deus, cria-se um ambiente de ausência de sentido, para nada mais definitivo do que os sistemas sempre mutáveis e relativos da própria iniciativa humana, onde a sociedade pós moderna quer ser criadora de seu próprio destino, para poder viver a vida sem restrições divinas ou dirigida por quaisquer regras sagradas; onde seus membros agem apenas para tornar real as causas profanas, contingentes e cegas que produzem, e os artefatos e instituições que criaram para si mesmos. A verdade, nestes casos, é meramente uma convenção linguística e cultural, onde os valores e virtudes tornam-se relativos e dependentes dos sentimentos envolvidos. Por isso Lutero dizia “sentimentos vem e vão. Sentimentos são enganosos”.

Ora, as emoções são estados do ser, enquanto os sentimentos são expressões individuais e pessoais dessas emoções. Mas o que determina os sentimentos das pessoas? Isso leva-nos a outra pergunta: As pessoas falam sobre o que elas acreditam? Eu percebi que na maioria dos casos, não. Na verdade, a maioria das pessoas não tem certeza do que elas realmente acreditam além do que lhes foi ensinado, ou seja, do que estão programados para acreditar. Ora, o que você percebe é o que você acredita[6] (Ou seja, nós só enxergamos o que temos vontade!). Sua percepção pessoal da realidade é determinada pelas crenças que você possui. Isso não vai necessariamente torná-las reais, apesar de você acreditar que elas são. Suas crenças criarão e ditarão quais são suas atitudes. Suas atitudes criarão e ditarão suas respostas, em outras palavras, ditarão seus sentimentos. E são os sentimentos que determinam em grande parte como você se comporta. O problema de uma vida voltada exclusivamente para o belo, para a beleza e o que é bonito está nisto: o prazer (é a ligação principal que Kant faz com o belo), por ser subjetivo, é desprovido do sentido de conhecimento, não está vinculado à realidade de um objeto ou fenômeno, o prazer que o belo proporciona vem apenas das representações sensivelmente apreendidas[7]. São os sentimentos oriundos das sensações agradáveis que emite o juízo do belo, induzindo o desejo de permanecer usufruindo tais sensações. O interesse imediato diante das sensações prazerosas é de continuar sentindo prazer (posso dizer que isso é a base filosófica para o hedonismo através dos tempos?). Ora, se vivemos buscando só o que é belo e bonito, segundo Hegel, isto seria uma tentativa de transpor a realidade dura e cruel da vida cotidiana e ao mesmo tempo projetar para si mesmo exemplos a serem seguidos. Por isso hoje falamos muito em ter empatia, ser altruísta. Criar modelos que personifiquem estes desejos.

Vou te contar: Se existe um lugar onde pode se refugiar em segurança, este lugar é na verdade. Não negue seus afetos, suas alegrias, suas vitórias e desejos, mas principalmente, não negue sua dor. A gente só sai da tristeza quando se permite vivenciá-la. Pode ser que um dia você sinta que seus olhos enxergam melhor quando estão úmidos. Isso acontece porque a lágrima lubrifica a visão, enquanto a tristeza nos reconecta ao que de mais verdadeiro existe em nós. Então chore, chore, e não disfarce seu abandono, sua decepção, raiva e frustração.[8]

A moderna religião portanto parece basear-se apenas em sentir-se bem com suas ações e comportamentos, produzindo bem-estar para si e o outro. Buscar e produzir qualidade de vida significa buscar embelezar e fazer tudo mais bonito, neste caso, criar um ambiente confortável e agradável, real ou não, em que o eu pudesse existir, apaziguando os sentimentos e equilibrando as emoções das pessoas. Algo que pode ser produzido rapidamente e construído com recursos estéticos. Infelizmente isto não basta para vivermos bem. Parafraseando Charles Chaplin[9]:

(…) Nosso conhecimento nos fez críticos, nossa sabedoria, duros e rudes. Nós pensamos muito e sentimos pouco. Mais que maquinário, nós precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de bondade e ternura. Sem essas qualidades, a vida será violenta e tudo estará perdido. (…)

Antes dele, Jesus já nos ensinava que “onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mateus 6.21), ou seja, quase sempre a busca do homem e por alguma coisa que lhe traga benefício, que lhe dê prazer. É quase uma troca de favores. Faz-me isso que eu te dou aquilo. Jesus ensinou que o valor dado às coisas está relacionada com os benefícios à nosso coração. Por isso digo: “Vivam pelo Espírito, e de modo nenhum satisfarão os desejos da carne” (Gálatas 5:16).

1-http://obviousmag.org/andre_camargo/2015/05/como-nao-virar-um-zumbi—vivendo-em-tempos-liquidos.html#ixzz4qpSm903f

2-https://www.youtube.com/watch?v=IDiPzCEUR7Y

3-http://obviousmag.org/oeduardocabraldigitou/2015/04/a-geracao-t-e-seus-estranhos-valores.html#ixzz4puUB7rIp

4-Christopher A. Hall, Lendo as Escrituras com os pais da Igreja – tradução Rubens Castilho, Viçosa: Ultimato, 2000, pág 35.

5-https://jornalivre.com/2017/10/08/rede-globo1-defende-exposicao-do-mam-com-crianca-e-revolta-a-internet/

6- https://www.psychologytoday.com/blog/in-flux/201211/you-are-what-you-believe

7- http://sheilaestetica.blogspot.com.br/2012/06/o-que-e-estetica-na-teoria.html

8-http://lounge.obviousmag.org/fabiola_simoes/2015/04/carta-para-coraline.html#ixzz4m6J4woRt

9-https://youtu.be/gmMVrAC1Acc

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Você também só vê as nuvens?

Phillipe K. Dick escreveu uma vez:

Realidade é aquilo que, quando se deixa de acreditar em sua existência, não desaparece.

O grande esforço que a modernidade cumpriu para submeter o mundo a uma ordem racional, criada pelo homem e, portanto, conhecida em seus princípios e em sua dinâmica, viu a ciência como o referencial principal. Porém, são os filósofos modernos que afirmam a idéia de que é a razão que deve descobrir a ordem escondida por trás do aparente caos do mundo, só ela pode apontar os estáveis princípios universais nos quais se fundam o ser e a existência, transcendendo o senso comum, constituído de meras opiniões e crenças (Bauman, 1999, p. 29–35).

Bem, o mundo contemporâneo se define pela maneira de viver e compartilhar referências comuns em um mesmo período de tempo. Ou seja, contemporaneidade é pensar na condição humana como em perpétua redefinição. Mas o indivíduo contemporâneo é, sem nenhuma dúvida, mal circunscrito, sempre à espera da sua legitimidade, sempre por detrás de um desejo, sempre alheio e ainda assim, exigente ator, criador… Observamos, em muitas situações um cidadão solitário, anônimo demais apesar de compartilhar referências comuns. Por isso, a decisão pela promoção do indivíduo e o seu desenvolvimento pessoal é o único progresso capaz de nos fazer alcançar um ideal de modernidade. É no cotidiano destes indivíduos que encontraremos elementos para distinguir sua verdade dos erros cometidos no passado e auxiliar os mesmos a progredirem neste mundo globalizado1, onde vivemos, segundo Bauman, numa época líquida “vigiada” pelo Big Brother das redes sociais. Onde a vida é líquida. Desperdiçada. Sem referências sólidas. E nosso futuro se dissolve em água, em dinheiro, em estratégias interesseiras. Olhamos para este mundo como um mercado de tudo, inclusive de afetos. É nesta sociedade pós moderna onde o conceito de self foi banalizado por rostos posados ensaiadamente que percebemos algo do vazio e do consumismo da nossa era: é o aparecer pelo prazer de aparecer, o exibicionismo descontextualizado e esvaziado de qualquer essência.

Se, por um lado, o homem contemporâneo se vê numa situação angustiante, por outro lado ele ignora a solução para sua angústia, pois não consegue ver além do instante presente. Em sociedade, o homem contemporâneo vive em um círculo vicioso de medo e insegurança que é alimentado através de práticas que “reafirmam e contribuem a produzir a sensação de desordem” como, por exemplo, a compra desenfreada de carros blindados e câmeras de vigilância. Essa sociedade contemporânea exclui “a possibilidade de uma segurança existencial coletivamente garantida e, em consequência, não oferece incentivos para as ações solidárias; no seu lugar, motivam seus destinatários a centrarem-se na própria proteção pessoal ao estilo do ‘cada um por si’”. Bauman aponta ainda que o empenho em concentrar a atenção na criminalidade e nos perigos que ameaçam a segurança física dos indivíduos e de suas propriedades está intimamente relacionado com a ‘sensação de precariedade’, e segue muito de perto o ritmo da liberalização econômica e da consequente substituição da solidariedade social pela responsabilidade individual.2
Infelizmente, pela quebra violenta da tessitura que antes envolvia a família e o longo período em que filhos ficavam sob a tutela dos pais e da família extensa, os que precisam receber educação não têm à sua disposição o reforço do exemplo, a presença dos guardiães, enfim, há uma desestruturação da família e as comunidades foram perdendo a sua característica educadora por excelência porque os controles face-a-face passaram a se tornar praticamente impossíveis. Há todo um arcabouço sócio-cultural modificado pelas mudanças profundas porque passam todas as instituições sociais que têm a seu encargo o cuidado com os “neófitos” e as organizações que visam lucros imediatos como as gangs e todo tipo de grupo contraventor se tornam rapidamente capazes de usar o dinamismo do ser infanto-juvenil para obterem rapidamente os seus objetivos.
Quando a gente estuda socialização nos capítulos iniciais de sociologia da educação, percebe que a socialização também pode ser usada para preparar novos membros de gangs, os sistemas de lealdade estão profundamente modificados na sociedade de massas. Veja-os no Oriente Médio nas pessoas-bombas se imolando, os jovenzinhos usados em guerras e bem próximo de nós, nas Farc e no tráfico.
Há toda uma discussão filosófica e sociológica que tem de ser trazida constantemente a primeiro plano, para discutir toda a problemática da educação das novas gerações numa sociedade profundamente conflitada em seus valores básicos. O problema do relacionamento do homem com a sociedade está em um mundo onde ninguém ou quase ninguém acredita que mudar a vida dos outros seja importante para a própria vida […] Os vínculos humanos se afrouxaram, razão pela qual se tornaram pouco confiáveis, o que torna difícil o praticar a solidariedade, do mesmo modo que é difícil compreender suas vantagens e, mais ainda, suas virtudes morais.3
Unido a esse problema está a sensação de incapacidade do homem atual em alcançar a solução almejada, conforme demonstra Bauman:

“A insegurança e a incerteza nascem, por sua vez, da sensação de impotência: parece que temos deixado de ter o controle como indivíduos, grupos e coletividade”.4

E ainda acrescento o que Kierkegaard dizia:

“A decepção mais comum é não podermos ser nós próprios, mas a forma mais profunda de decepção é escolhermos ser outro antes de nós próprios.”

E sobre alienação, Kierkegaard aborda o tema como sendo uma falta de consciência por parte do ser humano de que ele possui responsabilidade para ditar sua história, ou moldar sua existência. A alienação retrata o mistério de ser ou não ser. Uma pessoa alienada carece de si mesmo, evita, tornando-se sua própria negação. Os exemplos mais evidentes de alienação são encontrados nos meios de comunicação em massa (casas, escolas, universidades, igrejas, partidos políticos, mídias monopolísticas, etc).
Os meios de comunicação em massa costumam distorcer e comprometer a veracidade dos fatos, pois segundo Kierkegaard, as verdades são encontradas junto à minoria. Se usarmos o último resultado das eleições americanas (2016) como ilustração para esta declaração teremos que concordar unânimes. Em oposição à maioria, o geral, o aceito e o não abstrato, Søren Kierkegaard transferia para o indivíduo a função de refletir e questionar sobre o que lhe é concreto.5
Ora, a partir da ideia que tudo tem um significado escondido, esbarra-se fatalmente na concepção de uma intenção. Quando a vida é encarada como um desenho, logo se chega a vê-la também como uma execução de um plano, questionando quem seria o responsável por seu traçado. Essa intuição que nos acomete a todos de maneira mais ou menos vergonhosa atinge sua medida plena em dois sistemas de pensamento: o primeiro era a fé religiosa (“Agora estamos nos vendo num espelho sombrio, mas um dia chegaremos a ver e seremos vistos face a face…”) e o segundo, a paranóia (“Estaremos noutro ponto da floresta, onde sempre haverá uma criança com seu urso.”), tinha chegado a hora de fazer as pazes com a áspera sabedoria de Lucrécio: “Não sentiremos mais nada porque não sentiremos mais”; não existirá mais ninguém para ser visto frente a frente à luz plena, e aquilo que agora se acredita estar vendo num espelho sombrio não passa de nosso reflexo deformado pelo medo de morrer e de ter sofrido sem razão. Por mais que, nas sociedades agnósticas modernas, esse materialismo faça as vezes de expressão oficial do bom senso, poucos eram os homens que, no fundo do coração, se resignavam verdadeiramente a isso de tanto que seus desejos tinham sido feridos. Apesar de tudo, queremos acreditar em algo, encontrar um sentido.6

Os existencialistas como Kierkegaard também explicam porque algumas pessoas se sentem atraídas à passividade moral evitando-se no desafio de tomar as próprias decisões. Seguir ordens é fácil; consentir também, pois isso requer pouco esforço emocional em fazer o que é mandado.
Ou seja, se a ordem não for lógica, não cabe ao mandatário questionar. Deste modo, os existencialistas podem explicar as motivações históricas de guerra, genocídios em massa são melhor compreendidos e lavagens cerebrais podem ser facilmente percebidas. As pessoas, nesses casos sucumbidas à submissão de uma força maior, estavam apenas fazendo o que lhe foi dito.7

Os genocídios do século XX, “os casos mais documentados de engenharia social global na história moderna (aqueles presididos por Hitler e Stalin)”, não foram aberrações extemporâneas ou “explosões de barbarismo ainda não plenamente extintas pela nova ordem racional da civilização”, mas foram “um produto legítimo do espírito moderno”. Seus ideais não foram “utopias alheias ao espírito da modernidade”, mas atuações coerentes, até suas últimas conseqüências, com os planejamentos da ciência e da política modernas.8

A visão nazista de uma sociedade harmoniosa, ordeira, sem desvios extraía sua legitimidade e atração dessas visões e crenças já firmemente arraigadas na mente do público ao longo do século e meio de história pós-iluminista, repleta de propaganda cientista e exibição visual da assombrosa potência da tecnologia moderna (Bauman, 1999, p. 38).

Fato é que vivemos num mundo de surdos sem deficiência auditiva. É um mundo de faladores compulsivos o nosso. Compulsivos e auto-referentes. Não conheço estatísticas sobre isso, mas eu chutaria, por baixo, que mais da metade das pessoas só falam sobre si mesmas. Seu mundo torna-se, portanto, muito restrito. E muito chato. Por mais fascinantes que possamos ser, não é o suficiente para preencher o assunto de uma vida inteira.9 E quando não escutamos o mundo do outro, não aprendemos nada. Acontece com o chefe que não consegue escutar de verdade o que seu subordinado tem a dizer. A priori ele já sabe — e já sabe mais. Assim como acontece com a mulher que não consegue escutar o companheiro. Ou o amigo que não é capaz de escutar você. E vice-versa.10

Por isso a grande maioria dos indivíduos só conseguem ver nuvens, ou seja às circunstâncias momentâneas, porque suas vidas estão fechadas em bolhas que tornam a sua visão de mundo distorcida. Em sua presunção, julgam tudo só pela aparência das coisas, são estas circunstâncias que impedem uma correta visão da realidade. E a realidade de suas vidas já foi expressa no texto bíblico do Novo Testamento:

“De onde vêm as guerras e contendas que há entre vós? Não vêm das paixões que guerreiam dentro de vocês” (Tiago 4.1, NVI)?

Por isso a pergunta cristã “que é a vossa vida?” além de ser uma reprimenda, também é uma resposta dura e inflexível. A vida, na melhor das hipóteses, vista à luz da eternidade, é apenas como neblina que aparece por instante e logo se dissipa. É como o vapor que sai de nossas bocas num dia frio. A vida é breve e imprevisível, mas as pessoas cheias de presunção não refletem sobre isto. Não conseguem enxergar o mundo a não ser por “uma certeza insolente e vazia, arrogância, que confia em seu próprio poder e recursos, que despreza o governo divino”.

Já o cristão sábio considera atentamente a futilidade de toda e qualquer presunção humana, e por isso mesmo submete seus desejos e planos ao Senhor. O humanismo é uma filosofia que coloca o homem no centro do palco: o homem torna-se o senhor da própria história. Em resumo, é a fé no homem com todo o seu potencial interior, pois a interferência de Deus não existe. O humanismo exclui Deus porque crê que os seres humanos são suficientes em si mesmos. Esta filosofia está muito ligada com a ideia em moda atualmente: “eu quero, eu posso, eu consigo”. As grandes corporações, midiáticas ou não, propagam e incentivam a independência e a autonomia humana, para realizar tudo sem depender de ninguém. O humanista faz seus planos numa redoma de auto-suficiência. O humanista é alguém dominado pela arrogância e por isso desconsidera a brevidade da vida. Apesar de não saber o que vai acontecer amanhã, ele vive como se soubesse.11 Ou seja, as pretensões humanas são carregadas de presunção, egoísmo e alienação.

Bem, sozinhos ou não, precisamos começar a raciocinar e perceber correlações e fatos. Sermos mais solidários. E, principalmente, começar argumentar no dia-a-dia, porque quase nunca fazemos isso. Geralmente, tomamos um partido e passamos a defendê-lo de forma passional, enxergando só o que nos interessa. Somos bons de discutir, mas ruins para argumentar. Piores ainda para mudar de ideia. O que parece ser uma estratégia não muito inteligente para encarar essa nova sociedade em que conversamos com muito mais gente, sobre muito mais coisas, todo santo dia. Efetivamente, é difícil tentar entender algo ao meio de tantas informações prontas, de tantas vozes, mesmo que falando em nome de tão poucas pessoas. É mais fácil, então, reproduzir. E se esse discurso não atrapalhar o meu conforto, mais fácil ainda. E acabamos por não perceber, ou não queremos enxergar, que tudo isto está nos levando cada dia mais a buscar segurança e estabilidade no anonimato, pois “quanto menos me envolvo menos preciso tomar uma decisão”, não preciso reagir. Nada é mais contemporâneo. As referências (cristãs) familiares, sociais, morais e éticas foram, a muito, banidas de nossa sociedade. Antes de ser uma mutação benéfica, isto é um verdadeiro carcoma global. Ninguém é poupado e a sociedade como um todo, perde indivíduos, estabilidade e sua qualidade de vida. A barbárie impera principalmente porque o método de combate da violência focado em nichos sociais e em determinados espaços e instituições, não diminui a criminalidade e não aprimora o relacionamento entre os indivíduos. Penso que o foco deveria estar na reabilitação do ser humano em grau máximo, amplo e irrestrito. Quer seja reabilitar o indivíduo que está engajado no contexto de violência e de caos urbano, quer seja reabilitar as “células-tronco” da sociedade: as famílias.12

Tudo isso tem nos apontado uma verdade paradoxal da humanidade ocidental: o cristianismo está em toda parte, o cristianismo não está em parte alguma. Todos, crentes, fanáticos ou homens de pouca fé, e não crentes conhecem Jesus, mas, vistos os pensamentos e palavras, atos e omissões desses homens, poucos praticam o cristianismo e, se o fazem, não se sabe se de coração.13 Por outro lado, é significativo e arrebatador o número daqueles que, mesmo não sabendo quem foi, reagem positivamente, de corpo e alma, as ideias dos mais variados pensadores, antigos e modernos, gurus ou loucos.

Comecei este texto com Philip K. Dick e finalizo com ele:

Não tenho como garantir que você esteja errado ao não acreditar em mim, mas posso garantir que você também não teria acreditado em São Paulo. Você teria dado de ombros, falado em epilepsia ou num acesso de um doidivanas, assim como um bando de judeus devotos e gregos cultivados. OK, não tenho nada a dizer contra isso. Também não tenho nada a dizer contra os ecologistas ferrenhos que, por mais que eu ache uma extravagância conceder às árvores e aos animais os mesmos direitos jurídicos que têm os homens, alegam que um tempo atrás não achávamos menos extravagante a possibilidade de conceder este mesmo direito às mulheres e aos negros. Não tenho nada a dizer contra as pessoas que, depois de admitir que aos olhos de nossos ancestrais as tecnologias modernas pareceriam magia, obrigam-me a admitir que as coisas que agora nos parecem ser inexplicáveis e perturbadoras, como você colocou muito bem, e as quais eu escondo embaixo do tapete com uma vassoura, um dia virão a integrar o campo da ciência: aqueles que hoje negam a percepção extra-sensorial teriam condenado Galileu no passado. Pessoalmente, eu desconfio disso.14

1- Texto baseado em tradução feita pelo autor de No lugares: Introducción a una antropología de la sobremodernidad, Marc Augé (1992).
2- BAUMAN, Zygmunt. Vida Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007, p. 22–42.
3- Idem ao 2.
4- Idem ao 2.
5- http://www.laparola.com.br/soren-kierkegaard-e-o-existencialismo
6- http://nanquin.blogspot.com/2016/09/jorge-xerxes-versus-philip-k-dick.html#ixzz4XBDNDaPS (grifos do autor).
7- Idem ao 5.
8- BAUMAN, Z. 1999. Modernidade e ambivalência. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 334 p.
9- http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI94063-15230,00-POR+QUE+AS+PESSOAS+FALAM+TANTO.html#
10 — https://www.youtube.com/watch?v=tyvKlN2Cj1M
11- http://pt.slideshare.net/marckmel/sermo-em-tiago-41317
12- https://oficinadopinduca.wordpress.com/2011/04/16/a-globalizacao-o-anonimato-e-os-cristaos-contemporaneos/
13- http://cultura.estadao.com.br/blogs/estado-da-arte/hai-capito-mio-san-benedito-nunca-lhe-vi-sempre-lhe-admei/
14- Idem ao 6.
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Nenhuma causa própria é mais relevante que a verdade.

A pergunta feita:

“o que leva a homossexualidade a ser um sinônimo de algo ruim para a religião, senão no contexto já passado pela sua própria geração?”

A resposta dada: Para algumas pessoas, a perspectiva bíblica sobre a questão da homossexualidade é apenas de interesse acadêmico. Estas pessoas talvez não sejam nem cristãs, nem homossexuais. O problema pode não afetá-las pessoalmente, mas já que está na moda, deve ser interessante. Para outras, a questão é muito pessoal. Talvez estas se identifiquem como cristãs, homossexuais ou cristãs homossexuais. Então, creio que todos podem crer naquilo que quiserem. Dessa forma, alguém que acha que homossexualidade – ou qualquer outra coisa – é pecado, deve ter a mesma liberdade para expressar suas crenças quanto as pessoas que creem que não é pecado.

Primeiro, não sou religioso no sentido clássico de religare. Entendo que a religião como ponte feita pelos homens para atingirem um propósito de transcendência metafísica através do bem estar particular é uma mentira porque faz aparecer mais claramente, e apenas, o humanum. E dentro do Cristianismo o supremo bem é o próprio Deus. E sendo Ele bem e amor, Ele é a raiz ontológica última do ser humano, entregues naturalmente a sua condição de liberdade. O mal que o homem pratica não destrói sua ontologia, mas bloqueia-lhe um agir comunal com Deus. E o ser humano foi criado para se relacionar com Deus. Logo uma recuperação dessa base ontológica do bem no ser humano traz alguma luz para a ética nesse momento atual que nos leva a descrer radicalmente do ser humano pelas barbáries que ele causou e continua a causar. Afinal, A cultura pós-moderna anunciou a morte do sujeito. Os ataques da antropologia, da sociologia, da psicanálise desfizeram o sujeito. Só há sujeito onde há liberdade. Mas quem age em mim? O id? O superego? O ego? As condições sociais? O grupo cultural em que vivo? Sem sujeito não há ética.

Segundo, quando discussões sobre Jesus e o homossexualismo ou LGBT vêm à tona, muitas pessoas tentam afirmar que Ele nunca tratou deste assunto. No entanto, não é exatamente assim. Jesus, como Deus, foi um professor único. Ele sempre tratava com autoridade dos princípios que estavam por trás não só de uma única ação, mas de uma série de possibilidades. Ele julgava o coração e a intenção das pessoas, e expunha tanto o coração pecaminoso quanto o Seu padrão de santidade. Os dois exemplos a seguir mostram claramente como todos nós estamos destituídos da graça de Deus e carecemos dela.

Em Mateus 5.27-28 Jesus deixou claro que o padrão de Deus para certo e errado não é só deixar de fazer alguma coisa, mas inclui também pensar e sentir. Até mesmo ter fantasias imorais é errado.

Em Mateus 19:3-9, temos a definição específica quanto ao propósito de Deus para homens e mulheres e o casamento. O fundamento da Sua resposta sobre a questão dos relacionamentos volta ao plano original de Deus. Esse plano foi desvirtuado e distorcido de todas as formas possíveis pelo nosso pecado e pela dureza do nosso coração. Neste caso específico, a questão é o divórcio, a imoralidade e o adultério. No entanto, todos os outros desvios do intento original de Deus são igualmente contra o Seu plano — o qual é reiterado por Jesus nesta passagem. Ratificando o propósito original de Deus, Jesus está destruindo, invalidando e rejeitando qualquer ato contrário a ele. A imoralidade, como o divórcio, declara que a providência e o desígnio de Deus são insuficientes. O mesmo ocorre com o homossexualismo1.
Jesus nos deu liberdade através da sua obediência e sacrifício demonstrados até a morte na Cruz, uma liberdade frente ao pecado e a restauração do nosso livre arbítrio através do amor de Deus por nós. Quando escolhemos o caminho da religiosidade, ofendemos e desonramos a mensagem da Cruz pois, se Cristo nos libertou, porque achamos que temos o direito de escolher nos prender a qualquer sistema religioso, algo que Ele mesmo condenou quando andou entre os homens? Necessário e preciso é honrar a Cristo saindo da gaiola da religiosidade e ajudando os irmãos que também possuem essa dificuldade, pregando e cumprindo todo o verdadeiro evangelho do Reino de Deus, amando o próximo e a Deus. Pelas palavras de Jesus, vemos que nenhum de nós escapa ao Seu ensino sobre os padrões de Deus sobre sexualidade e casamento. O próprio Jesus ensinou uma ética sexual e conjugal que ressalta e enfatiza o plano original de Deus para uma relação heterossexual pura e monogâmica. Nada mais tem valor — nem mesmo pensamentos lascivos em qualquer direção. Para quem tem qualquer tipo de relacionamento hetero ou homossexual fora do casamento homem/mulher, estas verdades têm implicações muito abrangentes. A declaração de Jesus é que tais relações não têm valor e são pecado. Logo, como um cristão eu entendo que nenhuma causa própria é mais relevante que a verdade.

As distorções inventadas para adequar o padrão bíblico aos desejos das pessoas são tantas que se os filósofos costumam discordar com frequência, imaginem como as pessoas normais têm dificuldade de chegar a um acordo. Sabemos que há tremendas diferenças morais no mundo. Em várias culturas, é moralmente certo decidir os casamentos para os filhos, suprimir a diferença política para harmonizar o grupo e que as mulheres tenham menos status que os homens; no ocidente, isso tudo está errado.

Até onde o filósofo em mim pode ver, a moral não existe no mundo da mesma forma que os fatos científicos ou matemáticos existem. Estes últimos existem de maneira independente dos seres humanos. A moral, dizem, não é algo descoberto, mas algo inventado por diferentes grupos em diferentes momentos e lugares. E como com qualquer invenção, depende inteiramente do inventor decidir o que entra e o que fica de fora. Logo, culturas diferentes podem estabelecer as regras morais que quiserem, e cada cultura será o único juiz do que é certo e errado dentro daquela cultura. Por esse motivo, ninguém está na posição de julgar a moral de outra cultura; a não ser que exista uma moral universal.

Quem pode dizer quem está certo e quem está errado quando as culturas discordam sobre a moral? Todo mundo e ninguém, pois todo mundo pode opinar sobre a moral da própria cultura, mas ninguém pode opinar sobre a do outro. Se entendemos que a bíblia não é uma simples coleção de ditos morais, mas a expressa palavra do Deus criador que expõe sua vontade para todo aquele que Nele crê, temos uma ética universal a medida que todos podem receber, entender e praticar o que está nela contido; pois se Deus é criador de todas as coisas, e Jesus Cristo é Deus, como cristão ortodoxo ocidental é de dentro de uma moral judaico-cristã, aquela predominante no ocidente, que busco produzir uma opinião sobre um tipo de comportamento e defendê-lo ou não conforme o mandamento bíblico universal.

Bem, nós cristão acreditamos piamente que não vivemos, mas Cristo vive em nós através do Seu Espírito Santo e da conformidade gerada em nosso ser. Somos porque Deus é. Para que isso aconteça a nossa fé deve ser obediente e prática, nosso comportamento adequado ao ideal divino professado. Não há espaço para minhas especulações e achismos; Deus e sua vontade são o padrão virtuoso a ser seguido ainda que com dificuldades. Eu sei que essa forma de pensar não é um consenso hoje, nem mesmo dentro da igreja.

Bertrand Russell dizia que a crença em Deus é uma tentativa humana de participar de sua onipotência. Se o mundo é controlado por Deus, e Deus pode ser movido pela oração, a religião é a realização desta tentativa.

Respondendo a pergunta que é o mote deste texto, a homossexualidade, segundo este ponto de vista, como um padrão de comportamento de um grupo, não é ruim para uma religião, pois é quanto a ética cristã que a religião e a homossexualidade funcionam iguais: podem ser um comportamento usado para tentarmos nos esconder de Deus ou “distraí-lo”. Pois há algo sobre ritmos e rituais, formalidades e funções que nos enganam de tal maneira que pensamos que Deus está enganado sobre nós. Nós pensamos: “Talvez se eu levantar minhas mãos bem alto domingo de manhã, eu vou distrair Deus do que aconteceu quinta-feira à noite.” E mesmo que raramente falamos esses pensamentos em voz alta, sabemos como a tentação funciona.

Bem, os elementos que caracterizam o dia a dia dos homossexuais, na sua maioria jovens adeptos do hedonismo,  são alimentados pela beleza das coisas, inserem-se no mundo a partir das relações que estes mantêm com uma idéia muito peculiar de amor: amar é embelezar, é endeusar, colocar num pedestal, ser passional. Amar é também imaginar. E perder-se nessa contradição onde o carnal e o aural fazem-se presentes o tempo todo2. Assim, é fácil constatar o porquê de muitos passarem tanto tempo arrumando-se, vestindo seus mais descolados ou chamativos acessórios quando estes vão ao encontro dos seus pares, seja em uma igreja, shopping ou bar. A moral a partir daí também passa a ser guiada pelos atributos estéticos (Lembramos que Deus não se prende ao exterior, Ele sonda o interior do homem, sua essência, por isso conhece o seu coração).

Sei que você dizendo-se homossexual e cristão, doa aos pobres, que o sofrimento das crianças e dos gatos pode levá-lo às lágrimas. Sei que é piedoso e contrito. Mas isso não muda o fato de continuar sendo incapaz de demonstrar mais amor a Deus, cumprindo os seus mandamentos e negando a si. Saber falar sobre empatia, caridade e amor ágape com uma voz trêmula acreditando que o pecado não é uma escolha moral, mas sim uma doença do  espírito, só faz com que acredite estar com a razão. Não crie ilusões para si mesmo; é ela que você está ouvindo agora tentando convencer que seu comportamento e atitudes são logicamente aceitáveis. Bem, a verdade tem algo de auto demonstrativo, que se impõe por conta própria. O mesmo vale para seu contrário e, para não  valorizar  isso, é preciso ter perdido todo e qualquer julgamento. Honestamente você pode afirmar que sua homossexualidade o tornou uma pessoa melhor, um cristão melhor?? Pra quem mesmo?

Uma ética do particular, do provisório, do relativismo subjetivo não resiste à arbitrariedade, porque não se submete a nenhuma “norma objetiva” maior que o próprio indivíduo. Não cumpre a função reguladora da ética para o indivíduo e para a sociedade. A tradição bíblico cristã tem aguda consciência de que sua mensagem é duplamente universal: conteúdo e destino; mandamento e vida com Deus pra sempre. A ética cristã é a própria verdade de Deus para o homem. Enquanto uma verdade participa de Deus, ela é universal e definitiva porque Deus nunca mudou. Ele não desfez a criação original de macho para fêmea e fêmea para macho. você pode até aceitar, desejar e proclamar isso como a nova verdade, baseando-se em uma mudança dos novos tempos, no ideal moderno de relativismo ético onde cada qual segue o seu padrão pessoal e tenta imputar ao outro a sua “verdade”, mas não encontrará registro de uma única declaração de Jesus dizendo ao homem que inverta o seu padrão. Mas o que muda e tem se modificado com o passar dos tempos é a interpretação da verdade divina. Onde, por exemplo, a felicidade moderna da auto realização (e o homossexual vive esta busca em todos os níveis), leia-se busca de satisfação e prazer, não concorda com a norma ética cristã, que é traçada a partir de atos objetivos, atos que afirmam a cidadania do pobre homem perdido no Reino de Deus, isto é, no projeto histórico de Deus, apontando o caminho ético do consolo aos aflitos, dos mansos, dos que têm fome e sede de justiça, dos misericordiosos, dos puros de coração, dos que promovem a paz, dos perseguidos por causa da justiça. Uma radicalização ética da justiça, do não matar, do não odiar, do não cometer adultério, do não cobiçar, do não jurar, do não vingar-se, do amor ao inimigo. Por isso a razão última do agir cristão é: sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito e a unidade dos dois amores a Deus e ao próximo (1 Jo 4, 21). Ora, a perfeição humana só existe transcendentalmente quando correspondemos a expectativa daquele que nos criou. Quando aliamos nossa existência aquilo que nos é proposto por Deus e cumprimos isto. Quando permanecemos em Deus e Ele em nós. Nunca é o que meu desejo quer, a comunidade ou a igreja instituição quer. Mas o que Deus planejou e cuida para que aconteça conforme está nas Escrituras. Portanto aquele que ama a Deus, (isso serve para quem é homossexual ou não), e deseja permanecer identificado com Ele, não deve seguir uma religião, deve apenas cumprir o seu mandamento. Conselhos…

E tu, meu filho Salomão, conhece o Deus de teu pai e serve-o com um coração perfeito e com uma alma voluntária; porque esquadrinha o SENHOR todos os corações e entende todas as imaginações dos pensamentos; se o buscares, será achado de ti; porém, se o deixares, rejeitar-te-á para sempre – 1 Crônicas 28.9

Para isso precisamos que as referências que constituem nossa identidade sejam claras e bem definidas, tornando-se um guia sólido e trazendo segurança. Infelizmente a igreja como a instituição deixada por Deus para propagar a verdade bíblica e seus valores capazes de moldar um estilo de vida santo, perdeu-se entre tantas teorias e práticas e encontra-se mergulhada no relativismo ético. Agora é a igreja que precisa reinventar-se o tempo todo. Cabe aqui uma pergunta: o comportamento cristão não deve ser baseado UNICAMENTE no padrão deixado por Jesus Cristo? E Ele não é o mesmo ontem, hoje e eternamente? Jesus Cristo não mudou e tão pouco o seu evangelho. O que mudou foi nossa atitude, já que a obediência a Cristo não é mais tão importante somente o reconhecimento de sua autoridade3.

Bem, amanhã quando acordarmos não teremos mais o tempo que passou… Esta é a constatação diária de todo ser humano; e todo o tempo que resta é para vencer a corrida para chegar na existência eterna. O problema para a maioria de nós, seres humanos pretensamentes donos do próprio arbítrio, é perceber que a eternidade desconhecida pertence a um Deus pessoal e Todo Poderoso e não viveremos nela segundo a minha vontade. Duro discurso para uma época individualista cultuadora da personalidade em todas as suas nuances!

1-https://bible.org/node/23457##I.
2-http://obviousmag.org/karamundiar/2015/05/filmes-que-cortam-a-nossa-cabeca-em-camera-lenta-1.html#ixzz4QnISn7UM
3-https://oficinadopinduca.wordpress.com/2011/07/07/a-crise-das-instituicoes/
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Como você fez as pessoas se sentirem hoje?

“No final do dia as pessoas não se lembrarão do que você disse ou fez, eles vão se lembrar de como você as fez sentir.”

Se você passar um tempo observando e conversando com as pessoas que estão a sua volta você perceberá que elas buscam direta ou indiretamente, de forma criativa e funcional, resolver e solucionar os imbróglios emocionais e afetivos que surgem todos os dias em suas vidas. Ou seja, a maioria das pessoas estão buscando nos seus líderes, amigos ou companheiros um pouco de compreensão. O que estou dizendo é que problemas de relacionamento e de convivência sempre precisarão ser resolvidos satisfatoriamente antes dos projetos de vida seguirem avante. Desta maneira entendemos que o sofrimento é multifacetado e tem muitos rostos. A Bíblia não apaga a nossa experiência de sofrimento dizendo que tudo é de uma só linha. Em vez disso, ele reconhece as maneiras multifacetadas que o sofrimento pode vir sobre nós. O apóstolo Paulo escreveu: “Somos afligidos em todos os sentidos, mas não esmagados; Perplexos, mas não levados ao desespero; Perseguidos, mas não desamparados; Feridos, mas não destruídos” (2 Coríntios 4: 8-9).[1] Nestes dois versos, Paulo lista vários tipos de sofrimento, o mental, o físico, o emocional e o espiritual. Cada um deles é uma maneira diferente de sofrer.
A igreja não se destina a ser uma associação livre dos solitários e desocupados funcionais unidos. Paulo confronta esse tipo de pensamento quando escreve: “Carregai os fardos uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo” (Gálatas 6: 2). A igreja se destina à ser um refúgio para aqueles que sofrem. Quando um membro está machucado, a igreja coloca as ataduras; quando um membro está para baixo, a igreja incentiva; quando um membro está em necessidade, a igreja coloca-se ao seu lado para ajudar.
Entretanto, como prática padrão em nossa sociedade atual, essa ação segue o pensamento laicista que diz, não há mais lugar para posições absolutas, para princípios imutáveis fundados numa imagem de Deus que é facilmente manipulada pelos diferentes grupos. Que estamos necessitados de uma compreensão não sectária de nossos problemas e da busca de soluções viáveis. E nos diz ainda que essa compreensão deve ser ampla para ser compatível com as diferentes visões do que se considera vida justa e bem viver. Ora, tudo o que todos querem, a tal compreensão fundamental, não é ser amado com amor verdadeiro? Quem possui tão grande amor, tal desprendimento para ir em auxílio do outro? E mais, onde vamos encontrá-lo? Creio como eles que o único caminho é o diálogo incessantemente recomeçado pelos diferentes grupos, um diálogo onde desde o início, embora com nossas convicções, estejamos dispostos a ouvir os outros. Ouvir é a grande questão, pois na realidade desaprendemos a ouvir numa sociedade onde predomina o barulho das máquinas, dos muitos sons, dos muitos gritos humanos que de tão fortes não conseguem ser distinguidos pelos ouvidos de uns e de outros. Eu acrescento ainda a necessidade de colocarmos o tênis dos outros; de fazer ao próximo o que gostaríamos que fizessem a nós.
Logo, se colocar na perspectiva do outro é duro e difícil porque é quase sempre um negar a si mesmo primeiro. Por isso que um pequeno aviso se faz necessário: Não confunda ajuda com caridade. Doar um casaco não faz de você uma pessoa boa, mas eu aposto que faz você se sentir como um. Você nem queria esse casaco mais; o que você queria mesmo era o espaço do armário. Claro que você poderia ter vendido em uma venda de brechó e feito, talvez, cinquenta ou oitenta reais. Era um casaco caro, droga. Mas você, com seu “coração de ouro”, deu-o. Há um brilho nos olhos de Deus sobre você agora não é mesmo? Só que não. O que faz de você uma pessoa boa para os outros (e não apenas para si mesmo) é a mesma coisa que faz qualquer um que pode pagar/doar algo ocasional, uma boa pessoa: Se houver desinteresse pelo lucro próprio. Não é o seu caríssimo casaco, é o seu amor ao próximo sem pensar em si mesmo primeiro.
O ensinamento hoje diz, “quando todo mundo parece estar vivendo criativamente mais intensamente do que você, o que é que vai distinguir a sua maneira de viver, sua marca pessoal do resto? Cuidar das pessoas!” Isto pode ser muito interessante hoje em dia já que esta geração atual cresceu em meio a um crescente individualismo e extremada competição. Pensar só no futuro e buscar compulsivamente viver a frente do seu tempo pode até parecer uma atitude muito moderna, muito “geração millenials e tal”, entretanto, é mais comum tal atitude ser um sintoma de ansiedade.[2] Alch (2000) afirma mesmo que eles têm que sentir que controlam o ambiente em que estão inseridos, têm que obter informação de forma fácil e rápida e têm que estar aptos a ter vidas menos estruturadas.

Mas, “(…) Ao mesmo tempo em que prezo o diálogo, a profundidade dos relacionamentos e os sentimentos honestos, defendo a flexibilidade; a nossa capacidade (diria essencial, quase uma questão de sobrevivência) de adaptar-se às mudanças sem; contudo, perder a essência e os valores. Tarefa nada fácil já que tais mudanças incluem a “pressa”; a correria; o tempo curto; a substituição de quase tudo… Em vez do “reparo”, que caracterizam este “mundo fluido”, conforme afirmação de Bauman. [3]

Todos estão fazendo um monte de coisas e vivendo à procura de inspiração para estarem no contexto do seu tempo, círculo de amizades e grupos de interesses. Todos estão sempre procurando encontrar as emoções certas a sua volta e é por isso que as pessoas se envolvem ou porque elas não o fazem. Se entendermos as pessoas e seus sentimentos torna-se-á muito mais fácil nos sintonizarmos e usarmos as nossas “ferramentas”, nossas características que sempre pensamos criticamente como irrelevantes, mas quando usadas com empatia as pessoas dizem que são as verdadeiras emoções que estão por trás das decisões que tomamos. Geralmente é algo como isto: “Alguém precisa de um caminho para resolver um problema porque eles têm uma dor, dúvida ou desejo.” O “porque” acaba por ser a parte realmente importante da coisa toda. Por isso precisamos estar ligados as pessoas como amigos e como seres humanos, e estar comprometidos em criar algo juntos para tornar suas vidas melhores.
Dê uma boa olhada em seus pés. Se você nasceu na linha de partida vestindo um bom par de tênis, não foi sorte. A coisa mais importante que você pode fazer agora é ajudar aqueles que tiveram de começar a corrida de uma milha atrás de você, com os pés descalços. Com perspectiva zero de algum sucesso. Precisamos ser cada vez mais corajosos para amar e, mais ainda, para assumir e para demonstrar amor. Caso contrário, este nobre sentimento não passará de um líquido que escorre por entre os dedos. Para tanto, há muitas coisas para se fazer e um longo caminho para percorrer (e percorrer até que a busca pelo equilíbrio se torne um hábito): harmonizar máquinas e homens; não se deixar hipnotizar pelas tentações das telas ao ponto de mergulhar no isolamento; evitar o distanciamento que nos conduz ao isolamento e cultivar a sensibilidade que nos humaniza. Enfim, viver e conviver na (e com a) modernidade, mantendo nossas essências e estabelecendo RELAÇÕES HUMANAS REAIS, permeadas por um amor real… E sólido o bastante para sobreviver numa sociedade cada vez mais fluida; superficial; descartável e fútil.

“ Filhinhos, não amemos de palavra nem de boca, mas amemos em ação e em verdade.” (1 carta de João, cap. 3, v. 18)

Então, como você fez as pessoas se sentirem hoje?

1- http://www.desiringgod.org/articles/five-truths-about-christian-suffering
2- Alch, M.L. (2000) The echo-boom generation: a growing force in America society: The Futurist, Vol 34, Nº5.
3- http://educandoquem.blogspot.com.br/2015/04/um-olhar-sobre-obra-o-amor-liquido-de.html
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