Você também só vê as nuvens?

Phillipe K. Dick escreveu uma vez:

Realidade é aquilo que, quando se deixa de acreditar em sua existência, não desaparece.

O grande esforço que a modernidade cumpriu para submeter o mundo a uma ordem racional, criada pelo homem e, portanto, conhecida em seus princípios e em sua dinâmica, viu a ciência como o referencial principal. Porém, são os filósofos modernos que afirmam a idéia de que é a razão que deve descobrir a ordem escondida por trás do aparente caos do mundo, só ela pode apontar os estáveis princípios universais nos quais se fundam o ser e a existência, transcendendo o senso comum, constituído de meras opiniões e crenças (Bauman, 1999, p. 29–35).

Bem, o mundo contemporâneo se define pela maneira de viver e compartilhar referências comuns em um mesmo período de tempo. Ou seja, contemporaneidade é pensar na condição humana como em perpétua redefinição. Mas o indivíduo contemporâneo é, sem nenhuma dúvida, mal circunscrito, sempre à espera da sua legitimidade, sempre por detrás de um desejo, sempre alheio e ainda assim, exigente ator, criador… Observamos, em muitas situações um cidadão solitário, anônimo demais apesar de compartilhar referências comuns. Por isso, a decisão pela promoção do indivíduo e o seu desenvolvimento pessoal é o único progresso capaz de nos fazer alcançar um ideal de modernidade. É no cotidiano destes indivíduos que encontraremos elementos para distinguir sua verdade dos erros cometidos no passado e auxiliar os mesmos a progredirem neste mundo globalizado1, onde vivemos, segundo Bauman, numa época líquida “vigiada” pelo Big Brother das redes sociais. Onde a vida é líquida. Desperdiçada. Sem referências sólidas. E nosso futuro se dissolve em água, em dinheiro, em estratégias interesseiras. Olhamos para este mundo como um mercado de tudo, inclusive de afetos. É nesta sociedade pós moderna onde o conceito de self foi banalizado por rostos posados ensaiadamente que percebemos algo do vazio e do consumismo da nossa era: é o aparecer pelo prazer de aparecer, o exibicionismo descontextualizado e esvaziado de qualquer essência.

Se, por um lado, o homem contemporâneo se vê numa situação angustiante, por outro lado ele ignora a solução para sua angústia, pois não consegue ver além do instante presente. Em sociedade, o homem contemporâneo vive em um círculo vicioso de medo e insegurança que é alimentado através de práticas que “reafirmam e contribuem a produzir a sensação de desordem” como, por exemplo, a compra desenfreada de carros blindados e câmeras de vigilância. Essa sociedade contemporânea exclui “a possibilidade de uma segurança existencial coletivamente garantida e, em consequência, não oferece incentivos para as ações solidárias; no seu lugar, motivam seus destinatários a centrarem-se na própria proteção pessoal ao estilo do ‘cada um por si’”. Bauman aponta ainda que o empenho em concentrar a atenção na criminalidade e nos perigos que ameaçam a segurança física dos indivíduos e de suas propriedades está intimamente relacionado com a ‘sensação de precariedade’, e segue muito de perto o ritmo da liberalização econômica e da consequente substituição da solidariedade social pela responsabilidade individual.2
Infelizmente, pela quebra violenta da tessitura que antes envolvia a família e o longo período em que filhos ficavam sob a tutela dos pais e da família extensa, os que precisam receber educação não têm à sua disposição o reforço do exemplo, a presença dos guardiães, enfim, há uma desestruturação da família e as comunidades foram perdendo a sua característica educadora por excelência porque os controles face-a-face passaram a se tornar praticamente impossíveis. Há todo um arcabouço sócio-cultural modificado pelas mudanças profundas porque passam todas as instituições sociais que têm a seu encargo o cuidado com os “neófitos” e as organizações que visam lucros imediatos como as gangs e todo tipo de grupo contraventor se tornam rapidamente capazes de usar o dinamismo do ser infanto-juvenil para obterem rapidamente os seus objetivos.
Quando a gente estuda socialização nos capítulos iniciais de sociologia da educação, percebe que a socialização também pode ser usada para preparar novos membros de gangs, os sistemas de lealdade estão profundamente modificados na sociedade de massas. Veja-os no Oriente Médio nas pessoas-bombas se imolando, os jovenzinhos usados em guerras e bem próximo de nós, nas Farc e no tráfico.
Há toda uma discussão filosófica e sociológica que tem de ser trazida constantemente a primeiro plano, para discutir toda a problemática da educação das novas gerações numa sociedade profundamente conflitada em seus valores básicos. O problema do relacionamento do homem com a sociedade está em um mundo onde ninguém ou quase ninguém acredita que mudar a vida dos outros seja importante para a própria vida […] Os vínculos humanos se afrouxaram, razão pela qual se tornaram pouco confiáveis, o que torna difícil o praticar a solidariedade, do mesmo modo que é difícil compreender suas vantagens e, mais ainda, suas virtudes morais.3
Unido a esse problema está a sensação de incapacidade do homem atual em alcançar a solução almejada, conforme demonstra Bauman:

“A insegurança e a incerteza nascem, por sua vez, da sensação de impotência: parece que temos deixado de ter o controle como indivíduos, grupos e coletividade”.4

E ainda acrescento o que Kierkegaard dizia:

“A decepção mais comum é não podermos ser nós próprios, mas a forma mais profunda de decepção é escolhermos ser outro antes de nós próprios.”

E sobre alienação, Kierkegaard aborda o tema como sendo uma falta de consciência por parte do ser humano de que ele possui responsabilidade para ditar sua história, ou moldar sua existência. A alienação retrata o mistério de ser ou não ser. Uma pessoa alienada carece de si mesmo, evita, tornando-se sua própria negação. Os exemplos mais evidentes de alienação são encontrados nos meios de comunicação em massa (casas, escolas, universidades, igrejas, partidos políticos, mídias monopolísticas, etc).
Os meios de comunicação em massa costumam distorcer e comprometer a veracidade dos fatos, pois segundo Kierkegaard, as verdades são encontradas junto à minoria. Se usarmos o último resultado das eleições americanas (2016) como ilustração para esta declaração teremos que concordar unânimes. Em oposição à maioria, o geral, o aceito e o não abstrato, Søren Kierkegaard transferia para o indivíduo a função de refletir e questionar sobre o que lhe é concreto.5
Ora, a partir da ideia que tudo tem um significado escondido, esbarra-se fatalmente na concepção de uma intenção. Quando a vida é encarada como um desenho, logo se chega a vê-la também como uma execução de um plano, questionando quem seria o responsável por seu traçado. Essa intuição que nos acomete a todos de maneira mais ou menos vergonhosa atinge sua medida plena em dois sistemas de pensamento: o primeiro era a fé religiosa (“Agora estamos nos vendo num espelho sombrio, mas um dia chegaremos a ver e seremos vistos face a face…”) e o segundo, a paranóia (“Estaremos noutro ponto da floresta, onde sempre haverá uma criança com seu urso.”), tinha chegado a hora de fazer as pazes com a áspera sabedoria de Lucrécio: “Não sentiremos mais nada porque não sentiremos mais”; não existirá mais ninguém para ser visto frente a frente à luz plena, e aquilo que agora se acredita estar vendo num espelho sombrio não passa de nosso reflexo deformado pelo medo de morrer e de ter sofrido sem razão. Por mais que, nas sociedades agnósticas modernas, esse materialismo faça as vezes de expressão oficial do bom senso, poucos eram os homens que, no fundo do coração, se resignavam verdadeiramente a isso de tanto que seus desejos tinham sido feridos. Apesar de tudo, queremos acreditar em algo, encontrar um sentido.6

Os existencialistas como Kierkegaard também explicam porque algumas pessoas se sentem atraídas à passividade moral evitando-se no desafio de tomar as próprias decisões. Seguir ordens é fácil; consentir também, pois isso requer pouco esforço emocional em fazer o que é mandado.
Ou seja, se a ordem não for lógica, não cabe ao mandatário questionar. Deste modo, os existencialistas podem explicar as motivações históricas de guerra, genocídios em massa são melhor compreendidos e lavagens cerebrais podem ser facilmente percebidas. As pessoas, nesses casos sucumbidas à submissão de uma força maior, estavam apenas fazendo o que lhe foi dito.7

Os genocídios do século XX, “os casos mais documentados de engenharia social global na história moderna (aqueles presididos por Hitler e Stalin)”, não foram aberrações extemporâneas ou “explosões de barbarismo ainda não plenamente extintas pela nova ordem racional da civilização”, mas foram “um produto legítimo do espírito moderno”. Seus ideais não foram “utopias alheias ao espírito da modernidade”, mas atuações coerentes, até suas últimas conseqüências, com os planejamentos da ciência e da política modernas.8

A visão nazista de uma sociedade harmoniosa, ordeira, sem desvios extraía sua legitimidade e atração dessas visões e crenças já firmemente arraigadas na mente do público ao longo do século e meio de história pós-iluminista, repleta de propaganda cientista e exibição visual da assombrosa potência da tecnologia moderna (Bauman, 1999, p. 38).

Fato é que vivemos num mundo de surdos sem deficiência auditiva. É um mundo de faladores compulsivos o nosso. Compulsivos e auto-referentes. Não conheço estatísticas sobre isso, mas eu chutaria, por baixo, que mais da metade das pessoas só falam sobre si mesmas. Seu mundo torna-se, portanto, muito restrito. E muito chato. Por mais fascinantes que possamos ser, não é o suficiente para preencher o assunto de uma vida inteira.9 E quando não escutamos o mundo do outro, não aprendemos nada. Acontece com o chefe que não consegue escutar de verdade o que seu subordinado tem a dizer. A priori ele já sabe — e já sabe mais. Assim como acontece com a mulher que não consegue escutar o companheiro. Ou o amigo que não é capaz de escutar você. E vice-versa.10

Por isso a grande maioria dos indivíduos só conseguem ver nuvens, ou seja às circunstâncias momentâneas, porque suas vidas estão fechadas em bolhas que tornam a sua visão de mundo distorcida. Em sua presunção, julgam tudo só pela aparência das coisas, são estas circunstâncias que impedem uma correta visão da realidade. E a realidade de suas vidas já foi expressa no texto bíblico do Novo Testamento:

“De onde vêm as guerras e contendas que há entre vós? Não vêm das paixões que guerreiam dentro de vocês” (Tiago 4.1, NVI)?

Por isso a pergunta cristã “que é a vossa vida?” além de ser uma reprimenda, também é uma resposta dura e inflexível. A vida, na melhor das hipóteses, vista à luz da eternidade, é apenas como neblina que aparece por instante e logo se dissipa. É como o vapor que sai de nossas bocas num dia frio. A vida é breve e imprevisível, mas as pessoas cheias de presunção não refletem sobre isto. Não conseguem enxergar o mundo a não ser por “uma certeza insolente e vazia, arrogância, que confia em seu próprio poder e recursos, que despreza o governo divino”.

Já o cristão sábio considera atentamente a futilidade de toda e qualquer presunção humana, e por isso mesmo submete seus desejos e planos ao Senhor. O humanismo é uma filosofia que coloca o homem no centro do palco: o homem torna-se o senhor da própria história. Em resumo, é a fé no homem com todo o seu potencial interior, pois a interferência de Deus não existe. O humanismo exclui Deus porque crê que os seres humanos são suficientes em si mesmos. Esta filosofia está muito ligada com a ideia em moda atualmente: “eu quero, eu posso, eu consigo”. As grandes corporações, midiáticas ou não, propagam e incentivam a independência e a autonomia humana, para realizar tudo sem depender de ninguém. O humanista faz seus planos numa redoma de auto-suficiência. O humanista é alguém dominado pela arrogância e por isso desconsidera a brevidade da vida. Apesar de não saber o que vai acontecer amanhã, ele vive como se soubesse.11 Ou seja, as pretensões humanas são carregadas de presunção, egoísmo e alienação.

Bem, sozinhos ou não, precisamos começar a raciocinar e perceber correlações e fatos. Sermos mais solidários. E, principalmente, começar argumentar no dia-a-dia, porque quase nunca fazemos isso. Geralmente, tomamos um partido e passamos a defendê-lo de forma passional, enxergando só o que nos interessa. Somos bons de discutir, mas ruins para argumentar. Piores ainda para mudar de ideia. O que parece ser uma estratégia não muito inteligente para encarar essa nova sociedade em que conversamos com muito mais gente, sobre muito mais coisas, todo santo dia. Efetivamente, é difícil tentar entender algo ao meio de tantas informações prontas, de tantas vozes, mesmo que falando em nome de tão poucas pessoas. É mais fácil, então, reproduzir. E se esse discurso não atrapalhar o meu conforto, mais fácil ainda. E acabamos por não perceber, ou não queremos enxergar, que tudo isto está nos levando cada dia mais a buscar segurança e estabilidade no anonimato, pois “quanto menos me envolvo menos preciso tomar uma decisão”, não preciso reagir. Nada é mais contemporâneo. As referências (cristãs) familiares, sociais, morais e éticas foram, a muito, banidas de nossa sociedade. Antes de ser uma mutação benéfica, isto é um verdadeiro carcoma global. Ninguém é poupado e a sociedade como um todo, perde indivíduos, estabilidade e sua qualidade de vida. A barbárie impera principalmente porque o método de combate da violência focado em nichos sociais e em determinados espaços e instituições, não diminui a criminalidade e não aprimora o relacionamento entre os indivíduos. Penso que o foco deveria estar na reabilitação do ser humano em grau máximo, amplo e irrestrito. Quer seja reabilitar o indivíduo que está engajado no contexto de violência e de caos urbano, quer seja reabilitar as “células-tronco” da sociedade: as famílias.12

Tudo isso tem nos apontado uma verdade paradoxal da humanidade ocidental: o cristianismo está em toda parte, o cristianismo não está em parte alguma. Todos, crentes, fanáticos ou homens de pouca fé, e não crentes conhecem Jesus, mas, vistos os pensamentos e palavras, atos e omissões desses homens, poucos praticam o cristianismo e, se o fazem, não se sabe se de coração.13 Por outro lado, é significativo e arrebatador o número daqueles que, mesmo não sabendo quem foi, reagem positivamente, de corpo e alma, as ideias dos mais variados pensadores, antigos e modernos, gurus ou loucos.

Comecei este texto com Philip K. Dick e finalizo com ele:

Não tenho como garantir que você esteja errado ao não acreditar em mim, mas posso garantir que você também não teria acreditado em São Paulo. Você teria dado de ombros, falado em epilepsia ou num acesso de um doidivanas, assim como um bando de judeus devotos e gregos cultivados. OK, não tenho nada a dizer contra isso. Também não tenho nada a dizer contra os ecologistas ferrenhos que, por mais que eu ache uma extravagância conceder às árvores e aos animais os mesmos direitos jurídicos que têm os homens, alegam que um tempo atrás não achávamos menos extravagante a possibilidade de conceder este mesmo direito às mulheres e aos negros. Não tenho nada a dizer contra as pessoas que, depois de admitir que aos olhos de nossos ancestrais as tecnologias modernas pareceriam magia, obrigam-me a admitir que as coisas que agora nos parecem ser inexplicáveis e perturbadoras, como você colocou muito bem, e as quais eu escondo embaixo do tapete com uma vassoura, um dia virão a integrar o campo da ciência: aqueles que hoje negam a percepção extra-sensorial teriam condenado Galileu no passado. Pessoalmente, eu desconfio disso.14

1- Texto baseado em tradução feita pelo autor de No lugares: Introducción a una antropología de la sobremodernidad, Marc Augé (1992).
2- BAUMAN, Zygmunt. Vida Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007, p. 22–42.
3- Idem ao 2.
4- Idem ao 2.
5- http://www.laparola.com.br/soren-kierkegaard-e-o-existencialismo
6- http://nanquin.blogspot.com/2016/09/jorge-xerxes-versus-philip-k-dick.html#ixzz4XBDNDaPS (grifos do autor).
7- Idem ao 5.
8- BAUMAN, Z. 1999. Modernidade e ambivalência. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 334 p.
9- http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI94063-15230,00-POR+QUE+AS+PESSOAS+FALAM+TANTO.html#
10 — https://www.youtube.com/watch?v=tyvKlN2Cj1M
11- http://pt.slideshare.net/marckmel/sermo-em-tiago-41317
12- https://oficinadopinduca.wordpress.com/2011/04/16/a-globalizacao-o-anonimato-e-os-cristaos-contemporaneos/
13- http://cultura.estadao.com.br/blogs/estado-da-arte/hai-capito-mio-san-benedito-nunca-lhe-vi-sempre-lhe-admei/
14- Idem ao 6.
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Nenhuma causa própria é mais relevante que a verdade.

A pergunta feita:

“o que leva a homossexualidade a ser um sinônimo de algo ruim para a religião, senão no contexto já passado pela sua própria geração?”

A resposta dada: Para algumas pessoas, a perspectiva bíblica sobre a questão da homossexualidade é apenas de interesse acadêmico. Estas pessoas talvez não sejam nem cristãs, nem homossexuais. O problema pode não afetá-las pessoalmente, mas já que está na moda, deve ser interessante. Para outras, a questão é muito pessoal. Talvez estas se identifiquem como cristãs, homossexuais ou cristãs homossexuais. Então, creio que todos podem crer naquilo que quiserem. Dessa forma, alguém que acha que homossexualidade – ou qualquer outra coisa – é pecado, deve ter a mesma liberdade para expressar suas crenças quanto as pessoas que creem que não é pecado.

Primeiro, não sou religioso no sentido clássico de religare. Entendo que a religião como ponte feita pelos homens para atingirem um propósito de transcendência metafísica através do bem estar particular é uma mentira porque faz aparecer mais claramente, e apenas, o humanum. E dentro do Cristianismo o supremo bem é o próprio Deus. E sendo Ele bem e amor, Ele é a raiz ontológica última do ser humano, entregues naturalmente a sua condição de liberdade. O mal que o homem pratica não destrói sua ontologia, mas bloqueia-lhe um agir comunal com Deus. E o ser humano foi criado para se relacionar com Deus. Logo uma recuperação dessa base ontológica do bem no ser humano traz alguma luz para a ética nesse momento atual que nos leva a descrer radicalmente do ser humano pelas barbáries que ele causou e continua a causar. Afinal, A cultura pós-moderna anunciou a morte do sujeito. Os ataques da antropologia, da sociologia, da psicanálise desfizeram o sujeito. Só há sujeito onde há liberdade. Mas quem age em mim? O id? O superego? O ego? As condições sociais? O grupo cultural em que vivo? Sem sujeito não há ética.

Segundo, quando discussões sobre Jesus e o homossexualismo ou LGBT vêm à tona, muitas pessoas tentam afirmar que Ele nunca tratou deste assunto. No entanto, não é exatamente assim. Jesus, como Deus, foi um professor único. Ele sempre tratava com autoridade dos princípios que estavam por trás não só de uma única ação, mas de uma série de possibilidades. Ele julgava o coração e a intenção das pessoas, e expunha tanto o coração pecaminoso quanto o Seu padrão de santidade. Os dois exemplos a seguir mostram claramente como todos nós estamos destituídos da graça de Deus e carecemos dela.

Em Mateus 5.27-28 Jesus deixou claro que o padrão de Deus para certo e errado não é só deixar de fazer alguma coisa, mas inclui também pensar e sentir. Até mesmo ter fantasias imorais é errado.

Em Mateus 19:3-9, temos a definição específica quanto ao propósito de Deus para homens e mulheres e o casamento. O fundamento da Sua resposta sobre a questão dos relacionamentos volta ao plano original de Deus. Esse plano foi desvirtuado e distorcido de todas as formas possíveis pelo nosso pecado e pela dureza do nosso coração. Neste caso específico, a questão é o divórcio, a imoralidade e o adultério. No entanto, todos os outros desvios do intento original de Deus são igualmente contra o Seu plano — o qual é reiterado por Jesus nesta passagem. Ratificando o propósito original de Deus, Jesus está destruindo, invalidando e rejeitando qualquer ato contrário a ele. A imoralidade, como o divórcio, declara que a providência e o desígnio de Deus são insuficientes. O mesmo ocorre com o homossexualismo1.
Jesus nos deu liberdade através da sua obediência e sacrifício demonstrados até a morte na Cruz, uma liberdade frente ao pecado e a restauração do nosso livre arbítrio através do amor de Deus por nós. Quando escolhemos o caminho da religiosidade, ofendemos e desonramos a mensagem da Cruz pois, se Cristo nos libertou, porque achamos que temos o direito de escolher nos prender a qualquer sistema religioso, algo que Ele mesmo condenou quando andou entre os homens? Necessário e preciso é honrar a Cristo saindo da gaiola da religiosidade e ajudando os irmãos que também possuem essa dificuldade, pregando e cumprindo todo o verdadeiro evangelho do Reino de Deus, amando o próximo e a Deus. Pelas palavras de Jesus, vemos que nenhum de nós escapa ao Seu ensino sobre os padrões de Deus sobre sexualidade e casamento. O próprio Jesus ensinou uma ética sexual e conjugal que ressalta e enfatiza o plano original de Deus para uma relação heterossexual pura e monogâmica. Nada mais tem valor — nem mesmo pensamentos lascivos em qualquer direção. Para quem tem qualquer tipo de relacionamento hetero ou homossexual fora do casamento homem/mulher, estas verdades têm implicações muito abrangentes. A declaração de Jesus é que tais relações não têm valor e são pecado. Logo, como um cristão eu entendo que nenhuma causa própria é mais relevante que a verdade.

As distorções inventadas para adequar o padrão bíblico aos desejos das pessoas são tantas que se os filósofos costumam discordar com frequência, imaginem como as pessoas normais têm dificuldade de chegar a um acordo. Sabemos que há tremendas diferenças morais no mundo. Em várias culturas, é moralmente certo decidir os casamentos para os filhos, suprimir a diferença política para harmonizar o grupo e que as mulheres tenham menos status que os homens; no ocidente, isso tudo está errado.

Até onde o filósofo em mim pode ver, a moral não existe no mundo da mesma forma que os fatos científicos ou matemáticos existem. Estes últimos existem de maneira independente dos seres humanos. A moral, dizem, não é algo descoberto, mas algo inventado por diferentes grupos em diferentes momentos e lugares. E como com qualquer invenção, depende inteiramente do inventor decidir o que entra e o que fica de fora. Logo, culturas diferentes podem estabelecer as regras morais que quiserem, e cada cultura será o único juiz do que é certo e errado dentro daquela cultura. Por esse motivo, ninguém está na posição de julgar a moral de outra cultura; a não ser que exista uma moral universal.

Quem pode dizer quem está certo e quem está errado quando as culturas discordam sobre a moral? Todo mundo e ninguém, pois todo mundo pode opinar sobre a moral da própria cultura, mas ninguém pode opinar sobre a do outro. Se entendemos que a bíblia não é uma simples coleção de ditos morais, mas a expressa palavra do Deus criador que expõe sua vontade para todo aquele que Nele crê, temos uma ética universal a medida que todos podem receber, entender e praticar o que está nela contido; pois se Deus é criador de todas as coisas, e Jesus Cristo é Deus, como cristão ortodoxo ocidental é de dentro de uma moral judaico-cristã, aquela predominante no ocidente, que busco produzir uma opinião sobre um tipo de comportamento e defendê-lo ou não conforme o mandamento bíblico universal.

Bem, nós cristão acreditamos piamente que não vivemos, mas Cristo vive em nós através do Seu Espírito Santo e da conformidade gerada em nosso ser. Somos porque Deus é. Para que isso aconteça a nossa fé deve ser obediente e prática, nosso comportamento adequado ao ideal divino professado. Não há espaço para minhas especulações e achismos; Deus e sua vontade são o padrão virtuoso a ser seguido ainda que com dificuldades. Eu sei que essa forma de pensar não é um consenso hoje, nem mesmo dentro da igreja.

Bertrand Russell dizia que a crença em Deus é uma tentativa humana de participar de sua onipotência. Se o mundo é controlado por Deus, e Deus pode ser movido pela oração, a religião é a realização desta tentativa.

Respondendo a pergunta que é o mote deste texto, a homossexualidade, segundo este ponto de vista, como um padrão de comportamento de um grupo, não é ruim para uma religião, pois é quanto a ética cristã que a religião e a homossexualidade funcionam iguais: podem ser um comportamento usado para tentarmos nos esconder de Deus ou “distraí-lo”. Pois há algo sobre ritmos e rituais, formalidades e funções que nos enganam de tal maneira que pensamos que Deus está enganado sobre nós. Nós pensamos: “Talvez se eu levantar minhas mãos bem alto domingo de manhã, eu vou distrair Deus do que aconteceu quinta-feira à noite.” E mesmo que raramente falamos esses pensamentos em voz alta, sabemos como a tentação funciona.

Bem, os elementos que caracterizam o dia a dia dos homossexuais, na sua maioria jovens adeptos do hedonismo,  são alimentados pela beleza das coisas, inserem-se no mundo a partir das relações que estes mantêm com uma idéia muito peculiar de amor: amar é embelezar, é endeusar, colocar num pedestal, ser passional. Amar é também imaginar. E perder-se nessa contradição onde o carnal e o aural fazem-se presentes o tempo todo2. Assim, é fácil constatar o porquê de muitos passarem tanto tempo arrumando-se, vestindo seus mais descolados ou chamativos acessórios quando estes vão ao encontro dos seus pares, seja em uma igreja, shopping ou bar. A moral a partir daí também passa a ser guiada pelos atributos estéticos (Lembramos que Deus não se prende ao exterior, Ele sonda o interior do homem, sua essência, por isso conhece o seu coração).

Sei que você dizendo-se homossexual e cristão, doa aos pobres, que o sofrimento das crianças e dos gatos pode levá-lo às lágrimas. Sei que é piedoso e contrito. Mas isso não muda o fato de continuar sendo incapaz de demonstrar mais amor a Deus, cumprindo os seus mandamentos e negando a si. Saber falar sobre empatia, caridade e amor ágape com uma voz trêmula acreditando que o pecado não é uma escolha moral, mas sim uma doença do  espírito, só faz com que acredite estar com a razão. Não crie ilusões para si mesmo; é ela que você está ouvindo agora tentando convencer que seu comportamento e atitudes são logicamente aceitáveis. Bem, a verdade tem algo de auto demonstrativo, que se impõe por conta própria. O mesmo vale para seu contrário e, para não  valorizar  isso, é preciso ter perdido todo e qualquer julgamento. Honestamente você pode afirmar que sua homossexualidade o tornou uma pessoa melhor, um cristão melhor?? Pra quem mesmo?

Uma ética do particular, do provisório, do relativismo subjetivo não resiste à arbitrariedade, porque não se submete a nenhuma “norma objetiva” maior que o próprio indivíduo. Não cumpre a função reguladora da ética para o indivíduo e para a sociedade. A tradição bíblico cristã tem aguda consciência de que sua mensagem é duplamente universal: conteúdo e destino; mandamento e vida com Deus pra sempre. A ética cristã é a própria verdade de Deus para o homem. Enquanto uma verdade participa de Deus, ela é universal e definitiva porque Deus nunca mudou. Ele não desfez a criação original de macho para fêmea e fêmea para macho. você pode até aceitar, desejar e proclamar isso como a nova verdade, baseando-se em uma mudança dos novos tempos, no ideal moderno de relativismo ético onde cada qual segue o seu padrão pessoal e tenta imputar ao outro a sua “verdade”, mas não encontrará registro de uma única declaração de Jesus dizendo ao homem que inverta o seu padrão. Mas o que muda e tem se modificado com o passar dos tempos é a interpretação da verdade divina. Onde, por exemplo, a felicidade moderna da auto realização (e o homossexual vive esta busca em todos os níveis), leia-se busca de satisfação e prazer, não concorda com a norma ética cristã, que é traçada a partir de atos objetivos, atos que afirmam a cidadania do pobre homem perdido no Reino de Deus, isto é, no projeto histórico de Deus, apontando o caminho ético do consolo aos aflitos, dos mansos, dos que têm fome e sede de justiça, dos misericordiosos, dos puros de coração, dos que promovem a paz, dos perseguidos por causa da justiça. Uma radicalização ética da justiça, do não matar, do não odiar, do não cometer adultério, do não cobiçar, do não jurar, do não vingar-se, do amor ao inimigo. Por isso a razão última do agir cristão é: sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito e a unidade dos dois amores a Deus e ao próximo (1 Jo 4, 21). Ora, a perfeição humana só existe transcendentalmente quando correspondemos a expectativa daquele que nos criou. Quando aliamos nossa existência aquilo que nos é proposto por Deus e cumprimos isto. Quando permanecemos em Deus e Ele em nós. Nunca é o que meu desejo quer, a comunidade ou a igreja instituição quer. Mas o que Deus planejou e cuida para que aconteça conforme está nas Escrituras. Portanto aquele que ama a Deus, (isso serve para quem é homossexual ou não), e deseja permanecer identificado com Ele, não deve seguir uma religião, deve apenas cumprir o seu mandamento. Conselhos…

E tu, meu filho Salomão, conhece o Deus de teu pai e serve-o com um coração perfeito e com uma alma voluntária; porque esquadrinha o SENHOR todos os corações e entende todas as imaginações dos pensamentos; se o buscares, será achado de ti; porém, se o deixares, rejeitar-te-á para sempre – 1 Crônicas 28.9

Para isso precisamos que as referências que constituem nossa identidade sejam claras e bem definidas, tornando-se um guia sólido e trazendo segurança. Infelizmente a igreja como a instituição deixada por Deus para propagar a verdade bíblica e seus valores capazes de moldar um estilo de vida santo, perdeu-se entre tantas teorias e práticas e encontra-se mergulhada no relativismo ético. Agora é a igreja que precisa reinventar-se o tempo todo. Cabe aqui uma pergunta: o comportamento cristão não deve ser baseado UNICAMENTE no padrão deixado por Jesus Cristo? E Ele não é o mesmo ontem, hoje e eternamente? Jesus Cristo não mudou e tão pouco o seu evangelho. O que mudou foi nossa atitude, já que a obediência a Cristo não é mais tão importante somente o reconhecimento de sua autoridade3.

Bem, amanhã quando acordarmos não teremos mais o tempo que passou… Esta é a constatação diária de todo ser humano; e todo o tempo que resta é para vencer a corrida para chegar na existência eterna. O problema para a maioria de nós, seres humanos pretensamentes donos do próprio arbítrio, é perceber que a eternidade desconhecida pertence a um Deus pessoal e Todo Poderoso e não viveremos nela segundo a minha vontade. Duro discurso para uma época individualista cultuadora da personalidade em todas as suas nuances!

1-https://bible.org/node/23457##I.
2-http://obviousmag.org/karamundiar/2015/05/filmes-que-cortam-a-nossa-cabeca-em-camera-lenta-1.html#ixzz4QnISn7UM
3-https://oficinadopinduca.wordpress.com/2011/07/07/a-crise-das-instituicoes/
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Como você fez as pessoas se sentirem hoje?

“No final do dia as pessoas não se lembrarão do que você disse ou fez, eles vão se lembrar de como você as fez sentir.”

Se você passar um tempo observando e conversando com as pessoas que estão a sua volta você perceberá que elas buscam direta ou indiretamente, de forma criativa e funcional, resolver e solucionar os imbróglios emocionais e afetivos que surgem todos os dias em suas vidas. Ou seja, a maioria das pessoas estão buscando nos seus líderes, amigos ou companheiros um pouco de compreensão. O que estou dizendo é que problemas de relacionamento e de convivência sempre precisarão ser resolvidos satisfatoriamente antes dos projetos de vida seguirem avante. Desta maneira entendemos que o sofrimento é multifacetado e tem muitos rostos. A Bíblia não apaga a nossa experiência de sofrimento dizendo que tudo é de uma só linha. Em vez disso, ele reconhece as maneiras multifacetadas que o sofrimento pode vir sobre nós. O apóstolo Paulo escreveu: “Somos afligidos em todos os sentidos, mas não esmagados; Perplexos, mas não levados ao desespero; Perseguidos, mas não desamparados; Feridos, mas não destruídos” (2 Coríntios 4: 8-9).[1] Nestes dois versos, Paulo lista vários tipos de sofrimento, o mental, o físico, o emocional e o espiritual. Cada um deles é uma maneira diferente de sofrer.
A igreja não se destina a ser uma associação livre dos solitários e desocupados funcionais unidos. Paulo confronta esse tipo de pensamento quando escreve: “Carregai os fardos uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo” (Gálatas 6: 2). A igreja se destina à ser um refúgio para aqueles que sofrem. Quando um membro está machucado, a igreja coloca as ataduras; quando um membro está para baixo, a igreja incentiva; quando um membro está em necessidade, a igreja coloca-se ao seu lado para ajudar.
Entretanto, como prática padrão em nossa sociedade atual, essa ação segue o pensamento laicista que diz, não há mais lugar para posições absolutas, para princípios imutáveis fundados numa imagem de Deus que é facilmente manipulada pelos diferentes grupos. Que estamos necessitados de uma compreensão não sectária de nossos problemas e da busca de soluções viáveis. E nos diz ainda que essa compreensão deve ser ampla para ser compatível com as diferentes visões do que se considera vida justa e bem viver. Ora, tudo o que todos querem, a tal compreensão fundamental, não é ser amado com amor verdadeiro? Quem possui tão grande amor, tal desprendimento para ir em auxílio do outro? E mais, onde vamos encontrá-lo? Creio como eles que o único caminho é o diálogo incessantemente recomeçado pelos diferentes grupos, um diálogo onde desde o início, embora com nossas convicções, estejamos dispostos a ouvir os outros. Ouvir é a grande questão, pois na realidade desaprendemos a ouvir numa sociedade onde predomina o barulho das máquinas, dos muitos sons, dos muitos gritos humanos que de tão fortes não conseguem ser distinguidos pelos ouvidos de uns e de outros. Eu acrescento ainda a necessidade de colocarmos o tênis dos outros; de fazer ao próximo o que gostaríamos que fizessem a nós.
Logo, se colocar na perspectiva do outro é duro e difícil porque é quase sempre um negar a si mesmo primeiro. Por isso que um pequeno aviso se faz necessário: Não confunda ajuda com caridade. Doar um casaco não faz de você uma pessoa boa, mas eu aposto que faz você se sentir como um. Você nem queria esse casaco mais; o que você queria mesmo era o espaço do armário. Claro que você poderia ter vendido em uma venda de brechó e feito, talvez, cinquenta ou oitenta reais. Era um casaco caro, droga. Mas você, com seu “coração de ouro”, deu-o. Há um brilho nos olhos de Deus sobre você agora não é mesmo? Só que não. O que faz de você uma pessoa boa para os outros (e não apenas para si mesmo) é a mesma coisa que faz qualquer um que pode pagar/doar algo ocasional, uma boa pessoa: Se houver desinteresse pelo lucro próprio. Não é o seu caríssimo casaco, é o seu amor ao próximo sem pensar em si mesmo primeiro.
O ensinamento hoje diz, “quando todo mundo parece estar vivendo criativamente mais intensamente do que você, o que é que vai distinguir a sua maneira de viver, sua marca pessoal do resto? Cuidar das pessoas!” Isto pode ser muito interessante hoje em dia já que esta geração atual cresceu em meio a um crescente individualismo e extremada competição. Pensar só no futuro e buscar compulsivamente viver a frente do seu tempo pode até parecer uma atitude muito moderna, muito “geração millenials e tal”, entretanto, é mais comum tal atitude ser um sintoma de ansiedade.[2] Alch (2000) afirma mesmo que eles têm que sentir que controlam o ambiente em que estão inseridos, têm que obter informação de forma fácil e rápida e têm que estar aptos a ter vidas menos estruturadas.

Mas, “(…) Ao mesmo tempo em que prezo o diálogo, a profundidade dos relacionamentos e os sentimentos honestos, defendo a flexibilidade; a nossa capacidade (diria essencial, quase uma questão de sobrevivência) de adaptar-se às mudanças sem; contudo, perder a essência e os valores. Tarefa nada fácil já que tais mudanças incluem a “pressa”; a correria; o tempo curto; a substituição de quase tudo… Em vez do “reparo”, que caracterizam este “mundo fluido”, conforme afirmação de Bauman. [3]

Todos estão fazendo um monte de coisas e vivendo à procura de inspiração para estarem no contexto do seu tempo, círculo de amizades e grupos de interesses. Todos estão sempre procurando encontrar as emoções certas a sua volta e é por isso que as pessoas se envolvem ou porque elas não o fazem. Se entendermos as pessoas e seus sentimentos torna-se-á muito mais fácil nos sintonizarmos e usarmos as nossas “ferramentas”, nossas características que sempre pensamos criticamente como irrelevantes, mas quando usadas com empatia as pessoas dizem que são as verdadeiras emoções que estão por trás das decisões que tomamos. Geralmente é algo como isto: “Alguém precisa de um caminho para resolver um problema porque eles têm uma dor, dúvida ou desejo.” O “porque” acaba por ser a parte realmente importante da coisa toda. Por isso precisamos estar ligados as pessoas como amigos e como seres humanos, e estar comprometidos em criar algo juntos para tornar suas vidas melhores.
Dê uma boa olhada em seus pés. Se você nasceu na linha de partida vestindo um bom par de tênis, não foi sorte. A coisa mais importante que você pode fazer agora é ajudar aqueles que tiveram de começar a corrida de uma milha atrás de você, com os pés descalços. Com perspectiva zero de algum sucesso. Precisamos ser cada vez mais corajosos para amar e, mais ainda, para assumir e para demonstrar amor. Caso contrário, este nobre sentimento não passará de um líquido que escorre por entre os dedos. Para tanto, há muitas coisas para se fazer e um longo caminho para percorrer (e percorrer até que a busca pelo equilíbrio se torne um hábito): harmonizar máquinas e homens; não se deixar hipnotizar pelas tentações das telas ao ponto de mergulhar no isolamento; evitar o distanciamento que nos conduz ao isolamento e cultivar a sensibilidade que nos humaniza. Enfim, viver e conviver na (e com a) modernidade, mantendo nossas essências e estabelecendo RELAÇÕES HUMANAS REAIS, permeadas por um amor real… E sólido o bastante para sobreviver numa sociedade cada vez mais fluida; superficial; descartável e fútil.

“ Filhinhos, não amemos de palavra nem de boca, mas amemos em ação e em verdade.” (1 carta de João, cap. 3, v. 18)

Então, como você fez as pessoas se sentirem hoje?

1- http://www.desiringgod.org/articles/five-truths-about-christian-suffering
2- Alch, M.L. (2000) The echo-boom generation: a growing force in America society: The Futurist, Vol 34, Nº5.
3- http://educandoquem.blogspot.com.br/2015/04/um-olhar-sobre-obra-o-amor-liquido-de.html
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O mundo não é gay. Ele apenas jaz no maligno.

Porque ainda escrevo sobre este assunto? Além de ser extremamente atual é necessário, pois existe um alerta muito claro na bíblia: os impenitentes morrerão (Lc. 13.1-5). Outra coisa: ou você é praticante dos mandamentos bíblicos segundo ensina os evangelhos, ou você não é um cristão evangélico ortodoxo e corre um sério perigo quanto a sua salvação. Eu consigo entender (não sentir) a dor, frustrações, as razões do indivíduo que professa cristandade e homossexualidade. Só não consigo entender porque é tão difícil para os homossexuais entenderem que o verdadeiro cristianismo, sendo uma religião de salvação, não se orienta pelo desejo do indivíduo ou pelos padrões de moralidade ora vigentes. O cerne do Cristianismo busca salvar o indivíduo e isso inclui de si mesmo quando necessário, e a maneira como fará isso não será agradável ao ser humano algumas vezes porque a vontade a ser satisfeita não será a do ser humano e sim a de Deus. Por isso os homossexuais ao buscarem uma base estável para continuarem seguindo em frente,  conseguem conceber um Cristianismo que vai contra o fato dele regenerar o ser humano, através do Espírito Santo, segundo a forma e vontade de um Deus Criador. Infelizmente não parece ser um Cristianismo genuíno se Deus não for o real motivo da transformação. Logo, como chamar cristão quem não imita o comportamento de Cristo? Que não nega seus desejos e vontades para que uma outra vontade superior governe sua total existência? Como não tentar reverter este erro de interpretação sabendo que está em risco a vida eterna do outro?

Ser cristão é estar pronto para o sacrifício e negação do eu, cujo comportamento revela-se na face do verdadeiro amor cristão que não se conduz de maneira inconveniente, e mais do que isto, se sacrifica pelo outro, deixando-se escravizar por Cristo. Isso é empatia pura ou mais! Ora, quem recebeu uma nova vida em Cristo se uniu a Deus para viver eternamente, e portanto busca o seu Reino e sua justiça. Não a mera procura por realização emocional, intelectual e sexual, ou uma afirmação de comportamento simplesmente baseado em ser feliz. Ou achamos que o Espírito Santo deve ter parte em um relacionamento homossexual ou não o colocamos nesta equação.

Nestes dias em que todas as verdades ditas são consideradas pelo menos relativas, se não meramente pessoais, o problema é verificar a verdade de Deus, sem cair no erro de definir a verdade com base na tradição ou em nosso próprio entendimento daquilo que achamos que ela seja. Alguém já disse:

Em minha jornada de descobertas, acabei me deparando com histórias tristes de pessoas que desejavam colocar fim à própria vida, alguns jejuavam de modo intensivo como método autopunitivo, outros se enclausuravam em si mesmos. Todos tentavam, de uma maneira ou de outra, mortificar suas sexualidades a ponto de causarem rupturas psicológicas e traumas que se tornariam insustentáveis. Eu decidi refletir sobre tudo aquilo, peregrinar mundo afora em busca de respostas, saciar minha curiosidade em relação ao tema. Fazer perguntas, entrar em contato com outras visões, outras filosofias e religiões. [1]

Filósofos, como Platão, Aristóteles, Spinosa e outros, fizeram suas considerações, e cada um falava uma coisa diferente. Juntando tudo o que eles disseram talvez tivéssemos uma boa (e grande) definição de sabedoria. Mas de uma maneira geral podemos pensar em sabedoria como sendo conhecimento, mas também como sendo a capacidade de aplicar corretamente esse conhecimento.
Nas palavras de Champlin, “Ter sabedoria é pensar bem e agir bem em qualquer empreendimento realizado, seja secular ou espiritual”. Quando Paulo diz então que Jesus Cristo é para nós a Sabedoria de Deus, uma das coisas que ele está querendo dizer é que em Jesus Cristo Deus revelou a Sua sabedoria, pois Deus planejou salvar o homem em Jesus Cristo, e teve a capacidade de fazer com que esse seu plano fosse executado.

Sob vários aspectos, podemos dizer que o cristianismo não precisa de uma filosofia pois,  sendo uma religião da salvação, seu interesse maior está na moral, na prática do ensino virtuoso deixado por Jesus, e não em uma teoria sobre a realidade.

Entender que o homem precisa de Deus, e o único caminho de volta para o lar eterno é Jesus Cristo, que é poderoso para salvar e gerar uma nova criatura, uma criatura transformada em todas as suas dimensões: razão, coração, alma, corpo, espírito, emoções e relações, é um passo que deve ser dado por fé[2].

Entretanto a coisa toda com os homossexuais sempre é colocada, principalmente pela mídia, sob um prisma de culpa provocada apenas pelo comportamento e ensino catequético dos evangélicos. Em uma coisa eles estão corretos: segundo George Barna relatou, 45% dos americanos afirmavam ser nascidos de novo, em 2006. Isso correspondia a 130 milhões de pessoas. No entanto, algo parece terrivelmente errado, visto que Barna também observou que somente 9% pareciam levar a sério, em sua vida, o que Jesus disse. Muitos afirmam Jesus como Senhor, mas, se não fazem o que ele diz, isso indica – de acordo com Jesus – que não são verdadeiramente seus seguidores (Lc. 6.46).

Pode ser que pessoas fizeram uma oração de compromisso com o Deus errado e concordaram em seguir algo que não seja Jesus? Talvez elas foram levadas a pensar que podem pegar Jesus e misturá-lo com sua própria maneira de pensar? Pode ser que pessoas foram persuadidas a abraçar uma ilusão que não lhes conta toda a história de Jesus?

Acredito que eles foram enganados por um evangelismo de fazer parecer com e não de identificar-se com. Por isso que o Pragmatismo evangélico é uma desgraça: além de fornecer informações equivocadas que não ajudarão na transformação das pessoas, guia-os a um procedimento de aparências e mudanças externas, de busca psicológica de conforto, não confrontando o caráter humano com o caráter de Cristo.

Os homossexuais ao colocarem sua experiência pessoal com a divindade como mais importante do que qualquer dogma cristão, estão buscando beber no padrão antropocêntrico de comportamento atual uma água benta que elimine e sacie sua sede espiritual. Ora, se eu posso escolher cavar um poço e retirar daí  água para matar minha sede, não estou buscando ser resgatado (lembrando que Jesus Cristo veio buscar e resgatar a humanidade que se afastou, e consequentemente, perdeu-se de Deus), mas busco suprimir minha necessidade de conforto emocional e alívio para a culpa, adâmica ou não, que todos nós carregamos; é somente dessa forma que posso acreditar que uma maneira nova de compreender, uma maneira não cristã de enxergar o mundo e a realidade que me cerca, sem olhar através do evangelho, é mais importante e necessária do que qualquer outro pensamento que me contrarie, e cuja opinião, ensino ou ideia me explique a fé em Deus e fortaleça minha submissão a sua vontade.

Gostaria de dizer aos homossexuais que suas ideias, muito modernas e atuais, nos anos setenta eram alardeadas com sucesso; por exemplo, Marcuse defendia para o futuro que “um mundo melhor é possível”, no qual Eros (a libido) seria libertado conduzindo ao reino da ‘perversidade polimórfica’ onde “cada um pode fazer o que quiser”. E só criaram o germe da defesa da satisfação plena e ilimitada de todos os desejos – levando à atual catástrofe das drogas, da animalização da juventude criada pelos pais daquelas décadas, até ao reconhecimento da “legitimidade” da pedofilia e outras perversões.
Ao persistir no rumo atual, o mundo caminha inexoravelmente para ser um mundo “sem céu ou inferno, todos vivendo apenas para o dia de hoje, sem países e sem causas pelas quais possamos nos sacrificar e sem religião”. Um mundo “sem posses, onde não haverá ambição, nem fome, nem diferenças”. Este mundo é apresentado como um mundo “de paz, harmonia e irmandade entre os homens”, mas é outro ídolo daquela época, Bob Dylan, que já advertia [3]:

(Man of Peace)
I can smell something cooking [Eu posso sentir o cheiro de algo cozinhando]
I can tell there’s going to be a feast [Eu posso dizer que será uma festa]
You know, baby, that sometimes [Você sabe que, às vezes]
Satan comes as a man of peace! [Satanás vem como se fosse um homem de paz.]

Devo dizer que não aprovo de maneira nenhuma um Cristianismo heterodoxo ou um protestantismo pragmático. O que quero dizer com isto? Nem a homofobia e nem o relativismo moral cristão são soluções para o problema dos cristãos gays. Fique esclarecido também que a conversão cristã, a crença na salvação, passa pelas mãos de um salvador. Logo, não funciona se eu não desejar ser salvo; isto fica claro quando manifesto fé em Jesus Cristo. Uma vez que desejo ser salvo e acredito na plena capacidade do meu salvador, me deixo guiar por suas diretrizes. O cristianismo ortodoxo diz que é a partir daí que sou ensinado e transformado em um cristão verdadeiro, passo a ter uma vida nova não apenas em práticas mas também em compreensão do mundo.  Entendendo homossexualidade como um desvio comportamental, uma interpretação/entendimento errado de quem sou e quem me criou (se é cristão acredita que um criador o fez com propósitos definidos) porque em algum momento da minha formação pessoal sofri danos, passei por equívocos e mantive determinados estigmas, ou fui influenciado direta ou indiretamente, moralmente e espiritualmente a crer que minha maneira de ‘ver’ o mundo é correta quando auto afirmativa o suficiente para realizar minha exclusiva vontade. Tudo isso pode ser extremamente estressante e angustiante sim, mas querer permanecer debaixo do argumento de não aceitação e exigindo mudança do arcabouço moral cristão, dizendo que não amamos devidamente como Jesus amou, é não perceber que exigir mudança moral por não desejar mudar de comportamento é rebeldia contra o padrão estabelecido por uma divindade que não muda. Podemos contextualizar, podemos concordar, relativizar e até  exigir adequação também, mas se estas atitudes corrompem o evangelho de Cristo dando um enfoque humanista e centralizado no desejo humano de satisfação, e imposição das vontades humanas, o “eu quero e acho bom e muito adequado para viver aqui e pra sempre”, isso jamais vai resolver a questão.

Sobre os gays sofrerem a influência dos demônios, que alguns dirão que não existem porque hoje seu comportamento maligno e ações foram diluídos  em uma “infantil” noite de halloween, digo que eles seguem o seu mestre na arte do engano e da mentira, e continuam agindo ardilosamente, jogando o ser humano contra as ordens divinas, assim como Lúcifer fez lá no Éden, o que só produziu sofrimento e caos para quem acreditou nele. É amigo leitor, o mundo não é gay. Ele apenas jaz no maligno.

E talvez seja por isso que ainda me preocupo. Porque ainda hoje existe a tentação de deixarmos Jesus Cristo de fora da Igreja, e há quem já esteja praticando homilias, escrevendo teses, livros, fazendo programas de televisão, produzindo na internet, fazendo história e seguindo esta maneira errada de ser cristão. Por isso precisamos ressuscitar a ênfase cristocêntrica de Lutero: O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo evangelho da glória e da graça de Deus. Precisamos agir dessa maneira ou teremos que ver a igreja ‘cristã’ tornar-se efetivamente igual a de Laodicéia, sem a presença de Cristo (Ap. 3.20). O que é uma vergonha para o evangelho e ruína para a Igreja. E um incentivo errado aos pecadores de plantão.

1-http://obviousmag.org/the_notebook/2016/a-jornada-de-descobrir-se-gay-em-um-meio-evangelico
2-https://oficinadopinduca.wordpress.com/2012/08/29/filosofando-a-fe/
3-http://www.midiasemmascara.org/artigos/conservadorismo/10935-contracultura-e-antijudaismo
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Ser ou não ser não é mais uma questão.

Esta é uma pergunta profundamente existencial ou existencialmente profunda que questiona sobre o existir, como viver com autenticidade, com integridade.

Falamos muito de integridade como sinônimo de honestidade. Íntegro socialmente falando é aquele que não rouba, não mente, não manipula as pessoas. Sim, este sentido é correto. Porém, ser íntegro vai além de ser honesto e cumpridor das regras e leis. Ser íntegro é ser coerente consigo mesmo. Um filme exibido na íntegra é aquele que não tem cortes, que não tem cenas censuradas. O sujeito íntegro é aquele que vive e se apresenta socialmente sem cortes, sem máscaras que escondam parcelas inconvenientes da personalidade. É aquele sujeito que não concorda com alguém para agradar. É o sujeito que defende seus pontos de vista e principalmente age de acordo com a sua forma de pensar e sentir1.

Gosto desse assunto e pareceu-me bem que, em certo sentido, seria bom pôr a inteligência como causa de tudo. E dentro de mim pensei que, se isso for verdade, a inteligência ordenadora teria de ordenar todas as coisas e dispor cada uma delas da maneira que para elas fosse o melhor possível; portanto, se alguém quiser descobrir a origem de cada coisa, como tudo é gerado, morre e existe, teria de descobrir também qual seria a melhor condição de ser, de sofrer ou de fazer alguma coisa. Pensando assim, o que o homem não deve considerar a respeito de si próprio e das outras coisas seria nada que não seja perfeito e ótimo; naturalmente, o homem precisará conhecer também o pior. Porque a ciência do melhor e do pior em relação às mesmas coisas são iguais2.

Falando sobre este homem, como um animal racional, em Aristóteles isso significa a capacidade humana de ver longe, enxergar além do que se passa imediatamente. E, inevitavelmente, ter muitas vezes que renunciar um prazer em nome de um prazer maior futuramente; o ser humano é capaz de renúncia em relação a prazer imediato, e isto se dá pelo uso inteligente da razão. A partir disso temos a capacidade de distinguir o útil e o prejudicial, o bom e o mal, o justo e o injusto. Bem, dizem que é isto o que nos difere dos outros animais, o fato de sermos racionais. Percebemos o mundo da mesma forma que os outros animais, mas não somos escravos das paixões e dos impulsos como os outros. Nós, munidos de racionalidade, temos constantemente um diálogo entre o desejo e a razão em relação a uma determinada situação. Decidir é lidar com paixões. Já o homem platônico é essencialmente alma, sendo essa alma imortal deveria o quanto antes retornar a seu mundo de origem. Já o homem aristotélico é composto de alma e corpo, como os demais seres do mundo, desempenhando a alma deste no papel de forma, mas que não escapa da corrupção. Em Plotino, surge à noção de conhecimento intelectivo presente unicamente na alma (noesis) e as demais funções ficam ao encargo do corpo3:

 

“O homem é capaz de maneja seu corpo, adestrá-lo e torná-lo apto de realizar movimentos de uma perfeição admirável; para ele, o corpo é um elemento essencial, pois sem ele não pode alimentar-se, reproduzir-se, aprender, comunicar-se, divertir-se. É mediante ao corpo que o homem é um ser vertical, é um ser no mundo”.

Com o advento do cristianismo, o homem não só se relaciona com a natureza, mas com Deus e com outros homens, sendo que a reflexão antropológica se dá a partir do conhecimento de Deus (teocêntrica). É aí que o Novo Testamento faz com que o objetivo supremo da vida, o amor de Deus, coincida com o fazer a vontade de Deus, com o seguir a Cristo, que concretizou com perfeição aquela vontade. Desse modo, o antigo “intelectualismo” grego é inteiramente subvertido pelo “voluntarismo”: o “querer de Deus” é a lei moral e o “querer o querer de Deus” é a virtude do homem. A boa vontade (o coração puro) torna-se a nova marca do homem moral que agora pode tomar decisões e fazer escolhas morais boas.

Muitos conceitos e definições comportamentais éticos dos cristãos são a base para a existência de pensamentos, filosofias e práticas sociais do nosso tempo. Tentar fugir desta realidade é cair em um devaneio utópico existencialista. Quanto a verdade bíblica ser relativa eu discordo veementemente. O fato de você poder escolher suas ações e tomar atitudes de acordo com o seu entendimento da realidade não configura a veracidade/veredicto final sobre o que quer que seja. Concordo que se não tiver fé (crença) na Bíblia ficará muito difícil crer na existência de um autor da mesma, visto que cristão é o que imita/pratica o modelo de Jesus Cristo. Quando exponho o fato bíblico não falo de uma das tantas possíveis verdades, porque ela não é meramente um conceito; o verdadeiro cristão deve falar a verdade exposta na Bíblia, produzir ações dignas desta mesma verdade e prospectar/anunciar esta verdade. Para contextualizar ESTA verdade muitas vezes utilizo um conceito anterior a minha época, uma linha de pensamento que remonta um laço antigo com uma realidade que expressa primitivamente os nossos dias, é quando dizem que estou utilizando um pré-conceito. Mas a realidade em que estamos vivendo está assentada sobre muitos destes conceitos antigos, visto que a ética judaico-cristã é base de QUASE todo o pensamento ocidental, inclusive o seu ‘contraponto’, o pensamento ateísta.

Isso nos mostra como a Inteligência deveria agir em função do melhor, ou seja, do Bem, o que implicaria uma dimensão do ser que está além do puramente físico. A Inteligência se tomada sozinha junto com os elementos físicos, não é suficiente para “ligar” e “manter juntas” as coisas: é necessário ganhar outra dimensão que leve a “verdadeira causa” que é justamente aquilo o que a verdadeira inteligência se refere. E esta é a dimensão do inteligível, que se pode ganhar apenas com um tipo de método que leve para além do físico.

Ernst Gombrich, o historiador da arte, escreveu que os modernos haviam transformado em metáforas todo o pensamento mágico dos antigos. Inferno e paraíso deixavam de ser possíveis destinos para representar estados mentais4. Como não existe metáfora perfeita, o que importa é que ela forneça a base para a compreensão de verdades mais profundas e um ponto de apoio para que possamos agarrar, nos apossar destas verdades em nossas vidas. Infelizmente o interesse moderno em fazer a realidade exprimir o seu desejo fez aparecer uma ideia de religião como misticismo ou mito circunscrito metafisicamente a mera existência humana.

De acordo com Aristóteles, para decidir, há quatro poderes da alma que exercem influência ao longo do processo: percepção, emoção, desejo e razão5. Toda decisão depende da percepção sensível dos cinco sentidos do que se passa; decidir é decidir sempre em um determinado contexto. É preciso perceber qual a situação em que nos encontramos. A percepção de uma situação gera, automaticamente, uma emoção. Ao perceber que alguma coisa é real, uma paixão surge. Ligada à emoção, surge imediatamente o desejo – se sinto medo, logo em seguida terei o desejo de me afastar do que me causa o medo, da mesma forma que se me sentir feliz vou querer me aproximar daquilo que me alegra. Esses fenômenos acontecem imediatamente a partir da percepção. Então, somos resultado do que vivemos; a alma, a inteligência e o caráter, são resultados da nossa história, da construção diária de nós mesmos. Somos resultado das decisões que tomamos, das emoções que sentimos. Somos resultado da nossa experiência mental, o modo como pensamos e agimos em relação às situações é construído ao longo do tempo.

Ora, se a alma (a imago dei) humana é ao mesmo tempo centro e circunferência da psique (mente) o existir limita o ser a vida de Deus. Entretanto, estamos satisfeitos com a maneira que estamos vivendo, em sermos capitães do nosso próprio navio, desde que experimentemos uma sensação de bem-estar enquanto o pensamento e sentimento trabalharem juntos. Mas e quando acontece uma falha na “matrix”?

Parte da minha geração, nascida nos anos 70 e criada por pais que já não escondiam dos filhos seus medos e dúvidas, que brigavam e até se separavam, foi poupada de qualquer educação religiosa. À mesa de jantar entrava o sexo e saía Deus. Não se trata exatamente de uma geração de ateus, pois ser ateu implica diversas responsabilidades e reflexões – é uma geração que simplesmente não precisou pensar no assunto. Praticar o bem e ter atitudes éticas seria natural para construir uma sociedade melhor para todos e, na hora H, cada um em âmbito privado resolveria do seu jeito o inevitável da vida. O problema é que, na hora H, meus mentores intelectuais me deixaram na mão. Você não compra um novo significado para a vida em três vezes no cartão e recebe em casa após cinco dias via Sedex. E pensar como eu amei os céticos e os materialistas. Algo havia dado errado nessa história toda6.

Freud dizia: “Consideremos o modo em que os seres humanos em geral se comportam afetivamente entre si. Segundo a famosa comparação de Schopenhauer sobre os ouriços que se congelavam, nenhum suporta uma aproximação demasiado íntima dos outros”. A ideia que esta parábola (dos ouriços) quer transmitir é que quanto mais próxima for a relação entre dois seres, mais provável será que possam causar dano um ao outro, ao mesmo tempo em que quanto mais distante for sua relação, tão mais provável será que morram de frio (O que necessariamente não exime eu e você de nos aproximarmos “sacrificialmente” para amar o outro, seja ele quem for).

Esta impermanência dos valores e a solubilidade da moral na sociedade dita pós-moderna tem feito os relacionamentos adquirirem uma fluidez impressionante. Quase anulam o aprendizado passado e seus significados dentro das novas normas sociais. Hoje, sair de um relacionamento heterossexual e começar um homoafetivo é a coisa mais normal do mundo. “Hoje, como as pessoas não conseguem nem ser nem ter, o grande objetivo de vida se tornou parecer”7. 

Em meio a tanto relativismo, tornou-se necessário fixar um ponto de partida, um padrão de comparação, para começar o processo de fazer e combinar refazendo o que finalmente será incorporado na imagem final. O Ser aqui não pode iniciar a partir do zero, mas ele pode criticar seus precursores, o padrão anterior, e remodelá-los sobre as tradições que haviam herdado e do qual faziam parte. Desta maneira, parece-me que esquecemos a própria conotação que Deus dá de si mesmo a Moisés, “Eu sou Aquele-que-É”, que deve ser interpretada, em certo sentido, como a chave para se entender ontologicamente a doutrina da criação: Deus é o Ser por sua própria essência e a criação é uma participação no Ser, ou seja, Deus é o Ser e as coisas criadas não são Ser, mas contêm o Ser (que receberam por participação).

Como o cristianismo não é o fim de um debate filosófico, mas consequência de um milagre divino inacreditável e totalmente inesperado é provável que os ecos desse milagre, embora abafado se corrompidos, não passem de impressões digitais suficientes para que se revele o Deus verdadeiro a partir deles. Não desejando dar por encerrado este assunto, pois é extenso e mais profundo do que foi “rascunhado” aqui, finalizo com o pensamento de Filon, onde a ética do Ser é apresentada como um itinerário para Deus, uma: “migração (análoga a do pai Abraão da terra da Caldéia, Genesis capítulos 15-23), que nos leva a entrar de novo em nós mesmos, depois de deixar todo interesse pelo mundo externo. Uma vez descoberta nossa nulidade e o fato de que nós mesmos somos um dom de Deus, é preciso remontar até Ele e a Ele nos ligarmos”.8 E mais ainda:

  1. É meu estado de ânimo que Moisés, o perscrutador, inscreveu sobre o meu memorial. Ele, com efeito, diz: “Aproximando-se Abraão disse: Agora cheguei a falar com meu Senhor. Eu que sou terra e pó” (Gn 18.23-27), uma vez que o momento exato para a criatura encontrar seu Criador chega quando ela reconheceu sua própria nulidade.

(…)

  1. É certamente necessário que a virtude do homem caminhe sobre a terra, mas também que chegue até o céu, a fim de que lá, nutrida pela incorruptibilidade, possa permanecer incólume para sempre.

Se prestarmos atenção à psicologia dos personagens no livro do Gênesis notaremos que a personalidade de Abraão de modo nenhum está “perdida”, mas muito mais viva e determinada. Filon une aqui, estreitamente, o reconhecimento dos próprios limites com a consciência da dignidade humana, e nos ensina que o homem é exatamente parente e íntimo de Deus. Ou deveria crer e viver isso. Seria uma escolha muito inteligente não acham?

1- http://obviousmag.org/cinema_pensante/2015/09/ser-ou-nao-ser-eis-a-questao.html#ixzz4Ir0X5yvh

2- Reale, Giovanni. Historia da filosofia: patrística e escolástica [tradução Ivo Storniolo]. São Paulo: Paulus, 2003.

3- RAMPAZZO, Lino. Antropologia: religiões e valores cristãos. São Paulo: Loyola, 1996. P. 32s.

4- https://en.wikipedia.org/wiki/Ernst_Gombrich

5- ARISTÓTELES. Retórica. Imprensa Nacional- Casa da Moeda. 2005.

6- http://piaui.folha.uol.com.br/materia/ja-nao-era-mais-terca-feira-mas-tambem-nao-era-quarta/

7- https://medium.com/@lucaspinduca/and-christian-morals-became-also-liquid-cb65ecd176ec#.9bew9rqb0

8- Idem ao 2.

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E a moral cristã tornou-se líquida.

Em nossa moderna sociedade fragmentada e individualista, Zygmunt Bauman critica veementemente o consumismo e a liquidez das nossas relações. Hoje tudo é feito para ser usado e descartado, desde objetos até empregos, relações de amizade e relações conjugais. Vivemos a Era do descarte. Costumo dizer que (…) Tudo passa pelo Marketing porque tudo virou produto, objeto de desejo.1 Por causa das grandes transformações morais e sociais que estão na raiz dos inúmeros problemas com que nos defrontamos na época atual, a existência humana moderna é uma constante busca e prática de uma suspensão teleológica da moral para o fim que queremos.

Desta maneira a grande dúvida moral de Raskólnikov em Crime e Castigo é também a da maioria das pessoas hoje: se podemos ou não ser um “homem extraordinário”, fiel não à moral comum, mas sim a uma moralidade especial, com direitos especiais, indiferente à “moral de bestas” (rebanho) que ele atribui aos homens comuns: “eu sou um piolho, como todos, ou um homem? Eu posso ultrapassar ou não! Eu ouso inclinar-me e tomar ou não! Sou uma besta trêmula ou tenho o direito de…” 2 Segue a esta outras dúvidas cruciais, qual o limite do ser humano? É possível libertar-se da má consciência? A liberdade está ao alcance do humano? Qual o papel da religião e da religiosidade na vida humana?

E a moral cristã tornou-se líquida partindo deste princípio antropocêntrico. Porque esta é a maneira que estamos vivendo, no âmbito do epicurismo (de redes sociais) cujo ideal de vida é a celebração daquilo que é pseudo, do quase, do salto oportunista para minimizar nossas responsabilidades. Bem, estas atitudes não ajudam na transformação das pessoas, apenas cobrem suas fraquezas, amenizando os sintomas de angústia, fazendo as pessoas se sentirem bem. Enfim, uma ideologia que se recusa a fazer julgamentos e a debater seriamente questões relativas a modos de vida viciosos e virtuosos, pois, no limite, acredita que não há nada a ser debatido. Isso é pós-modernismo.

O Cristianismo ensina que, Deus criou Adão e Eva, e o primeiro mandamento foi que desenvolvessem uma cultura que permitisse à raça humana sobreviver e cumprir seus outros mandamentos (Está no livro do Gênesis 1.28-30) e após a Queda, todas as culturas foram (e são) corrompidas pela natureza pecaminosa da humanidade. Por isso encontramos em nossos dias pessoas que não podem ser caracterizadas, que vivem continuamente em um círculo de ambiguidades, cheias de dúvidas, que dizem: “não quero esperança. Esperança está me matando. Meu sonho é tornar-me um caso perdido”.

Bem, nós humanos, precisamos de algo que nos faça sentido. Por exemplo, a morte tem de ter um significado para nós. Acho que a função mais antiga das histórias é essa: entender porque é que as coisas acontecem, dar resposta àquelas velhas questões – Porque nascemos? Porque morremos? De onde vimos? Para onde vamos? É assim que me vejo: um contador de histórias. Além disso, a quantidade de informação que temos à nossa volta seria muito confusa se a olhássemos isoladamente. Necessitamos de uma estrutura para assimilar toda a informação que nos rodeia e as histórias dão-nos essa estrutura de que precisamos. Através dessas histórias vemos que o homem torna-se homem apenas nos relacionamentos sociais, uma vez que seu desenvolvimento é influenciado pela cultura em que é criado. Esse conceito de solidariedade social nos permite ver como a igreja poderia estar contextualizada em seu meio e, ainda assim, não ficar atrelada à sociedade na qual está inserida. Ao lidar com os homens, o propósito de Deus é torná-los livres, isto é, sujeitos da própria vida. Em outras palavras, o propósito é torná-los capazes de resistir à determinação cultural do seu meio social. Obviamente, isso só é possível no contexto de uma comunidade cristã, mas isso muitas vezes não passa de uma mera possibilidade. Embora Cristo ordene que nos livremos de ideologias humanas (Rm. 12.2), esse alvo raramente é atingido.3

As condições sociais, no entanto, não são estáticas nem imutáveis, pois são o resultado de um processo histórico, cultural e social. Tendo em vista que o homem não reage simplesmente a estímulos do meio, mas atribui um sentido às suas ações e, graças à linguagem, é capaz de comunicar percepções e desejos, intenções, expectativas e pensamentos, por isso Habermas vislumbra a possibilidade de que, através do diálogo, o homem possa retomar o seu papel de sujeito. Bem, as comunicações que os sujeitos estabelecem entre si, mediadas por atos de fala, dizem respeito sempre a três mundos: o mundo objetivo das coisas, o mundo social das normas e instituições e o mundo subjetivo das vivências e dos sentimentos. As relações com esses três mundos estão presentes, ainda que não na mesma medida, em todas as interações sociais. A cada um desses mundos correspondem diferentes pretensões de validade. Ao mundo objetivo correspondem pretensões de validade referentes à verdade das afirmações feitas pelos participantes no processo comunicativo. Ao mundo social correspondem pretensões de validade referentes à correção e à adequação das normas, e ao mundo subjetivo – das vivências e sentimentos – correspondem pretensões de veracidade, o que significa que os participantes do diálogo estejam sendo sinceros na expressão dos seus sentimentos.4

E uma das diferenças entre uma ideia e uma emoção ou sentimento é que você não tem controle imediato sobre seus sentimentos ou suas emoções. Você não pode estalar os dedos e decidir sentir alguma coisa. Por exemplo, digamos que você está indo acampar. Você acorda, e há uma silhueta gigantesca de um urso fora de sua tenda, um urso pardo. Ele parece com fome. Você não diz: “Agora, deixe-me pensar sobre isso. Há um urso. Os ursos são grandes. Os ursos são perigosos. Conclusão: Eu deveria sentir medo agora, por isso vou decidir ter medo agora”, as emoções não funcionam assim. Pensamos coisas como essas, mas não nos sentimos assim. Isso acontece com você, com todo mundo, o que significa que a Bíblia está cheia de comandos para fazermos coisas que estão imediatamente fora do nosso controle de fazer – comandos para alegrar-se, para o temer, para ser grato, para ser compassivo.

Utilizando os argumentos de Freud, o homem civilizado, não é o homem feliz, tem que abdicar de seus instintos para viver em sociedade, é um homem atravessado pela angústia, pelo olhar ferino do outro, pelo seu superego. O homem civilizado escolheu viver em segurança, não em liberdade. A solução para este mal-estar na consciência seria regressar a natureza e romper com a cultura, com a civilização? Ou seria criar um outro tipo de cultura, onde Deus está morto e tudo é permitido?5

Uma das razões pelas quais eu sou o tipo de cristão que sou, com a teologia que eu tenho, é que eu sei que a Bíblia exige de mim coisas que eu não posso produzir imediatamente pelo meu próprio poder. Eu estou caído. Eu sou pecador. E ainda assim eu sei que eu deveria estar sentindo as emoções que a Bíblia diz para sentir. Eu me julgo culpado.6 Pois “A medida do homem não é exterior. O homem não se mede a palmos, nem a côvados, nem a metros. Sua realidade última, sua essência, a porção indestrutível de seu ser, não é matéria, nem propriedade da matéria, não é eletricidade e magnetismo nem propriedade ou manifestação da eletricidade e do magnetismo. O Homem é espírito, é razão, e liberdade”.7

Para  Lydio (autor do texto acima) o ser humano, por ser totalmente livre e independer de forças sobrenaturais do céu ou do inferno, pode construir livremente seu mundo espiritual na Terra, pois teve livre-arbítrio até para escolher a queda (que eu discordo). Lydio é bem medieval ao defender isso, entendendo por medieval o sentido limitado de dizer com sinceridade e franqueza: “Se o homem (ente limitado, por não ser Deus) tivesse sido criado perfeito (isto é: imutável e definitivo), ou seja, com todas as perfeições possíveis, não lhe sendo dada a perfectibilidade, por inútil: não teria o livre arbítrio, não era, nem seria pelo esforço próprio e pelo próprio mérito; não teria satisfação moral e alegria consigo mesmo e não seria verdadeiramente feliz”.8

Mas o que faz você… você? Psicólogos falam sobre nossos traços, ou características definidas que nos fazem quem somos. Mas há momentos em que transcendemos essas características – às vezes porque nossa cultura exige isso de nós e, por vezes, porque nós exigimos isso de nós mesmos.

Zygmunt Bauman diz “Tudo é temporário. É por isso que sugeri a metáfora da “liquidez” para caracterizar o estado da sociedade moderna, que, como os líquidos, se caracteriza por uma incapacidade de manter a forma. Nossas instituições, quadros de referência, estilos de vida, crenças e convicções mudam antes que tenham tempo de se solidificar em costumes, hábitos e verdades “auto-evidentes”. É verdade que a vida moderna foi desde o início “desenraizadora” e “derretia os sólidos e profanava os sagrados”, como os jovens Marx e Engels notaram. Mas, enquanto no passado isso se fazia para ser novamente “reenraizado”, agora as coisas todas, empregos, relacionamentos, know-hows etc., tendem a permanecer em fluxo, voláteis, desreguladas, flexíveis”. 9

Também é facilmente percebido o fato de nós gastarmos muito tempo de nossas vidas trancados em locais sempre com as mesmas pessoas, com os mesmos objetos, a mesma comida, a mesma rotina. Sempre com a mesma aparência, vivendo em uma pequena sala que limita a nossa existência. Chega um dia em que nos tornamos aquilo que consumimos, o dia em que objetos do cotidiano acabam dizendo mais sobre quem somos; mais do que nós mesmos. No entanto, os pequenos detalhes de todos os dias são o que nos fazem sentir vivos. Ao ouvir música voamos em outro lugar, um cafezinho nos faz que fiquemos acordados, a rua nos abraça e há momentos em que a única maneira de ver além do nosso nariz é ver através dos outros. Essa é a nossa história a cada dia.10 Infelizmente o que se ouve agora diz Zygmunt Bauman, como homilias insistentes, é que devemos buscar soluções individuais para problemas produzidos socialmente e sofridos coletivamente.11

Lembrando que hoje a “coisa mais importante que é preciso desenvolver para aprender é a capacidade de escutar. O mundo carece demais de pessoas que sabem escutar (e que querem escutar), e tem de sobra pessoas que falam, falam, falam, viciados em emissão. As redes sociais são prova incontestável dessa verdade. Todos falam, e falam para ninguém, porque ninguém escuta. Na minha vida há só um pequeno punhado de pessoas que considero serem capazes de escutar. Escutar presente, inteiro não só com ouvidos, mas com corpo e alma. E para mim, muitas vezes, tudo o que me faz bem é simplesmente saber que essas pessoas existem na minha vida, ainda que tão poucas. Atente, disse que simplesmente saber que elas podem me escutar me faz bem. Porque na maioria das vezes eu sequer quero falar”. 12

Na trama de Crime e Castigo, Sónia, uma prostituta com um coração puro, apaixonada por Raskólnikov, leva para seu amado a bíblia e ele de joelhos com o livro sagrado nas mãos, sai do tormento horizontal dos inúmeros labirintos que sua razão construiu, ergue-se e na verticalidade encontra o sagrado, Deus ou o mundo? Cabe ao leitor dar essa resposta.13

Uma outra verdade cristã: O homem decaiu por escolha e se peca, pode escolher também não pecar. Mas não tem o direito de subir por si aos céus. Precisará sempre de ajuda divina. Bom que a medida da graça e misericórdia baseia-se na necessidade do homem mais indigno. Isso faz superabundar o perdão onde abundou as ofensas.

  1 http://obviousmag.org/cinema_pensante/2015/05/post.html#ixzz4G8PEfQuK
2 Fiódor Dostoiévski, Crime e Castigo, Tradução de Paulo Bezerra, Editora 34, 2002.
3 Richard J. Sturz, Teologia Sistemática, Vida Nova, 2012.
4 http://www.scielo.br/pdf/es/v20n66/v20n66a6.pdf
5 http://www.krisis.uevora.pt/edicao/actas_vol2.pdf
6 http://www.desiringgod.org/articles/how-do-you-define-joy
7 http://www.direito.ufmg.br/revista/index.php/revista/article/viewFile/P.0304-2340.2012v60p547/179
8 Lydio M. Bandeira de Mello, A conquista do Reino de Deus, Belo Horizonte, ed. do autor, 1975, p.213
9 http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1910200305.htm
10  http://hennkim.tumblr.com/
11 idem ao 9
12 https://medium.com/@andrekano/convivendo-com-depressivos-5102a5e135dc#.k82q7xhh6
13 idem ao 2
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Onde os modernos ‘selvagens’ vão?

Palavras de Santo Agostinho: “Vós dizeis: os tempos são difíceis, são tempos duros, tempos de desgraças. Vivei bem e, com uma vida boa, mudai os tempos. O tempo não prejudicou ninguém. Os que são prejudicados são os homens e aqueles de quem recebem os danos são homens. Portanto, mudai o homem e mudarão os tempos”.

As coisas que fazemos, incluindo nossas histórias, refletem, servem e muitas vezes moldam nossas necessidades e desejos. Vemos isso em todos os contos de fadas em relação a um infantil acesso ao mito; de “Cinderela” para “Alice no país das maravilhas” para o Super-homem; desde a construção de um forte, quando criança, para a construção de cidades ideais, planejadas como sociedades inteiras. Fantasia, de uma forma divertida e prática, serve as nossas persistentes necessidades e desejos iluminando a mente humana. Fantasia exprime de muitas maneiras, desde o conforto que sentimos nos poderes divinos de uma fada madrinha até o sedutor desconforto que sentimos confrontando o Drácula. Do ponto de vista prático, de todas as formas de ficção que a fantasia induz, a ficção científica (de Frankenstein ao Avatar) é a mais importante em nosso mundo moderno porque é o único tipo que reconhece explicitamente as profundas maneiras em que a ciência e tecnologia, os principais produtos da mente humana, moldam não só o nosso mundo, mas nossas esperanças e medos.

Mas não podemos viver totalmente mergulhados na fantasia ou envolvidos apenas pela utopia. Por isso podemos ver hoje uma realidade conflitante fundamentada em uma crise de sentido e de valores que se apresenta na vida pessoal e nas relações sociais das pessoas. A partir desse contexto percebe-se uma inquietação acerca do sentido da vida e do papel do “ser no mundo”, vindo assim a reaparecer com mais força o interesse pelo tema da ética, enquanto coluna vertebral da reflexão sobre a conduta do ser humano e seus valores. Não é suficiente para o homem comum e contemporâneo superar a crise da ética atual conhecendo o outro e suas necessidades para se chegar a sua convivência harmônica. Não há como superar esta crise sem um modelo de ética voltada para uma comunidade, como na polis grega. Hoje se aposta no individualismo, na competição, na sociedade do espetáculo e do consumo. [1]

Continuamos a pensar que apesar de todos os recursos disponíveis, hoje as pessoas vivem fechadas em um mundo virtualmente infantil, cuja insensibilidade altera sua constituição, tornando-os cada dia mais embrutecidos em suas relações e vivências; são preguiçosos, não criam nada, não empreendem nada, são materialistas, com uma concepção de mundo que não vai além do que veem. Aquilo que seria útil a eles e a sociedade, o exercício pleno de sua racionalidade, lhes faltam ou é totalmente desinteressante. A metáfora sugerida aqui é sobre o ‘selvagem moderno’; um selvagem é um sujeito fora do eixo cultural, alienado do fluxo histórico, não se identificando com a moral e a conduta civilizatória de seu tempo, eis o ponto em que chegamos, melhor dizendo, regressamos. A vida moderna obriga a ir cada vez mais rápido enquanto nossa racionalidade tem limites.

Antigamente se dizia “o que os olhos não veem o coração não sente”. Isto foi substituído pelo “what the heart thinks, the brain does not feel” [2]. Hoje esta inversão das posições entre o coração e o cérebro aparece como uma ego-distônica concepção ideal de vida moderna. Parece também que esqueceram que “o sentimento não é um canal de comunicação em si, ele passa por um filtro psicológico muito mais emblemático que mistura pensamentos e sensações. Ele é por natureza irracional, mas passa por filtros racionais. A visão de mundo que nutrimos e assumimos como real determina a forma como vamos sentir a realidade.

Se você acha que a vida é uma batalha, está numa selva e é mimado o mais provável é que o sentimento de raiva predomine em sua vida.

Se acha que as regras são padrões fixos e imutáveis, a justiça e a retidão são ordens implacáveis será sempre mobilizado pela culpa e o medo.

Se vê cada oportunidade como uma chance de se dar bem, obter vantagem e controle a ansiedade será seu prato predileto. Portanto, não existem emoções descoladas das ideias que fazemos sobre as coisas.”[3]

E, de fato há uma continuidade entre os nossos gostos elementares para as coisas e nossos amores para as pessoas. Uma vez que o “mais alto não se sustenta sem o menor” É melhor começar na parte inferior, com meros gostos; e uma vez que “gostar” nada significa sem tirar algum tipo de prazer nisso, temos de começar com prazer.

A primeira vez que você encontra alguém, o seu primeiro pensamento não é “Como ele funciona?” É “Como é que ele me faz sentir?” E quando você for perguntado sobre essa pessoa mais tarde, você descreve a sua personalidade: “Ela é relaxada, inteligente, espirituosa. Ela me faz rir”.

Pode parecer estranho aplicar os mesmos atributos para objetos inanimados, mas se tomarmos um momento para pensar sobre nossos pertences, todos nós temos um punhado de itens que não são particularmente úteis ou agradáveis aos olhos. Por que ainda os conservamos? Porque nós temos formado uma conexão, e eles são significativos, de alguma forma: o presente de aniversário do nosso melhor amigo, um ingresso do filme de um primeiro encontro com a pessoa especial. Essas conexões afetam-nos inconscientemente, dando vida a objetos inanimados de outra forma.

Sobre esta continuidade e lugar-comum podemos dizer que, juntos, produzem estereótipos que validam, em longo prazo, um estigma interpessoal e social quando o individual passa a caracterizar o coletivo. Isto acontece porque a atual visão de mundo reforça alguns valores que sustentados pelo senso comum acabam por produzir os mitos ideológicos modernos quase incontestáveis. Por isso o hábito de compreender o sucesso de um indivíduo como mérito unicamente pessoal em nossa época, tem sido moldado de maneira crescente como valor de prestígio na sociedade contemporânea. No centro dessa ideia incluem-se perspicácia, inteligência e determinação. Assim, o sujeito vitorioso é colocado num patamar de destaque para que o resultado do desenvolvimento de suas potencialidades seja, reiteradas vezes, celebrado. Este triunfo individual reconhecido socialmente se apresenta então como condição indispensável para que alguém se sinta realizado e fortaleça seus valores na sociedade. Quanto mais uma pessoa descobrir e aprimorar em si o talento que a promoveu e adequá-lo mais rápido às necessidades e regras sociais, maior será sua consagração. E isto, algumas vezes, parece não depender tanto de conhecimento ou virtudes, e sim da capacidade humana de se despir da racionalidade, do pensamento e reflexão, para se tornar apenas mais um animal em busca de sobrevivência e vingança na selva urbana e midiática atual. Como já foi dito:

[…] Como consequência, despontaram, não só em alguns filósofos, mas no homem contemporâneo em geral, atitudes de desconfiança generalizada quanto aos grandes recursos cognoscitivos do ser humano. Com falsa modéstia, contentam-se de verdades parciais e provisórias, deixando de tentar pôr as perguntas radicais sobre o sentido e o fundamento último da vida humana, pessoal e social. Em suma, esmoreceu a esperança de se poder receber da filosofia respostas definitivas a tais questões (PAULO II, 1998).

E o dilema moderno permanece o mesmo: Pense em todas as escolhas feitas que trouxeram você até aqui. Pergunte-se porque você optou por elas, será que em nenhum momento você foi capaz de ver esse furacão, ou será que você viu, mas preferiu acreditar que tudo se acalmaria?! Faça ainda esta outra pergunta: como seria se você tivesse a chance de fazer novas escolhas, se você não tivesse optado por entrar nesse furacão?[4]

Esta é uma das características distintivas da vida moderna: ela fornece inúmeras oportunidades para considerar (à distância, por meio de fotografia, vídeos) todas as coisas que estão acontecendo ao nosso redor. Imagens e acontecimentos (quer sejam atrocidades ou não) tornaram-se, através das pequenas telas da televisão, dos celulares e do computador, uma espécie de lugar-comum. Ou então: “vive num mundo de fantasia”:

“O principal personagem da história é Deus, que fez a Terra e outras coisas. Em primeiro lugar, todos os anjos lhe obedecem, mas um fica de saco cheio e desiste. Ele é punido com o inferno (é um lugar real, não uma palavra feia) e se transforma em Satanás, que é uma parte bem legal. Deus após cria Adão & Eva (que têm um catálogo nomeado por eles agora. É incrível). Eles vivem em um jardim e estão todos felizes e tal até Eva estragar e eles são expulsos. O mesmo tipo de coisa aconteceu com meu irmão e sua namorada”.[5]

Parafraseando Platão, quem são os seguidores da sabedoria, se pelo exposto acima, não são nem os sábios nem os ignorantes (porque a sabedoria deste tempo é capaz de pensamentos fantásticos como este sobre o Genesis e a criação)?

Tudo bem. Bêbados existem em todos os lugares. Aliás, a embriaguez habitual é geralmente o resultado da incapacidade de acomodar-se inteiramente à realidade, dizem os psicólogos.

As pessoas anseiam vagamente por algo diferente do mundo que elas conhecem, mas elas não têm a capacidade de aproximar este mundo ao desejo dos seus corações. Ainda mais, eles não têm a capacidade de atingir uma visão abrangente da beleza emanada neste mundo. Nem a arte da fuga, nem a arte de revelação são possíveis para eles. No entanto, eles têm percepções que não podem usar e impulsos que nunca chegarão a ser concretizados. Logo, a bebida, ou alguma outra droga, aliviam o seu sentimento de impotência e borram os contornos hostis do mundo real trazendo consolo e acabam por isso se tornando uma necessidade.[6] Quem procura este tipo de alívio rápido (os modernos selvagens?) experimentará com certeza algum tipo de vergonha. A vergonha é uma sensação humana de conhecimento consciente de desonra, desgraça, ou condenação. Seu sinônimo, ignomínia, dá a entender o efeito de uma ação desonrosa ou injusta. A ação ignominiosa está relacionada com o descaramento e a desonra de um indivíduo a quem as considerações morais lhe são indiferentes e que é, consequentemente, objeto do descrédito geral (cf. Wikipédia).

Então onde está o limite? Esta é uma pergunta importante para que se saiba até onde ir nas buscas, conquistas e realizações. Contudo, uma pergunta sem resposta. Muitos limites estão estabelecidos pelas leis, mas estas não conseguem abranger a infinita variedade que envolve a ação humana e os detalhes da vida. E mesmo nas situações previstas em lei, a variação de aspectos é tão grande e frequente que justificam a presença dos intérpretes para definir a correta aplicação dos dispositivos legais. Desse modo, a sabedoria é superior à lei pois se aplica a toda e qualquer situação. Em cada instante, em cada caso específico, só a sabedoria poderá definir com precisão o limite para as ações humanas.

E “Um deles é saber a diferença entre moral e sabedoria. A moralidade é temporária, Sabedoria é permanente…” – Hunter S. Thompson.

Recordemos que, se o corpo clássico (do conhecimento) é ordenado, então deve também em termos metafóricos ser saudável. ‘A ordem é a mais antiga preocupação da filosofia política,’ Susan Sontag escreve em ‘Doença como metáfora’, e se é plausível comparar a polis com um organismo, então é plausível comparar a desordem civil com uma doença’. Qualquer sinal da doença é uma ameaça para a ordem e como Sontag torna tudo muito claro, a ‘pior’ doença de todas é o câncer. Ela mostra como uma doença, e em particular o câncer, é frequentemente usado como uma metáfora para descrever o mal-estar da sociedade. ‘Nenhuma visão política específica parece ter um monopólio desta metáfora. Trotsky chamou o estalinismo de câncer do marxismo’, o Gang of Four eram chamados de ‘o câncer da China’ e ‘a metáfora padrão das polêmicas árabes […] é que Israel é “um câncer no coração do mundo árabe.”‘ Para a pessoa com câncer, esta metáfora tem o efeito de separá-los como um intocável; câncer é visto como uma espécie de punição. Para a sociedade, a metáfora cancerosa exige tratamento agressivo para que a cura seja devidamente efetuada. O câncer deve ser retirado para que o corpo saudável seja restabelecido e então a ordem possa ser reconstruída.

Joseph Campbell afirma que “Metáforas nos carregam de um lugar para outro; nos capacitam a cruzar fronteiras que, de outra maneira, estariam fechadas para nós”. Ou seja, é inevitável que tenhamos que construir nosso próprio caminho em lugar de trilhar o de outra pessoa, sendo necessário conhecer o significado dos símbolos e signos, para colocá-los dentro de um contexto cultural e de época. Numa mitologia tradicional ou, se prefere, sistema religioso tradicional, as imagens e os rituais por meio dos quais estas imagens são integradas na vida de uma pessoa são apresentados oficial e impositivamente pelos pais ou pela evangelização religiosa, e se espera que o indivíduo experimente os significados e os sentimentos visados.

Se, como aconteceu no mundo contemporâneo, todos os fundos das imagens de nossa herança religiosa se transformam, como ocorre quando encontramos a nós mesmos num mundo de máquinas em lugar de um mundo de vida pastoral, essas imagens alteradas realmente não podem e não comunicam os sentimentos, as emoções e os significados que comunicaram às pessoas que viveram no mundo em que essas imagens foram desenvolvidas.

Porém, há um perigo real quando as instituições sociais inculcam nas pessoas estruturas mitológicas que não combinam mais com sua experiência humana. Por exemplo, quando se insiste em certas interpretações religiosas ou políticas da vida humana, pode ocorrer dissociação mítica. Pela dissociação mítica, pessoas rejeitam ou são separadas de efetivas noções explicativas a respeito da ordem de suas vidas.[7]

Finalizando, a questão cristã a ser resolvida é esta: Será que as pessoas estão tentando desenvolver-se, melhorando a si mesmas e às circunstâncias em que vivem, sem tocar na raiz do problema? Será que o amor a si próprio está escondido sob os mais benevolentes gestos e por trás das orações mais fervorosas? Que tipo de crescimento pessoal às pessoas estão procurando? O crescimento pessoal que vai aumentar sua autoestima, ou o crescimento pessoal que envolve negar a si mesmo e tomar a sua cruz? O crescimento pessoal que vai confirmar o valor de seus próprios egos, ou o que as tornará semelhantes à imagem de Cristo?

Ambas as formas de crescimento, tanto a que se inclina para o amor a si mesmo quanto a que se inclina para amar a Deus, têm um custo elevado. Amar a si mesmo mais do que amar a Deus leva a uma perda espiritual, mas amar a Deus com todo o seu ser leva a negar o “eu” e faz com que o efeito mortal da cruz se faça sentir contra o velho homem (aquele “eu” ao qual muitos de nós ainda estão agarrados e amam), que deve ser considerado morto (cf. Carta aos Romanos cap. 6).

Os homens são infelizes e sofrem com os problemas da vida porque se tornaram “amantes de si mesmos” e “mais amigos dos prazeres que amigos de Deus”. A inclinação pecaminosa do ser humano é amar a si mesmo mais do que a Deus e às outras pessoas. O egoísmo se agarra à natureza humana e produz inveja, luxúria, orgulho, arrogância, desrespeito por Deus, desobediência aos pais, falta de gratidão, engano, provocando tanto a paixão pelos seus próprios caminhos quanto à contenda por causa deles. Ele leva também a falsas acusações, que são exageradas, já que as pessoas têm sido encorajadas a culpar seus pais, as circunstâncias, e a qualquer outra coisa, menos a si mesmas, pela sua condição de vida.[8]

Sabe, porém, isto: que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos.

Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons, traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus, tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te.

Porque deste número são os que se introduzem pelas casas, e levam cativas mulheres néscias carregadas de pecados, levadas de várias concupiscências; Que aprendem sempre, e nunca podem chegar ao conhecimento da verdade.

Não irão, porém, avante; porque a todos será manifesto o seu desvario, como também o foi o daqueles – 2 Timóteo 3:1-7, 9.

[1] http://www.portalconscienciapolitica.com.br/products/filosofia-etica-e-sociedade/
[2] https://www.flickr.com/photos/19728372@N03/26004473653/
[3] http://www.sobreavida.com.br/2012/01/23/o-que-os-olhos-nao-veem-o-coracao-nao-sente/
[4] https://aboutabove.wordpress.com/2011/12/18/um-ceu-cinza/
[5] https://br.pinterest.com/pin/28921622581331053/
[6] http://www.goodreads.com/book/show/967553.Beethoven.
[7]https://books.google.com.br/books?id=1Kw5OWibZ0oC&pg=PA21&lpg=PA21&dq=THOU+ART+THAT+TRANS%E2%80%A6&source=bl&ots=jbNHdLgFwA&sig=_yEUePZf8cai2vrq1b8acUqQJKQ&redir_esc=y#v=onepage&q=THOU%20ART%20THAT%20TRANS%E2%80%A6&f=false
[8] http://www.apaz.com.br/mensagens/tempos_dificeis.html
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