Devocionais para não devotos (III)

Como escapar do desesperançado vazio de toda esta vida?

https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/anthony-bourdain-escritor-e-apresentador-americano-morre-aos-61-anos.ghtml

Esse apresentador famoso se suicidou e um dia antes dele um ex colega de trabalho de um colega de equipe também se suicidou, a coisa tá feia. A morte do cozinheiro é o segundo suicídio de uma celebridade americana seguido. Três dias antes, a estilista Kate Spade foi encontrada morta em seu apartamento. A polícia de Nova York confirmou que ela cometeu suicídio por enforcamento.
Segundo dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA citados pela agência Reuters, as taxas de suicídio aumentaram em quase todos os estados do país de 1999 a 2016.
Quase 45 mil pessoas cometeram suicídio em 2016, tornando o problema uma das três principais causas de morte nos EUA, juntamente com a doença de Alzheimer e overdoses de drogas.
Existe hoje uma busca por uma verdade que pudesse pacificar a existência humana,  que integrasse o espiritual e a nossa realidade, mas que infelizmente o mundo tem procurado fora da verdade bíblica chamada por nós cristãos de palavra de Deus. O que encontram é uma verdade humanista que é sempre uma tentativa de reconciliação entre o que eu quero neste mundo e no vindouro, mas não consegue produzir uma trégua longa ou uma paz suportável porque não resolve o conflito existencial humano. Quem sou eu? O que devo fazer com aquilo que sou? Para quem? Porquê?1

Schopenhauer trouxe à luz da discussão filosófica o termo Absurdo. Para ele, a simples noção de existência é um absurdo, justamente porque a vida não apresenta nenhuma outra razão, a não ser “a vontade de querer viver”, sem nenhum sentido aparente, o que resulta no pessimismo, na irracionalidade, e de certa forma, no conformismo da humanidade. Considerando também a noção de existência um absurdo, porém diferente do pessimismo radical de Schopenhauer, Sartre e Camus, por sua vez acreditam que essa absurdidade leva a humanidade à ação, revolução, e principalmente à recusa da conformidade. Afinal, se a vida não nos dá sentido, é necessário que este seja construído, logo angústia e pessimismo, manifestados diante do absurdo em nada se encontram relacionados à ausência de sentido da existência e do mundo.2

_ Sim verdade, a maioria das pessoas não querem a Deus, eles querem a paz, mas a paz do jeito deles. Não foi a toa que Jesus disse:

“Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize.” – (João 14:27 acf)

Este é o ponto. A paz que Cristo oferece não se baseia no suprimento de mera necessidades físicas, emocionais ou intelectuais, ela se baseia na redenção total de um ser humano depravado pelo pecado. Mas o mundo não quer isso, eles não querem submeter a Deus seus desejos, entretanto, eles querem independência dele precisando ser pacificados por Ele; e por causa dessa atitude de rebeldia, sofrem de angústia e de um sentimento de impermanência, sentem-se inadequados a esta existência e buscam novamente e erroneamente solucionar o problema de uma maneira rápida.
_ é muita ignorância que essa independência traz e o sr acha que o suicídio não tem perdão?
_ Acredito que o suicídio quando realizado por alguém sem o controle do seu poder de julgamento, fora do seu juízo perfeito como dizem, ou debaixo de uma pressão sobre humana, pode ser perdoado; fora disso ele é um pecado porque é produto do pecado como falei acima, da rebelião humana afinal de contas. Porque o suicídio quando é produzido diretamente pelo pecado torna-se responsabilidade do pecador vide o exemplo de Judas.
_ é um assunto complexo. Como o filho daquele Pastor americano Rick Warren que tinha problemas mentais e se suicidou, esse eu acredito que houve perdão.
_ Sim, mas não cabe a nós julgar o suicida. Apenas buscar ajudá-los antes deles cometerem o ato. Nós só precisamos cumprir o ministério que Paulo diz que todo cristão verdadeiro possui: reconciliar os homens com Cristo para serem redimidos, para tanto devemos pregar o evangelho e viver a boa, perfeita e agradável vontade de Deus. Charles Chu diz:

“… A liberdade é certamente louvável, mas parece ser uma faca de dois gumes, já que a escolha excessiva pode levar à indecisão paralítica, a expectativas maiores, estresse e eventual insatisfação, culpa e arrependimento”.

Por isso há quem diga com seriedade, olhando para a nossa sociedade atual, “Isto está tudo errado. É preciso deitar fora e começar de novo”, mas apesar do objetivo generoso e voluntarista, não se dá conta da arrogância sutil de que é vítima. O mundo é como é, e se por acaso a existência não lhe agrada, ninguém lhe dará outra. Nem a natureza nem a humanidade lhe têm de prestar contas. Ninguém o nomeou sequer juiz, quanto mais proprietário da realidade. Tudo o que temos é dom, pois nascemos nus das nossas mães. Isso significa que uma gratidão fundamental é condição prévia para abrir os olhos todas as manhãs. Uma vontade empenhada de melhorar o que há por mais louvável que seja, pode fazer-nos esquecer esta verdade. Seria suficiente dizer que as qualidades morais básicas dos seres humanos também não mudaram com o tempo, e que não há razão para pensar que quaisquer melhorias no comportamento humano que tenham ocorrido façam parte de um padrão de progresso inevitável, e deve ser enfatizado que não houve nenhuma melhoria real.
Outro problema do relacionamento do homem com a sociedade está em um mundo onde ninguém ou quase ninguém acredita que mudar a vida dos outros seja importante para a própria vida […] os vínculos humanos se afrouxaram, razão pela qual se tornaram pouco confiáveis, o que torna difícil o praticar a solidariedade e a empatia, do mesmo modo que é difícil compreender suas vantagens e, mais ainda, suas virtudes morais.
Unida a esse problema está a sensação de incapacidade do homem atual em alcançar a solução almejada, conforme demonstra Bauman:

“A insegurança e a incerteza nascem, por sua vez, da sensação de impotência: parece que temos deixado de ter o controle como indivíduos, grupos e coletividade”.3

O que precisamos para fazer bom uso da liberdade que tem sido disponibilizada a nós é ter discernimento, sabedoria espiritual (em grego, diakrisis). Mas discernimento não pode ser dado a uma criatura velha, pq ela fará as mesmas escolhas erradas de sempre. É preciso que o indivíduo tenha “nascido de novo”, se tornado escravo do amor de Cristo e possua um caráter transformado por uma visão de mundo diferente, onde consiga perceber a existência de algo maior e melhor do que esta realidade desfigurada pelo pecado humano e ação dos demônios.


1- https://medium.com/@lucaspinduca/the-despicable-immaturity-9c7ba7be8e45
2- https://medium.com/@lucaspinduca/anguished-postmodern-man-needs-salvation-dc0999895d14
3- http://revistas.pucsp.br/index.php/reveleteo – Revista Eletrônica Espaço Teológico ISSN 2177-952X. Vol. 9, n. 16, jul/dez, 2015, p. 75-90.
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Devocionais para não devotos (II)

Nós só amamos porque ele nos amou primeiro. – 1 Jo 4:19

O noivado é um evento muito especial! O casal decide se unir em casamento, para passar o resto da vida juntos. Essa é uma grande decisão, que vai mudar a vida dos dois.
O noivado é um compromisso mais sério que o namoro mas ainda não é casamento. O noivado é o tempo de preparação para o casamento, organizando as coisas para começar uma nova vida juntos. É um passo importante no relacionamento.

O amor foi banalizado em nossa geração e muitas vezes é uma palavra empregada com diferente conotação. No entanto, é importante perceber que não é o mundo ou a sociedade quem define o que é o amor. Uma vez que Deus é amor (1 Jo 4:8), e Deus é imutável, o amor legítimo terá sempre a mesma conotação, o próprio Deus. O que isto significa em termos práticos? Significa que tudo aquilo que é bom e tudo aquilo que é perfeito procede de Deus. Nunca compreenderemos o amor, até reunirmos as condições que torne possível experimentar Deus é a sua bondade no cotidiano. Este experimentar não é algo meramente empírico. O amor é o ponto de partida é o destino final da ação de todo cristão. Quando praticamos o amor então Deus nos é revelado a nós. O teólogo Arthur W. Pink definiu o amor como “a rainha de todas as graças”, portanto, quando nos encontrarmos numa encruzilhada onde teremos que optar entre o amor é qualquer outra coisa, façamos a escolha pelo amor.

O povo com seu senso comum insiste em ver o amor como sentimento, mas o que a Bíblia revela é que amar é uma decisão. A famosa frase de Cantares de Salomão mostra claramente isto: “desperte o amor até que queira”. A Bíblia também coloca o amor como mandamento. Se o amor fosse apenas sentimento não seria um mandamento.
Entretanto, é preciso que fique claro, que o amor de Deus, que é diferente do amor natural, ele é derramado em nosso coração no momento em que O Espírito Santo passa habitar naqueles que creem. Então, a capacidade de amar como Deus quer que ame vem do próprio Deus, que derrama com O Espírito Santo o amor em nossos corações.
O amor é a virtude primária do Fruto do Espírito Santo em nós. Então, para que pratiquemos este amor é necessário andarmos no Espírito e não andarmos segundo as concupiscências da nossa carne. Desta forma, amaremos, e não cederemos aos apetites carnais pecaminosos. É preciso também a renúncia aos sentimentos e desejos que se opõem ao amor de Deus para que possamos viver em amor. O amor como uma decisão deve insistir na prática do amor mesmo quando não sentimos o amor. O amor de Deus tem a característica de perseverar mesmo quando a ambiência não favorece. Deus é amor e aqueles que são nascidos dEle amam.

Muitos agarram-se ao texto bíblico que diz que o “amor jamais acaba” para justificar a manutenção de uma relação que já chegou aos seus limites. O amor jamais acaba como um dom, como uma manifestação da graça de Deus para com os indivíduos e dos indivíduos para com o seu próximo. Mas o amor conjugal precisa um pouco mais do que fé e determinação. Este amor precisa de manutenção e de um renovar contínuo dos elementos que o envolve.
Muitos casamentos chegam ao fim quando um casal deixa de ter um sonho em comum. Outras relações são desfeitas pelo abuso de uma das partes na relação. E ainda há o caso do amor que simplesmente deixou de existir, foi desgastado pelo tempo, pela mesmice. O que resta? O conformismo. A tentativa incessante de manter a relação por meio de aconselhamentos, encontros de casais, o medo de um Deus irado que lançará todos os divorciados no inferno.
A Bíblia nos dá espaço para pensarmos nas duas direções. A primeira do divórcio como algo irremediável. Esta era uma prática comum entre os judeus. A segunda é entender que embora esta prática fosse comum entre os judeus, ela não era o ideal de Deus para os matrimônios, mas Deus permitida devido a dureza do coração humano. O certo é que em ambos os casos há uma permissão divina ou uma prática religiosa que buscava absorver esta prática na comunidade sem acrescentar mais dores. E talvez você me pergunte: “Mas o que Deus uniu poderá separar o homem?” A minha resposta a esta pergunta vai como outra questão: “E foi Deus quem uniu este casal?” Acredito que a resposta será dada à medida em que este casal seja capaz de vencer seus obstáculos, manter a paixão e interesse um pelo outro, continuarem a ser sexualmente atraentes um para com o outro. Não sendo este o caso, continuaremos a ver mais e mais divórcios na igreja, a medida em que as pessoas vencem seus medos e seus tabus.
Não acredito que a normalização do divórcio seja a solução para a igreja, no entanto, nem tampouco é o absolutismo. A pós-modernidade trouxe ao ser humano o sentimento de ser livre, e de fato ele o é, portanto, o amor entre um casal para sobreviver terá que passar pelos testes da vida. O importante é não divinizarmos nem satanizarmos as relações, mas examinar cada uma delas à luz de seu contexto existencial e buscarmos formas não apenas de salvar o casamento, mas as pessoas envolvidas nele.

Na verdade o que importa é a percepção que temos da vida, da sua brevidade, da sua volatilidade e daquilo que realmente importa, o amor de Deus por nós. Toda a nossa busca pelo ser e pelo ter esta relacionada com a falta de entendimento do amor de Deus por nós. Pensamos que para ser aceitos precisamos deste ter e deste ser. O amor de Deus não trata-se de um amor qualquer, mais do primeiro amor: Nós amamos porque ele nos amou primeiro. – 1 Jo 4:19 – Primeiro quando? Desde sempre! Conforme a Escritura nos diz: “Eleitos segundo a presciência de Deus Pai…” (1 Pedro 1:2) – Portanto, o desejo de Deus é que possamos abandonar esta busca pelo ser e pelo ter e que possamos nos voltar para ele, voltar para o seu primeiro amor. Isto não significa que devemos abandonar nossas aspirações na vida, mas que nunca devemos fazer delas uma prioridade. Nossa prioridade deve ser amar a Deus, glorificá-lo, e gozar dele para todo o sempre.
Nossa cura na verdade depende disso, depende do nosso retorno para Cristo e para o seu amor. Seu amor é estável. Ele nos ama hoje o mesmo que nos amou ontem, e nos amará amanhã o mesmo que nos ama hoje. Portanto, pouco importa a nossa fina e curta existência neste mundo, o que importa é que sou amado por Deus, que aceitei ser amado por ele, aceitei responder ao seu amor. Como diz a Escritura: “Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu…” (Cânticos 6:3).

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Devocionais para não devotos (I)

A partir de hoje publicarei pequenos devocionais para quem a fé costuma falhar (e quem nunca né?).

Viver com sabedoria. Nós precisamos ter a visão de Deus. Temos de nos enxergar como pessoas preciosas ao Senhor. Contudo, para que passemos a nos ver como Deus nos vê, é necessário que tomemos algumas atitudes. Isso requer obediência, submissão da vontade, mudança do coração e um espírito brando e dócil. Quando João Batista viu a Jesus, sua reação foi: É necessário que Ele cresça e que eu diminua (Jo 3.30). Em vez de buscar novidades, devemos focalizar e rememorar os valores bíblicos antigos; cuja observação nos mostra consequências eternas. E cuja reflexão nos faz abandonar as nossas convicções meramente humanas, nos apresentando verdades e valores divinos. Então a coisa mais importante é que, vivendo com sabedoria você tornar-se-á autêntico, e não um crente profissional, mendigando bênçãos em troca de jejuns, medindo horas de orações por vitórias temporárias.

“E digo isto a vós outros que conheceis o tempo: já é hora de vos despertardes do sono…” (Romanos 13.11.)

Será que realmente tem importância aquilo que pensamos de nós mesmos? Sim, tem. Se pensamos que somos lixo, nossa tendência será a agir como lixo.
Algumas pessoas não conseguem ter amigos, porque estão convencidas de que não têm nada a oferecer-lhes.
Enquanto acharmos que não prestamos para nada, enquanto estivermos preocupados com o que os outros pensam de nós, teremos muita dificuldade em amar o nosso próximo e até mesmo a Deus.
Quando ficamos no quarto, nos lamentando, com pena de nós mesmos, nos aproximamos do nível perigoso de achar que não temos valor nenhum.
Mas não somos “um joão-ninguém”, sem lugar no mundo. Deus nos criou e fez de nós um ser muito precioso.

E se por um lado precisamos encontrar uma forma moderada e controlada de fazer tudo aquilo que o homem tenha condição de fazer, desde que seja controlado interiormente pela razão e a sabedoria, condições estas que farão do homem uma pessoa verdadeiramente equilibrada em todas as suas atitudes; por outro, a vida cristã verdadeira passa pela fé cristã de um verdadeiro caráter cristão que está unido ao Espírito Santo e aos irmãos pelo vínculo da paz.

Temos de permitir que Deus e sua Palavra consertem nossas falsas ideias. É impossível uma pessoa viver de maneira certa, se seus conceitos são errados. Não podemos praticar a verdade, quando acreditamos num erro.
É falso o conceito de que Deus se agrada de uma atitude de auto depreciação, que ela é parte da humildade cristã e necessária à nossa santificação e desenvolvimento espiritual.
A verdade, porém, é que a auto depreciação não é a verdadeira humildade cristã. Essa atitude acha-se em oposição a alguns dos ensinos básicos da fé cristã.
O maior mandamento é que amemos a Deus com todo o nosso ser. O segundo é que amemos ao nosso próximo como a nós mesmos. Não temos aqui dois, mas três mandamentos: amar a Deus, amar a nós mesmos e amar aos outros.
Se você amar a Deus, a si mesmo e aos outros estará cumprindo toda a lei de Deus (Mateus 5.43-48). Esse é o eterno princípio do triângulo – um amor correto para com Deus, por nós mesmos e por outras pessoas.
A pessoa que possui uma imagem própria baseada no que Deus diz, é mais saudável, em todos os sentidos, do que aquelas que têm uma imagem própria negativa. Foi assim que Deus nos criou, e se agirmos de modo contrário, não apenas estaremos seguindo um conceito teológico errado, como também correremos o risco de ser destruídos.

“Porque, pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um.” (Romanos 12.3.)

Pensando com moderação, não iremos nem nos subestimar nem nos superestimar. É Satanás quem nos confunde e nos cega nessas questões, quando nos faz acusações: – Olhe aí, você está ficando muito orgulhoso…
Contudo a verdade é justamente o contrário. A pessoa que tem uma imagem própria negativa está sempre tentando se mostrar. Ela tem de provar que está certa, em todas as situações, tem de mostrar seu valor. E geralmente fica tão envolvida em si mesma, que se esquece do Senhor. Ninguém pode amar aos outros incondicionalmente, quando precisa ficar o tempo todo tentando provar seu valor próprio.
A autonegação não tem nada a ver com a humildade cristã, nem com a santidade. A crucificação do eu e a entrega pessoal a Deus não exigem uma autoimagem inferior, que é diferente do que o Senhor pensa de nós:

“Visto que foste precioso aos meus olhos, digno de honra, e eu te amei, darei homens por ti e os povos, pela tua vida.” (Isaías 43.4.)

Precisamos entender que nosso senso de valor próprio deve vir de Deus. Temos de formar nosso senso de valor próprio a partir do que Deus diz, e não dos falsos reflexos que vêm das outras pessoas, do diabo e, até mesmo, do nosso passado. Temos de fazer uma escolha que definirá a nossa vida:

– Vamos dar ouvidos a Satanás ( e todos que ele usa para nos incomodar) e a todas as mentiras que ele nos diz, às distorções e às mágoas do passado que nos mantêm aprisionados por certos sentimentos e conceitos acerca de nós mesmos, que não são cristãos nem saudáveis? Ou buscaremos nosso senso de valor próprio em Deus e em sua Palavra?

Além disso, a sabedoria nos apresenta os riscos do excesso e sua inutilidade. Algumas vezes pode ser perigoso, outras, inútil. Ela não proíbe o excesso. Proibir é próprio da lei e não da sabedoria. A sabedoria orienta ao cuidado. Muitos excessos são lícitos, ou seja, não são proibidos. Contudo, podem não ser convenientes. Cabe a cada um julgar com sabedoria cada situação. Isso é bem do estilo no tempo da graça. Permitamos que Deus nos ame, e deixemos que ele nos ensine a nos amar a nós mesmos, e a amar aos outros. Desejamos ser amados. Queremos que Deus nos dê segurança, que nos aceite. E, aleluia, ele faz isso. Contudo, por causa da programação nociva que recebemos de outras fontes, temos dificuldade em aceitar esse amor. Aliás, isso é tão difícil, que talvez prefiramos continuar a ser como éramos.
Querido, eu o desafio neste momento a iniciar esse processo de restauração, para que possa erguer bem alto sua cabeça, como filho ou filha de Deus.

Que Deus o abençoe hoje e sempre.

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FELICIDADE DOS MANSOS.

via FELICIDADE DOS MANSOS.

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O homem pós-moderno angustiado precisa de salvação

Segundo a Wikipedia, podemos chamar de angústia a forte sensação psicológica, caracterizada por “abafamento”, insegurança, falta de humor, ressentimento e dor. Na moderna psiquiatria é considerada uma doença que pode produzir problemas psicossomáticos. A angústia é também uma emoção que precede algo (um acontecimento, uma ocasião, circunstância), também pode-se chegar a angústia através de lembranças traumáticas que dilaceraram ou fragmentaram o ego. Diferentemente do medo ou da ansiedade, que são experimentados pela maioria das pessoas, a angústia acomete menos de 50% da população. À luz do filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard (1813-1855), a psicóloga Marília Dantas, da Universidade Estácio de Sá, em Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro, traduz o mal-estar: “O ser humano sente desamparo, incerteza, falta de controle diante da liberdade de decidir. Optar por um caminho significa correr riscos, abrir mão das alternativas. Isso é angustiante”.1

Angústia pode causar um sentimento de vazio. Fazer sentir conflitos diante das inúmeras possibilidades de escolhas no dia a dia e questiona o sentido de existir. Em casos extremos, essas pessoas são dominadas pela introversão. Elas perdem a capacidade de análise, de lidar com o cotidiano, de interagir socialmente. Podendo ficar paralisadas. Recentemente, a série americana “13 Reasons Why”2 levantou polêmica parecida porque dissecava os motivos do suicídio de uma jovem adolescente que se mata após uma sequência de episódios de bullying e frustrações.3

Cláudio Naranjo4 diz que “É normal não encontrar sentido na vida quando se está muito condicionado pelo mundo”.

E Shelley Prevost explica porque:

“Nossa sociedade reduziu o sucesso a uma lista de itens a serem preenchidos: formar-se no colégio, conseguir um(a) companheiro(a), ter filhos, sossegar num caminho profissional bem definido e ficar ali até que  os cheques da aposentadoria comecem a chegar. Esse caminho bem costurado coloca as pessoas na direção do conformismo, não do propósito. Estamos tão ocupados evitando medos auto-impostos de não sermos suficientemente (preencha aqui alguma qualidade) –  espertos o suficiente, criativos o suficiente, bonitos o suficiente – que raramente paramos e nos perguntamos “ estou feliz e satisfeito? E se não, o que eu deveria mudar?”5

Olhemos para este angustiado pós-moderno (um suicida em potencial?), apesar da sua não preocupação com a salvação, como todos os homens e mulheres do presente sofre as dificuldades da vida do Mal-Estar da Pós-Modernidade6, com suas incertezas existenciais, pois tudo ao redor parece mudar incessantemente, não lhe permitindo ter um projeto de vida, mas vivendo apenas o instante, com o medo de ser enviado ao depósito de lixo, buscando proteção no fechamento em si mesmo. Pode-se inferir que o fechamento do indivíduo em si mesmo, longe de protegê-lo, apenas faz com que aumente sua insegurança e medo. Ver-se-á adiante que a solução para esse e outros problemas do homem presente se dá na abertura para Deus e para o próximo, único modo de, ainda em vida, poder obter a salvação que muitas vezes se ignora precisar.

O homem pós-moderno, nos diz Bauman, vivendo apenas para o instante, “não deixa espaço para inquietações sobre qualquer outra coisa senão o que pode ser, ao menos em princípio, consumido e saboreado instantaneamente, aqui e agora. A eternidade é o óbvio rejeitado”. E prossegue dizendo: “A vida líquida é uma vida de consumo […]. O lixo é o principal e, comprovadamente, mais abundante produto da sociedade líquido-moderna de consumo”; desse modo, “para os que vivem na líquida sociedade moderna, a perspectiva de ‘viver-para-o-depósito-de-lixo’ pode ser a preocupação mais imediata”, e assim “a vida na sociedade líquido-moderna é uma versão perniciosa da dança das cadeiras, jogada para valer. O verdadeiro prêmio nessa competição é a garantia (temporária) de ser excluído das fileiras dos destruídos e evitar ser jogado no lixo”. Consequentemente, a sociedade líquida “milita contra o sacrifício das satisfações imediatas em função de objetivos distantes e, portanto, contra a aceitação de um sofrimento prolongado tendo em vista a salvação na vida após a morte”.
Se, por um lado, o homem líquido se vê numa situação angustiante, por outro lado ele ignora a solução para sua angústia, pois não consegue ver além do instante presente.
Essa sociedade líquida exclui “a possibilidade de uma segurança existencial coletivamente garantida e, em consequência, não oferece incentivos para as ações solidárias; no seu lugar, motivam seus destinatários a centrarem-se na própria proteção pessoal ao estilo do ‘cada um por si’”. Bauman aponta ainda que o empenho em concentrar a atenção na criminalidade e nos perigos que ameaçam a segurança física dos indivíduos e de suas propriedades está intimamente relacionado com a ‘sensação de precariedade’, e segue muito de perto o ritmo da liberalização econômica e da consequente substituição da solidariedade social pela responsabilidade individual.
Lembrando que a pós modernidade considera a comunidade cristã, a igreja, um mero apoio a sua verdade individual. Ou seja, o homem torna-se homem apenas nos relacionamentos sociais, uma vez que seu desenvolvimento é influenciado pela cultura em que é criado.

Mas o  problema começa quando você estende esse processo, imaginar como deve agir em relação aos outros, e inclui algo tão pessoal quanto o propósito da sua vida. Algumas pessoas tem nossa confiança e a capacidade de nos ajudar a encontrar nosso real propósito. Mas a maioria das pessoas, mesmo as bem intencionadas, escolhem muitas vezes nos colocar dentro de compartimentos que fazem mais sentido para elas. Para ganhar a aprovação delas, nós nos dispomos a entrar dentro do compartimento. Para manter a aprovação delas, você aprende a negar seguidamente quem você é. Não sem angústia ou um forte sentimento de não realização pessoal, frustração mesmo, porque estou vivendo o roteiro de outra pessoa.7

Logo, o problema do relacionamento do homem com a sociedade está em um mundo onde ninguém ou quase ninguém acredita que mudar a vida dos outros seja importante para a própria vida […] os vínculos humanos se afrouxaram, razão pela qual se tornaram pouco confiáveis, o que torna difícil o praticar a solidariedade, do mesmo modo que é difícil compreender suas vantagens e, mais ainda, suas virtudes morais.
Unida a esse problema está a sensação de incapacidade do homem atual em alcançar a solução almejada, conforme demonstra Bauman: “A insegurança e a incerteza nascem, por sua vez, da sensação de impotência: parece que temos deixado de ter o controle como indivíduos, grupos e coletividade”.8
Está claro que o homem pós-moderno, angustiado, precisa de salvação? De si mesmo, do mundo, dos outros. Uma salvação além da ruína espiritual em que toda a humanidade se encontra.

No mundo grego antigo, o termo salvar implica tirar algo ou alguém de um grave perigo. Também pode significar o curar de uma doença ou proteger algo de sua destruição. No uso religioso, o termo salvar pode apresentar tanto a noção de resgate dos perigos da vida, quanto a de preservar as coisas de perecer.
No Antigo Testamento, segundo a versão da Septuaginta, o termo grego σῴζω aparece no lugar do termo hebraico ישע (salvar, ajudar, libertar) e o termo σωτηρία é usado para os derivados do mesmo termo hebraico. O verbo ישע, no Antigo Testamento, significa em primeiro lugar ter espaço, pois ser levado a um lugar mais espaçoso remete à ideia de libertação. Os substantivos advindos desse termo hebraico compreendem tanto a libertação quanto o estado de salvação que se segue. No livro de Juízes, há um ser superior que traz libertação a um inferior através de uma intervenção: “quando os sidônios, Amalec e Midiã vos oprimiam, e vós clamastes por mim [Deus], não vos salvei das suas mãos?” (Juízes 10, 12). Em Isaías, toda salvação que não provém de Deus é limitada e por isso o povo de Israel deve esperar a salvação de Deus e não de outra coisa qualquer. Deus aparece como o verdadeiro herói e juiz que salva seu povo, enquanto que os ídolos e astrólogos não são capazes de salvar (cf. Isaías 45, 20; 47, 13 e Deuteronômio 33, 29). Por isso o povo de Israel deve pedir a Deus que o salve dos males da injustiça, da violência, das enfermidades, das prisões, dos ataques jurídicos e dos ataques externos. Também se frisa a ideia de que para ser salvo por Deus é preciso confiar em Deus (cf. Salmos 22, 5; 37, 40). Se há alguma salvação humana, ela passa antes por Deus, fonte de toda a salvação.
No Novo Testamento, a salvação também é usada no contexto de cura de uma enfermidade (cf. Atos 4, 9; 14, 9), porém se estende a algo além do âmbito físico, como quando Jesus diz à pecadora que a sua fé (dela) a salvou (cf. Lucas 7, 50). Cabe notar aqui que o próprio nome de Jesus é ligado à salvação, como aparece no Evangelho de Mateus: “Tu o chamarás com o nome de Jesus, pois ele salvará o seu povo dos seus pecados” (Mateus 1, 21). O termo σωτήρ, por sua vez, remete ao Messias, como consta na Boa Notícia anunciada pelos anjos aos pastores de Belém em Lucas 2, 11.27 No Evangelho de Marcos, vemos a menção de uma salvação escatológica além da simples vida terrestre: “Pois aquele que quiser salvar a sua vida, irá perdê-la; mas, o que perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, irá salvá-la” (Marcos 8, 35). Nas epístolas de Paulo há uma clara preocupação pela salvação (cf. Romanos 10, 1) e se transmite a ideia de que homens, dentre os quais o próprio Paulo, podem colaborar na salvação de outras pessoas (cf. Romanos 11, 14; I Coríntios 9, 22). Enfim, temos o termo σωτήριος o qual aparece na carta a Tito (cf. Tito 2, 11) em que a salvação não é vista de modo restritivo, e sim aberta a todos os homens. Além disso, o livro do Apocalipse retoma o tom veterotestamentário de vitória ligado ao conceito de salvação, no qual os vencedores confessam que a salvação provém de Deus (cf. Apocalipse 7, 10).9
Vemos até aqui que o homem, de qualquer época, tem, em algum momento da vida, alguma relação com a noção de religião, seja ela favorável ou não. Se por um lado, como investiga Pascal Boyer, ter um cérebro normal humano não implica que alguém tenha uma religião, mas apenas que pode adquirir uma10, por outro lado, essa capacidade de aderir a uma religião faz com que todo homem, e não apenas o religioso, se depare com a noção de religião e salvação, mesmo que, às vezes, somente de modo implícito, isto é, sem pensar de modo claro e distinto nas palavras salvação ou religião. Assim, temos que “a religiosidade, portanto, é inerente ao ser humano enquanto crer que a vida tem um sentido, e quem o busca, já é de algum modo ‘religioso’, mesmo sem religião”.
O livro dos Atos dos Apóstolos descreve a preocupação deste homem religioso com sua salvação individual quando o carcereiro pergunta a Paulo e Silas:
“Senhores, que preciso fazer para ser salvo?” (Atos 16, 30), ao passo que eles respondem:
“Crê no Senhor e serás salvo, tu e a tua casa” (Atos 16, 31), mostrando que a salvação não deve ficar restrita apenas ao carcereiro, mas que ela atinge ainda outras pessoas. Além disso, pode-se supor nessa passagem um movimento no carcereiro de “uma noção puramente física de salvação ou cura para o conceito de salvação tornado possível através da morte e ressurreição de Jesus Cristo”.
Do ponto de vista antropológico, o homem, desde longa data, percebe-se aquém da felicidade plena que deseja, depara-se com o mal no mundo e constata que precisa de uma salvação para sair dessa situação e alcançar seu fim adequadamente. Todavia, ele também percebe que não é capaz de se salvar sozinho, pois se percebe limitado. Tal situação é captada pela frase de Agostinho no seu livro Confissões: “porque [Deus] nos criastes para Vós e o nosso coração vive inquieto, enquanto não repousa em Vós”11. A tradição teológica ocidental também expõe essa visão acerca da salvação, como se pode ver no livro dirigido por Sesboüé:

“Mas em que consiste a salvação? Comporta, sem a ela se reduzir, à libertação de uma situação global de pecado que afeta a humanidade, situação vinculada à falta de Adão”12.

Disso decorre uma necessidade de salvação para todo e qualquer homem vinculado à falta de Adão: O homem pecador está numa situação de necessidade radical de salvação. O homem criado, de algum modo, já estava nessa situação, pois não podia realizar seu fim, a comunhão com Deus, por suas próprias forças. Ele tinha necessidade da iniciativa gratuita pela qual Deus lhe daria essa comunhão de vida e de amor. Temos assim, sob essa ótica antropológica, o homem que precisa de salvação. Do ponto de vista teológico, como já vimos na análise do conceito salvação nas Escrituras, temos Deus como fonte de toda salvação. Desse modo, o homem que se afasta de Deus, se afasta justamente da própria salvação, mantendo-se no estado de inquietude sem os meios de sanar seu problema. Para sair desse estado, o homem precisa do arrependimento de suas faltas que é, segundo Deus, o que leva à salvação estável (cf. 2 Coríntios 7, 10).
E, sobre a angústia humana e como curá-la, até que ponto a rica simbologia de celebrações da fé cristã, a confiança no amor gratuito de Deus, a abertura ao dom da sua misericórdia etc., não têm influência favorável na saúde psíquica? E de maneira mais geral, a religião tem uma função terapêutica? Penso que as respostas a estas perguntas merecem um aprofundamento maior. Não deveriam ser deixadas de lado por uma teologia preocupada com a libertação do ser humano inteiro, em todas as suas dimensões.
E uma pergunta que deve ser feita aqui é: a fé cristã ajuda o angustiado homem pós-moderno a viver melhor? A fé cristã ajuda a superar a angústia existencial das pessoas próximas de nós? Não há dúvida de que precisamos nos situar em sintonia com a sensibilidade do homem e da mulher na pós-modernidade. Ou teremos que dar razão aos críticos da racionalidade moderna, unilateral e objetivista, que denunciam, constantemente, a dureza da investigação exegética que tem tornado a Palavra de Deus algo árido, frio, desprovido de amor e cuidado com o próximo, o que a faz inassimilável existencialmente. Claro que não estou pedindo para sufocar o texto bíblico com psicologia e filosofia humanista, mas para continuar no mesmo espírito pelo qual nos foi dada a revelação: para que todos sejam um em Cristo Jesus, saudáveis e completos. Salvos, na melhor acepção da palavra.

 

1-https://saude.abril.com.br/bem-estar/angustia-e-doenca-e-tem-cura/
2-https://pt.wikipedia.org/wiki/13_Reasons_Why
3-https://noticias.r7.com/prisma/coluna-do-fraga/alerta-para-risco-de-suicidio-lesao-autoprovocada-atinge-82-mulheres-por-dia-no-brasil-e-avanca-200-na-decada-27122017
4-https://pt.wikipedia.org/wiki/Claudio_Naranjo
5-Sobre a Shelley – https://www.linkedin.com/in/shelley-prevost-a8521428/
6-Livro de Bauman escrito em 1997.
7-Idem ao 4
8-http://revistas.pucsp.br/index.php/reveleteo – Revista Eletrônica Espaço Teológico ISSN 2177-952X. Vol. 9, n. 16, jul/dez, 2015, p. 75-90.
9-idem ao 8.
10-Cf. BOYER, Pascal. Religion explained: the evolutionary origins of religious thought. New York: Basic Books, 2001, p. 4.
11-AGOSTINHO. Confissões. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1999, parte 1, livro 1, capítulo 1, p. 37.
12-SESBOÜÉ, B. (org.). História dos dogmas: tomo 2. O homem e sua salvação. São Paulo: Loyola, 2003, p. 168.

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Nós enxergamos o que temos vontade?

Nós vivemos em uma época onde o comportamento das pessoas está sendo orientado totalmente para aquilo que é visual, onde os valores, para dizerem algo ou valerem a pena, deverão ser os estéticos e apenas estes. Somos treinados e domesticados para buscarmos tudo que é belo e visualmente impactante.

Hoje a nossa cultura depende de escritores, diretores, atores e outros artistas para sonhar. Podemos ver, por exemplo, que os filmes veiculam, em nível simbólico, as angústias, ansiedades e esperanças próprias aos nossos tempos. São uma trilha simbólica segura para compreender, em profundidade, a época em que acontecem. E mais que um sonho, trata-se, portanto, de um pesadelo coletivo[1].
Ou, melhor dizendo, tem valor apenas o que encanta, deixa extasiado ou prende e apreende o meu olhar. Mas o que tem atraído as pessoas é apenas fumaça. Algo que se esvai com o alvorecer do dia, feito neblina; pois a vida real é muito mais profunda do que estamos sendo acostumados a acreditar ou ver. Por isso desconfio que estão diluindo a nossa realidade com arte e entretenimento full time, com ativismos meramente desviantes, com o altruísmo de  ocasião para dar visibilidade apenas ao ego, e cada dia um pouco mais. E por não percebermos isso, que somos doutrinados desde cedo, que chegamos à maturidade sem condições de auto norteio, somos incapazes de reconhecermos valores reais e de manifestar um caráter seguro e bem formado. Parafraseando  Jonas Madureira[2], estamos aprisionados confortavelmente em nossa caverna platônica, olhando as sombras através das nossas telas touch screen, incapazes de abrir mão do nosso conforto. Por isso voltamos para o fundo de nossas existências admirando a beleza das sombras que nos chegam através do wi-fi; onde vivenciamos uma geração extremamente teórica, sem muita prática e/ou real interesse pela mesma. Acredito que a atual inversão de valores, em que o parecer é decididamente mais importante do que “Ser“, em todos os possíveis sentidos, acaba por nos criar a estranha mania de apenas testemunhar e relatar o que nos cerca. E isso se transforma em uma deplorável dificuldade quando é necessário agir[3].

Além disso nossa sociedade acredita que apenas relacionando intuição e razão construiremos um caminho livre para uma vida produtiva, centralizada na forma e baseada em experiências individuais. Onde é importante assumir a própria subjetividade e não ceder aos padrões impostos pela sociedade dita arcaica. Isto é um claro incentivo para as pessoas resistirem aos padrões estéticos e de comportamento moral anteriores, dados pela sociedade para apenas viverem do seu próprio jeito. Em longo prazo este subjetivismo individualista relativizado, esta liquidez moral e autofagia intelectual produzirão bordas limítrofes sociais tão borradas que um caos pior do que houve em Sodoma e Gomorra será a mais triste e diária realidade deste mundo.
Mas se as virtudes e os valores morais são muito mais necessários que adornos e coisas atraentes, mais do que o prazer de realizar os meus desejos unicamente, porque não seguimos orientados por estes valores morais reais?

Porquê o valor estético, que tem permeado quase todo o pensamento moderno, nos tem feito dependentes da liberdade provocada pelas sensações e emoções despertadas em nós; esta sociedade pós moderna não tem outro propósito senão tornar a vida mais fácil para poetas, artistas, intelectuais e revolucionários, enquanto eles a tornam mais difícil para os outros. E porque somos indivíduos diferentes em nossos desejos e vontades, observamos tudo sob perspectivas diferentes, percebendo valores diferentes em tudo também. Logo, nesta disputa velada, a vitória caberá a quem possuir a maior habilidade retórica e poder político, ao mais adequado ou ao mais esperto; tudo engolfado pela interpretação pragmática, individualista pós modernista. Nas palavras de Roger Lundin[4]:

“Em vez de apelar à autoridade alheia a nós, podemos somente procurar pôr em ordem nossas habilidades retóricas para promovermos as batalhas políticas necessárias para proteger nossas próprias preferências e proibir expressões de preferências que nos ameacem ou incomodem”.

Isto porque a sociedade pós moderna é uma sociedade de pragmatistas, onde a verdade será sempre aquilo que funciona, ou mudada, para promover as preferências pessoais e corporativistas, os prazeres privados tão somente. Por isso onde uma imagem religiosa puder despertar um sentimento do sagrado em uns, para outros poderá ser uma obra de arte menor ou ainda, um mero artesanato, enfeite. Ou como temos visto ultimamente, uma manifestação pode ser artística para uns e profundamente vexatória, desrespeitosa ou intimidatória para outros[5].

Seguindo este raciocínio, podemos perceber que apesar de todos precisarem de luz, poucos podem discernir entre a luz real e aquela produzida artificialmente. Uns por medo, outros por ignorância, e ainda outros por preguiça ou acomodação. Por isso mesmo a depressão das relações e o individualismo passam por uma relativização dos valores, pela desconstrução do ser na existência moral e social.

E sem fé em si ou em algo verdadeiro fica impossível acreditar que vale a pena seguir em frente.

No caso cristão, quando o cenário da vida humana afasta-se do contexto bíblico, do propósito de Deus, cria-se um ambiente de ausência de sentido, para nada mais definitivo do que os sistemas sempre mutáveis e relativos da própria iniciativa humana, onde a sociedade pós moderna quer ser criadora de seu próprio destino, para poder viver a vida sem restrições divinas ou dirigida por quaisquer regras sagradas; onde seus membros agem apenas para tornar real as causas profanas, contingentes e cegas que produzem, e os artefatos e instituições que criaram para si mesmos. A verdade, nestes casos, é meramente uma convenção linguística e cultural, onde os valores e virtudes tornam-se relativos e dependentes dos sentimentos envolvidos. Por isso Lutero dizia “sentimentos vem e vão. Sentimentos são enganosos”.

Ora, as emoções são estados do ser, enquanto os sentimentos são expressões individuais e pessoais dessas emoções. Mas o que determina os sentimentos das pessoas? Isso leva-nos a outra pergunta: As pessoas falam sobre o que elas acreditam? Eu percebi que na maioria dos casos, não. Na verdade, a maioria das pessoas não tem certeza do que elas realmente acreditam além do que lhes foi ensinado, ou seja, do que estão programados para acreditar. Ora, o que você percebe é o que você acredita[6] (Ou seja, nós só enxergamos o que temos vontade!). Sua percepção pessoal da realidade é determinada pelas crenças que você possui. Isso não vai necessariamente torná-las reais, apesar de você acreditar que elas são. Suas crenças criarão e ditarão quais são suas atitudes. Suas atitudes criarão e ditarão suas respostas, em outras palavras, ditarão seus sentimentos. E são os sentimentos que determinam em grande parte como você se comporta. O problema de uma vida voltada exclusivamente para o belo, para a beleza e o que é bonito está nisto: o prazer (é a ligação principal que Kant faz com o belo), por ser subjetivo, é desprovido do sentido de conhecimento, não está vinculado à realidade de um objeto ou fenômeno, o prazer que o belo proporciona vem apenas das representações sensivelmente apreendidas[7]. São os sentimentos oriundos das sensações agradáveis que emite o juízo do belo, induzindo o desejo de permanecer usufruindo tais sensações. O interesse imediato diante das sensações prazerosas é de continuar sentindo prazer (posso dizer que isso é a base filosófica para o hedonismo através dos tempos?). Ora, se vivemos buscando só o que é belo e bonito, segundo Hegel, isto seria uma tentativa de transpor a realidade dura e cruel da vida cotidiana e ao mesmo tempo projetar para si mesmo exemplos a serem seguidos. Por isso hoje falamos muito em ter empatia, ser altruísta. Criar modelos que personifiquem estes desejos.

Vou te contar: Se existe um lugar onde pode se refugiar em segurança, este lugar é na verdade. Não negue seus afetos, suas alegrias, suas vitórias e desejos, mas principalmente, não negue sua dor. A gente só sai da tristeza quando se permite vivenciá-la. Pode ser que um dia você sinta que seus olhos enxergam melhor quando estão úmidos. Isso acontece porque a lágrima lubrifica a visão, enquanto a tristeza nos reconecta ao que de mais verdadeiro existe em nós. Então chore, chore, e não disfarce seu abandono, sua decepção, raiva e frustração.[8]

A moderna religião portanto parece basear-se apenas em sentir-se bem com suas ações e comportamentos, produzindo bem-estar para si e o outro. Buscar e produzir qualidade de vida significa buscar embelezar e fazer tudo mais bonito, neste caso, criar um ambiente confortável e agradável, real ou não, em que o eu pudesse existir, apaziguando os sentimentos e equilibrando as emoções das pessoas. Algo que pode ser produzido rapidamente e construído com recursos estéticos. Infelizmente isto não basta para vivermos bem. Parafraseando Charles Chaplin[9]:

(…) Nosso conhecimento nos fez críticos, nossa sabedoria, duros e rudes. Nós pensamos muito e sentimos pouco. Mais que maquinário, nós precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de bondade e ternura. Sem essas qualidades, a vida será violenta e tudo estará perdido. (…)

Antes dele, Jesus já nos ensinava que “onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mateus 6.21), ou seja, quase sempre a busca do homem e por alguma coisa que lhe traga benefício, que lhe dê prazer. É quase uma troca de favores. Faz-me isso que eu te dou aquilo. Jesus ensinou que o valor dado às coisas está relacionada com os benefícios à nosso coração. Por isso digo: “Vivam pelo Espírito, e de modo nenhum satisfarão os desejos da carne” (Gálatas 5:16).

1-http://obviousmag.org/andre_camargo/2015/05/como-nao-virar-um-zumbi—vivendo-em-tempos-liquidos.html#ixzz4qpSm903f

2-https://www.youtube.com/watch?v=IDiPzCEUR7Y

3-http://obviousmag.org/oeduardocabraldigitou/2015/04/a-geracao-t-e-seus-estranhos-valores.html#ixzz4puUB7rIp

4-Christopher A. Hall, Lendo as Escrituras com os pais da Igreja – tradução Rubens Castilho, Viçosa: Ultimato, 2000, pág 35.

5-https://jornalivre.com/2017/10/08/rede-globo1-defende-exposicao-do-mam-com-crianca-e-revolta-a-internet/

6- https://www.psychologytoday.com/blog/in-flux/201211/you-are-what-you-believe

7- http://sheilaestetica.blogspot.com.br/2012/06/o-que-e-estetica-na-teoria.html

8-http://lounge.obviousmag.org/fabiola_simoes/2015/04/carta-para-coraline.html#ixzz4m6J4woRt

9-https://youtu.be/gmMVrAC1Acc

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Você também só vê as nuvens?

Phillipe K. Dick escreveu uma vez:

Realidade é aquilo que, quando se deixa de acreditar em sua existência, não desaparece.

O grande esforço que a modernidade cumpriu para submeter o mundo a uma ordem racional, criada pelo homem e, portanto, conhecida em seus princípios e em sua dinâmica, viu a ciência como o referencial principal. Porém, são os filósofos modernos que afirmam a idéia de que é a razão que deve descobrir a ordem escondida por trás do aparente caos do mundo, só ela pode apontar os estáveis princípios universais nos quais se fundam o ser e a existência, transcendendo o senso comum, constituído de meras opiniões e crenças (Bauman, 1999, p. 29–35).

Bem, o mundo contemporâneo se define pela maneira de viver e compartilhar referências comuns em um mesmo período de tempo. Ou seja, contemporaneidade é pensar na condição humana como em perpétua redefinição. Mas o indivíduo contemporâneo é, sem nenhuma dúvida, mal circunscrito, sempre à espera da sua legitimidade, sempre por detrás de um desejo, sempre alheio e ainda assim, exigente ator, criador… Observamos, em muitas situações um cidadão solitário, anônimo demais apesar de compartilhar referências comuns. Por isso, a decisão pela promoção do indivíduo e o seu desenvolvimento pessoal é o único progresso capaz de nos fazer alcançar um ideal de modernidade. É no cotidiano destes indivíduos que encontraremos elementos para distinguir sua verdade dos erros cometidos no passado e auxiliar os mesmos a progredirem neste mundo globalizado1, onde vivemos, segundo Bauman, numa época líquida “vigiada” pelo Big Brother das redes sociais. Onde a vida é líquida. Desperdiçada. Sem referências sólidas. E nosso futuro se dissolve em água, em dinheiro, em estratégias interesseiras. Olhamos para este mundo como um mercado de tudo, inclusive de afetos. É nesta sociedade pós moderna onde o conceito de self foi banalizado por rostos posados ensaiadamente que percebemos algo do vazio e do consumismo da nossa era: é o aparecer pelo prazer de aparecer, o exibicionismo descontextualizado e esvaziado de qualquer essência.

Se, por um lado, o homem contemporâneo se vê numa situação angustiante, por outro lado ele ignora a solução para sua angústia, pois não consegue ver além do instante presente. Em sociedade, o homem contemporâneo vive em um círculo vicioso de medo e insegurança que é alimentado através de práticas que “reafirmam e contribuem a produzir a sensação de desordem” como, por exemplo, a compra desenfreada de carros blindados e câmeras de vigilância. Essa sociedade contemporânea exclui “a possibilidade de uma segurança existencial coletivamente garantida e, em consequência, não oferece incentivos para as ações solidárias; no seu lugar, motivam seus destinatários a centrarem-se na própria proteção pessoal ao estilo do ‘cada um por si’”. Bauman aponta ainda que o empenho em concentrar a atenção na criminalidade e nos perigos que ameaçam a segurança física dos indivíduos e de suas propriedades está intimamente relacionado com a ‘sensação de precariedade’, e segue muito de perto o ritmo da liberalização econômica e da consequente substituição da solidariedade social pela responsabilidade individual.2
Infelizmente, pela quebra violenta da tessitura que antes envolvia a família e o longo período em que filhos ficavam sob a tutela dos pais e da família extensa, os que precisam receber educação não têm à sua disposição o reforço do exemplo, a presença dos guardiães, enfim, há uma desestruturação da família e as comunidades foram perdendo a sua característica educadora por excelência porque os controles face-a-face passaram a se tornar praticamente impossíveis. Há todo um arcabouço sócio-cultural modificado pelas mudanças profundas porque passam todas as instituições sociais que têm a seu encargo o cuidado com os “neófitos” e as organizações que visam lucros imediatos como as gangs e todo tipo de grupo contraventor se tornam rapidamente capazes de usar o dinamismo do ser infanto-juvenil para obterem rapidamente os seus objetivos.
Quando a gente estuda socialização nos capítulos iniciais de sociologia da educação, percebe que a socialização também pode ser usada para preparar novos membros de gangs, os sistemas de lealdade estão profundamente modificados na sociedade de massas. Veja-os no Oriente Médio nas pessoas-bombas se imolando, os jovenzinhos usados em guerras e bem próximo de nós, nas Farc e no tráfico.
Há toda uma discussão filosófica e sociológica que tem de ser trazida constantemente a primeiro plano, para discutir toda a problemática da educação das novas gerações numa sociedade profundamente conflitada em seus valores básicos. O problema do relacionamento do homem com a sociedade está em um mundo onde ninguém ou quase ninguém acredita que mudar a vida dos outros seja importante para a própria vida […] Os vínculos humanos se afrouxaram, razão pela qual se tornaram pouco confiáveis, o que torna difícil o praticar a solidariedade, do mesmo modo que é difícil compreender suas vantagens e, mais ainda, suas virtudes morais.3
Unido a esse problema está a sensação de incapacidade do homem atual em alcançar a solução almejada, conforme demonstra Bauman:

“A insegurança e a incerteza nascem, por sua vez, da sensação de impotência: parece que temos deixado de ter o controle como indivíduos, grupos e coletividade”.4

E ainda acrescento o que Kierkegaard dizia:

“A decepção mais comum é não podermos ser nós próprios, mas a forma mais profunda de decepção é escolhermos ser outro antes de nós próprios.”

E sobre alienação, Kierkegaard aborda o tema como sendo uma falta de consciência por parte do ser humano de que ele possui responsabilidade para ditar sua história, ou moldar sua existência. A alienação retrata o mistério de ser ou não ser. Uma pessoa alienada carece de si mesmo, evita, tornando-se sua própria negação. Os exemplos mais evidentes de alienação são encontrados nos meios de comunicação em massa (casas, escolas, universidades, igrejas, partidos políticos, mídias monopolísticas, etc).
Os meios de comunicação em massa costumam distorcer e comprometer a veracidade dos fatos, pois segundo Kierkegaard, as verdades são encontradas junto à minoria. Se usarmos o último resultado das eleições americanas (2016) como ilustração para esta declaração teremos que concordar unânimes. Em oposição à maioria, o geral, o aceito e o não abstrato, Søren Kierkegaard transferia para o indivíduo a função de refletir e questionar sobre o que lhe é concreto.5
Ora, a partir da ideia que tudo tem um significado escondido, esbarra-se fatalmente na concepção de uma intenção. Quando a vida é encarada como um desenho, logo se chega a vê-la também como uma execução de um plano, questionando quem seria o responsável por seu traçado. Essa intuição que nos acomete a todos de maneira mais ou menos vergonhosa atinge sua medida plena em dois sistemas de pensamento: o primeiro era a fé religiosa (“Agora estamos nos vendo num espelho sombrio, mas um dia chegaremos a ver e seremos vistos face a face…”) e o segundo, a paranóia (“Estaremos noutro ponto da floresta, onde sempre haverá uma criança com seu urso.”), tinha chegado a hora de fazer as pazes com a áspera sabedoria de Lucrécio: “Não sentiremos mais nada porque não sentiremos mais”; não existirá mais ninguém para ser visto frente a frente à luz plena, e aquilo que agora se acredita estar vendo num espelho sombrio não passa de nosso reflexo deformado pelo medo de morrer e de ter sofrido sem razão. Por mais que, nas sociedades agnósticas modernas, esse materialismo faça as vezes de expressão oficial do bom senso, poucos eram os homens que, no fundo do coração, se resignavam verdadeiramente a isso de tanto que seus desejos tinham sido feridos. Apesar de tudo, queremos acreditar em algo, encontrar um sentido.6

Os existencialistas como Kierkegaard também explicam porque algumas pessoas se sentem atraídas à passividade moral evitando-se no desafio de tomar as próprias decisões. Seguir ordens é fácil; consentir também, pois isso requer pouco esforço emocional em fazer o que é mandado.
Ou seja, se a ordem não for lógica, não cabe ao mandatário questionar. Deste modo, os existencialistas podem explicar as motivações históricas de guerra, genocídios em massa são melhor compreendidos e lavagens cerebrais podem ser facilmente percebidas. As pessoas, nesses casos sucumbidas à submissão de uma força maior, estavam apenas fazendo o que lhe foi dito.7

Os genocídios do século XX, “os casos mais documentados de engenharia social global na história moderna (aqueles presididos por Hitler e Stalin)”, não foram aberrações extemporâneas ou “explosões de barbarismo ainda não plenamente extintas pela nova ordem racional da civilização”, mas foram “um produto legítimo do espírito moderno”. Seus ideais não foram “utopias alheias ao espírito da modernidade”, mas atuações coerentes, até suas últimas conseqüências, com os planejamentos da ciência e da política modernas.8

A visão nazista de uma sociedade harmoniosa, ordeira, sem desvios extraía sua legitimidade e atração dessas visões e crenças já firmemente arraigadas na mente do público ao longo do século e meio de história pós-iluminista, repleta de propaganda cientista e exibição visual da assombrosa potência da tecnologia moderna (Bauman, 1999, p. 38).

Fato é que vivemos num mundo de surdos sem deficiência auditiva. É um mundo de faladores compulsivos o nosso. Compulsivos e auto-referentes. Não conheço estatísticas sobre isso, mas eu chutaria, por baixo, que mais da metade das pessoas só falam sobre si mesmas. Seu mundo torna-se, portanto, muito restrito. E muito chato. Por mais fascinantes que possamos ser, não é o suficiente para preencher o assunto de uma vida inteira.9 E quando não escutamos o mundo do outro, não aprendemos nada. Acontece com o chefe que não consegue escutar de verdade o que seu subordinado tem a dizer. A priori ele já sabe — e já sabe mais. Assim como acontece com a mulher que não consegue escutar o companheiro. Ou o amigo que não é capaz de escutar você. E vice-versa.10

Por isso a grande maioria dos indivíduos só conseguem ver nuvens, ou seja às circunstâncias momentâneas, porque suas vidas estão fechadas em bolhas que tornam a sua visão de mundo distorcida. Em sua presunção, julgam tudo só pela aparência das coisas, são estas circunstâncias que impedem uma correta visão da realidade. E a realidade de suas vidas já foi expressa no texto bíblico do Novo Testamento:

“De onde vêm as guerras e contendas que há entre vós? Não vêm das paixões que guerreiam dentro de vocês” (Tiago 4.1, NVI)?

Por isso a pergunta cristã “que é a vossa vida?” além de ser uma reprimenda, também é uma resposta dura e inflexível. A vida, na melhor das hipóteses, vista à luz da eternidade, é apenas como neblina que aparece por instante e logo se dissipa. É como o vapor que sai de nossas bocas num dia frio. A vida é breve e imprevisível, mas as pessoas cheias de presunção não refletem sobre isto. Não conseguem enxergar o mundo a não ser por “uma certeza insolente e vazia, arrogância, que confia em seu próprio poder e recursos, que despreza o governo divino”.

Já o cristão sábio considera atentamente a futilidade de toda e qualquer presunção humana, e por isso mesmo submete seus desejos e planos ao Senhor. O humanismo é uma filosofia que coloca o homem no centro do palco: o homem torna-se o senhor da própria história. Em resumo, é a fé no homem com todo o seu potencial interior, pois a interferência de Deus não existe. O humanismo exclui Deus porque crê que os seres humanos são suficientes em si mesmos. Esta filosofia está muito ligada com a ideia em moda atualmente: “eu quero, eu posso, eu consigo”. As grandes corporações, midiáticas ou não, propagam e incentivam a independência e a autonomia humana, para realizar tudo sem depender de ninguém. O humanista faz seus planos numa redoma de auto-suficiência. O humanista é alguém dominado pela arrogância e por isso desconsidera a brevidade da vida. Apesar de não saber o que vai acontecer amanhã, ele vive como se soubesse.11 Ou seja, as pretensões humanas são carregadas de presunção, egoísmo e alienação.

Bem, sozinhos ou não, precisamos começar a raciocinar e perceber correlações e fatos. Sermos mais solidários. E, principalmente, começar argumentar no dia-a-dia, porque quase nunca fazemos isso. Geralmente, tomamos um partido e passamos a defendê-lo de forma passional, enxergando só o que nos interessa. Somos bons de discutir, mas ruins para argumentar. Piores ainda para mudar de ideia. O que parece ser uma estratégia não muito inteligente para encarar essa nova sociedade em que conversamos com muito mais gente, sobre muito mais coisas, todo santo dia. Efetivamente, é difícil tentar entender algo ao meio de tantas informações prontas, de tantas vozes, mesmo que falando em nome de tão poucas pessoas. É mais fácil, então, reproduzir. E se esse discurso não atrapalhar o meu conforto, mais fácil ainda. E acabamos por não perceber, ou não queremos enxergar, que tudo isto está nos levando cada dia mais a buscar segurança e estabilidade no anonimato, pois “quanto menos me envolvo menos preciso tomar uma decisão”, não preciso reagir. Nada é mais contemporâneo. As referências (cristãs) familiares, sociais, morais e éticas foram, a muito, banidas de nossa sociedade. Antes de ser uma mutação benéfica, isto é um verdadeiro carcoma global. Ninguém é poupado e a sociedade como um todo, perde indivíduos, estabilidade e sua qualidade de vida. A barbárie impera principalmente porque o método de combate da violência focado em nichos sociais e em determinados espaços e instituições, não diminui a criminalidade e não aprimora o relacionamento entre os indivíduos. Penso que o foco deveria estar na reabilitação do ser humano em grau máximo, amplo e irrestrito. Quer seja reabilitar o indivíduo que está engajado no contexto de violência e de caos urbano, quer seja reabilitar as “células-tronco” da sociedade: as famílias.12

Tudo isso tem nos apontado uma verdade paradoxal da humanidade ocidental: o cristianismo está em toda parte, o cristianismo não está em parte alguma. Todos, crentes, fanáticos ou homens de pouca fé, e não crentes conhecem Jesus, mas, vistos os pensamentos e palavras, atos e omissões desses homens, poucos praticam o cristianismo e, se o fazem, não se sabe se de coração.13 Por outro lado, é significativo e arrebatador o número daqueles que, mesmo não sabendo quem foi, reagem positivamente, de corpo e alma, as ideias dos mais variados pensadores, antigos e modernos, gurus ou loucos.

Comecei este texto com Philip K. Dick e finalizo com ele:

Não tenho como garantir que você esteja errado ao não acreditar em mim, mas posso garantir que você também não teria acreditado em São Paulo. Você teria dado de ombros, falado em epilepsia ou num acesso de um doidivanas, assim como um bando de judeus devotos e gregos cultivados. OK, não tenho nada a dizer contra isso. Também não tenho nada a dizer contra os ecologistas ferrenhos que, por mais que eu ache uma extravagância conceder às árvores e aos animais os mesmos direitos jurídicos que têm os homens, alegam que um tempo atrás não achávamos menos extravagante a possibilidade de conceder este mesmo direito às mulheres e aos negros. Não tenho nada a dizer contra as pessoas que, depois de admitir que aos olhos de nossos ancestrais as tecnologias modernas pareceriam magia, obrigam-me a admitir que as coisas que agora nos parecem ser inexplicáveis e perturbadoras, como você colocou muito bem, e as quais eu escondo embaixo do tapete com uma vassoura, um dia virão a integrar o campo da ciência: aqueles que hoje negam a percepção extra-sensorial teriam condenado Galileu no passado. Pessoalmente, eu desconfio disso.14

1- Texto baseado em tradução feita pelo autor de No lugares: Introducción a una antropología de la sobremodernidad, Marc Augé (1992).
2- BAUMAN, Zygmunt. Vida Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007, p. 22–42.
3- Idem ao 2.
4- Idem ao 2.
5- http://www.laparola.com.br/soren-kierkegaard-e-o-existencialismo
6- http://nanquin.blogspot.com/2016/09/jorge-xerxes-versus-philip-k-dick.html#ixzz4XBDNDaPS (grifos do autor).
7- Idem ao 5.
8- BAUMAN, Z. 1999. Modernidade e ambivalência. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 334 p.
9- http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI94063-15230,00-POR+QUE+AS+PESSOAS+FALAM+TANTO.html#
10 — https://www.youtube.com/watch?v=tyvKlN2Cj1M
11- http://pt.slideshare.net/marckmel/sermo-em-tiago-41317
12- https://oficinadopinduca.wordpress.com/2011/04/16/a-globalizacao-o-anonimato-e-os-cristaos-contemporaneos/
13- http://cultura.estadao.com.br/blogs/estado-da-arte/hai-capito-mio-san-benedito-nunca-lhe-vi-sempre-lhe-admei/
14- Idem ao 6.
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