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Devocionais para não devotos 59
Acabei de ler uma revisão atualizada que resume a história do Pinóquio como uma fábula de Esopo em uma tese clara: não se comporte mal ou coisas ruins acontecerão com você. É uma história icônica e ainda está viva mais de 80 anos após o clássico sucesso da Disney nos cinemas e quase um século e meio desde que o romance foi publicado. É uma história cheia não apenas de magia, capturada de forma mais eloquente em algumas adaptações do que em outras, mas também de uma mensagem moral que pode servir como bússola para as crianças à medida que se deparam com as inúmeras encruzilhadas que enfrentarão em sua odisseia de crescimento.
É evidente que o foco de Carlo Collodi ao escrever As Aventuras de Pinóquio foi convencer as crianças a se comportarem. Mais do que isso, a obra busca promover o cultivo das virtudes, como a honestidade e o altruísmo. Suas lições morais ainda alertam para os perigos das tentações e para as consequências dos vícios. Ao mentir, por exemplo, Pinóquio vê seu nariz aumentar, e ao entregar-se aos vícios e à irresponsabilidade, ele começa a transformar-se em burro. Um aviso claro para ele e todas as crianças, de que apenas com a prática de ações virtuosas ele eventualmente alcançará seus objetivos.
A Common Sense Media chama isso de “um bom lembrete da importância de ouvir sua consciência”. Entretanto, crianças não são responsáveis por si mesmas. Precisam dos pais (ou adultos idôneos) para formarem opiniões e o próprio caráter e devem ser tuteladas, cuidadas em primeiro lugar.
No caso desta fábula, toda a preocupação em ensinar e preparar para a vida deveria ser do Gepeto, o criador do Pinóquio, não de uma personificação da consciência ou de amizades duvidosas. Essa ideia já despertou em muita gente a suspeita de haver algo mais nesta fábula, além de ‘não minta ou seu nariz crescerá’.
O Pinóquio é como todas as crianças? Não, ele é uma folha em branco abruptamente trazida para um mundo complexo. Ele não nasceu dentro de uma cultura e por isso não tem formação moral. A fada azul lhe concede a vida como uma criança comum a experimentaria. Claro que ele pode andar e falar, mas ele não tem compreensão das complexidades do mundo que o cerca; isso significa que ele não tem compreensão do certo e do errado. Ele foi instruído a ouvir sua “consciência”, na forma de um grilo falante absolutamente equivocado e inútil que está sempre indisponível para consulta, que lhe diz para evitar tentações, mas nunca explica o que são tentações e como elas podem atraí-lo para grandes dificuldades.
De certo modo, esperamos que Pinóquio passe seus primeiros dias no mundo sem entender a natureza dos valores que as pessoas (e fadas e grilos) tentam incutir nele. É essa completa desconexão do que é certo e do que é errado que o faz ser atraído para a afiliação com as pessoas más que incorporam as consequências de seu suposto mau comportamento.
Pinóquio, contudo, é uma narrativa simplificada; foi criado para representar o comum, um símbolo do que é preciso para uma criança ganhar seu status de virtuosa. Assim, é fácil explicar esse aspecto da história; alguns podem argumentar que uma representação explícita de seu aprendizado do que é certo e errado não é essencial. Mas a interpretação de uma criança do filme provavelmente será diferente da de um adulto, devido ao fato de que eles são propensos a não estarem familiarizados com a natureza do bem e do mal. O conto de Pinóquio pode influenciar uma criança a fazer o que lhe é dito que é certo, mas não lhe fornecerá a sabedoria para navegar em situações desconhecidas e chegar a uma conclusão.
Quando você é criança, o mundo se apresenta lentamente. Você aprende que o fogo queima, que algumas pessoas são gentis e que outras podem decepcioná-lo. Você descobre a amizade através de lanches e risadas compartilhadas. Você descobre a dor através de joelhos raspados, brinquedos quebrados ou a primeira vez que alguém se despede.
Por isso, parece imoral punir Pinóquio porque ele nunca entende as consequências de suas decisões, nem os benefícios daquelas a que ele renuncia, mas a história escolhe transformá-lo em um suporte indefeso para aqueles que deveriam saber escolher melhor. É preciso ensinar as crianças a fazerem escolhas melhores, a discernir entre o bem e o mal.
Assim como a incapacidade de Pinóquio de entender por que as ações realizadas na Ilha do Prazer poderiam ser destrutivas é a incapacidade de uma criança de entender qual poderia ser a opção ética em uma situação sobre a qual nunca foi informada. Saber quais ações individuais são certas e erradas é muito menos importante do que saber o que a moral significa e como implementá-la quando o não encontrado inevitavelmente vem chamando, o que é o caso em todas as situações em que Pinóquio se encontra.
Essa priorização da ação sobre a compreensão pode ser prejudicial para crianças que acabam aceitando a palavra de pessoas não confiáveis. Aqueles que não conseguem diferenciar moral de amoral são propensos a serem vítimas de maus conselhos. As crianças podem confiar nas mensagens de pessoas que realmente não sabem do que estão falando porque são incapazes de pesar adequadamente suas próprias opções e acabam se encontrando em situações indesejáveis resultantes de fazer o que lhes foi dito que era a coisa certa.
O comportamento das crianças é naturalmente influenciado por aquilo que seus pais e responsáveis costumam dizer e fazer em casa, mesmo que o pequeno seja também influenciado pelo que é aprendido na escola, pelas suas próprias vivências e internalizações. Dessa forma, durante a primeira infância, crianças tendem a absorver, direta ou indiretamente, o conteúdo dito por seus tutores. Leia mais aqui: https://bebe.abril.com.br/familia/9-coisas-que-voce-nao-deveria-dizer-para-os-seus-filhos/
Crianças possuem atividade cerebral extremamente sugestionável, operando fortemente em estados de aprendizado imitativo, absorção emocional e necessidade de pertencimento social; elas ainda não possuem maturidade crítica consolidada para separar experiência cultural de influência ideológica ou espiritual.
O cérebro infantil aprende por repetição, modelagem social e aprovação do grupo, e é exatamente aí que entra a chamada Janela de Overton: ideias e práticas que antes seriam vistas como inadequadas vão sendo apresentadas em doses emocionalmente aceitáveis até parecerem normais, desejáveis e, posteriormente, moralmente obrigatórias . O processo nunca começa com uma imposição explícita. Começa com símbolos, experiências guiadas, linguagem afetiva e pressão social indireta.
Portanto, a atitude do Pinóquio chama a atenção por tratar de um dos temas centrais do filme: a autonomia do indivíduo e como as consequências dessa autonomia e as escolhas que dela decorrem moldam nossa existência. Em essência, a jornada de Pinóquio consiste na transformação de uma marionete — um indivíduo controlável, dependente e imaturo — em um menino de verdade no controle de seu destino, autônomo e maduro. Trata-se de uma trajetória comum a todos os seres humanos — ou de uma alegoria do amadurecimento humano.
Não por “ódio” ou “intolerância” ,mas porque demonstrar consciência e firmeza interior em um ambiente de forte pressão coletiva exige coragem, especialmente numa época em que as crianças são ensinadas a confundir submissão social com virtude. Respeitar outras pessoas e outras culturas não significa dissolver as próprias convicções. Tolerância verdadeira é convivência pacífica sem coerção psicológica.
Publicado em comportamento, Cristianismo, Sem categoria, Vida Cristã
Com a tag absurdo, Albert Camus, amor, cristianismo-ortodoxo, Dostoiévski, Eclesiastes, existir, Filosofia, homem, literatura, Pensador moderno, Sem categoria, sentido
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Devocionais para não devotos 58
Dostoievsky
A “armadilha” do Cristianismo Ortodoxo na obra “dostoievskiana” é uma estrutura ontológica. Na anatomia dos seus romances, a redenção nunca ocorre pela via da lógica, do mérito ou da terapia; ela exige a mortificação completa do ego; exige o que a teologia chama de Kenosis – o esvaziamento total de si mesmo para dar espaço ao divino. Os personagens que tentam se salvar através da super-racionalidade (Ivan Karamázov) ou da força de vontade isolada terminam na loucura ou no suicídio.
A “armadilha” ortodoxa exige que o personagem desça ao seu nível mais patético, sujo e humilhante. Mítia Karamázov só encontra a luz quando é despojado de sua honra, de suas roupas e de sua liberdade durante o interrogatório, aceitando o sofrimento purificador para expurgar a sujeira que carregava por dentro.
A engrenagem da armadilha é a Sobornost — a comunhão mística onde “todos são culpados por todos e por tudo“. O estalo da redenção ocorre no exato segundo em que o personagem para de justificar os próprios pecados e assume voluntariamente a dor do outro. É o Stáriets Zóssima se curvando diante do sofrimento futuro de Mítia; é Raskólnikov beijando a terra suja da praça de forma ridícula e pública… Você não se salva sozinho no ecossistema de Dostoiévski.
Ler Dostoiévski é “perigoso” exatamente por isso. Ele atrai o leitor pela vaidade do debate filosófico, mas, uma vez dentro do texto, a armadilha se fecha e o autor te prova que não existe atalho intelectual para a paz. A redenção “dostoievskiana” é um processo violento, que exige que a arrogância moderna seja esmagada pelos dentes de ferro da tradição, do sofrimento voluntário e da aceitação do mistério. Você entra achando que vai analisar a mente de um criminoso e acaba se confrontando com o abismo da própria alma.
No Ocidente, parece que a redenção é frequentemente jurídica: você comete um erro, paga a sua dívida com a sociedade e está “limpo“. Mas essa oposição entre o Oriente espiritual e o Ocidente jurídico não é bem assim… talvez faça mais sentido dizer isto da fé evangélica protestante. A teologia reformada jamais reduziu a salvação a uma mera transação jurídica isolada da transformação interior. João Calvino, nas Institutas da Religião Cristã (Livro III), ensina explicitamente o conceito de Dupla Graça (Duplex Gratia):
Pela fé em Cristo, recebemos dois benefícios inseparáveis: a Justificação (o perdão dos pecados e a imputação da justiça de Cristo, que atende à dimensão forense) e a Santificação (a renovação real do nosso ser pelo Espírito Santo).
Dizer que o protestantismo enxerga a salvação “apenas como o pagamento de uma dívida” é ignorar que, para os reformados, ninguém é justificado sem ser simultaneamente regenerado e posto no caminho da santificação. A dimensão forense resolve a nossa situação legal perante o Tribunal Divino; a habitação do Espírito Santo transforma a alma real e progressivamente.
A Igreja Católica Ortodoxa ensina que a salvação consiste não apenas em pagar uma dívida, como algo meramente jurídico, mas, segundo o que o Concílio de Trento afirma, a graça não só perdoa, mas também transforma realmente a nossa alma. A kenosis, a humildade, a mortificação do orgulho e a união com Deus são igualmente centrais na espiritualidade católica. Neste ponto, Dostoiévski pode ser apreciado tanto por ortodoxos quanto por católicos. E a questão da aniquilação completa do ego não é uma expressão com a qual eu concordo totalmente, porque no cristianismo o ego não desaparece. O que desaparece é o orgulho. A personalidade permanece. Na realidade, a nossa personalidade floresce com a graça aperfeiçoando a natureza da alma e não destruindo-a. Por isso acho muito correto falar em mortificação do egoísmo, da natureza humana corrompida.
Publicado em comportamento, Cristianismo, Sem categoria, Vida Cristã
Com a tag absurdo, Albert Camus, amor, cristianismo-ortodoxo, Dostoiévski, Eclesiastes, existir, Filosofia, homem, literatura, Pensador moderno, Sem categoria, sentido
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Devocionais para não devotos 57
Se o mundo perdeu o sentido, perdeu a lógica e, ao perdê-la, perdeu a ética. Ou podemos ler a frase ao contrário: ao perder a ética, que já era pouca, perdeu a lógica também.
Todos somos imperfeitos. Todos enfrentamos dificuldades. Somos obcecados por tecnología. Não é preciso ser um gênio para perceber a que os dois primeiros itens apontam, ou para onde eles apontam, se você estiver preso a crenças antiquadas sobre a localização das preposições. Passamos a vida tentando ser compreendidos, mas no fim cada alma continua sendo um quarto fechado por dentro. E quando você olha por tempo demais para dentro deste quarto, percebe que o mais assustador não é a escuridão dele, mas a familiaridade que ela começa a despertar em você. Existe uma tristeza silenciosa em perceber que ninguém jamais enxergará você por completo. E se você gastar a vida inteira tentando, não diga que perdeu tempo, porque talvez essa seja a única razão da nossa existência, pois na muita sabedoria há muito aborrecimento. Esta triste frase fala sobre o estudo da natureza do homem em sua grandeza e sua pequenez, em sua sanidade e em sua insanidade. Porque o simples alargamento do horizonte, seja de conhecimento ético ou físico, não traz nenhuma satisfação; os homens apenas ficam mais conscientes de sua distância em relação ao verdadeiro ideal.
Chega um momento em que o mundo perde o sentido que tinha antes. Há pessoas que carregam oceanos inteiros dentro de si e mesmo assim passam a vida fingindo calma para que ninguém perceba o caos escondido em sua alma. Estas pessoas continuam sorrindo, as ruas continuam cheias, mas alguma coisa dentro delas, de você, já não pertence mais a tudo isso. Porque o mundo quebra todos os homens. Estar no mundo é ter muitas aflições. Alguns permanecem destruídos. Outros passam tanto tempo tentando ser alguém aceitável para o mundo que, quando finalmente desistem, percebem que já não sabem mais quem são antes de começar a fingir. Outros aprendem a esconder tão bem as rachaduras que ninguém imagina quantas vezes eles precisaram se reconstruir sozinhos. Em comum, todos pediram tão pouco da vida: um pouco de paz, algum silêncio e alguém que entendesse seu cansaço sem que precisassem explicar. Ainda assim, até isso pareceu demais para o mundo.
E a pior sensação não é descobrir que o mundo recusou seus pedidos, mas perceber que você mudou tanto a ponto de já não reconhecer a própria maneira de sentir algumas dores, principalmente aquelas que não transformam ninguém em algo melhor. Há noites em que a solidão pesa tanto que até o silêncio parece fazer barulho dentro da cabeça. Elas apenas ensinam a continuar vivendo com um vazio tão antigo que já parece fazer parte do corpo. E nessas horas, a alma se torna um lugar difícil de habitar. O que sobra é a única resposta aceitável: viver mais, e não menos. Ter consciência no lugar da anestesia, teimosia no lugar do conforto, e a recusa de fingir que as coisas voltaram a fazer sentido. O sentido não é encontrado pronto. É construído por quem já sabe que não havia nenhum esperando. Quase todo ser humano carrega esta mesma tristeza, a de passar a vida inteira tentando ser amado sem jamais conseguir mostrar aos outros quem realmente é. No fim, o absurdo, escreve Camus, não está no homem nem no mundo, mas na presença comum dos dois. Não é o universo que é sem sentido, nem você que está quebrado. É o encontro entre alguém que pede sentido e um mundo que não pode responder de maneira plenamente satisfatória.
Oscar Wilde disse que, se você sabe o que você quer ser, você inevitavelmente tornar-se-á – o que é seu castigo, mas se você nunca sabe, então você pode ser qualquer coisa. Há uma verdade nisso. Nós não somos substantivos, somos verbos. Eu não sou uma coisa – um ator, escritor – eu sou uma pessoa que faz as coisas – eu escrevo, eu ajo – e eu nunca sei o que vou fazer a seguir. Acho que você pode ficar aprisionado se pensar em si como um substantivo. – Stephen Fry
Estas coisas aprendi com eles: Franz Kafka – Fiódor Dostoiévski – Albert Camus – Friedrich Nietzsche – Clarice Lispector – Osamu Dazai – Fernando Pessoa – Ernest Hemingway – Edgar Allan Poe – George Orwell – Liev Tolstói – Machado de Assis – Oscar Wilde.
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Devocionais para não devotos 53
“Somos seres inconclusos e estamos a atravessar a existência na relação com tudo que aqui faz morada.”
Estes dias esbarrei no Instagram com a frase acima, atribuída a Luiz Rufino em sua obra “Vence Demanda”. Ela reflete a ideia de que o ser humano está em constante construção, inacabado por natureza, e define sua existência através da interação contínua e da conexão com o meio e todos os outros seres.
Esta ideia não reflete a retórica cristã, cujo conceito de humano como criatura está acabado, pronto. Contrariando perspectivas panteístas ou deístas, aqui se enfatiza a distinção clara entre o Criador e a criatura, sublinhando a dependência total da criatura em relação a Deus. Dentro da cristandade, o ser humano é visto como uma “criatura razoável” ou “racional”, com o propósito de participar da vida bem-aventurada de Deus, cuja conclusão foi que o ser humano era bom. Porém, desvirtuados pela desobediência ao Criador, colocamos tudo a perder.
No entendimento de Rufino, este ser “inconcluso” que não é totalmente bom, e até um pouco falho, é possuidor de uma característica fundamental que é aprender, mudar e evoluir, onde a “travessia” é um processo que não termina, pois não existe ponto de chegada para encerrar este aprendizado, e só acontece “na relação com tudo que aqui faz morada”, ou seja, com as pessoas que estão em nosso círculo social e seus lugares de interação, com a tentativa de compreender o que se passa no espírito de cada indivíduo, valorizando justamente o caráter de especificidade, em que cada um é responsável por suas próprias escolhas e pelo caminho que decide trilhar — que por mais tortuoso que seja, pode conduzir a algum lugar de proveito.
Da nossa incompletude e da nossa desorientação, do nosso anseio e do nosso desejo de viajar, surge a força motriz de todo amor e de cada revolução, da nossa ciência e da nossa arte, da nossa criação e da nossa autocriação. Todo ato criativo é um ato de travessia.
Possivelmente, este é o lugar das perguntas que o pensamento filosófico organiza, a fim de dar à vida a ideia de que tudo converge para um mesmo fim: O que é que eu sou? Sou um pensamento? Cogito ergo sum? Tenho em mim o sopro? Mas quem é esse que tem? Quem é que fala por mim se tenho um corpo e um espírito? Eu sou um eu?
“É exatamente isto que você é, um eu”, responde-me o mundo (e coloco ênfase no “eu” minúsculo), lembrando que, se a vida é encarada como um processo, uma passagem (travessia), cuja importância é o modo como nos relacionamos com o mundo (o que “faz morada”), o cérebro humano, biologicamente, precisa se remodelar conforme a intensidade, a frequência e a consistência do nosso esforço mental. A disciplina e a repetição, por isso, não são moralismos antiquados, mas são os alicerces neurobiológicos do aprendizado profundo e da capacidade de antecipar eventos no que é inerente ao mundo concreto e material, sem generalizações fáceis.
E nesta existência relacional, pergunto-me: por que Deus pede tanto que seja amado por nós? Resposta possível: porque assim nós amamos a nós mesmos e, ao nos amarmos, nós nos perdoamos. E como precisamos de perdão! Não somos seres isolados. A nossa identidade se constrói na “relação com tudo”, porque a própria vida já vem mesclada ao erro, com ênfase na interdependência entre os seres humanos, a natureza e o ambiente.
A ideia de inconclusão acontece porque vivemos em um tempo em que as pessoas observam muito, mas compreendem pouco. Um detalhe diferente já desperta julgamentos; um costume que não conhecemos vira motivo de estranhamento. Mas quando alguém decide realmente observar, algo interessante acontece: a diferença deixa de parecer distância e passa a revelar apenas uma história que ainda não conhecemos. Pois toda pessoa é um reflexo do mistério de Deus. Todo amor, respeito e veneração prestados a Deus também devem ser devotados à sua imagem, à pessoa humana (explicado mais precisamente no Evangelho de Mateus, 22:37-39).
É diferente do que pensa o homem atual: opinar é chegar a alguma conclusão; para Ortega, não é reagir nem expressar apetites com palavras, é aceitar a disciplina do pensamento, o confronto com razões, limites e verdades que não escolhemos.
O crème de la crème é concluir que precisamos abandonar a pretensão absurda de “neutralidade”. Isso não existe. Toda lei, toda norma social e toda instituição cultural são reflexos do deus e da moralidade de alguém. Passamos tempo demais tentando encaixar nossa visão de mundo em uma estrutura secular que nega fundamentalmente a realeza de Cristo e a realidade do nosso povo, sugerindo apenas uma perspectiva de que a educação e a vida devem ser pautadas pela liberdade e pela construção coletiva. Mero humanismo, cujo triunfo sobre o Cristianismo começou no dia em que o deixamos governar nossa vida comunitária ‘por valores humanos, fortalecidos desde o Iluminismo, em vez dos valores cristãos que prevaleceram por muitos séculos’.
Quanto a vencer demandas, os cristãos entendem e acreditam que só a fé em Jesus Cristo pode vencer o mundo.
Publicado em Sem categoria
Com a tag criacionismo, Cristianismo, Humanismo, Luiz Rufino, Ortega
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