Dostoievsky
A “armadilha” do Cristianismo Ortodoxo na obra “dostoievskiana” é uma estrutura ontológica. Na anatomia dos seus romances, a redenção nunca ocorre pela via da lógica, do mérito ou da terapia; ela exige a mortificação completa do ego; exige o que a teologia chama de Kenosis – o esvaziamento total de si mesmo para dar espaço ao divino. Os personagens que tentam se salvar através da super-racionalidade (Ivan Karamázov) ou da força de vontade isolada terminam na loucura ou no suicídio.
A “armadilha” ortodoxa exige que o personagem desça ao seu nível mais patético, sujo e humilhante. Mítia Karamázov só encontra a luz quando é despojado de sua honra, de suas roupas e de sua liberdade durante o interrogatório, aceitando o sofrimento purificador para expurgar a sujeira que carregava por dentro.
A engrenagem da armadilha é a Sobornost — a comunhão mística onde “todos são culpados por todos e por tudo“. O estalo da redenção ocorre no exato segundo em que o personagem para de justificar os próprios pecados e assume voluntariamente a dor do outro. É o Stáriets Zóssima se curvando diante do sofrimento futuro de Mítia; é Raskólnikov beijando a terra suja da praça de forma ridícula e pública… Você não se salva sozinho no ecossistema de Dostoiévski.
Ler Dostoiévski é “perigoso” exatamente por isso. Ele atrai o leitor pela vaidade do debate filosófico, mas, uma vez dentro do texto, a armadilha se fecha e o autor te prova que não existe atalho intelectual para a paz. A redenção “dostoievskiana” é um processo violento, que exige que a arrogância moderna seja esmagada pelos dentes de ferro da tradição, do sofrimento voluntário e da aceitação do mistério. Você entra achando que vai analisar a mente de um criminoso e acaba se confrontando com o abismo da própria alma.
No Ocidente, parece que a redenção é frequentemente jurídica: você comete um erro, paga a sua dívida com a sociedade e está “limpo“. Mas essa oposição entre o Oriente espiritual e o Ocidente jurídico não é bem assim… talvez faça mais sentido dizer isto da fé evangélica protestante. A teologia reformada jamais reduziu a salvação a uma mera transação jurídica isolada da transformação interior. João Calvino, nas Institutas da Religião Cristã (Livro III), ensina explicitamente o conceito de Dupla Graça (Duplex Gratia):
Pela fé em Cristo, recebemos dois benefícios inseparáveis: a Justificação (o perdão dos pecados e a imputação da justiça de Cristo, que atende à dimensão forense) e a Santificação (a renovação real do nosso ser pelo Espírito Santo).
Dizer que o protestantismo enxerga a salvação “apenas como o pagamento de uma dívida” é ignorar que, para os reformados, ninguém é justificado sem ser simultaneamente regenerado e posto no caminho da santificação. A dimensão forense resolve a nossa situação legal perante o Tribunal Divino; a habitação do Espírito Santo transforma a alma real e progressivamente.
A Igreja Católica Ortodoxa ensina que a salvação consiste não apenas em pagar uma dívida, como algo meramente jurídico, mas, segundo o que o Concílio de Trento afirma, a graça não só perdoa, mas também transforma realmente a nossa alma. A kenosis, a humildade, a mortificação do orgulho e a união com Deus são igualmente centrais na espiritualidade católica. Neste ponto, Dostoiévski pode ser apreciado tanto por ortodoxos quanto por católicos. E a questão da aniquilação completa do ego não é uma expressão com a qual eu concordo totalmente, porque no cristianismo o ego não desaparece. O que desaparece é o orgulho. A personalidade permanece. Na realidade, a nossa personalidade floresce com a graça aperfeiçoando a natureza da alma e não destruindo-a. Por isso acho muito correto falar em mortificação do egoísmo, da natureza humana corrompida.


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