Devocionais para não devotos XI

Este é um texto antigo, 2008 se a memória não estiver falhando.

Acho que a humanidade começa a se livrar do estigma do pecado original, e a Madonna é um símbolo desta nova era redentora _ filosofou Lulu.”*

Primeiro erro desta declaração: o entendimento incorreto do que seja pecado original, confundindo-o e resumindo à alguns aspectos da sexualidade. Devo ressaltar que a sexualidade saudável é muito bem vista e aceita dentro da moral cristã bíblica. E o fato de apresentações explícitas de libido e luxúria feitas por uma artista ‘provocadora’ serem aceitas e valorizadas por uma maioria não faz a humanidade avançar mais do que avançou o Império Romano debaixo da (des) governança de Calígula.

Segundo: se é um estigma, está na base de formação do caráter e da personalidade, estando completamente enraizado na formação moral e social do indivíduo, logo, “se livrar” do estigma, é também descartar a sua visão de mundo (cosmovisão); é abandonar sua própria convicção de realidade ou compreensão do que seja a mesma, abandonando também seu quinhão cultural. O que o tornaria um ser anacrônico e sem encaixe social.

Terceiro: Redenção** é um conceito cristão que significa livramento de algum mal através do pagamento de um preço. É mais do que simplesmente livramento, “se livrar”. Esta é a maneira pelo qual, prisioneiros de Guerra e seqüestrados são libertos ainda hoje. E, além disso, qualquer um em sã consciência dirá em coro comigo que Madonna não tem interesse nenhum em sofrer por ninguém até uma possível morte, muito menos pagar alguma coisa com a própria vida. Ao contrário de Jesus Cristo que se deu por todos nós na cruz (João 3.16, Marcos 10.45, NVI). Devo lembrar ainda que o sacrifício de Cristo não encontra um  paralelo em nenhum outro mártir; primeiro porque não visou o lucro próprio; segundo, porque foi um sacrifício pago com a própria vida e não poderia ser com outro recurso ou por dinheiro; terceiro, Ele assumiu a culpa pelos erros de uma raça inteira e para sempre, erros que não cometeu.

Existem muitas coisas na vida que mostram sua verdadeira face ou significado apenas quando visto de perto, muito perto. Talvez por isso, nos enganamos continuamente sobre as pessoas e fatos. Por só buscar as coisas tangíveis e “reais”, o material e o factível, é que nos prendemos a forma e permanecemos apenas observando a superfície e não aprofundamos os relacionamentos, não buscamos conhecimento real. Uma consequência desta falta de interesse em desnudar-se e conhecer é a crença comum que nos faz acreditar um pouco demais em nós e nas pessoas apenas porque VEMOS os outros se ajudando, contribuindo de vontade própria, mesmo que seja só um pouco. Esta esperança***, este otimismo de ocasião é um entorpecente natural para a época em que vivemos.

Existe ainda uma quantidade de pessoas que não costumam mostrar-se totalmente porque preferem se autoproteger com máscaras, especialmente, as máscaras das religiões. Mas diante das grandes catástrofes ou quando algumas situações revelam o seu “eu” verdadeiro, acabam por ver que todas as pessoas são iguais. E quando relutam em se interessar pelos outros é aí que devem deixar as suas fantasias e máscaras para notar que individualmente somos menos do que acreditamos.

Acredito que as mudanças e situações destes últimos meses, e a comoção social com suas consequências sejam um lamento natural da própria criação que resume tudo o que vivemos este ano e presenciamos até aqui. Por isso, quanto mais penso sobre as nossas realizações e olho para o próximo ano, vejo que nossas ações são umas inutilidades se o caráter e o propósito de existirmos como cristãos não seguir de fato o padrão bíblico, que é integralmente sofrer amando, porque quando não nos empenhamos em espalhar felicidade entre os nossos semelhantes o nosso egoísmo torna-se um flagelo social pior que as maiores desgraças naturais. Se não estivermos motivados para amar praticamente, e até sofrendo em prol de outros menos afortunados, é até desnecessário dizer: Adeus ano velho e Feliz ano Novo!

* Declaração do cantor  Lulu Santos antes do show no Maracanã, SEGUNDO CADERNO, Jornal O Globo, pág. 2, 16 de dezembro de 2008.

** cf. O NOVO DICIONÁRIO DA BÍBLIA, edições Vida Nova, 2001, pág. 1372.

***Segundo o Dicionário Aulete digital, (es.pe.ran.ça), sf., 1. Expectativa otimista da realização daquilo que se almeja; 2. Fig. Aquilo ou aquele em que(m) se deposita uma expectativa; 3. Qualquer coisa que seja ilusória; 4. Rel. Juntamente com a fé e a caridade, a segunda das três virtudes básicas do cristão.

Sobre lucaspinduca

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