Somos todos de barro.

“Chega o momento em que o espírito prefere o que confirma seu saber àquilo que o contradiz, em que gosta mais de respostas do que de perguntas. O instinto conservativo passa então a dominar, e cessa o crescimento espiritual” (Gaston Bachelard).

Gaston expressa a atitude moderna acertando em cheio. Ora, todas as pessoas têm uma teologia, queiram reconhecer ou não; os atos humanos são frutos de uma crença. E ainda que não a reconheçam, são as Escrituras que contém todos os fatos da teologia, que admitem verdades intuitivas, tanto intelectuais como morais, os tais princípios dos fatos e não os fatos dos princípios melhor dizendo.[1]

O homem nunca parou de interrogar-se sobre si mesmo. Em todas as sociedades existiram homens que observavam homens. A reflexão do homem sobre o homem e sua sociedade são tão antigos quanto a humanidade. Isto deveria aumentar o valor da dignidade humana, já que não é porque somos ‘donos de nós mesmos’, e sim, porque somos seres racionais, capazes de pensar, capazes de agir e escolher livremente, que merecemos e devemos uns aos outros o respeito. Infelizmente, lançamos bananas uns nos outros.

(…) Mundo bárbaro, sem respeito, sem humanidade. Esvazia-nos cruelmente de tudo o que amamos e que desejamos ser, tira-nos da felicidade dos nossos refúgios, da ficção das nossas verdades, destrói aquilo a que pertencemos e, às vezes, se autodestrói. Prova terrível. Mas esse contrato, justamente porque nos deixa despidos de tudo, salvo a força, também nos oferece a possibilidade presente em cada ruptura: quando se é forçado a renunciar a si mesmo, é necessário morrer ou começar; morrer para recomeçar. Este seria o sentido da tarefa que representa o mito do homem sem mito: a esperança, a angústia e a ilusão do homem no ponto zero. (…)[2]

Se fosse possível voltar ao ponto zero da jornada humana, retornaríamos as mãos de um Deus amoroso, naquele momento exato em que exala seu espírito vivificante no punhado de barro em suas mãos. Mas é claro que há aqueles que dirão que esta visão criacionista é mitológica demais para ser adequada ao pensamento racional moderno. E tome busca desenfreada por um indício, um ponto de referência ideal a partir de onde, livre de si mesmo, dos seus preconceitos, dos seus mitos e dos seus deuses, poderia retornar com um olhar diferente e com uma afirmação nova.[3]
É preciso denunciar o caráter ilusório desta busca, pois é uma perda de tempo: Não existe um homem despossuído de si mesmo, livre de toda determinação, desprovido de todo “valor”, um homem sem mito. E mesmo que o encontrassem ele não serviria a nada, não enriqueceria ninguém. Porque seria um mero agente do nada por motivo nenhum. Um ser incriado, gerado ao acaso meramente, sem uma verdade. Lembrando que se o mito é uma verdade que esconde outra verdade, ela pode ser substituída de acordo com a nossa necessidade, o que acarretaria a desconstrução do próprio mito e os arquétipos que ele representa. Por isso mesmo não aceito quando tentam encerrar Jesus Cristo no conceito de mito, apresentando-o como qualquer forma substituível de uma verdade. Talvez fosse mais exato defini-lo como uma verdade profunda que preenche nossa mente e alma.[4]
E não podemos esquecer que a trajetória humana, caminhada, jornada, história ou seja lá como querem chamar, é uma viagem do “tempo” para a eternidade. E se cremos que existe alguma coisa cuja existência tenha em si um valor absoluto, como diz Kant, logo, é de grande importância a pessoa saber se essa viagem terá ou não significado ou rumo certo, ou se é uma viagem bem planejada pelo seu Criador. Ainda mais nestes dias em que as filosofias e ‘ismos’ representam e relativizam a existência humana, afastando as pessoas cada vez mais de Deus. Paulo escrevendo a Timóteo já o alertava que “Tais ensinamentos vêm de homens hipócritas e mentirosos, que têm a consciência cauterizada (…)”.

Olhemos para o mundo virtual onde a maioria das pessoas moldam, baseiam ou constroem uma existência ‘real’: A essência das redes sociais é justamente mostrar pros outros quem somos ou quem gostariamos de ser. Selfies, shelfies, Instagram, nossas vidas editadas no Facebook pra parecer incrível… A gente gosta de se definir na internet, curte delimitar o que gostamos e o que não gostamos.
Uma identidade na internet é construída post a post, mas a partir do momento em que achamos algo que pode nos definir, tudo fica mais fácil.[5] E por que facilita tanto ser colocado em uma categoria, saber a origem, os gostos, o comportamento, a opinião do outro? Porque tudo o que conhecemos tem uma forma apropriada, tem um motivo claro, uma função definida. Nós, seres humanos, vivemos buscando o nosso encaixe também. Onde podemos completar e cumprir um propósito. representar um papel. O homem é diferente de toda a natureza por causa disso. Ele pode escolher seu nicho, seu pathos, sua especialidade, construir uma identidade que atenda uma necessidade real, fisíca, emocional, psíquica ou espiritual. Dele ou de outros. E neste ponto a analogia evolucionista é vaga e não corresponde as espectativas. O pensamento cristão ortodoxo, no entanto, é enfático:

“Na verdade, não somos todos macacos. Ninguém é macaco e somos muito mais do que isso: somos a imagem e semelhança de Deus, o que nos torna qualitativamente superiores aos animais. Na visão criacionista, somos todos criaturas de Deus (Isaías 64:8) e, justamente por isso, iguais, apesar da diversidade étnica. Somos descendentes de um mesmo casal, Adão e Eva, o que nos torna irmãos (Atos 17:26). A cosmovisão criacionista, se aceita, seria a solução para qualquer tipo de racismo, pois aponta para uma mesma origem humana e não considera ninguém mais ou menos “evoluído” do que qualquer outra pessoa. Darwin, em seu livro menos conhecido, The Descent of Man, é que dá margem para pensamentos racistas (confira). Ao “assumir” que somos todos macacos, estamos, na verdade, aceitando o “rebaixamento” à condição de animais, o que faz parte da pregação evolucionista.” [6]

E ainda: “Um macaco não desenha mau e o homem desenha bem; o macaco não começa a arte da representação e o homem a leva à perfeição. O macaco em absoluto não pratica a arte; em absoluto não começa uma obra de arte; não começa em absoluto a começá-la. Uma espécie de linha é cruzada antes que o primeiro ligeiro traço possa começar.” [7]

Os gregos ensinavam que todo ser, por diferente que seja, possui três características transcendentais (estão sempre presentes pouco importa a situação, o lugar e o tempo): ele é o unum, o verum e o bonum, quer dizer ele goza de uma unidade interna que o mantem na existência; ele é verdadeiro, porque se mostra assim como de fato é e é bom porque desempenha bem o seu lugar junto aos demais ajudando-os a existirem e coexistirem.[8] Ora, estas são características comportamentais básicas, inerentes a todo ser que possui uma consciência, e quem possuiria todas estas características de maneira excelente para transmiti-las ao homem no momento de sua criação? Podemos falar de um Deus criador, unico, real e perfeitamente bom. Não bom como achamos que deve ser, bom no sentido absoluto de bondade. Que cria todas as coisas com um propósito definido. É importante considerar que este Deus não é simplesmente a soma de seus atributos. Porque seus atributos são separados um do outro, mas cada um modifica ou qualifica cada um dos outros. O que o leva a perfeição, e esta o faz escolher não só os melhores objetivos, como também os melhores meios para a sua realização.

Segundo Chesterton [9], a verdade é que estes caçadores do homem desmitificado, o tal elo perdido, estão empregando os termos histórico e pré-histórico sem ter na cabeça nenhuma definição realmente clara. O que eles querem dizer é que há traços de vida humana antes do começo das histórias humanas; e nós (cristãos, criacionistas) sabemos que a humanidade existiu antes da história, que a civilização humana é mais antiga que os registros humanos. Olha o equívoco dos intelectuais:

“Antes do final do século XVIII”, escreve Foucault, “o homem não existia. Como também o poder da vida, a fecundidade do trabalho ou a densidade histórica da linguagem. É uma criatura muito recente que o demiurgo do saber fabricou com suas próprias mãos, há menos de duzentos anos (…) Uma coisa em todo caso é certa, o homem não é o mais antigo problema, nem o mais constante que tenha sido colocado ao saber humano. O homem é uma invenção e a arqueologia de nosso pensamento mostra o quanto é recente. “E”, acrescenta Foucault no final de ‘As Palavras e as Coisas’, “quão próximo talvez seja o seu fim”.

Nós podemos até aceitar o homem como um fato, se nos contentarmos com um fato sem explicação. Podemos aceitá-lo como um animal fabuloso também. Mas se quisermos dar valor ontológico a sua existência, será necessário providenciar um prelúdio e um crescendo de milagres cada vez maiores. E, se somos todos de barro, somos todos moldáveis em graus diferentes ao propósito divino. Ainda podemos mudar nosso comportamento, nossas atitudes, porque não completamos a caminhada proposta e ainda não construímos totalmente a nossa história. Melhor é esqueçer as bananas, porque viver fazendo o que devemos já é um grande abacaxi, pois biblicamente devemos amar uns aos outros sem distinção.

1- Myer Pearlman, Conhecendo as doutrinas da Bíblia, traduzido por Lawrence Olson, 1970, Editora Vida.
2- Maurice Blanchot, “L’Homme au point zéro”, In: L’amitié. Editions Gallimard: Paris, 1971, p. 88, tradução Davi Pessoa.
3- idem ao 2.
4- Ver https://oficinadopinduca.wordpress.com/2011/10/08/esta-e-a-cancao-que-se-prende-a-mim/
5- Ver http://www.youpix.com.br/comportamento/quiz-identidade-internet/
6- Extraído de http://www.criacionismo.com.br/2014/04/nao-somos-todos-macacos-somos-criados.html
7- G. K. Chesterton, “O homem eterno”; traduzido por Almiro Pisetta. 2010, Mundo Cristão.
8- Extraído de http://leonardoboff.wordpress.com/2014/04/27/a-beleza-salvara-o-mundo-dostoiewski-nos-ensina-como/
9- idem ao 7.

Anúncios

Sobre lucaspinduca

I like to think I'm part cultural voyeur mixed with a splash of aspiring behavioral scientist and wannabe motivational christian speaker.
Esse post foi publicado em Cristianismo e marcado , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s